Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Os jogadores faltam respeito em campo por ganharmos mal

Paulo Caculo - 16 de Maio, 2019

O juiz angolano deplora, ainda, a falta de condies enfrentada pelos profissionais da classe em Angola

Fotografia: Edies Novembro

O árbitro Hélder Martins dispensa apresentações. É tão-somente o internacional angolano mais conceituado entre o leque de nacionais, que integram os quadros da CAF e da FIFA.
Aos 42 anos, profissional da carreira há 22 anos, 12 dos quais ligado a arbitragem  tem um histórico de presença em onze competições internacionais, com realce para três meias-finais na Taça COSAFA.
O juiz angolano deplora, ainda, a falta de condições enfrentada pelos profissionais da classe em Angola. Em entrevista concedida ao Jornal dos Desportos, na antevisão ao Campeonato Africano do Egipto e ao futuro da carreira, o conceituado árbitro internacional anuncia para breve, o afastamento dos palcos da arbitragem, mas confessa que gostaria muito de apitar uma final do CAN, antes de "pendurar o apito".

Estamos à portas do CAN do Egipto. Qual é a sua expectativa enquanto árbitro sondado para a competição?

Espero, naturalmente, estar presente e fazer um bom trabalho. A nossa expectativa, enquanto árbitro internacional, é cumprirmos com as nossas obrigações, de formas a continuar a merecer a confiança da CAF. Se formos chamados a entrar em campo, vamos procurar cumprir com o nosso papel.

Quais os grandes desafios no CAN?

Vamos ter este ano o campeonato africano, a ideia é atingir níveis mais altos nesta competição. Estamos a trabalhar para estar presente no CAN ao mais alto nível e, estando a selecção a participar, era bom também voltarmos a ter, depois de 2010, termos tido um árbitro e um assistente a participarem. Embora já tivemos o Gerson Emiliano a participar em outras competições, nunca mais voltamos a ter um árbitro. Portanto, seria mito bom agora neste CAN do Egipto, voltar a ter um árbitro principal a representar a arbitragem angolana.

Sente-se realizado com a carreira?
Como árbitro, pelas dificuldades que tive de ultrapassar, posso afirmar que já me sinto realizado, porque voltei a atingir, depois de tantos transtornos, a elite A da CAF, que é o sonho que qualquer profissional da arbitragem. Mas, posso dizer que tenho outros sonhos depois disso. Apitei recentemente o jogo das meias-finais da Liga dos campeões africanos, não seria demais sonhar em apitar uma final. Seria outro facto inédito para a arbitragem angolana.

Que avaliação faz do nível da arbitragem em África?

Posso afirmar que melhorou muito. Estava entrar nos \'carris\', aquando da anterior direcção da CAF, mas com esta nova direcção está completamente diferente. A aposta muito forte na melhoria do nível da arbitragem. As pessoas que dirigem o futebol africano estão comprometidas também com arbitragem, com o futebol de formação e a qualificação de técnicos, mas sentimos que existe muito mais apoio e carinho para com a classe de árbitros. E, como consequência disso, os resultados estão aí: já não vimos muitos escândalos de árbitros.

À excepção do árbitro zambiano, que esteve envolvido no polémico jogo entre o 1º de Agosto e o Esperance de Tunis...
Ainda assim, temos muita qualidade hoje na arbitragem africana. Temos árbitros que estão a apitar as finais dos mundiais de clubes da FIFA; temos árbitros que têm estado mais vezes na final da Copa do Mundo. Tivemos recentemente um senegalês, que terminou a carreira, mas esteve no Mundial da Rússia. Portanto, a arbitragem melhorou muito. Há uma aposta nova da CAF na implementação do vídeo árbitro. Também vai ser uma novidade no CAN do Egipto, pela primeira vez vamos usar o vídeo árbitro numa fase final do campeonato africano.

Considera fundamental a presença do vídeo árbitro?

É muito importante. Das estatísticas que estivemos a ver, há muitas probabilidades do vídeo árbitro ajudar na melhor tomada de posição de alguns lances. O árbitro não consegue estar ao mesmo tempo em vários sítios do relvado e há pormenores que podem escapar. Dos testes que fizemos recentemente na África do Sul e em Marrocos, sentimos que, de facto, o vídeo árbitro é para ajudar a reduzir as margens de erros  do árbitro. Isso é que é importante.

Como vê a arbitragem em Angola?

Precisa de melhorar muita coisa. Tal como dei o exemplo da CAF, a arbitragem africana só melhorou, porque sentimos que houve um comprometimento muito forte da CAF, em relação a arbitragem africana. Em relação a arbitragem angolana, ainda não temos esta vontade da direcção apoiar totalmente com acções e na prática a arbitragem.

Onde acha que reside o problema?

Ainda vivemos algumas dificuldades, que considero serem de base e enquanto não ultrapassarmos isso, será difícil voltarmos a ter outros árbitros a apitar nas outras competições, a exemplos da Taça COSAFA e Liga dos campeões.     Se tirarmos o Gerson Emiliano e o Hélder, já fica um pouco complicado termos outros árbitros a apitarem em outras competições. Não pode ser. Não é normal num país com seis árbitros internacionais, termos muito pouco árbitros a serem nomeados para jogos internacionais. Alguma coisa não está bem. Devíamos ter muito mais, quatro ou cinco ou, se tanto, todos.

Acha que falta um trabalho forte ao nível do CC Árbitros da Federação?

Falta aquilo que chamamos de diplomacia desportiva. Primeiro, uma melhor formação dos árbitros e pesquisa e procura de novos talentos e, depois, a tal diplomacia desportiva, que é importante.
Não basta termos muita qualidade, se não tivermos quem interfira para alavancar esta qualidade.

FUTURO
CAF  quer  Hélder  Martins  para  detectar  novos  árbitros
Com que olhos encara o futuro da carreira?

 Pessoalmente, tenho o sono de terminar a carreira em breve, depois vou anunciar a data, porque gosto de ter desafios e o meu próximo desafio é o campeonato africano. Se tiver outros desafios, talvez os Jogos Olímpicos, pode ser que ainda continue, se não  tiver, pretendo terminar a carreira e talvez ter uma academia de formação de árbitros.

Ao terminar a carreira, pensa em afastar-se completamente da arbitragem?
Vai depender, se a CAF anunciar que tem outro desafio para avançar eu continuo. Se o desafio for o Campeonato Africano do Egipto, provavelmente devo afastar-me após o CAN. A nível nacional, vou mesmo parar com a actividade toda, vou ficar um pouco afastado do futebol.

Além da Academia de formação que prevê abrir, consta que a CAF pensa integrar o seu nome no quadro de instrutores...

Realmente existe este projecto com a CAF, para ser instrutor e detectar novos talentos. A CAF quer que eu actue nesta zona dos Palop\'s, devido a língua, procure árbitros que se assemelhe ao meu estilo de apitar. Porque estou na Elite A, tenho feito estes jogos e é sinal que tenho alguma qualidade. Portanto, é esta qualidade que a CAF pretende que eu encontre em outros países. Há esta proposta para passar a instrutor da CAF, no sentido de trabalhar na descoberta de novos talentos para a arbitragem africana.