Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Pekandec de Malange as receitas do nosso clube vêm de pequenos negócios

Avelino Umba - 11 de Setembro, 2010

Pedro Capassa, presidente do Pekandec de Malange

Fotografia: Eduardo Cunha

Que motivos estiveram na base da desistência do Pekandec, após um bom início na competição?
Têm a ver com a falta de apoio. As coisas não estavam tão bem como as pessoas pensam. Aquando da preparação para o Campeonato Provincial, foi prometido um certo apoio institucional para a Segundona. As despesas no Provincial seriam da nossa responsabilidade e para a competição nacional seriam cedidos apoios financeiros, de maneira que o futebol de primeira água se fizesse sentir na província da Palanca Negra Gigante. Com essa promessa, procurámos fazer tudo o que estava ao nosso alcance para jogar o Zonal.

Disse que fizeram tudo o que estava ao vosso alcance. O que faltou para desistirem da prova?
Depois disso, surpreendeu-nos a mudança da série: passámos da Série C para a A. Estávamos inseridos com as equipas 11 Bravos do Maquis e Sagrada Esperança da Lunda-Norte, que compete no Girabola’2010. É uma região com equipas consideradas pequenas, mas podiam competir sem grandes sobressaltos, as deslocações não seriam tão onerosas para a Lunda-Norte, Lunda-Sul e Moxico. É uma realidade diferente comparativamente a outras localidades do país, como Cabinda, que se situa num extremo, cuja deslocação é feita por mar ou avião. Esses constrangimentos fazem com que as equipas de Malange, a sobreviverem de si mesma, não subam para o Girabola.

Mas a equipa da Baixa de Cassange está a lutar para atingir o Girabola´2011…
Não estamos autorizados a falar em nome dos outros, pois cada um tem as suas condições financeiras. Mas, ainda assim, não acredito que esta equipa suba hoje ou amanhã para o Girabola. Os obstáculos que vai encontrar, ao longo da trajectória, são maiores.

Está a dizer que a mudança de série foi a causa da desistência do Pekandec?
Sem sombra de dúvida. Os motivos que nos levaram a desistir, além dos apoios financeiros, esteve também associado à mudança da série. O Pekandec tinha de se deslocar ao Huambo, Benguela, Namibe, e outras províncias, o que só as equipas consideradas grandes estão em condições de fazer.

A vossa desistência não vai prejudicar o futebol na província?
Não deixa de ser verdade, razão pela qual, escrevemos à Federação Angolana de Futebol e ao Governo da Província, explicando que, quando o Pekandec tiver boas condições financeiras, a massa associativa voltará a observar a nossa participação nos campeonatos. Antecipámos a informação para que não causasse complicações na programação do calendário de provas.

Quais são as fontes de receita do clube?
As receitas são provenientes de pequenos negócios do Pekandek que, além do desporto, também tem outras actividades comerciais. 

«Futebol dá dignidade
aos dirigentes desportivos»


Como homem experimentado no futebol, existe algum instrutivo que diz ser da competência do Governo apoiar financeiramente os clubes desportivos?
Acredito que não. Mas se algumas actividades sociais são apoiadas pelo Governo, por que o desporto não é contemplado com um pouco deste dinheiro? Somos um grupo que gosta de futebol, visando a ocupação dos tempos livres da juventude, são jovens que amam o futebol e devem merecer um pouco de apoio. Embora algumas pessoas pensem que o problema é nosso, pelo facto de termos criado as equipas de futebol, a verdade é que a prática do desporto ajuda uma nação com homens fortes. Estamos no futebol, porque ganhamos dignidade e não mundos e fundos como muitos pensam. Temos as nossas pequenas actividades comerciais, através das quais ganhamos alguma coisa para a nossa sobrevivência. Somos obrigados a remunerar os atletas e técnicos. Quem ganha com isso, é o Governo e a nossa actividade apenas complementa a acção da política desportiva do Estado.

O que considera como responsabilidade do Governo?
Considero como políticas do Governo a massificação desportiva que levamos a cabo. Infelizmente, ainda existem pessoas que entendem o contrário. E exemplifico: quando Angola participou no Campeonato do Mundo de Futebol da Alemanha, em 2006, no qual tive a sorte de estar presente para assistir os jogos, a propaganda que Angola fez naquele país não foi mero acaso, pois foi graças ao futebol que os europeus que não conheciam Angola ficaram com uma ideia de onde se situava o nosso país. O marketing político-desportivo funcionou em pleno. As nossas ideias passaram com facilidade e hoje somos vistos com outros olhos.

Como caracteriza a atitude dos governantes locais?
A continuar com este tipo de comportamento, não vamos a lado algum. Os nossos governantes deviam saber que, ao fazermos o desporto, estamos a fazer a política do Estado. As equipas locais não têm sustentos para suportar as despesas com a competição nacional.

Que relações existem entre Pekandec e as entidades locais?
As relações são boas. Lembro-me que, antes de começar o Campeonato Provincial, os governantes locais haviam garantido apoio ao desporto e à cultura, mas isso não passou  de mera promessa.

Sabe-se que o governo local cessante havia disponibilizado verbas às equipas de futebol…
Se alguém recebeu apoio financeiro, não foi o Pekandec. Nem um centavo furado recebemos de alguma instituição. 

Diz que não há instrutivos que obriguem o Governo a apoia os clubes, mas continua a bater na falta de apoio por parte das entidades locais…
Continuo a bater na mesma tecla, porquanto não foi fácil fazer o Campeonato Provincial. Suportámos todas as necessidades da competição. Noutras paragens, acredito que tenham outra filosofia de trabalho que vise apoiar as equipas locais. As equipas de Luanda não encontram obstáculos nas deslocações para qualquer ponto do país. Luanda tem uma massa associativa com dinheiro, o que não acontece em Malange. Falar da Baixa de Kassanje, é falar de José Rafael “Almeida”, um homem com receitas módicas provenientes das suas lojitas. Falar de Pekandec, é falar de Pedro Capassa, um homem com parcos valores vindos da sua carpintaria. Falar de Ritondo, é falar de Daniel Segunda, um homem com receitas resultantes do seu bar. São homens que não têm suportes financeiros de outras latitudes.

Que apelo faria à sociedade malangina?
Para os nossos compatriotas ignorantes, que nos chamam malucos pelo facto de estarmos engajados neste processo e a gastar dinheiro, na sua óptica, desnecessariamente, digo-lhes que não somos, pois não só de pão vive o homem. A nossa juventude precisa de ocupar os tempos livres e deixai as más práticas.  

« Historial»

Fundado a 12 de Julho de 1997 por um grupo de jovens da Rua Serpa Pinto, no bairro da Maxinde, em Malange, Pekandec é abreviatura de “Projecto Cahombo, Negócios, Desporto e Cultura”. A denominação surge de um projecto a implementar na localidade de Cahombo, circunscrição de origem dos seus mentores. Os adolescentes endereçaram um convite a Pedro Capassa, na qualidade de “mais-velho” da circunscrição, para encabeçar a direcção do clube. Aceitou o desafio depois de eleito presidente de direcção.