Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Os treinadores hoje quase no tm voz"

Melo Clemente - 23 de Novembro, 2019

Tcnico considera que a modalidade bateu no fundo

Fotografia: Kindala Manuel|Edies Novembro

A Selecção Nacional de basquetebol em seniores feminino poderia ter um desempenho melhor no Torneio de Pré-Qualificação zona africana, caso os constrangimentos vivido pelas bi-camapeãs africanas fossem previamente acautelados.
A revelação foi feita recentemente em Maputo, Moçambique, pelo seleccionador nacional, Apolinário Quaresma Paquete, em entrevista ao Jornal dos Desportos, quando fazia o balanço sobre a prestação do cinco nacional, que falhou o apuramento ao Torneio Pré-olímpico, prova selectiva aos Jogos Olímpicos de Tóquio, Japão, em 2020.
“Penso que foi uma participação possível, não aquilo que eventualmente nós vaticinávamos. Portanto, se tivéssemos feito tudo aquilo que delineamos no relatório final, após a disputa do Afrobasket de Dakar, tenho a plena convicção de que a nossa prestação poderia ter sido melhor, que passava, como evidente, pela nossa qualificação ao Torneio Pré-olímpico”.
Apesar de ter falhado o apuramento, o técnico principal das bi-campeãs africanas da “bola ao cesto”, enalteceu, uma vez mais, o contacto internacional que as jovens jogadoras tiveram na prova, que apurou as duas representantes do continente berço da humanidade ao Torneio Pré-olímpico, designadamente a Nigéria e Moçambique.
“Acredito que valeram os jogos que realizamos, creio que as jovens que aqui estiveram acabaram por ganhar sempre alguma coisa. As equipas nos colocaram sempre muitos problemas, no decorrer dos jogos, e acredito que isto terá, de alguma maneira, contribuído para o crescimento delas”.
Questionado sobre o jogo de estreia, em que o cinco nacional colocou praticamente em sentido as actuais vice-campeãs africanas (Senegal), com quem perdeu por 71-75, depois da cabazada que levou em Dakar, por 54-88,o seleccionador nacional apontou o excesso de confiança das senegalesas por um lado, por outro, a determinação defensiva evidenciada pelas suas pupilas.
 “Penso que há muitas coisas no meio de tudo isso. Penso que também pelo facto do Senegal ter informação, segundo a qual Angola não estava a treinar e ter sido convocada a última da hora, terá havido de algum modo um certo menosprezo, fruto da vitória (88-54) que elas conseguiram em Dakar. Portanto, foram completamente surpreendidas. Nós queríamos imprimir o nosso ritmo, porque pretendíamos fazer um terceiro jogo, apesar dos constrangimentos que já me referi, queríamos ganhar no mínimo um jogo para fazermos mais um, que seria o terceiro jogo. Entre jogar duas vezes e jogar três com os mais fortes, acabamos por apreender sempre mais e granjear outro tipo de traquejo, por esta razão, apostamos tudo naquela partida”.
De acordo ainda com o técnico Apolinário Quaresma Paquete, a inexperiência das jovens jogadoras terá permitido, que a selecção do Senegal vencesse na ponta final o desafio.
“Apostamos tudo naquele jogo, quando nos apercebemos que o equilíbrio era possível e conseguimos passar à frente do marcador. Não tivemos qualquer receio em nos aplicar ao fundo e buscar o resultado que pudesse satisfazer os nossos anseios. Não fomos felizes, fruto também da nata de jovens que possuímos naquele momento crucial do jogo não fomos capazes de conservar a diferença pontual. No último quarto houve um momento crítico em relação a desatenção defensiva. Face ao movimento ofensivo que as senegalesas estavam a realizar, elas souberam tirar proveito e conseguiram vencer a partida”.
Apesar do desaire, o seleccionador nacional tirou ilações positivas do prédio.
“Nós tiramos ilações muito positivas, daquilo que somos capazes de fazer e mais uma vez ficou demonstrado que quando se quer, mesmo reconhecendo que do outro lado tem uma equipa muito forte, é possível fazerem-se coisas muito boas e positivas”.
Frente ao Mali, na segunda jornada do Grupo B, as bi-campeãs africanas estiveram muito aquém do habitual. Paquete prefere minimizar o calendário, que colocou o cinco nacional a realizar dois jogos consecutivos.
“Mas um dado subjectivo. Sabe que em termos desportivos isto também pode acontecer, porque partimos de princípio que do posto de vista da condição física estávamos ligeiramente repartidos. Como sabe, há um grupo que começou a trabalhar mas cedo, o outro começou muito mais tarde, então nós não estivemos todos dentro daquilo que chamamos forma desportiva. Por esta razão, também oscilamos, acredito também pelo facto de no jogo anterior termos dado tudo de nós, porque sabíamos que era possível ganhar, acabamos por nos desgastar demais e foi crucial na partida diante do Mali, em que perdemos por 45-65. Penso que o Mali ganhou bem e o resultado só peca pelo facto de ser muito expressiva a diferença pontual”.
O seleccionador nacional enalteceu a integração de jovens jogadoras, tendo apontado algumas atletas, que estão praticamente em fim de ciclo no combinado nacional.
“Neste grupo, as atletas que eu diria que estão em fim ciclo apontava a Angelina; a Fineza penso que ainda aguenta um ou dois campeonatos, para além da Italle Lucas. Penso que o resto é tudo juventude. Penso que nós começamos mal, aquilo que havíamos vaticinado, quando foi do apuramento do Campeonato Africano, porque há etapas que não foram respeitadas, por esta razão, aquilo que nós apontamos para médio e longo prazo fica comprometido. Os tais dez a oito jogos de controlo, que era necessário fazermos naquela fase, que antecedia o Afrobasket, era de extrema importância para nós, não foram feitos, a par disso não tivemos uma preparação condigna”.

Futuro
Técnico Paquete aponta soluções


Conhecedor profundo do basquetebol, em particular o feminino, o técnico principal do Grupo Desportivo Interclube e da Selecção Nacional, é de opinião que chegou o momento de arregaçar as mangas
 “Agora há que arregaçar as mangas, pensar naquilo que temos internamente, fazer-se um levantamento de tudo quanto possuímos a nível do feminino, portanto, neste caso, estamos a falar de recursos humanos e começarmos a olhar com olhos de ver, aquilo que será o nosso futuro. Há muitas coisas que devem ser, naturalmente, em
fórum próprio; devem ser conversadas, para que mudemos um pouco a nossa forma de estar e de pensar o basquetebol feminino”.
Entristecido com alguns dirigentes pela forma como têm conduzido os destinos da modalidade, o técnico mais titulado do continente berço da humanidade, a nível de clubes, deixou um forte apelo.
“O apelo que faço aos dirigentes das instituições desportivas do nosso país, é que não exijam resultados desportivos nos escalões de formação. A formação é mesmo para formar, quer fique em primeiro, quer fique em segundo, terceiro, ou quarto lugares. Portanto, repito, não exigem que os treinadores ganhem necessariamente, por forma a que estes sejam obrigados, ao invés de trabalharem de forma formativa, formem de forma competitiva, o que de alguma forma adia, ou seja, dificulta o aprendizado destes mesmos atletas, que acabam por começar a competir sem eles terem apreendido”.

Revelação
“Temos que mudar um pouco o paradigma”


Apesar de reconhecer as qualidades dos jogadores baixos no basquetebol nacional, Apolinário Quaresma Paquete alertou sobre a necessidade de se prestar maior atenção aos atletas, acima dos um metro e noventa centímetros de altura.
 “Temos de mudar o paradigma, da forma como treinamos, a forma como seleccionamos os jogadores, quer no feminino, quer no masculino, para eventualmente encararem a competição mas a frente, que tem a ver, por exemplo, com a selecção de jogadores altos”.
Para o seleccionador nacional, existe uma necessidade de se prestar maior atenção aos jogadores, que estejam a acima dos um metro e 90 centímetros de altura.
“Com todo respeito que tenho pelos jogadores baixos e que muitos deles são muito bons, temos que ter algum cuidado com os atletas com mais de um metro e noventa centímetros de altura, quer no feminino, quer no masculino. Porque estes vão seguramente jogar basquetebol daqui para o futuro. Agora se não tivermos atenção e o cuidado com estes atletas, ensinando o jogo como ele é, ajudarmos a materializar aquilo que são os seus sonhos e não os nossos sonhos enquanto  treinadores, vai ser extremamente difícil. Temos que ser radicais, na forma como temos que mudar o paradigma de como temos treinado a nível da nossa formação”.
Paquete disse, por outro lado, que não são os seleccionadores que fazem selecções fortes.
“Não é o seleccionador nacional que faz uma Selecção forte. As selecções começam nos clubes e se os clubes não tiverem basquetebol forte fica difícil ter uma Selecção forte. Os jogadores têm que dominar primeiro aquilo que são as técnicas do próprio jogo, muni-los de capacidade e condições, para que no futuro sejam bons executantes a todos os níveis”.
O técnico principal do Grupo Desportivo Interclube falou, igualmente, na necessidade de se começar a expor jogadoras para o velho continente e não só.
“Temos exemplos das equipas que estiveram a disputar o Torneio de Pré-Qualificação zona africana, vou aqui realçar a Nigéria, que tem qualquer coisa como nove jogadoras, que não actuam no basquetebol nigeriano. Elas estão todas na América, algumas na Europa e o basquetebol praticado nestas paragens é muito evoluído. Se nós não olharmos para estas nações como exemplo ou referências e tentarmos trabalhar nesta perspectiva, vai ser muito difícil, nos próximos dez anos, conseguirmos uma equipa altamente competitiva,  porque esta geração que agora começamos e que de alguma maneira enfrenta todos estes entraves, não será a mesma daqui a dez anos”.
Questionado sobre o futuro da modalidade, Paquete afirmou “que passa necessariamente em trabalharmos numa só direcção, quer os que dirigem, que no fundo acabam por determinar aquilo que é o nosso trabalho, e nós eventualmente projectarmos, porque quem tem a visão futurista das coisas, como vão acontecer e como devem acontecer, modéstia a parte, somos nós treinadores”.  

REVOLTA
 “Os técnicos são relegados para um plano inferior”


Apolinário Quaresma Paquete lamentou profundamente, a forma como os treinadores nacionais, nas mais variadas modalidades, são relegados para o plano inferior.
Para além de serem relegados para o segundo plano, as suas ideias não são levadas em consideração, razão pela qual o desporto angolano vai degradando a cada ano que passa.
“Infelizmente, nós os treinadores, somos relegados para o segundo plano. Os treinadores hoje quase que não têm voz. Os técnicos, quando apontam caminhos, não são ouvidos como deviam ser e de alguma maneira inviabiliza aquilo que é o processo de desenvolvimento. Portanto, se olharmos todos para uma só direcção e trabalhamos todos unidos, é possível tirarmos o basquetebol da situação em que se encontra”.  

Basquetebol bateu no fundo

“Com todo respeito que tenho, para aqueles que têm uma opinião diferente da minha, o nosso basquetebol bateu no fundo. Apesar de batermos no fundo não estamos ainda mortos, por isso, ainda vamos a tempo de nos reerguermos. Com base nas coisas negativas que aconteceram, vamos procurar encontrar os antídotos necessários para colocarmos a nossa modalidade no caminho certo”.
Ao finalizar, Paquete afirmou que a classe tem sido impotente para inverter o actual quadro.
 “Nós sozinhos não somos capazes de inverter o actua quadro. Os treinadores foram relegados para planos secundários, não têm voz, ao contrário do que acontecia no passado, onde nós traçávamos as politicas. Hoje, aqueles que dirigem acabam por abocanhar tudo. E isto dificulta aquilo que são as nossas expectativas, os nossos conselhos, a nossa visão de como as coisas devem ser conduzidas”.