Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Paulo Madeira projecta recandidatura

11 de Janeiro, 2016

paulo madeira e a viso sobre os escales mais baixos

Fotografia: Jos Soares

Que projectos foram gizados pela federação para o ano de 2016?
 Quando entramos em 2013, o nosso lema era inovar para vencer. E a inovação passava não só por solucionar alguns problemas que eram conjunturais, que foram herdados e avançarmos por uma questão de normalização. Normalização a nível da utilização dos recursos, hoje que estamos no mundo a nível das tecnologias de informação. Hoje temos o nosso site e o facebook em perfeita actividade. Temos também um recurso que foi usado agora na Taça dos Clubes Campeões, e vamos usar no africano e  no BIC Basket porque já fizemos o ensaio no ano passado, que é a possibilidade das pessoas acompanharem a nossa competição do BIC Basket, o campeonato sénior masculino de basquetebol em tempo real, com a estatística via internet, no facebook ou no nosso site. Como funciona isso? A pessoa acessa, vai ao jogo que quer acompanhar esteja em qualquer parte do mundo, apesar de não televisionar como tal porque nem sempre temos a transmissão em plataforma e no formato que seja possível que isso aconteça. Mas pode acompanhar em tempo real o resultado do jogo, os dados estatísticos. É uma ferramenta que já existe na FIBA, que nós adicionamos aquilo que são os nossos recursos para facilitar e tornarmos cada vez mais numa perspectiva universal. Também fizemos no ano passado, o lançamento de uma revista cujo número um, saiu em Novembro. Pensamos, porque agora tem regularidade trimestral, voltar a editar o nosso número dois, já em Fevereiro, se tudo correr bem. Vamos continuar no sentido de criarmos porque temos estado a criar centros de custos, daquilo que são os nossos compromissos, fundamentalmente a nível de competições e  conseguir patrocinadores exclusivos para essas provas, à luz daquilo que fazemos com o BIC Basket, que tem um patrocinador exclusivo que é o Banco BIC. Nós já conseguimos também agora para as Supertaças uma parceria com a empresa Play Angola, que é a empresa Casa do Casino de Angola a patrocinadora da Supertaça.   Queremos patrocinadores para as Taças de Angola e para os campeonatos de formação. Por isso, vamos continuar a trabalhar nesse sentido, porque isto vai ajudar-nos  bastante a termos os nossos centros de custo controlados, e avançarmos  para outros sozinhos a nível daquilo que são as nossas competições nacionais.
 
E a nível daquilo que são as selecções nacionais?
 A nível das selecções nacionais, também temos uma preocupação, principalmente a nível das selecções de formação, que são as que têm mais dificuldades em trabalhar. Temos de continuar à procura de apoios e de patrocinadores para que possamos gerir os centros especiais de treinos.

 Como vão funcionar esses centros especiais de treinos para que as pessoas percebam?

 Nestes campeonatos nacionais, como estes que estamos agora a assistir na Huíla, normalmente trazemos os treinadores das selecções nacionais dessa faixa etária. Eles observam e fazem não uma selecção propriamente, mas identificam um leque alargado de jogadores e jogadoras. E nós, tentamos mobilizar recursos para que esses jovens com potencial possam treinar ao longo do ano, com  melhor qualidade durante vários ciclos, para que possam observar a evolução deles. O ideal era nós termos um campo próprio que pudéssemos usar a qualquer altura, se calhar ter um alojamento com duas, três ou quatro camaratas, para que pudéssemos alojar os meninos e ter alimentação. Este, é o nosso foco e vamos continuar a trabalhar neste sentido. Nem sempre as coisas são fáceis, mas acreditamos nisso e este é o caminho para a renovação, inovação e mudança. Claro, que também usamos os clubes, como nossos parceiros nesse percurso. Mas este é o caminho. Relativamente a 2016, para além de continuarmos neste sentido, temos o compromisso de realizar e apoiar a participação das nossas selecções nacionais em dois Afrobasket, em sub-18 feminino e masculino, e também levar a nossa Selecção ao Torneio Pré Olímpico de Apuramento ao Jogo do Rio de Janeiro. Este ano é de renovação de mandatos. E então, vamos depois definir o que vai seguir-se e qual deve ser o programa para os próximos anos.

Falou do processo de renovação de mandatos. Pretende recandidatar-se a mais um mandato?
 Esta decisão não está tomada. Vamos ter uma reunião de grupo, porque eu não tomo decisões, de forma isolada. Vamos ter uma reunião de grupo daquilo que é o elenco actual. E nesta reunião de grupo, deve ser tomada uma decisão de continuidade minha ou de continuidade do nosso grupo com outra liderança.

RENOVAÇÃO  DE  MANDATOS
"Estou mais preocupado  com a melhoria da modalidade"


Sai com o dever de missão cumprida, por tudo o que fez em prol do desenvolvimento do basquetebol?
 Não. Não estou com o dever cumprido. Muito pelo contrário, eu sinto que tivemos muitas vitórias nesse percurso. Nós estamos à frente da Federação há três anos e acredito, que não sinto o dever cumprido. Muito pelo contrário, porque se muito foi feito, também há muito por se fazer. Porque a vantagem de nós imprimirmos uma determinada dinâmica, é efectivamente elevar aquilo que é a nossa ambição e perceber que há muita coisa por fazer. Daí, que muitas dessas coisas podem ser feitas com a nossa contribuição. Agora, eu também tenho tido uma forma de estar no basquetebol nacional, que independentemente de estar ou não nas figuras de liderança do basquetebol, digo não deixo de fazer a minha parte.

 Há motivos para tal?
 Porque, muito do que permitiu estar hoje à frente dos destinos do basquetebol nacional, deveu-se  ao que eu, de forma desinteressada durante muitos anos fiz, pelo basquetebol em vários pontos do nosso país. Por exemplo, estamos a trabalhar agora num projecto de formação em Ondjiva, no Cunene, onde praticamente neste momento não tem basquetebol. Estamos a fazer um projecto de formação, a nível de um colégio privado, inclusivamente estamos a edificar um campo. Estou a falar, estamos na Federação, mas numa perspectiva privada. Por isso, isto acontece e é feito também numa perspectiva porque o basquetebol faz parte da minha vida. Tive a felicidade de entrar para o basquetebol aos nove anos e estou aqui até hoje. Por isso, não vai mudar independentemente daquilo que se passa em 2016, eu continuarei no basquetebol. Eu digo que  as pessoas têm mesmo de me aturar, porque não estou preocupado com aquilo que é o mais visível ou o topo, mas estou preocupado é que o basquetebol melhore. E, acho que ainda há muita coisa por fazer e todos se quisermos fazer alguma coisa, vamos ter espaço para o fazer. Eu por exemplo, sou criticado por isso, mas não faço parte daquele grupo de pessoas do basquetebol que alguns estão fora da modalidade há 12 ou 14 anos, não vão a um campo há 12 ou 14 anos, não participam de nada, não acompanharam a evolução e muitos já não sabem quais as regras e com as quais nós jogamos hoje o basquetebol, o que é que mudou, que desenvolveu, que evoluiu em termos de conhecimentos técnicos e da própria cultura do jogo, mas quando chegam os momentos eleitorais vêem sempre concorrer porque acham que continuam a ser pessoas que têm muito mais contribuições a dar. Alguns se calhar, têm contribuições. Mas acho que as pessoas por perderem uma eleição e sentirem-se pessoas do basquetebol, não têm forçosamente de ficarem em casa porque perdeu e agora vê só na televisão. E, só estão presentes na vida do basquetebol, quando ganham eleições. Não é essa a minha postura e não vai passar a ser agora.

 No sector feminino em todos os escalões, a cada ano que passa, tende a diminuir o número de equipas?
 Efectivamente, porque os clubes cada vez mais se desinteressam e descomprometem-se com o feminino. Agora, nós vamos trabalhar  eu vou levar as assembleias-gerais a discutir muito bem o futuro do basquetebol feminino. Se não, não temos futuro, porque essa é a grande verdade. Temos as nossas atletas de maior qualidade a terminar a carreira. Eu tenho acompanhado os campeonatos de formação com muita acuidade. E se olharmos para aquilo que acontece na formação nos sub 16, 18 e mesmo as jovens que entraram nos últimos anos para a selecção nacional, não vislumbramos atletas com morfologia e com qualidade de uma Massicela, Nadir Manuel, Luísa Tomás. Por isso,  preocupa-nos precisamente porque este desinteresse continuado dos clubes para com o basquetebol feminino, está também a criar um fenómeno interessante e porque temos de reconhecer, o andebol se calhar fruto da tradição que tem no feminino, neste momento leva para o andebol muitas atletas que também e eu digo ao pessoal do andebol que poderíamos partilhar.

 Porquê essa intenção?
 Porque as meninas hoje, com a compleição física, morfologia, também boa para o basquetebol, a maior parte delas só estão ao serviço do andebol. E não só porque o andebol ganha, mas fundamentalmente pela estrutura organizacional que o andebol tem a nível dos clubes. É importante que se perceba isso. E se olharmos para o leque de equipas, que competem nos seniores femininos, do andebol é muito maior e sempre foi do que feminino. Agora, isto também tem de ser discutido, por isso, daí a nossa preocupação em levar às assembleias-gerais, precisamente para que os vários clubes também e principalmente aqueles que têm maior capacidade financeira, possam começar a avaliar a possibilidade de terem equipas de feminino, porque também é importante. Não basta terem as equipas seniores competitivas.
Porque se nós olharmos por exemplo por BIC Basket, quantas equipas que estão nesta competição têm o feminino ou mais ainda? Muito poucas. Acho que a nível do BIC Basket as únicas equipas que competem a nível feminino, nos seniores, é o Inter clube de Angola e o 1º de Agosto. Por isso, temos oito outras equipas, que não têm absolutamente nada a nível dos seniores femininos.
O mais preocupante, ainda, é que todos os anos, temos competições em femininos de sub-18, com seis ou oito equipas. E nessas formações todos anos há jogadores que chegam ao fim da carreira de juniores. Então, deveriam ter a possibilidade pelo menos de jogar mais alguns anos e demonstrar o seu valor porque nem sempre uma atleta aos 18 anos, já está com a qualidade de uma jogadora internacional.

"A renovação de um clube é garantida pela formação"
Os Campeonatos nacionais nos escalões de sub 16, em ambos sexos, decorrem na cidade do Lubango com um número reduzido?
  Mais uma vez estamos, nesta cidade maravilhosa, no Lubango. Que sempre tão bem nos recebe, porque a Huíla oferece condições ideias, para a prática do desporto. Temos os pavilhões, ainda operacionais, em condições de receber a nossa modalidade. Mas acima de tudo, existe um compromisso da parte do nosso elenco federativo, que é levar cada vez mais o basquetebol a todos os cantos do nosso país, onde existam condições para a prática da nossa modalidade para que dessa forma, possamos ajudar a ser um factor de motivação aos jovens a aderir ao desporto no geral e, especificamente, ao nosso basquetebol.

 Treze equipas, sete masculinas e seis femininas competem nos nacionais de sub 16. Esse número satisfaz a Federação, dado que estava previsto inicialmente 21 formações inscritas?

 Não estou satisfeito com o número, porque na perspectiva daquilo que é o ideal, seria nós termos 12 equipas da categoria feminina e 12 em masculino, pelo menos. Infelizmente, algumas equipas à última hora, desistiram da prova. Todo o mundo, hoje alega a questão de ordem financeira, provocada pela crise. Mas nós estamos também a manifestar a nossa preocupação com a direcção de alguns clubes, porque mesmo uma equipa que venha e fique hospedada em hotéis aqui na cidade do Lubango, falamos de valores para suportar essa prova na ordem de um milhão de kwanzas. Então, quando ouvimos falar dos contratos milionários, que algumas dessas equipas celebram com jogadores de futebol de seniores, inclusivamente de basquetebol, parece um contra-senso que se trabalhe todo ano com os jovens e depois não se tenha um milhão de kwanzas para ir a um campeonato de formação. Estamos a falar de um milhão de kwanzas para as equipas que queiram ficar hospedadas em condições ideias de hotéis e com condições a esse nível. Mas por exemplo, já não será verdade com as equipas que tiveram a possibilidade de ficar hospedadas no complexo escolar 14 de Abril, que é um dos apoios grandes que temos  na Huíla e desde já,  o nosso muito obrigado ao governo da província e direcção provincial da Educação, que têm ajudado neste sentido. Uma equipa que fica hospedada no 14 de Abril, não tem custos tão elevados, tem custos com alimentação e tem uma taxa que é paga à escola no sentido de garantir a limpeza, higiene e fornecimento de água. Por isso, esta é a realidade que nós temos e pensamos que se todos estivermos conscientes disso e da nossa responsabilidade para com a formação, porque nenhuma modalidade desportiva no nosso país sobrevive se não apoiarmos a formação, as coisas não podem mudar.E é engraçado e às vezes até acho ridículo, que alguns responsáveis desportivos apareçam publicamente a dizer, quando há insucesso, nomeadamente a nível do futebol, que temos de investir na formação, temos de prestar atenção na formação. E de facto, só prestamos atenção a isso, e só falamos sobre isso, quando há insucesso a nível dos seniores. Aí, já nos lembramos que de facto, temos de prestar mais atenção aos jovens e temos de prestar mais atenção naquiloo que são os viveiros que vão suportar as nossas equipas de seniores na perspectiva dos clubes e depois numa fase posterior vão suportar as nossas selecções nacionais. 

 As constantes ausências, dessas equipas, sobretudo na área de formação,também podem beliscar um pouco a sustentabilidade nos seniores?

 Eu prefiro nem me pronunciar sobre isso. Porque isto, é como (2+2=4). Os atletas não vivem para sempre. Os atletas possuem um período de vida, como jogadores, ao mais alto nível muito curto. E a renovação necessária de qualquer um dos clubes, das suas equipas, é garantida pela formação. E se nós repararmos nos últimos anos, tem havido uma dificuldade muito grande em renovar. O basquetebol conseguiu agora uma fornada nova de atletas, com perspectivas fundamentalmente a nível do sector masculino, fruto de um trabalho feito em 2013, muito aturado , com cerca de 57 jovens nas idades entre os 14 e os 16 anos. E agora, são esses jogadores que tiveram este trabalho mais cuidado, que são em princípio, aquilo que nós consideramos o futuro do basquetebol nacional. 

CONSTATAÇÃO
"Existem Associações
sem ter associados


Já se pode falar possivelmente num apoio da Federação para as Associações provinciais de modos a criarem-se campeonatos internos ou inter-regionais? 
 A Federação digamos, tem apoiado as Associações para que o façam. Agora, é importante que as pessoas percebam que isto não é da responsabilidade federativa. Muito pelo contrário. E hoje também a Nova Lei dos desportos vem precisamente para definir isso. Essa responsabilidade da realização das provas provinciais e regionais é precisamente das Associações provinciais porque às vezes há aqui um problema de assumir de responsabilidades. O que se passa é o seguinte: a Federação Angolana de Basquetebol, não é responsável pela organização das provas, por exemplo, vou tomar como exemplo na província da Huíla. Isso é responsabilidade da Associação provincial da Huíla, porque em termos de competências legais, não compete à Federação esta tarefa. Da mesma forma que por exemplo, nós organizamos agora a Taça de África dos Clubes Campeões, em feminino e masculino. A prova é uma competição FIBA, mas a FIBA não veio sozinho para Angola realizar a prova. A FIBA veio a Angola suportada pela Federação Angolana de Basquetebol para que essa prova seja organizada.
 
O que quer dizer com isso?

 Quero com isso dizer, que a Federação tem responsabilidade nacional, as Associações provinciais têm responsabilidades provinciais e cada um tem de fazer a sua parte. O que nós podemos e estamos a fazer, inclusivamente em alguns casos, estamos  a apoiar as associações que mais trabalham e que são mais representativas financeiramente. Estamos a apoiar com determinados benefícios e é importante que isso se diga publicamente. Como vocês sabem, a nível das inscrições dos atletas de alto rendimento cobram-se taxas federativas para isso. A Federação abriu mão de 60 por cento do valor dessas taxas, para que isso ficasse nas mãos das Associações, precisamente para que elas se sustentassem e tivessem a capacidade se calhar  ter um funcionário, de pagar papel, os seus consumíveis, de ter algum tipo de condições de trabalho, precisamente para que suportem a sua acção. Mas é importante que as pessoas que se comprometam no associativismo desportivo, percebam que têm de fazer a sua parte.

Como é que funcionam as Associações provinciais?

 As Associações funcionam com os seus associados e esses associados são os clubes. Então, as Associações não interferem na vida dos clubes. Os clubes têm vida própria. Agora, a Associação tem de criar condições para que esses clubes tenham possibilidades de competir no seu espaço territorial e a Federação depois tem de criar condições para que estes mesmos clubes que também são membros da Federação, possam competir nas provas numa perspectiva nacional e não numa perspectiva regional.