Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Oliveira Gonalves deposita voto de confiana nos Palancas Negras

Antnio Jnior - 03 de Setembro, 2012

Oliveira Gonalves, que levou a Seleco Nacional ao primeiro Campeonato do Mundo

Fotografia: Jornal dos Desportos



Jornal dos Desportos - Os Palancas Negras têm dois jogos importantes e que estão proibidos de perder. Como alguém que conhece muito bem estes meandros, como encara esta eliminatória e quais são as possibilidades de Angola?
Oliveira Gonçalves
- Angola acabou por ser beneficiada nesta qualificação, assim como todas as selecções que participaram no último CAN. As outras selecções realizaram duas eliminatórias e nós vamos fazer apenas dois jogos. Temos a vantagem de realizar a segunda partida em Luanda, embora eu continue a dizer que o segundo jogo depende muito daquilo que fizermos no primeiro. É preciso que Angola faça um bom resultado no Zimbabwe para garantir a qualificação em casa.

JD - Por aquilo que conhece do Zimbabwe, esta eliminatória está ao nosso alcance?
OG
- Acho que não vai ser difícil, em função daquilo que vimos em Benguela e, em função da forma como o seleccionador está a trabalhar, temos de acreditar na qualificação e Angola vai com certeza estar no CAN 2013. Mas é preciso trabalharmos muito e a todos os níveis, para que isso aconteça. Fazer um bom resultado em Harare é fundamental, porque nestes jogos a eliminar é preciso obter um bom resultado fora para decidir a eliminatória em casa. Acho que o Zimbabwe está perfeitamente ao nosso alcance, contudo, aproveito e abro aqui um parêntese para dizer que os jogos no Zimbabwe são sempre muito difíceis.

JD - Tem boas ou más recordações deste adversário?
OG
- Não nos devemos esquecer que, na qualificação para o Mundial, a única derrota que tivemos foi frente ao Zimbabwe, em Harare, por 2-0. Foi de facto complicado jogar naquele campo e agora, com o relvado sintético, pode complicar um pouco mais. Temos de ter tudo isso em conta e sermos muito cautelosos, porque é sempre fundamental pegarmos na história, e a história diz que em Harare temos tido muitas dificuldades. Mas, como eu disse, temos é que procurar fazer um bom resultado lá, porque eles também não têm sido muito felizes em Luanda.

JD - Disse que é importante trabalharmos muito, mas, neste momento, o primeiro adversário começa a ser o tempo. De que forma pensa que se deve ludibriar o factor tempo?
OG -
O técnico teve aquele jogo em Benguela para conhecer os jogadores e, daquilo que tive a oportunidade de ouvir através da comunicação social desportiva e não só, ele diz que se está a identificar com os jogadores e poderia eventualmente reforçar. Por outro lado, fez uma coisa que é salutar e inteligente: está a renovar na continuidade. Foi buscar alguns jogadores que era importante ter nos jogos que realizamos na qualificação para o Mundial, atletas com alguma experiência, porque juventude só não resolve o problema, é importante que eles sejam orientados por aqueles com mais traquejo. Este trabalho está a ser feito, até porque o seleccionador vai ter tempo suficiente para trabalhar com o grupo.

JD - Isso demonstra que as coisas nesse capítulo, estão bem encaminhadas?
OG
- Ele está a identificar-se muito bem e um bom treinador adapta-se facilmente até a situações adversas. Os jogadores estão aí, existem alguns vídeos e todo um trabalho deixado, em que se pode pegar, e ver a evolução ou não destes jogadores. Se trabalhar com bastante incidência com aquele apoio administrativo que é fundamental, já que é bastante complicado trabalhar sem este acasalamento, acredito que Angola vai se qualificar com toda a naturalidade.

JD - Depois da qualificação inédita no Alemanha 2006, feito que orgulha até hoje todos angolanos e de que o senhor foi o obreiro, pelo quadro actual na tabela classificativa, ainda acredita que é possível estarmos no Brasil 2014?
OG
– Matematicamente, ainda é possível na nossa série conseguirmos um lugar que nos permita continuar a lutar pela qualificação, mas devo dizer que é preciso termos paciência porque, repare, Portugal esteve 20 anos sem ir ao Mundial, de 1986 a 2006, e Angola participa contra todas as expectativas num Mundial em 2006. As pessoas já queriam que voltássemos ao Campeonato do Mundo em 2010, o que não é fácil, até porque Angola não é uma selecção do top a nível de África. Portanto, é preciso vermos onde é que jogam os nossos jogadores em relação aos jogadores mais fortes do continente.

JD - Com estes argumentos todos, está a querer justificar que…?
OG -
Os nossos melhores atletas podem jogador num clube do top e no ano seguinte são logo vendidos ou emprestados para clubes mais fracos. Portanto, tenho a certeza que Angola, em 2018, pode regressar a um Campeonato do Mundo. Não acredito muito em 2014, embora nada ainda esteja perdido. Mas, para mim, o ideal seria no próximo campeonato. Com esta selecção que vamos levar ao CAN da África do Sul e que deve ser bastante rejuvenescida, com um trabalho de continuidade - porque quando se fala em renovar, temos de ver as idades dos jogadores que estavam na Selecção Nacional -, tenho fé num desfecho airoso.  


RECORDAÇÃO
“O sucesso que tivemos
 foi fruto de muito empenho”



JD - Qual foi o segredo do sucesso que teve como seleccionador nacional nos diversos escalões que orientou?
OG
- Quando assumi as selecções jovens, a primeira coisa que fiz foi ir lá fora saber o que os outros fazem. E quais eram esses outros, os campeões? A Tunísia, Egipto, Gana, Nigéria, Mali e tantos outros. Era importante saber, o que é que eles faziam para poderem ser campeões. Então, fomos imitando o que eles faziam de bom. Aprendemos que os Sub-17 trabalham nas eliminatórias num ciclo de dois anos, mas estes países trabalhavam em ciclos de quatro anos. Quer dizer que vamos competir com esta selecção em 2016, então, eles devem estar a trabalhar já, são os jogadores que têm 13 anos agora para depois completarem os 17. Foi esse trabalho que fomos fazendo. Muitas vezes, utilizámos o torneio COSAFA de Sub-20 para trabalharmos com os Sub-17.

JD - O que temos de fazer para reencontrar esse caminho?   
OG
- Temos de ter esperança que Angola tem potencial humano que lhe permite, daqui alguns anos, mandar no futebol africano. Era essa a nossa ideia e sempre pensamos assim, que era pegar e não largar mais. Esse trabalho tem de ser feito pelos clubes, mas eles têm múltiplas dificuldades e, devido à boa vontade que os dirigentes têm, continuam a fazer alguma coisa.
 
JD – É muito difícil voltarmos a alcançar bons resultados?
OG -
Os jogadores são trabalhados nos clubes para chegarem à Selecção Nacional com alguma qualidade e depois a Selecção Nacional fazer a sua parte. É importante haver os campeonatos provinciais a todos os níveis, desde os iniciados, juvenis e juniores, os nacionais, fundamentalmente de juvenis e juniores, nos moldes da segunda divisão nacional, porque concentrar os jovens numa província e fazerem dois a três jogos não pode ser considerado um campeonato nacional. Quando fui homenageado na Guiné-Bissau pelo então Presidente Nino Vieira, fiquei encantado com a organização deles. Devíamos seguir o exemplo deles, um país que deve ser dos mais pobres de África e já tem uma Liga de Clubes.

INOVAÇÃO NAS SELECÇÕES
Dirigente propõe novo tipo de preparação


JD - Não acha que devíamos traçar já um novo ciclo para nossa Selecção, à semelhança daquele que fizemos em 2000, que culminou com a conquista do CAN de Sub-20 e a qualificação para o Mundial de 2006?
OG
- Com certeza, mas isso obriga a que se trabalhássemos como se fez no passado a nível da formação. Quero com isto dizer que, a nível das selecções nacionais, é preciso fazer um trabalho com dimensão nacional, como fazíamos no passado, ir a todas as provinciais onde mobilizávamos os governos provinciais, as APF, e falávamos com os treinadores. Lembro-me que um dia, num programa de rádio, um treinador do 1º de Agosto me disse que treinavam às 7h00 no Comandante Economia. Nas minhas visitas de constatação, cheguei como seleccionador dos Sub-17, constatei várias vezes a preparação das equipas e, quando pedisse para me enviarem alguns jogadores para a selecção nacional, já tinha alguns em referência, mas ele podia ter as suas opções. Isso pode muito bem continuar a ser feito, mas é preciso que haja um coordenador técnico a nível da formação com bastante experiência e uma equipa técnica muito bem estruturada.

JD - A verdade é que os escalões de formação têm tido muito poucos torneios para terem rodagem e estarem habituados a jogos internacionais…
OG
- Os torneios da FESA vieram a propósito, para prepararmos a selecção olímpica e dar oportunidade a esses jogadores. Quando constatámos que os nossos atletas não tinham onde competir, e para que não fossemos eliminados, então, criamos vários ciclos de quatro anos nos escalões de formação, primeiro de sub-20, sub-21, no antepenúltimo sub-22 e por último sub-23. Quer dizer, tínhamos a mesma equipa, em que os que não acompanhassem a evolução saíam e os que aparecessem melhor entravam, porque nunca consideramos as selecções jovens estruturas fechadas, mas sempre abertas e isso fez que, por duas vezes consecutivas, estivéssemos próximos de estar nos Jogos Olímpicos. Uma vez, não fomos por um golo e a outra por um ponto.

JD - O trabalho foi abrangente a todos os níveis e daí o sucesso desse ciclo?
OG
- Mas este trabalho era feito a nível dos sub-15, 17 e 20. Apesar de todas as dificuldades, fomos trabalhando. Estas selecções é que serão depois o suporte das selecções principais. Não nos devemos esquecer que foi essa geração que culminou com a selecção que levamos no Mundial. Não foi por acaso que, a dada altura, as pessoas pediam que a selecção de sub-23 passasse a representar o país nas eliminatórias. Foi essa pressão que culminou com a minha indicação para seleccionador nacional. 

JD - Com toda a vasta experiência que tem, não tem debitado algum subsídio aos dirigentes da Federação para resgatarmos o nosso prestígio, até porque conhece bem os cantos à casa e sabe como fazer para invertermos o quadro?
OG -
Sabe como é que as coisas funcionam no futebol. Saí da Federação numa altura que posso considerar conturbada, em que a anterior direcção estava em fim de mandato, foi reconduzida e, ainda assim, fui pura e simplesmente ignorado. Mas eu sempre disse às pessoas que estava disponível para eventuais colaboração ou sugestões, algumas ideias, sempre estive ao dispor das pessoas. Mas isso cabe à direcção da Federação e à direcção técnica. Se quiserem ouvir a minha voz, estou disponível, porque continuo de facto a ter muitos conhecimentos a nível do futebol africano, porque é preciso termos esse conhecimento.


PROMESSA
“ Quero pagar a dívida de orientar Angola num torneio olímpico”


JD - Com toda a experiência que tem como treinador, e que de certeza ainda pode ser muito útil ao futebol angolano como técnico, o que o levou a abandonar o fato de treino para apostar no dirigismo desportivo? Sentiu-se traído ou está decepcionado por alguma coisa?
OG
- Não é isso. Quando saí da Selecção Nacional, tive um convite para treinar o Senegal, mas infelizmente havia uma divergência, porque o ministro dos Desportos quis a minha presença na selecção, mas o presidente da federação era contra e defendia que se era para contratar um africano, então seria melhor apostar num técnico nacional. O ministro defendia que se eu, com uma equipa como a de Angola, conseguia jogar de igual para igual com qualquer selecção, então, com rigor e a qualidade dos jogadores senegaleses, estava em condições de fazer um bom trabalho. Como não houve entendimento, preferi não ir.

JD - E a nível interno, não houve qualquer contacto para dirigir uma equipa nacional?
OG -
A nível do país, não tive qualquer convite, ninguém achou que, vindo da Selecção Nacional, fosse uma mais-valia. Por coincidência, nessa altura, a maior parte dos clubes foi buscar treinadores estrangeiros, inclusive alguns com currículos inferiores ao meu. A Federação foi à busca de um seleccionador que não tinha o currículo melhor que muitos angolanos. Aprendi nos outros países que quando você realiza um CAN, deve ir buscar um treinador que já foi campeão africano ou com currículo é superior ao que você dispensou.

JD - E a federação optou por...
OG
- Por um treinador que não tinha currículo a nível das selecções nacionais e teve muitas dificuldades. Começou a chorar que os jogadores em Angola estavam no defeso, enquanto os de Portugal estavam a competir e não sabia o que fazer. Se fosse um treinador já com alguma experiência de selecções nacionais, sabia como ultrapassar isso e talvez tivéssemos outra prestação no CAN, no mínimo jogarmos a grande final.

JD - E a nível de clubes, não teve nenhuma proposta que lhe interessasse?
OG
- Os clubes optaram por treinadores estrangeiros. É evidente que eu estava desempregado, sou co-fundador do Santos FC e a direcção pediu a minha colaboração na área administrativa, e com certeza que não deixaria de dar o meu contributo à equipa. Quando começaram a surgir alguns convites, foi apenas do exterior, porque no país não recebi qualquer convite, estava comprometido.

JD - Mas essa possibilidade não está posta de parte?
OG
- Sei que o Sr. Martinez, na altura presidente do Interclube, tinha um projecto no clube, que seria dar sequência ao trabalho que fizemos na altura em que atingimos a final da Taça da Confederação em 2001, mas na altura estava a meio de um projecto, e já tinha dado a minha palavra. Quando assumimos um compromisso, temos de o levar até ao fim. Este mandato no Santos FC termina este ano, mas continuarei ligado ao clube. Neste momento não, mas não ponho de parte a possibilidade de voltar aos campos como treinador.

JD – Tanto em Angola como no exterior?
OG – Sim. Há tempos fui contactado pela federação moçambicana, mas, como estavam em fim de mandato, preferi não arriscar. Se tiver que arriscar aqui em Angola, se calhar seria mais útil na formação.

JD - É um repto à actual direcção da Federação?
OG - Estou a querer dizer que é um escalão com que, neste momento, melhor me identifico, mas é preciso que hajam jogadores com qualidade para, a todos os níveis, estarmos sempre nas fases finais, e isso é muito importante. Temos que lutar para estar nos Jogos Olímpicos, ainda que não atingimos a competição, mas é importante competirmos. Pelo facto de ser a única prova que ainda não consegui orientar numa fase final, ainda hoje sinto como uma dívida, e quero pagar. Repito: quero estar com uma selecção de Angola num torneio olímpico, mas, para isso acontecer, é necessário fazermos um grande trabalho de base na formação, bem planeado e estruturado em todos escalões para levarmos a Angola a um patamar que ainda não atingimos. Se calhar, era esse o projecto que um dia iria abraçar, porque não estou preocupado com a Selecção Nacional.