Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Os dirigentes devem mudar de mentalidade e comportamento

Benigno Narciso, no Lubango - 27 de Fevereiro, 2012

Agostinho Francisco Joo vice-presidente do Benfica do Lubango

Fotografia: Benigno Narciso, no Lubango

Jornal dos Desportos (JD): Muito se fala à volta do estado actual do futebol nacional. Quais as soluções mais viáveis para a inversão do quadro actual? 
Agostinho Francisco João (AFJ): Deve-se criar um espaço de reflexão e discussão de modo a que possamos buscar as soluções exequíveis e adequáveis à nossa realidade, através de simpósios entre técnicos, dirigentes, professores de educação física e outras franjas da sociedade e definir políticas e linhas mestras próprias para orientar e servir de modelo para o desenvolvimento do nosso futebol. Daí que se torna urgente reflectir profundamente no futebol nacional e só depois nas pessoas. Isso não tem acontecido. Hoje estamos a pagar por isso. Parece ter havido por parte da nova direcção da FAF alguma pressa, porque nos parece ter entrado com atenções mais viradas para assembleias-gerais, tomar posse e lugares, ao invés de analisar os aspectos de fundo, ligados, sobretudo, ao desenvolvimento do próprio futebol. E criar condições para formar uma selecção ao seu melhor nível que fosse representar da melhor forma o país no CAN do Gabão e da Guiné Equatorial. Isso não aconteceu. Por isso, em tão pouco tempo, pouco menos de um ano depois da tomada de posse da nova direcção, Angola pagou caro, por não se ter reflectido o que na altura deveria ser feito com profundidade e nas condições que se exigiam.

 JD: É possível inverter-se o estado actual do futebol em Angola? 
AFJ: Acredito que sim. É sabido que a nova direcção da FAF está há pouco tempo em funções. Contudo, sem querer apontar o dedo, teve um rompimento com pessoas conhecedoras do futebol nacional que trabalharam na antiga direcção. Isso mexeu com o futebol e tem as suas consequências. As soluções existem desde que haja um programa sério. Tivemos problemas com Hervé Renard, que esteve a desenvolver um grande trabalho de reestruturação do nosso futebol à frente dos destinos das nossas selecções e depois, sem grandes explicações, abandonou o país, sem que ninguém viesse a público dizer o que realmente terá acontecido, os motivos que levaram Hervé Renard a abandonar a nossa selecção. São situações que não se percebem, quando se pretende atingir patamares elevados de desenvolvimento do nosso futebol. 

JD: O que defende dever ser feito para melhorar as prestações da selecção a nível das competições africanas?  
AFJ: A nossa selecção, hoje, amanhã ou depois, precisa de renovação contínua e permanente, precisa de jovialidade que seja renovada sem romper as bases, mas esse refrescamento e renovação que se pretende não se fazem de um dia para o outro e de forma aleatória. É preciso que haja conhecimento e atenção para se fazer as coisas nos momentos certos. Um dos pecados que as equipas técnicas nacionais que orientaram a selecção nos últimos anos têm feito é o facto de não darem oportunidade aos jovens atletas que vão despontando. Esse terá sido também o pecado mortal para Lito Vidigal, porque a inclusão de jogadores com qualidades notáveis representa uma garantia para o amanhã, o que não tem acontecido. Angola tem perdido batalhas e não a guerra. Portanto, devemos seguir em frente de cabeça erguida. Defendemos também ser necessário mais apoios para a Federação para que se desenvolva um trabalho melhor do que aquele que tem sido feito até aos dias de hoje.

JD: Quais os caminhos que aponta para a presença de Angola no CAN do próximo ano na África do Sul? 
AFJ: Acho que devemos ter um treinador corajoso, mas que seja orientado, porque os nossos técnicos fazem o que querem. Essa anarquia em primeiro lugar tem que ter um fim. Tem que haver um sector desportivo, um sector técnico como tal, com capacidade para definir as coisas, quer dizer que é essa comissão técnica nacional de futebol que deve fazer os programas e o treinador deve apenas acompanhar. O que assistimos hoje, até nos clubes, não é isso, o treinador chega e só fala com o presidente. E toda aquela estrutura criada não é tida em conta, porque nós é que permitimos. Deve haver uma comissão técnica nacional com coragem de mandar executar os programas existentes, com o devido cuidado em função da urgência e pouco tempo que por vezes têm. Tem que haver coragem, reestruturar a equipa antiga e fazer uma renovação na ordem dos dez a sete por cento a nível da selecção que participou no último CAN, e depois apostarmos num treinador corajoso e conhecedor do nosso futebol.

“Vidigal é bode expiatório
num processo mal conduzido”


JD: Lito Vidigal no comando da selecção nacional é assunto incontornável quando se fala em futebol nacional. Que consideração tem a fazer a este respeito?
AFJ: O Lito Vidigal veio pagar as favas de tudo quanto foi mal feito no passado. É um grande herói por ter assumido o passivo e o activo da Federação, uma vez que o futebol é o tubo de escape da Federação. Os problemas todos que a Federação soltaram-se através do tubo de escape que foi Lito Vidigal. Este homem foi sacrificado, foi obrigado a fazer tudo às pressas, foi obrigado a acreditar nos jogadores que conhecia e não nos garotos do nosso Girabola e tudo isso, pela sua valentia, pela coragem que teve de enfrentar tudo e todos, merece continuar à frente dos destinos da nossa selecção, porque mostrou trabalho e teve resultados inéditos.

Zito aconselha formação
como suporte para o futuro


JD: A melhoria do nosso futebol passa pela formação científica e académica do dirigismo desportivo no país. O que deve ser feito para alterarmos o actual quadro?
AFJ: Temos que conhecer o futebol. Muitos de nós, dirigentes desportivos, recorremos a meios que a maioria não tem para aperfeiçoar o nível e conhecimentos relacionados com dirigismo desportivo, para buscar matéria sobre o dirigismo desportivo. A juventude é a maioria da nossa população em Angola. Essa franja deve estar empenhada na prática desportiva. Quando é que vamos fazer isso? Quando tiverem 25, 26 anos? Como é que eles vão aparecer numa equipa da primeira divisão, num 1º de Agosto, num Petro, com 25, 26 anos? Em qualquer parte do mundo as escolas de futebol existem. Vamos aos grandes clubes europeus, como Barcelona, Real Madrid, Sporting de Portugal e vemos que têm 80 por cento dos plantéis com atletas formados nas suas escolas de formação e veja o futebol que praticam.

JD: Isto implica dizer...
AFJ:Tudo passa por conhecer as leis e regras do próprio dirigismo desportivo que nos dá os caminhos a seguir.Não podemos pôr os clubes todos ao mesmo nível. Sabemos muito bem que a nossa luta hoje é o dirigismo desportivo. Quem está a dirigir os clubes hoje somos nós. Há uma escola para dirigismo desportivo? Não existe. Onde é que já há uma escola para dirigentes desportivos? Não existe. Cada um de nós tem os seus defeitos, as coisas más são essas que podemos falar nesse momento, quer dizer que nem todo o mundo tem o mesmo carisma, quando se trata de dirigir, orientar ou distribuir algo. 

JD: Qual a forma de actuação que os clubes devem adoptar em função da realidade existente?
AFJ: O homem que dirige o clube, que é a base do futebol em Angola, deve munir-se de conhecimento científico, tem de haver homens que não descambem por um dólar ou dois, mas pessoas que pensem e repensem o nosso futebol. Muita juventude, inclusive garotos, que estão nos escalões de infantis, juvenis e juniores devem merecer a nossa atenção. Hoje, infelizmente, o fenómeno novo é ir buscar 30 a 40 por cento de jogadores estrangeiros que devem deixar de existir por representar uma ameaça ao nosso futebol. Com isso, pergunto, e as escolas de formação nos nossos clube? Esses jovens que apostaram no profissionalismo, que apostaram no futebol quando é que vão ver as suas carreiras reconhecidas? Porque cada um deles se empenha para ganhar algo na vida.

JD: Quer com isto dizer que…
AFJ: Não se pretende criar pobres, mas sim poupar e tornar produtiva a vida dos jovens que escolhem o futebol como profissão. Sabe que em África o jogador quando chegar aos 29 e 30 anos de idade, já está em declínio devido à vida que leva, o sítio onde dorme, a família a que pertence, como anda, como dorme, enfim uma série de contratempos. Não se aposta na formação académica do atleta e muito poucos que despontam estão a estudar. O que será da vida desses miúdos?

JD:No seu ponto de vista, que deve ser feito para alterar o quadro?
AFJ: há que se repensar isso, tudo que o atleta tem no máximo são nove a dez anos para despontar e ganhar dinheiro. Cada estrangeiro que vem aqui, tira pão a dois ou três nacionais. É bom que os dirigentes dos cubes repensem e que não tenham imediatismo. Os campeões todos os anos são quase os mesmos num universo de mais de 15 clubes. Porquê? Portanto é aí onde tem de residir o nosso pensamento filosófico como dirigentes dos clubes.

 “A lei do mecenato
é imprescindível”


JD: O número de pessoas a praticar desporto em Angola é cada vez mais reduzido. Até que ponto essa realidade influencia no crescimento do futebol nacional?
AFJ: O futebol em particular e o desporto no geral, não podem ser praticados por uma meia dúzia de pessoas. Quantos somos? Segundo a estatística, a nossa população está rondar os 19 a 20 milhões de angolanos. Será que existem dez milhões de pessoas a praticar desporto em Angola? Nem pensar. Portanto, muito ainda tem de ser feito, a partir das escolas, do Ministério da Educação em coordenação com a Juventude e Desportos. Acho que a escola é a base, tirando a família. Inclusive há garotos que passam mais tempo na escola do que em casa e é a partir da escola que vamos criar, com base nas infra-estruturas que tivermos, a promoção das modalidades desportivas. Não falo só do futebol, mas também de outras modalidades e do desporto no geral.

JD: Defende que é necessário atrair um maior número de população jovem e não só para a prática do futebol e do desporto no geral…
 AFJ: Afirmativo. Ainda não temos o marketing desportivo evoluído e competitivo, que além da vertente financeira serve também de divulgação e atracção para a prática desportiva. A criação de espaços para a prática do futebol, a aplicação de programas de massificação e expansão que possam envolver atletas desde a idade mais tenra possível. Isso irá permitir que o atleta de amanhã cresça com o hábito e inclinação para a prática da modalidade e quanto maior for o número de beneficiados, maior será também o número de praticantes. Daí que a responsabilidade deve ser assumida não só pelo próprio estado mas também pelos clubes. Todos os países que hoje despontam a nível do mundo passaram por aí, tiveram as mesmas dificuldades, e hoje por hoje, os seus clubes e os níveis do seu futebol, não têm nada a ver com aquilo que dispunham no passado. 

JD: Apesar das limitações, os clubes continuam a trabalhar e muitos deles com resultados visíveis, sobretudo na formação de atletas.
AFJ: Isso está visível aos olhos de todos. Mas precisamos de fazer mais e melhor. Contudo, uma palavra de incentivo, apreço e coragem aos clubes que muito fazem, apesar de não serem reconhecidos e depois aos treinadores, atletas, que embora mal pagos e formados, continuam a manter o nosso futebol vivo, por intermédio do Girabola, que a cada ano que passa tem se tornado mais emotivo, mais competitivo. Por isso, nem tudo está mal. Parabéns aos homens do futebol, ao dirigismo desportivo, que mesmo sem formação continuam a insistir no desenvolvimento da modalidade.