Jornal dos Desportos

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Entrevistas

\"Os donos do futebol no me queriam na Federao\"

Teixeira C?ndido - 10 de Julho, 2017

Norberto de Castro, fui apenas usado para eleies na FAF

Fotografia: Jornal dos Desportos | Edies Novembro

Norberto de Castro é conhecido pela formação de jogadores como Geraldo, Paizo, Herenilson e outros. O membro demissionário da FAF considera-se utilizado por Artur Almeida para ganhar eleições. Sonhar ter um jogador a actuar na Liga Inglesa ou Espanhola, esperando que no próximo ano consiga ter dois ou três atletas na Europa. Em entrevista ao Jornal dos Desportos, o dirigente desportivo declara amor incondicional ao futebol mas grita por socorro para manter o seu projecto de pé. Atente caro leitor

Uma pergunta inevitável para começar. Já digeriu a sua saída Federação Angolana de Futebol?
-"Sim, o assunto FAF para mim está enterrado. O que desejo é que as pessoas que lá estão possam materializar os objectivos traçados. Este é, portanto, o meu desejo. Não quero me alongar muito, acho que todos sabem o que se passou. Combinamos uma coisa, mas na prática fez-se outra. Combinamos que depois da tomada de posse iria assumir o cargo de vice-presidente para as selecções jovens. Teria sobre a minha direcção todo o futebol de formação. Acontece que numa reunião, sem a minha presença, aliás me encontrava lá em baixo do edifício da FAF, enquanto decorria a reunião numa das salas, decidiram que já não seria o responsável pelas selecções jovens. Não me disseram nada naquele dia. Enfim, tinha objectivos nobres para com as selecções jovens, todos sabemos como anda o futebol desse escalão no nosso país. A formação é a base, tinha intenção de tudo fazer para melhorar o quadro, pela experiência que acumulei, mas infelizmente, talvez por ser uma pessoa de família humilde, ao contrário de outras pessoas que estão melhor relacionadas. Talvez seja isso, não encontro outras razões. Nesse ambiente, preferi me afastar. Estou bem onde estou".

Na opinião do senhor o que motivou a reviravolta dos membros FAF? Porque razões mudaram de ideia?
"Penso que tudo já estava traçado. Sinto que fui apenas usado, essa é a conclusão a que chego. Sem medo de errar, se não estivesse na lista, talvez Artur Almeida não ganhasse as eleições, ele viu a aceitação de que gozo nas outras províncias. Viram a força que tenho a nível nacional. Ouvi a partir do telefone do próprio Artur Almeida, duas pessoas que não me queriam lá na Federação Angolana de Futebol. São os donos do futebol nacional, mas pelo dinheiro do erário público que recebem, penso que não fazem nada por este futebol. Estaríamos em melhores condições se eles estivessem comprometidos com causa do futebol nacional. Quem me dera ter a terça parte as verbas do erário público que esses senhores têm tido. Iria mostrar como se trabalha, como é estar comprometido com o bem comum. Infelizmente, não tenho esse poder financeiro, todos sabem o que faço, portanto, acho que já havia uma estratégia de me afastarem. As pessoas diziam em conversas com Artur Almeida que eu não podia fazer parte da lista dele, porque só falo de corrupção, e outras coisas assim. De modo que acho que havia um objectivo, ganhar as eleições e me afastarem depois. Acho que ficava mal me afastarem durante a campanha, e penso que não ganhariam as eleições. Portanto, não gosto de conflito, afastei-me, decidi seguir a minha vida, e acho que o trabalho deles vai determinar se fiz bem em me afastar ou não. Algumas pessoas já me estão a dar razão. A mim, as informações chegam sempre. Cabe portanto as pessoas fazerem o devido julgamento".

O presidente da Federação Angolana de Futebol falou alguma vez com o senhor, depois de ter saído?
 "Soube que alguns membros da FAF falaram com ele, para que viesse ter comigo. Não o fez, e nunca mais voltamos a falar. Vou contar pequenos episódios que indiciavam o que afirmei, por consideração ao vosso trabalho, do qual sou um apreciador. Nunca o fiz publicamente. Assim que tomamos a posse, decidi vir conhecer a FAF, e Artur Almeida, perguntou a algumas pessoas, o que eu tinha ido fazer à FAF. Outra situação, fui convidado pela associação de ex-árbitros para a cerimónia de tomada de posse, e Artur Almeida, voltou a questionar, porque razão estava ali. E me pergunto porque razões não devia ir à Federação Angolana de Futebol ou a cerimónia dos árbitros. Havia alguma coisa de errado, um membro eleito, ir à sede ou a uma cerimónia para qual foi convidado? Ainda a propósito da reunião que decidiu o meu afastamento do cargo, quando depois de quatro horas de espera na recepção, enquanto todos outros membros estavam na sala de reunião, e sabiam que eu estava na recepção pois o meu colega Dino, ligou para mim para saber onde estava. E quando decidi ir à sala, Artur Almeida colocou fim a reunião, pedi palavra para tentar saber onde funcionaria o departamento do futebol jovem, porque havia documentos dispersos. O secretário-geral vira-se para mim e diz que havia coisas mais importantes para tratar com certa arrogância. Disse a ele que estava a falar de uma área sensível e o senhor me responde nestes termos. Artur Almeida levanta-se, e me diz se não estiver satisfeito coloca o seu lugar à disposição. E vim para minha casa até hoje. Não me sinto incentivado a trabalhar com esse grupo".

Quais são os projectos que tinham traçado para o futebol jovem?
"Primeiro, trabalhar com jovens exige de nós sensibilidade. A minha ideia era fazermos selecções provinciais. Dividir as províncias em três regiões, realizarmos torneios de sub-12 e sub-13. Essas selecções podiam treinar duas vezes por semana, com direito a merenda e condições mínimas de trabalho. Coloquei, inclusive, as minhas instalações disponíveis para acolher selecções inter-provinciais quando fosse necessário. Abordei um dirigente no sentido de fazer a ponte com os governadores provinciais. Destes queríamos que colocassem duas vezes por semana um autocarro para transportar os miúdos. Portanto, tínhamos um plano bonito e sei que com empenho, podíamos chegar lá. Mas acabamos como acabamos".

Chegaram a pensar também no perfil do treinador para coordenar o futebol jovem das selecções? Seria estrangeiro ou nacional?
"Não chegamos a falar disso. Mas se tivesse a possibilidade de escolher para selecções jovens. Eu podia optar por um nacional. Tem conhecimento da nossa realidade, não se assusta com as coisas e temos muitos bons treinadores. Não havia necessidade de ir buscar um treinador estrangeiro, temos muitos seleccionadores. O que fizeram com sub-20 é gravíssimo. Ir buscar alguém sem sabermos o curriculum dele, quando temos muitos bons treinadores".


PARCERIA COM O CLUBE LUSO
“Nós é que devíamos pagar ao Sporting”


Em relação ao projecto pessoal, como nasceu a parceria com Sporting de Portugal?
"Disse na altura da inauguração do projecto que dele não resultaria dinheiro para nenhuma das partes. Às vezes temos a noção de que há dinheiro em jogo. Não, não nada disso. Não é assim que funciona. Em qualquer parte do mundo, nós é que deveríamos dar dinheiro, e não receber. Há quem pense que com essa parceria os problemas de Norberto de Castro acabaram. Não. Quem esteve na inauguração viu que o campo está uma vergonha, falta-nos água para fazermos rega do campo. Foi um projecto inaugurado pelo Presidente da República de Angola, engajou-se pessoalmente para tratar da água, mas infelizmente a água durou seis ou sete meses. Desviaram para a manilha para o hospital, e nós ficamos sem água. Não sei quem fez isso, o certo é que não temos até hoje água. Esta é a nossa maior preocupação hoje. Em parte alguma, projecto dessa dimensão funciona sem água. Dizia que a vinda do Sporting é boa para todos os angolanos. Habitualmente, paga-se para se ter uma parceria dessa natureza. Ou seja, nós é que devíamos pagar ao Sporting, é assim que funciona. Mas, felizmente, o Sporting não me cobrou nenhum kwanza. O Sporting tem conhecimento do nosso trabalho. Sabem qual é a minha realidade, tenho um amigo português, Ferreira, meu irmão, contribuiu muito para essa parceria. Claro está que se tivéssemos de escrever a manifestar esse interesse. Já o fizemos na anterior direcção do Sporting mas acabamos por concretizar com Bruno de Carvalho, para nós é um grande passo. Vamos ter benefícios com ida dos nossos treinadores para formação no Sporting. Ou a vinda deles para cá para nos formarem. Claro que teremos de custear as despesas todas. Estamos a criar condições para depois das eleições termos cá um treinador para formação dos nossos. Iremos estender o convite para outros treinadores, inclusive os nossos treinadores da escola do Huambo.
Outro benefício é a possibilidade dos nossos jogadores puderem ser observados directamente no Sporting, sem qualquer intermediação. Agora que estive no Congresso do Sporting, quis levar dois jogadores, mas problemas burocráticos impediram de concretizar essa minha ideia. São jogadores da escola do Huambo. É verdade que temos uma abertura junto da Embaixada Portuguesa para estas questões, mas não foi possível. Porém, está aberto o caminho, e quem ganha é o País no seu todo. E se estivesse na Federação Angolana de Futebol acho que podíamos também aproveitar".

O Sporting de Portugal disponibilizou-se em apoiar com material desportivo ou não?
"Não, o Sporting apenas faz descontos num kit. Ao invés de se comprar os preços normais, fica-nos abaixo disso. O nosso maior problema prende-se com os direitos alfandegários e os custos da transportação".
O Kit é composto de…
"Equipamentos sem botas. Em princípio, as botas devem ser da responsabilidade do atleta. Em qualquer parte é assim que funciona. Se tivéssemos muitas condições daríamos isso de borla. Aliás, temos feito com alguns que não têm possibilidades. Oferecemos por exemplo aos meninos da escola do Huambo".

Como tem gerido essa infra-estrutura desportiva sem apoios? Sei que tem igualmente um colégio. É a fonte que sustenta as despesas da infra-estrutura desportiva?

"Muita gente não acredita, como é possível manter essa estrutura. Tem sido complicado. Não tinha dificuldades como tenho dito na altura em que o mercado do Roque funcionava no Sambizanga. Os meus rendimentos vinham dela. Tinha armazéns, e tinha como sabem parque de estacionamento. Acho que fui um dos pioneiros nesse negócio. Mas tem sido complicado. Viver do colégio, apenas, não é fácil, sobretudo pelo facto dos preços das propinas serem de acordo com o meio no qual estamos localizados. E tenho atletas que estudam lá, estão a custo zero. Tenho atletas vindo do Huambo, e tenho de custear essas despesas todas. Fazemos tudo, e não tem sido fácil, garanto-vos. O normal era ter um patrocinador, sou uma pessoa aberta, bati todas as portas mas não encontro nenhuma aberta. Há sete ou cinco anos atrás, o Presidente da República de Angola orientou que me fizessem chegar quinhentos mil e um autocarros no sentido de concretizar um projecto do futebol para selecções jovens, até hoje não vi a cor do dinheiro. E se alguém obedecesse o Presidente da República, hoje estaríamos distante"


APOIO TEM SIDO MAL DADO
“É uma obrigação do Estado apoiar a Federação de Futebol”


Um dos maiores problemas da Federação Angolana de Futebol é o dinheiro. Quando concorreram, previram fontes de receitas alternativas ao Estado?
"Não fizemos abordagens específicas sobre essa matéria. O presidente disse-nos que havia empresas com quais havia contactado, para suportar algumas despesas. Aliás, foi público. A nós não nos disse em detalhes quais eram as empresas ou os parceiros dispostos a trabalhar com a Federação Angolana de Futebol. Seja como for, acho que é uma obrigação do Estado apoiar a Federação Angolana de Futebol, e tem-no feito, nós sabemos disso. Se não fosse assim, não haveria desporto nesse país. Olhem para quantos clubes beneficiam directa ou indirectamente do apoio do Estado. Defendo, no entanto, que este apoio tem sido mal dado, devíamos priorizar os clubes que fazem formação. Não estou a dizer que os grandes clubes não devessem receber, mas devia ser melhor redistribuído. Em situação normal, os clubes grandes tinham de viver de apoios de particulares, como acontece na Europa, mas a nossa realidade é ainda diferente, razão pela qual o Estado terá de continuar a apoiar o desporto. O que eu defendo é que seja um apoio para todos, em particular os que fazem alguma coisa para o desporto".