Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Os resultados so positivos tendo em conta a meta traada

Jos Chaves - 19 de Julho, 2010

Clube ainda no pensa na Primeira Diviso

Fotografia: Jos Chaves

Como decorre a formação no Sporting Clube Petróleos do Bié,  passados dois anos?Decorre maravilhosamente. Realizamos um trabalho digno de realce. Passados dois anos, os  resultados alcançados são positivos tendo em conta as metas estabelecidas pela direcção do clube. Encontram alguma dificuldade?As dificuldades que enfrentamos são de fórum desportivo, ou seja, a falta de competição. Veja que, no ano passado, conseguimos participar nos campeonatos provinciais em iniciados e no unificado sénior/júnior, em que fomos os dignos campeões.Essas provas contribuíram para aumentar as performances, mas é necessário que haja mais competição, tanto de âmbito provincial quanto nacional. Qualquer equipa no mundo, só pode evoluir competindo. Sem competição não se pode avaliar o trabalho que se está a realizar. Quero lamentar ainda o facto de a Federação Angolana de Futebol não realizar os "nacionais" jovens referente a época de 2009. As condições de trabalho que a direcção do clube lhe colocou à disposição são aceitáveis...Claro! Temos material desportivo à disposição de todos os atletas, transporte, etc. No princípio, tínhamos dificuldades no que toca ao campo de treino, mas, nestes dias, trabalhamos em campo relvado, apesar de necessitar ainda de alguns retoques. Acredita no projecto?Acredito veemente. Gostaria de apelar aos demais clubes de Angola a seguirem as peugadas do Sporting do Bié, pois este projecto vai dar fruto dentro de cinco anos. É um trabalho bastante ambicioso e que precisa de paciência. Que futuro augura para os jovens em formação?O meu desejo é ver um ou dois jovens a vestirem, nos próximos anos, a camisola da selecção nacional. Seria como colocar a cereja por cima do bolo. Morreria feliz (risos). O principalmente objectivo é formar a equipa seniores do Sporting Clube que vai competir na Primeira Divisão. O projecto prevê que a futura equipa principal do clube seja constituído por jogadores maioritariamente formados nas suas escolas. Também ficarei orgulhoso se saber que, daqui a cinco anos, talvez  já não esteja em Angola, o projecto continua.   Passa-lhe pela cabeça a possibilidade dos petizes não vincarem?Sou optimista. Acredito nos jovens e garanto que muitos destes futebolistas vão desfilar no Sporting e em outros clubes deste país.Regresso ao Girabola é prematuroA equipa pode já pensar em regressar ao Girabola?Não aconselho que se pense em regressar ao Girabola. É preciso mais trabalho, principalmente ganhar rodagem competitiva e experiência. Por outro lado, a futura equipa não pode ser constituída, na sua totalidade, por apenas atletas formados nas escolas do clube. Seria uma utopia! Será necessariamente reforçá-la com pelo menos cinco porcento de atletas com largas experiências no futebol nacional e, quiçá, no internacional, para servir de mais-valia para os mais novos. Neste caso, o que diz à direcção do clube sobre o regresso a alta competição nacional?O processo de formação é bastante complicado, sendo preciso que se caminhe com os pés bem assentes no chão. Não quero que as pessoas pensem que quero retardar o retorno da equipa ao Girabola, mas é o pensamento mais correcto de momento. Então aconselha a equipa a disputar o campeonato nacional da Segunda Divisão?Sou realista! O Sporting, neste momento, não está preparado para regressar ao convívio dos grandes. É preciso dar tempo ao tempo e trabalhar ainda mais. Veja que o clube neste momento só tem jogadores juniores. É preciso que este grupo que vai ascender brevemente à categoria de seniores ganhe maturidade e experiência. Só assim se deve pensar na competição. A aposta na formação de novos futebolistas é a melhor via para se ter uma equipa  competitiva e organizada?Penso que sim. Com a formação de novos valores, o clube vai ganhar muito e gastar pouco. Quando se pode e se deseja, pode-se melhorar muito. Falo da questão financeira, mas o mais importante é que o clube está num bom caminho. O processo de formação é longo e não se pode exigir resultados imediatos. O que transmite aos seus pupilos?Acima de tudo é a necessidade de disciplina e a importância de cumprirem as regras inerentes ao profissionalismo de uma equipa de futebol.Angola pode tornar-se uma potência do futebol africano Angola organizou este ano o CAN. Que benefícios o país teve?Angola ganhou bastante com este evento, tanto no campo desportivo quanto no capítulo da reconstrução nacional. Neste último, destaco a reabilitação e a construção de infra-estruturas como pontes, estradas, aeroportos, hotéis e, logicamente, os magníficos quatro estádios construídos de raiz pelo Governo Angolano. Em resumo, o CAN-2010 ajudou no processo de reconstrução nacional em curso no país. Angola pode tornar-se numa potência do futebol africano com as infra-estruturas desportivas que ganhou, bastando trabalhar a matéria humana, principalmente apostar sério nas camadas de formação. Vários países do continente africano, e até do mundo, não tem estas estruturas. É preciso aproveitá-las para revitalizar e massificar o futebol nacional. Outro aspecto é a formação de novos técnicos para sustentabilidade da modalidade. A seu ver, quais são as principais dificuldades do futebol angolano?Em Angola, as equipas apostam pouco na formação. É importante mudar este comportamento. Apostar nas camadas de formação é garantir o futuro da modalidade e descobrir, com certeza, novos valores. É preciso trabalhar e incentivar os jovens. O país possui muitos jovens jogadores, com potencial, mas que estão no anonimato. Outro aspecto a ter em conta é a questão dos campos de futebol. É necessário investir-se mais nas infra-estruturas, principalmente em campos relvados, em todo o país. Acredito num amanhã muito melhor. A selecção nacional de futebol tem um novo seleccionador. Um comentário...É um técnico jovem e com bastante ambições. Penso que conseguirá levar a bom porto a selecção nacional. Aliás, já demonstrou ser um técnico competente com a Selecção da Zâmbia que orientou no CAN-2010, disputado em Angola. Os Palancas Negras têm uma grande equipa e um treinador sério. Acredito no trabalho de Hervé Renard e nos Palancas negras.Saudades do pirão e da kissangua O que o motivou aceitar o convite do Sporting do Bié?Aceitei ser o coordenador das escolas de formação do Sporting seduzido, obviamente, pelo projecto. O seu contrato termina este mês...Gostaria imenso de continuar à frente do projecto, mas isto depende da direcção do clube. Fiz muitos amigos em Angola e, com certeza, se não renovar o contrato, vou sentir saudades desta terra linda, dos seus pratos típicos, sobretudo do pirão e da kissangua (risos)...Quanto tempo o professor pretende continuar ligado ao mundo do futebol?Tenho 77 anos de idade, mas ainda me sinto com força para continuar a trabalhar, principalmente transmitir a minha experiência aos mais jovens treinadores. Tenho uma experiência de 50 anos, na medida em que comecei a treinar aos 27. Se tivesse menos 20 anos gostaria de continuar em Angola, em especial no Bié,  até aos últimos dias da minha vida. Angola é uma grande terra, um país do futuro.Clubes locais atravessam dificuldades A situação dos restantes clubes no Bié é bastante preocupante. A maioria não possui escalões de formação nem projectos para curto ou médio prazo. Esta situação está a complicar, e de que maneira, o futuro destas agremiações, porquanto é preciso apostar nas camadas de formação para garantir o futuro do escalão de seniores. A falta de equipas com escalão de formação dificulta bastante o trabalho do Sporting, pois não há adversários com a mesma performance para se realizar jogos amistosos. Que conselho deixa à associação provincial e aos principais clubes da província?Desejo que a Associação Provincial de Futebol do Bié exija aos clubes locais terem escalão de formação, o que vai permitir o desenvolvimento da modalidade na província. Caso contrário, certamente o futebol no Bié corre sérios riscos de desaparecer. Aconselho, por outro, aos clubes a reflectirem neste aspecto e seguirem o que está a ser feito pelo Sporting.Fale da competição interna?É bastante débil. É preciso imprimir maior dinamismo no futebol local, congregando todos os clubes. Isso certamente vai contribuir para o desenvolvimento da modalidade em toda a província. O professor  Serdeira é o coordenador das escolas de formação dos "Leões" do Bié e trabalha com seis técnicos angolanos. Que opinião tem acerca destes?Os técnicos integrados no projecto do Sporting são competentes e têm um grande futuro. Penso que estão a ganhar com a minha experiência. Respeito-os e eles também a mim. Por isso, nada tenho a me queixar. Quero citar o meu adjunto, o Henrique Leite, que é um grande treinador e o meu melhor amigo aqui. Penso que está dotado de conhecimentos que vários treinadores do Girabola não possuem. Repito: é um bom treinador. Afirmo categoricamente que está em condições de me substituir. De modo geral, o que se deve fazer para mudar o actual quadro do futebol em Angola?Os dirigentes têm de perceber que a formação é o futuro. Um passo importante seria criar mais campos de futebol, em todo o país, de modo a conceder-se mais qualidade de trabalho aos jovens que querem jogar à bola. São muitos, mas os recursos parcos. Por esta razão sou de opinião que tem de se dar mérito aos treinadores que, com qualificações ou não e contra todos os problemas, fazem esforços enormes nas camadas de formação.