Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Os pontas devem saber jogar sem bola"

Sak Santos - 13 de Janeiro, 2014

Alves lamenta o facto de os ateltas dificilmente fazerem golos à entrada da grande área

Fotografia: Nuno Flash

O antigo futebolista do 1º de Agosto e da Selecção Nacional, Francisco Carlos de Abreu ‘Alves’, disse em entrevista ao Jornal dos Desportos, que o “futebol que se produz hoje em Angola é de muita fraca qualidade”.

O ponta de lança detém o recorde do Girabola, numa época (1980) marcou 29 golos, nenhum foi de penálti. Disse que para se atingir marcas como as dele, os jovens avançados devem ter “ humildade”, sobretudo trabalhar muito.


Carlos Alves nessa altura lutava muito na grande área com os defesas contrários, utilizava os ombros, as coxas, os cotovelos, em apertados duelos físicos, de um para um, foi um avançado reconhecido pelas suas arrancadas de engodo para a baliza, pelo seu futebol ofensivo e pelos golos.

O goleador do Girabola de 1980, lamenta o facto de os jogadores angolanos, dificilmente marcar golos à entrada da grande área, assim como o fraco índice de aproveitamento das inúmeras oportunidades que criam. 

Actual porta-voz para o futebol do grémio militar, Carlos Alves era um avançado de poucas fintas, mas muitas simulações, paragens e toques de calcanhar, que “desparafusava” os defesas contrários.

Proveniente do Benfica de Luanda ao serviço do qual permaneceu 13 épocas, de águia ao peito desde 1966 na categoria de juvenis, havia evidenciado todas as suas qualidades de ponta de lança.

Alves, ingressou no 1º de Agosto em 1979, e ano seguinte, foi o melhor marcador do Girabola com 29 golos, cifra jamais alcançada por qualquer outro jogador.

Alves, ainda hoje é recordado, com uma certa nostalgia, pelos adeptos e simpatizantes do clube em particular e do futebol em geral, sobretudo daqueles que o viram jogar nos saudosos e inesquecíveis anos 60, 70 e 80, quando formava uma linha avançada terrível e de grande classe com Arnaldo, Luís Pereira e Miguel Antunes, no Benfica de Luanda, e no 1º de Agosto com Ndunguidi, Nsuka, entre outras ‘feras’ da época.

Carlos Alves o melhor marcador do Girabola de 1980, com 29 golos, cifra jamais alcançada. Como atingir tal marca?

Gostava de dizer que dos 29 golos marcados, nenhum foi de penálti (risos), porque naquela altura o Lourenço é quem marcava os penáltis, ele era o segundo melhor marcador da equipa. Imaginem, se eu marcasse os penáltis. Para atingir tal marca é necessária humildade e, sobretudo, muito trabalho”

Qual é a grande dificuldade dos nosso avançados?


Dificilmente, o nosso jogador faz golos à entrada da grande área. As oportunidades sucedem-se, mas os índices de rentabilidade são muito baixos. Mas, o nosso futebol, não tem somente problemas de finalização.

O que pode estar na base dessa franca rentabilização em termos de golos e o que deve ser feito para que os nosso avançados aproveitem as oportunidades que criam?

A missão de um ponta de lança é marcar golos. Saber marcar e sobretudo desmarcar-se dos adversários. Vejamos a título de exemplo o Meyong, ponta de lança do Kabuscorp do Palanca. Joga pouco com a bola, mas joga muito sem bola. Sabe posicionar-se, sabe desmarcar-se. Temos poucos avançados com este nível.  O  ponta de lança, fica a maior parte das situações ofensivas de costas viradas para a baliza. Deve aprender a jogar sem bola. Deve aprender a posicionar-se.

PREVISÃO
Porta-voz da equipa militar
acredita no sucesso de Gelson

Carlos Alves considera Meyong, do Kabuscorp do Palanca, um ponta de lança de mão cheia. Revê-se nele?

Não me revejo nele. Com todo o respeito e modéstia que tenho por ele e por todos jogadores. É difícil ver hoje um ponta-de-lança, com as minhas características. Revejo-me, no Balloteli. Mas, com as suas fanfarronices à parte. É o tipo de jogador que eu era. Forte no jogo aéreo. Um jogador valente, incapaz de se encolher. Porque eu utilizava os ombros, as coxas, os cotovelos, em apertados duelos físicos de um para um. Tinha o engodo para a baliza sabia descobrir o caminho mais curto para o golo, por isso revejo-me nele. Era capaz de marcar um golo, na primeira oportunidade que tivesse, seja ele de bico ou com o peito do pé, quando me concediam alguma liberdade, meio metro, ou menos. Não precisava de muito espaço para chutar. Hoje ninguém faz isso.Hoje ninguém remata, nem de bico. Portanto, um ponta de lança deve estar dotado de uma mobilidade, facilidade de impulsão até ganhar a bola nas alturas, portanto deve ser perigoso no jogo aéreo, e deve evidenciar, grande rapidez em direcção a bola. O ponta de lança deve “ desviar-se” dos adversários com facilidade, para evitar o contacto e contrair lesões. Este é o papel de um ponta de lança, na minha modesta opinião.

O senhor é porta-voz para o futebol do Clube 1º de Agosto. Neste momento, tem algum avançado na equipa principal com as suas características, digamos um sucessor?

O Gelson tem tudo para ser um  ponta de lança. Tem tudo para despontar, se trabalhar muito e sobretudo ser humilde. Tem mais ou menos as minhas características, vejo nele, um jogador, com grande vontade de vencer.

Qual a sua opinião acerca do futebol que se pratica actualmente no país?
O futebol que se produz hoje é de muita fraca qualidade.

RECONHECIMENTO
“Iván renovou o 1º de Agosto”


Durante a sua carreira, quem foi o jogador que melhor o serviu?
Foi o Ndunguidi. Ele ia à linha de fundo e servia-me. Mas o Zeca, o Amândio, o Horácio Kangato, eram também os grandes municiadores do ataque. O Ndunguidi éncantavam-me pela criatividade e precisão dos seus passes.

E quem foi o defesa que mais o marcou?
Foi o Santo António, do Progresso. Foi um defesa desleal, mas também um grande amigo, muito” simpático”. Era implacável. A sua entrega ao jogo era sem limites. Vivia intensamente o jogo. Deixou marcas profundas no meu corpo. Tenho um mapa de cicatrizes nas costas, no peito e nas coxas, com sinais das suas botas. Ele utilizava botas com pitons de alumínios bem afiados. Ele dava-me muita ‘porrada’, mas também levava. À dada altura, numa bola dividida, rasgou-me o calção, já ninguém sabia, quem era o defesa e quem era o avançado (risos ). Eu estudava-o. Tive excelentes momentos com o Santo António, fora das quatro linhas e sobretudo nos trabalhos da Selecção Nacional. É um camarada no verdadeiro sentido da palavra. Mas quando entrava em campo…

E em relação aos treinadores que teve no 1º de Agosto?
Iván e Petar (jugoslavos), Nicola, Ferreira Pinto e Dinis (angolanos), Paulo Roberto (brasileiro) e Mário Imbelloni (argentino). O Iván, foi na minha mais modesta opinião, um dos melhores treinadores da história do Clube 1º de Agosto. Em 80/81, altura em que treinou o 1º de Agosto, do ponto de vista de treino desportivo, já fazia, o que se faz hoje. Chegou ao país, ao clube, com uma evolução de mais de 20 anos”.

RECOMPENSA
"Ganhei prestígio
com o futebol"


O antigo goleador do 1º de Agosto ganhou o apelido  Alves, pelo facto de Alberto Alves, um primo e colega de equipa no Benfica de Luanda, nos anos 60, ter deixado de jogar futebol , como ninguém conhecia o seu nome, chamavam-no “o primo do Alves”, disse na entrevista ao JD, que um bom ponta de lança faz-se com muito trabalho, reprova o facto de em Angola descansar-se mais do que trabalhar e que apenas ganhou prestígio com o futebol.

Como se faz um grande ponta de lança?
Um ponta de lança faz-se com muito trabalho. Depois dos treinos, o jogador deve ficar a trabalhar mais, para ser o melhor. Por exemplo há jogadores, que gostam de marcar livres, marcação de grandes penalidades, estes devem trabalhar mais estes componentes, depois dos treinos. Não acredito, que algum jogador angolano atinja 500 horas de trabalho por época, com a  inclusão de  jogos. Trabalha-se pouco. Descansa-se mais, do que se trabalha. O talento é fruto das horas de trabalho. O trabalho é muito importante. O nosso jogador acha que já sabe tudo. Não estudam o adversário, não se preocupam de ver os jogos dos adversários. Enfim. O ponta de lança deve jogar sobre o erro do adversário. Se o defesa comete um erro, se cometer o segundo ou o terceiro, eu estou lá. Não deve jogar fixo, tem de saber ‘desmarcar-se’ e não se entalar entre os defesas. Não deve jogar para o público, mas sim para a equipa.

Quem foram os jogadores que mais admirava? 
Jesus, Ivo, Napoleão, Lourenço, Salviano e Santo António.

O que ganhou com o futebol?
Dei mais ao futebol do que recebi. Não ganhei nada, em termos financeiros, mas o futebol, abriu-me portas, para não estar mal de vida. Portanto, ganhei prestígio.