Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Paguei caro a opo pela seleco"

Paulo Caculo - 06 de Agosto, 2018

Internacional angolano cumpre carreira em Espanha e recorda fase em que deixou o plantel ingls

Fotografia: Jos Cola| Edies Novembro

O internacional angolano Manucho Gonçalves, do Rayo Vallecano de Espanha, está no país em gozo de férias. A revelação CAN 2008 aceitou o convite do Jornal dos Desportos para \"abrir o livro\" e fazer uma radiografia em torno da carreira. Numa conversa franca, o atacante disse estar \"arrependido\" por ter declinado, em Janeiro de 2010, o convite do professor Alex Fergusson para continuar no plantel do Manchester United, em detrimento da concentração na Selecção Nacional, tendo em vista o Campeonato Africano das Nações (CAN), organizado por Angola, naquele ano.
\"Foi a pior decisão que tomei na minha vida\", assevera, categórico, Manucho Gonçalves, certo de que se acatasse os conselhos do então treinador do Manchester United, na altura, seguramente estaria a viver uma fase da carreira muito mais brilhante e de maiores sucessos.
\"O único arrependimento que tenho na minha vida foi ter saído do Manchester United. E a minha saída do Manchester não foi porque quis. Muita gente não sabe o que aconteceu, de concreto. Ninguém conhece a realidade. Acho que o maior erro da minha vida foi a decisão que tomei\", disse, para em seguida revelar a verdadeira história:
\"O que se passou é que tínhamos o CAN de 2010 por disputar em Angola, e, na altura, o seleccionador nacional, Manuel José, tinha afirmado que só convocaria para a selecção os jogadores que estavam no activo. E uma das vezes encontrou-me no Hotel Trópico e disse-me, que se não fosse buscar um clube para jogar não seria convocado\", esclareceu.
Dado o facto de, na altura, não ter espaço no plantel às ordens de Alex Fergusson, pois estava acabar de chegar, aliado à pressão que estava a sentir do seleccionador, Manucho Gonçalves deixa-se levar pela emoção e, contra todas as expectativas, decide declinar o convite do treinador do Manchester, para seguir com a equipa em estágio.
\"Era jovem, falei com o meu pai, mas aquela vontade de jogar o CAN no meu país era enorme. Depois do CAN de 2008 ter-me corrido muito bem, estava confiante de que podia ser campeão africano em 2010, então decidi falar com o professor Alex Fergusson, que sempre foi um pai para mim, desde os primeiros dias que cheguei ao Manchester. Ele não concordou com a ideia e aconselhou-me a não sair, porque estava em fase de adaptação na equipa\", garantiu.
Incapaz de perceber as intenções do técnico inglês, o avançado angolano manteve-se irredutível nas suas aspirações e sonhos de disputar o CAN daquele ano em Angola. Diz ter justificado ao treinador de que se tratava de \"uma oportunidade única na carreira, de poder vencer um CAN de futebol\", tendo confessado ainda que, de formas a convencer o treinador a desistir da ideia de tê-lo no plantel, explicou que era um sonho jogar o CAN no seu país.
\"Ele (Alex Fergusson) insistiu comigo, mas fui teimoso. Era jovem e tomei a decisão de falar com o Jorge Mendes, na altura meu empresário, para procurar outro clube. Expliquei a ele (Jorge Mendes), que se não conseguisse rápido um clube onde pudesse jogar de imediato, o seleccionador não iria me convocar para o CAN. Foi daí que o Jorge Mendes colocou-me no Valladolid e saí do Manchester United\", contou.
Hoje, o jogador confessa ter sido este o principal motivo que o fez perder a chance de poder arriscar uma carreira de sonho, com a camisola do histórico clube inglês. Diz ainda ter resolvido desistir do Manchester, porque estava desanimado com o pouco espaço que tinha no plantel, onde encontrara grandes estrelas do futebol mundial.
\"Se, na altura, não tivesse sido teimoso, resolvesse acatar os conselhos do Alex Fergusson para permanecer no plantel do Manchester United, mesmo não jogando, mas cumprindo o período de adaptação, acredito que, até hoje, estaria a jogar em Inglaterra, porque já havia jogado no Hull City. Fiz muitos jogos pelo City, mas acabei por ser atraído pelo desejo de representar a pátria\", confessou.
Manucho Gonçalves não esconde o remorso, por não ter prolongado a sua presença em Inglaterra. Refere, por isso, estar claramente ciente de que, por vezes, a decisão de defender as cores do país, acaba com o sonho de uma carreira inteira.
\"Nós, jogadores, às vezes tomamos decisões muito precipitadas, que podem trazer arrependimento no futuro. E foi o que me aconteceu. Hoje, estou arrependido por ter decidido jogar o CAN de 2010, em detrimento de uma experiência mais prolongada no Manchester United, que me podia projectar muito mais na carreira\".

POLÉMICAS NA SELECÇÃO
“Fui tratado de indisciplinado
por exigir melhores condições”

 
As polémicas vividas pelo internacional angolano durante a sua presença nos Palancas Negras mereceram, igualmente, uma abordagem na entrevista concedida ao nosso jornal. Manucho Gonçalves recusa ser considerado de indisciplinado e assegura ter sido muito mal interpretado por algumas pessoas na Federação Angolana de Futebol (FAF).
O atacante refere que sempre primou por uma atitude humilde e educada, enquanto esteve ao serviço da Selecção Nacional, pelo que, não aceita que seja rotulado como um jogador que desestabiliza balneários, simplesmente por exigir melhores condições de trabalho.
\"A gente está habituado a trabalhar de forma diferente nos clubes onde passamos e quando chegamos à Selecção encontramos condições totalmente diferente. É isso que acontece, infelizmente. Em Angola sempre criticaram-me e alegaram ter problemas com treinadores e dirigentes, mas hoje em dia estou na Europa e nunca tive problemas com ninguém: nem com treinadores, dirigentes e clubes. Toda a gente que passa pelos clubes onde passei, encontrará boas referências minhas, apenas positivas\", disse.
O jogador considera que sempre exigiu melhores condições de trabalho durante as chamadas para representar a selecção. E sublinha que, devido a escassez de condições, é que chegou tarde para uma concentração convocada pelo técnico Manuel José, após o CAN de 2010, tendo sido inclusive afastado da lista de convocados.
\"Às vezes vamos para a selecção, mas não exigimos dinheiro, mas apenas condições que nos permitam fazer um bom trabalho. Mas, às vezes, a informação que as pessoas transmitem ao público é a de que os jogadores que jogam no exterior do país estão a pedir dinheiro ou exigiram isso e aquilo, mas não é a verdade. A verdade é que nós pedimos condições\", acrescentou o atacante angolano.
Manucho garante que para qualquer atleta profissional, primeiro estão as condições de trabalho e só depois vem o resto. E, refere o jogador, que quando os atletas falam em condições, querem dizer uma boa cama para dormir, boa alimentação e centro de estágio para treinar, com bom relvado.
 \"É tudo que se exige a um atleta profissional. Muita boa gente não sabe, mas quando se dorme numa cama em péssimas condições podemos contrair lesões. Os jogadores que têm boas condições de trabalho, até chegam a esquecer o dinheiro. A vontade de trabalhar é diferente\", afiançou.
O avançado confessou, ainda, que guarda muito boas memorias da sua carreira ao serviço da Selecção Nacional. Afirma ter sido feliz com a camisola dos Palancas Negras, sobretudo em jogos de apuramento ao CAN e mesmo em fases finais da Taça das Nações Africanas.
\"Sempre dei o meu máximo com a camisola da selecção e tentei dar o meu melhor, por isso é que guardo as melhores recordações. Fiz golos que ajudaram Angola a apurar-se para o CAN. Estive presente em quatro CAN\'s. São coisas que sempre vou lembrar para o resto da minha carreira e mesmo após terminar de jogar futebol. Tenho muito a contar aos meus filhos\", rematou.

FUTURO
“Vou jogar até o físico permitir”

Manucho Gonçalves não espera pendurar as botas tão-cedo. O jogador confessa sentir-se muito bem fisicamente, e disposto para continuar a cumprir uma carreira em grande nível. Apesar dos 35 anos, garante sentir uma frescura física de um futebolista de 25 anos.
\"Quero jogar tantos anos, quantos a minha frescura física permitir. Sinto-me bem e enquanto estiver neste estado de forma, espero prosseguir a minha carreira, sem interrupções. Por isso é que tão-cedo termine as minhas férias, regresso a Espanha para tratar do meu futuro. O meu contrato terminou e espero renovar com o Rayo Vallecano. Se não puder, pensarei em outros voos\", afiançou o avançado, que justifica as razões pela preferência em Espanha.
\"O clube vive uma nova fase. Está de regresso à principal liga espanhola e posso sentir que foi um orgulho ter contribuído, em parte, para este sucesso do Rayo Vallecano, apesar de não ter participado dos últimos jogos, pelas razões que já evoquei. O Rayo Vallecano é um clube incrível, com uma massa associativa bastante emotiva\", disse.
O jogador refere-se a Vallecano, como sendo um clube de sonhos e com um povo bastante alegre e simpático. Garante ter sido recebido \"muitíssimo bem\" e ao longo destes anos ter de vivido \"momentos de satisfação\", pela hospitalidade do público.


EM ESPANHA
Lesões e infelicidade
atrapalharam a época  

A última época de Manucho Gonçalves no Rayo Vallecano não correu como o avançado pretendia. O jogador ficou afastado das últimas jornadas por motivos de lesão. E, como se não bastasse, este infortúnio, teve ainda de enfrentar a notícia da morte do irmão em Luanda.
\"A época não foi muito boa, para ser sincero, porque tive vários contra-tempos. Além da lesão nos adutores, que me levou a ficar quatro meses parado, tive depois uma infelicidade, com o falecimento do meu irmão, e que para recuperar levei também muito tempo. Só regressei nas ultimas jornadas\", esclareceu o avançado angolano.
\"Já pensava, inclusive, em recorrer a um psicólogo, para conseguir uma recuperação em pleno, mas graças a Deus consegui recuperar nos últimos jogos, fiz os últimos jogos e, como não foi uma época tão boa, estou em conversa com o próprio clube para ver se continuo. O mercado de transferências fecha no dia 31 deste mês e os meus colegas dizem, que eu gosto muito de perder a pré-época, estou com 35 anos e vamos ver se continuo no Rayo Vallecano ou se rumo para outra experiência\", disse.
O avançado revela ter outras opções em Espanha, além do Rayo Vallecano, que gostava muito de abraçar. Não aceita citar os clubes, mas diz serem boas propostas, embora um pouco abaixo daquela, que oferece actualmente o clube de Vallecano. 
\"Existem outras propostas, mas nem sempre as propostas que surgem são as melhores, sobretudo a julgar pela idade, mas vamos ver quais serão os valores apresentados por estes clubes\", afirmou, antes de concluir:
\"Gostava de continuar no Rayo Vallecano. Sinto que existe também esta vontade dos dirigentes locais, em me terem no plantel para a época que se avizinha. Mas, como deve saber, não depende apenas de mim. Vai depender também das propostas a serem colocadas por cima da mesa. Se o que o clube tiver para me oferecer para a nova época for agradável para mim e a minha família, não terei como recusar\".
 
ORGULHO
“Joguei nas
melhores ligas”

A passagem por experiências no futebol inglês e espanhol, consideradas as melhores ligas de futebol do mundo, fazem de Manucho Gonçalves um futebolista orgulhoso. O jogador não esconde isso e faz questão de afirmar não ter razões para se queixar da carreira.
O avançado sublinha que, quando enveredou para a carreira de futebolista, jamais imaginou que fosse pisar os melhores relvados do mundo. Confessa, por isso, ser indescritível a emoção que sentiu ao pisar, pela primeira vez, o relvado do Old Trafford, estádio do Manchester United.
\"Quando falei aos adeptos que vinha de Angola ficaram todos surpreendidos, porque não conheciam o nosso país. Achei o momento fenomenal e muito decisivo para aquela fase da minha carreira. Achei mais bonito e interessante também, porque o nome de Angola estava na boca daquelas pessoas\", afirmou.
Manucho referiu ter cumprido já uma carreira de sonho, embora acredita que pode jogar mais alguns anos. Destaca a passagem pelo Valladolid de Espanha, clube onde chegou após carreira fracassada no Manchester. Diz ter vivido muito bons momentos neste clube espanhol, sobretudo pelos golos rubricados ao Barcelona e ao Real Madrid.
\"Foi uma alegria marcar dois golos ao Iker Casillas, que até ao jogo com o Valladolid estava imbatível. Foi um jogo memorável. Até nas bancadas já via pessoas com a bandeira de Angola. Acho isso uma fase bonita da minha carreira. Sem esquecer também o facto de ter feito golo ao Barcelona. É um orgulho enorme para mim ter jogado nas melhores ligas do mundo e de ter pisado grandes relvados, ao lado das grandes estrelas\".