Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Os clubes fazem as selecções

Sardinha Teixeira - 18 de Março, 2012

Carlos Miguel Canga diz dirigentes investem pouco nas camadas jovens.

Fotografia: Jornal dos Desportos

 Pelo nome oficial poucos o conhecem, Carlos Miguel Canga. Mas se o chamarmos de “Canga”, muitos o reconhecem. Ele chegou aos Leões de Luanda em Junho de 1977, como a principal contratação da equipa para o Campeonato Provincial de Basquetebol. Três meses depois, a belíssima actuação do extremo poste de 1,94 cm de altura surpreendeu os aficionados da modalidade. Adaptou-se bem à equipa.

Seu primeiro treinador foi Óscar Fernandes, que desenvolveu um trabalho especial de coordenação para ele, a quem atribuiu o mérito do treinamento para seus precisos lançamentos. Canga foi campeão provincial em 77,78 e 90, fazendo parte daquele grupo que propagou o basquetebol angolano e que tinha entre outros, Zé Carlos Guimarães, Zé Assis (falecido), Lapa, Mário Catongo, Cazé, Neijó, Necas e Pepé Matamba.

O basquetebol apareceu por curiosidade no 1º de Agosto, em 1976, convidado por Vareza e Barbozinha, que naquela altura faziam parte da equipa sénior. Ainda na qualidade de jogador júnior transferiu-se em 1977 para o clube Leões de Luanda. A sua altura chamava a atenção. Quando colocava a língua de fora, corria e pulava em direcção à cesta, dificilmente era interceptado. Os seus fãs viam nele uma combinação singular de graça, velocidade, talento, habilidade e um forte desejo de competição.

O jogador tinha grande habilidade com as mãos, passes incríveis e agilidade para roubar a bola, foi o actor principal durante os anos da grande dinastia dos Leões de Luanda. Sobre o estado da modalidade, Canga frisou que “ os nossos dirigentes investem pouco nas camadas jovens. Esse é o grande problema do nosso basquetebol, porque são os clubes que têm que fazer as selecções e formar os jogadores de qualidade”.

A antiga estrela dos Leões de Luanda apontou uma saída para o desenvolvimento da modalidade. “Se começarmos pela base colhemos frutos. Muitas vezes nós temos como culpados os treinadores, não tem havido apoio por parte da federação. Apostamos mais na formação dos jogadores para que amanhã possamos ter uma grande selecção”, frisou. Carlos Canga apelou para uma melhor harmonia entre os atletas na quadra de jogo.

“As brigas, xingamentos, lesões corporais e psicológicas, tudo vai contra a essência do desporto. Vamos aproveitar o que o desporto nos dá e nos pode proporcionar de melhor, que é movimentar-nos em grupo e entre amigos.” Canga salientou que o desporto é um lugar privilegiado para se realizarem laços sociais de amizade, permitindo a partilha de sentimentos e dando ao indivíduo a sensação de pertença a um grupo.

Canga Responde

Quais eram as equipas mais dificeis de serem enfrentadas?
O 1º de Agosto, Petro Atlético e ASA eram as equipas que nos davam mais trabalho.

Como era a relação dos atletas com os clubes?
Os treinos eram diários durante duas a três horas e treinava-se muito drible e arremesso.

Como era o estilo de jogo das equipas da época?
O basquetebol era mais técnico. Claro que era diferente, pois hoje se joga só na força física.

Como foi a sua passagem pela selecção?
Fui convidado para a selecção júnior, no final dos anos 70, do século XX. Angola trouxe a medalha de ouro e começámos a ficar conhecidos.

Espelhou-se em alguém?
Sempre me espelhei em Zé Carlos Guimarães e Necas. Depois a minha admiração foi também para Mário Catongo, com quem aprendi muito basquetebol.

Quem mais o impressionava nos Leões?
Zé Carlos Guimarães. Ele já no início da carreira era incomparável.

Quais os principais técnicos que o influenciaram?
Beto Portugal e Óscar Fernandes.

Tem filhos a jogar?
Sim. Eles fizeram esta opção por vontade própria.

Guarda boas lembranças dos seus ex-companheiros?
Dos meus companheiros só guardo boas lembranças. Os consagrados, os esquecidos, no auge ou na decadência, meus companheiros foram o mais valioso de tudo.

Quando parou e o que faz?
Parei de jogar em 1982. Hoje sou funcionário público.

Gosta do seu trabalho?
Sim.

Trabalha no Estado ou no privado?
No Estado.

Ganha bem?
O suficiente para alimentar a minha família.

Quem é quem

Nome: Carlos Miguel Canga
Data de nascimento: 29/5/1962
Natural: Luanda
Estado civil: Solteiro
Filhos: (14)
Nacionalidade: Angolana
Peso: 125 Kg
Altura: 1,94 cm
Clube: Leões de Luanda
Modalidade: Basquetebol
Signo: Caranguejo
Ocupação actual: Funcionário público
Prato preferido: Calulu
Fuma: Não
Bebida: Vinho
Filmes: Acção
Música: Semba
País: Gabão
Cidade: Dundo
Casa própria: Não
Carro: Não
Campo/Praia: Campo
Cor: Verde

Algumas vcerdades...
O corpo e a mente sem sintonia


Carlos Canga não fugiu da pergunta sobre os motivos que o levaram a abandonar a carreira. “Eu gosto de fazer as coisas certas e como não estava a fazer bem, optei por parar.” O atleta revelou ainda que seu corpo e sua mente não estavam em sintonia. Alegou que precisava de “dar um tempo”, focar na vida fora da quadra e organizar-se.

 “Desde que comecei (no basquetebol), aos 14 anos, nunca parei, nunca tirei férias, nunca usufruí do que conquistei dentro da quadra. O corpo já não estava a responder e eu estava cansado de ficar focado só no basquetebol. Apesar do desporto ser o meu ganha-pão, o dinheiro não é tudo.” O extremo poste revelou que, se voltar às quadras, só há dois lugares no mundo onde deseja jogar. “Não