Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Os tcnicos de formao so ignorados e abandalhados

Avelino Umba - 07 de Março, 2011

Projecto Brincando com a Bola necessita de apoios da sociedade

Fotografia: nuno flash

Armando da Costa Faria pode não significar tanto para muita gente. Mas se a este nome acrescentarmos “Ti Nandinho”, a coisa muda certamente de figura, pois, das suas mãos “nasceram” muitas estrelas que hoje exibem o seu talento nos mais variados campos do país e do mundo. O jovem técnico que já trabalhou em clubes de renome do país, casos do Progresso do Sambizanga e Sporting de Luanda, diz que os treinadores nacionais que trabalham nas camadas de formação não são valorizados e chegam a ser “abandalhados” pelos responsáveis das referidas agremiações desportivas.

Com 31 anos de carreira como técnico, iniciou em 1980 no GD da Terra Nova, Armando Faria disse em entrevista ao Jornal dosDesportos que não é contra a contratação de técnicos estrangeiros, “mas sim de pessoas que sabem menos que os angolanos”.Para ajudar a enriquecer ainda mais o mosaico futebolístico angolano, “Ti Nandinho” criou na comuna do Zango o projecto “Brincando com a Bola” que movimenta quase uma centena de crianças.

Segundo ele, o futuro do nosso futebol também passa por Viana, pois acredita que dele sairão muitas “estrelas”. Atente à entrevista do homem que participou igualmente na formação de jogadores como Manucho Gonçalves, Sotto Mayor, Nandinho, Chara, Simão Bendinha, Assis, entre outros.

O técnico Armando Faria trabalha com o futebol jovem há quase três décadas. Que avaliação faz do estado actual da modalidade nessa faixa?

O futebol jovem não tem merecido a atenção que necessita. Os rapazes treinam quase sem condições e os técnicos nacionais não são valorizados. Os nossos clubes e mesmo a nível das selecções dão mais atenção e valorização aos estrangeiros. Os técnicos nacionais, infelizmente, são ignorados, digo mesmo abandalhados. Não sou contra a contratação de treinadores estrangeiros, mas sim de pessoas que menos sabem que o angolano, porque nós temos dado provas que também entendemos sobre o treinamento desportivo.

Será que isso é o que lhe motivou a abrir a Escola de Futebol do Zango?

Também. Mas gostaria também de dizer que foi mais a pressão das pessoas que conhecem o meu valor na vida desportiva, pois, como sabe, tenho o meu tempo todo dedicado ao futebol, principalmente à formação. Em função disso, certo dia, se a memoria não me atraiçoa no dia 27 de Outubro do ano passado, encontrei um grupo de petizes a jogar futebol num largo improvisado, com balizas de paus chumbados ao chão. Fiz questão de acompanhá-los com alguns toques de mestre, o que surpreendeu os petizes. Com esta demonstração, muita gente sugeriu-me no sentido de criar um projecto no qual os miúdos estivessem inseridos.

Certamente que não se fez rogado e aceitou o desafio…

Exacto. Assim, no dia 30 de Outubro de 2010 reunimos e no dia 2 de Novembro do mesmo ano, demos o pontapé de saída do projecto que denominamos “Brincando com a Bola”.

O trabalho que tem desenvolvido com os petizes satisfaz-lhe?
Creio que sim, pois tenho esta actividade no sangue, portanto, faço a mesma com muito amor e de coração. Tanto é que pela primeira vez, tentei dar uma reviravolta na minha actividade para trabalhar com menores de dez anos de idade. È com esta rapaziada que tenho vindo a trabalhar, embora tenha alguns jovens de 20 anos. Já trabalhei com jovens com esta idade há muitos anos, inclusive atletas que hoje estão a dar cartas no futebol nacional. Este é um trabalho novo, embora com muitas dificuldades, mas sinto um grande prazer de trabalhar com estes petizes. É como se de uma creche se tratasse.

Quantos jovens fazem parte do projecto “Brincando com a Bola”?

Estamos com 75 crianças e a tendência é crescer. Desse número, 45 são menores de dez anos. Temos alguns petizes com menos de cinco anos já a dar os seus primeiros passos, inclusive um menino de três anos de idade que já consegue fazer passes. Aproveito a oportunidade para convidar os outros órgãos de comunicação social (jornais, rádios e televisão) para testemunhar as maravilhas que o pequeno tem vindo a proporcionar-nos.

Escola do Zango necessita
de um campo com condições


Com o trabalho que está a desenvolver o que se pode esperar no futuro?
Um grupo de jovens com formação aceitável para enriquecer o nosso futebol. Mas, a perspectiva do êxito do projecto não passa só por mim, pois, é uma obra em que deve estar incluída a sociedade, mormente a administração local (Viana). Se abraçarmos a política de inserimos a actividade pré-escolar aos quatro/cinco anos de idade e também incluirmos as actividades desportivas, será uma mais-valia, e não apenas para esta escola que muita gente quer abraçar.

Que apoios tem tido das entidades locais, mormente da Administração Municipal de Viana?
Conforme disse antes, este é um projecto que está na sua fase embrionária, está a ser divulgado agora, pois foi criado em Outubro último. Vamos agora endereçar documentos às instituições do município e da comuna para ver a possibilidade de apoiarem mais um projecto de um angolano com bastante vontade e que ainda tem muito a dar às camadas jovens. Espero desta feita que o país aproveite o pouco que sei, pois há colegas que estando no exterior, me contactam para “beber”dos meus conhecimentos. Desta forma, aproveita o espaço do Jornal dos Desportos para agradecer o presidente dos Polivalentes FC, o senhor Tareia que ofereceu a escola as primeiras bolas, assim como a direcção do Petro Atlético de Luanda, na pessoa dos professores Queirós, Alberto e Panzo e tantos outros que, sempre possível, têm dado um pouco do seu conhecimento e outros apoios.

Que apoios espera por parte de quem de direito?
De uma forma geral, começo por apelar ao Ministério da Juventude e Desportos, a Associação Provincial de Futebol de Luanda (APFL), a Direcção Provincial dos Desportos, a sociedade civil, assim como a administração local (Viana), a contribuírem com aquilo que estiver a seu alcance. Não estou a pedir avultadas somas de dinheiro, mas sim apoios para que o projecto tenha êxitos. Precisamos de material indispensável ao nosso trabalho, principalmente de um espaço para a construção de um campo com melhores condições. Este é um projecto que não é apenas meu, mas de todos angolanos, por isso, precisamos de todo o apoio, porque do mesmo vão nascer outros Manuchos, Makangas, Davids, Nandinhos, Charas, Zé Pequenos, Reginaldos e tantos outros.

A escola, certamente, tem algumas dificuldades. Quais as que mais incomodam a vossa direcção?
Sim, temos imensas dificuldades. Treinamos num lugar improvisado, sem condições para efeito, e que quando chove as lagoas tomam conta do espaço. Isso não pode virar moda, ou seja, os escalões de formação treinem em espaços baldios. Estamos a trabalhar neste espaço até endereçarmos os documentos às instituições de direito no sentido de nos cederem um espaço para trabalharmos sem grandes sobressaltos.

“O futebol nacional
já teve bons momentos”

Falou da fraca aposta que se faz a nível do futebol jovem. E que avaliação faz, de forma geral, da modalidade no país?
Devo dizer que o futebol nacional já teve bons tempos. Hoje verifica-se momentos altos e baixos pelas razões que já enumerei, como a fraca aposta nos escalões de formação e a falta de valorização dos técnicos nacionais.

Essas são as únicas causas do estado “moribundo” que a modalidade atravessa?
Não. A falta de uma política adequada para o nosso futebol é outra causa da decadência da modalidade. Nós chegamos a uma altura em que os dirigentes, tanto federativos como de clubes, têm sido mais teóricos, logo, os grandes prejudicados somos nós. Para dar um exemplo, os colegas que estão nas camadas jovens podem confirmar o que estou a dizer, não existe um acompanhamento do ponto de vista prático. Há boas entrevistas, boas conversas da parte dos responsáveis seniores, mas quando chega a hora de se debruçar sobre a remuneração do pessoal que trabalha com as camadas de formação, para eles é um calcanhar de Aquiles.

Mas não acha que os próprios técnicos são culpados dessa situação?
Concordo. Mas o que fazer? Muitos são profissionais dessa área, por isso, sujeitam-se, infelizmente, a essas coisas. Mas tenho fé que alguém vai trabalhar para que as coisas se invertam no futuro, porque temos muitos técnicos capacitados para formar grandes estrelas. Falta-nos apenas mais apoios e carinho da parte de quem traça as estratégias, principalmente nos clubes, pois, como disse, temos no país treinadores com provas dadas no processo de formação de jovens.

Mas o inverso acontece, ou seja, os técnicos estrangeiros têm recebido esse apoio. Não será por terem maior formação que os angolanos na área de treinamento?
Não. Felizmente, hoje temos no país muitos técnicos licenciados na área do desporto, inclusive, alguns são mestres, especializados em futebol em diversas universidades da Europa e da América do Sul.

Mas eles (técnicos estrangeiros) acabam por ser bem-vindos…
Angola serve para todos os técnicos capacitados que queiram trabalhar de forma honesta. Quero com isso dizer que não sou contra a vinda de treinadores estrangeiros, mas sim contra a contratação de pessoas que sabem menos que os nacionais. Somos angolanos e temos que transmitir o nosso saber às gerações vindouras de formas a podermos tirar o maior proveito naquilo que é nosso. Logo, podemos concluir que a base é a sustentação de qualquer projecto.

O que os técnicos de formação ganham vai de encontro ao trabalho que desenvolvem?
Esse é outro grande problema que vivemos. Aliás, por isso disse mais acima que somos ignorados e abandalhados. A remuneração dos técnicos das camadas de formação deve ser vista com maior seriedade, e não como até agora, em que um treinador recebe uns míseros de AKZ 30.000.00 (trinta mil Kwanzas) que só servem para custear as despesas inerentes ao transporte. Porquê não pagar no mínimo três a quatro mil dólares ou o equivalente em kwanzas a um técnico das camadas jovens?                         

André Makanga e esposa
encorajam “Ti Nandinho


O técnico Armando Faria passou por muitas equipas. Ganhou alguma coisa?
Ganhei sim.

O quê por exemplo?
Muita amizade e respeito. Hoje sou o Armando Faria “Ti Nandinho” pelo facto de ter realizado um trabalho que dá para abrir portas e ter boas relações com as pessoas, pois, me sinto amigo, pai de todos jogadores que passaram por mim. Não é por acaso que no dia 18 de Julho do ano transacto, o jogador André Venceslau Makanga, ex-capitão da Selecção Nacional, em companhia da sua esposa, saíram do Kuwait para Angola, para homenagear aquele que ele considera seu pai e fazer saber à esposa que fui o grande impulsionador da sua carreira e ter feito dele o homem que é hoje.

O André Makanga é o único exemplo?
Não. Muitos outros que passaram por mim, após terem conhecimento do projecto que abracei, têm ligado encorajando-me a prosseguir, porque acreditam nas minhas capacidades para formar novos jogadores. Há tempos recebi um telefonema da esposa do André Makanga, que depois de saber do projecto ficou entusiasmada e prometeu o apoio. Outros prometeram visitar a escola e farão entrega de alguns donativos à mesma.

Que lembranças carrega das equipas e clubes em que trabalhou?  
Muito boas, já que trabalhei com personalidades de vários extractos sociais, como o Vice-Presidente da República, Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó” e o General Kundy Paihama, quando tinha os meus 26 anos de idade, como técnico da equipa das TGFA, os Dínamos de Angola. Trabalhei ainda com Bi-Figueredo (ex-SG da FAB), José Martinez (presidente do Interclube), Jerónimo Neto (ex-seleccionador nacional de andebol), assim como passaram por mim alguns jogadores que hoje fazem história no futebol nacional e internacional. Esses são os meus ganhos.       

Perfil
Nome
: Armando da Costa Faria
Naturalidade: Rangel/Luanda
Nacionalidade: Angolana
Data de Nascimento: 10.3.1964
Estado civil: Solteiro
Filhos: Sete
Altura: 1,70 cm
Peso: 67Kgs
Nº de calçado: 42
Desporto ideal: Futebol
Prato preferido: De tudo um pouco desde que seja bem confeccionado
Bebidas: Água e sumos
Tabaco: Não
Princesa encantada: Minhas filhas
Cor preferida: Azul
Religião: Católica 
Segue moda? Não  
Calor ou cacimbo? Calor