Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Pensar em finais nos jogos do Girabola

21 de Julho, 2014

Jorge Nito diz que a equipa tcnica por si liderada trabalha com tranquilidade

Fotografia: Jornal dos Desportos

Os jogadores e treinadores do Benfica do Lubango vão encarar os restantes 12 jogos do Girabola 2014 com mais determinação e convicção de que a permanência da equipa na primeira divisão é possivel, não obstante a critica situação que atravessa na competição, em que ocupa o pénúltimo lugar, o segundo da zona de despromoção. Quem o diz é o técnico Jorge Nito em entrevista ao Jornal dos Desportos.

Jorge Nito garantiu que os atletas têm sido consciencializados pela equipa técnica sobre as dificuldades que o clube atravessa, por isso, todos prometem fazer o que estiver ao seu alcance para evitar a descida de divisão. O treinador da águia huilana, para quem alguns sócios e dirigentes do clube defendiam a demissão, em função dos maus resultados da equipa no campeonato, elogiou os reforços conseguidos pela direcção para a segunda-volta do Girabola, dado que possuem maturidade competitiva e experiência da competição, por isso, em condições de ajudarem o grupo a atingir os objectivos.

- A má campanha do Benfica do Lubango no Girabola 2014, onde ocupa o penúltimo lugar, fez levantar, nas últimas semanas, informações que apontavam para o afastamento do técnico, o que não aconteceu, pois a direcção do clube, em reunião, optou pela continuidade. Qual é o moral no seio da equipa técnica após a situação vivida?
- Como homem e treinador de futebol, digo que estamos sujeitos a tudo, principalmente nestas hostes futebolísticas em que o treinador sobrevive de resultados. Mas também é sabido que por vezes os resultados aparecem quando há organização, organização para os obter. Defendemos que o imediatismo não devia existir no futebol. Nós, calmos como somos, também gostávamos que as coisas fossem analisadas de outra maneira. Por exemplo, fazer a análise profunda antes de algumas decisões. Não sabemos que medidas estavam a ser tomadas. Contudo, graças à transparência do presidente da direcção (Sérgio Cunha Velho), apercebemo-nos que são coisas do futebol, por isso estamos preparados para tudo.

- O que quer dizer com isso?
- Entendemos que se as coisas estivessem acima da média ou muito bem ao nível do clube na vertente financeira e em termos de resultados estivéssemos abaixo ou com a actual classificação, que não é boa para ninguém, nós conscientemente sentávamo-nos com a direcção e falávamos de algum descontentamento no nosso trabalho. Não vamos culpar-nos por não estarmos com aquelas condições que o Benfica gostava de nos colocar à disposição.

- Até que ponto a 15ª posição na tabela classificativa, que é um dos três lugares de despromoção, preocupa o técnico e os seus adjuntos?
- Não estamos satisfeitos com a actual classificação da equipa. Pelo contrário. Estamos preocupados com duas vertentes. A vertente classificação e o gráfico irregular de resultados bons e outros menos bons. Quer dizer, resultados menos bons sucessivos e depois aparece um bom. Estamos preocupados como treinadores. Mas ainda assim, a direcção, na voz e na presença do próprio presidente, tem vindo a transmitir-nos força através da transparência nas suas palavras. Então temos compreendido que o Benfica é mesmo este.

- E em relação aos jogadores? O que pensam eles?
- Os jogadores também compreendem que devem redobrar de esforços em função do momento, da situação e da actual classificação, porque não há  culpa por trás disso, quer da equipa técnica quer da direcção. Então, temos de demonstrar capacidade de sermos profissionais no terreno de jogo. É com esse espírito que vamos encarar agora a segunda-volta para sairmos da zona aflitiva em que nos encontramos.

EXPERIÊNCIA
Treinador elogia qualidade dos reforços


- A luta pela permanência passa também pela aquisição de reforços para a segunda-volta. Os que a equipa recebeu dão garantias?
 - Numa equipa como a nossa todo o reforço é bem-vindo quando há espaço de facto, principalmente quando são jogadores que vêm de corpo e alma, sem exigências inimagináveis para ajudar o grupo a crescer. São jogadores que já jogaram na primeira divisão, isso é muito importante, jogadores com muita maturidade. São reforços que compreendem a ideia do treinador, pois é importante ter atletas que compreendam o que é que o treinador transmitiu para se fazer dentro do campo. Quando tivermos jogadores com essa capacidade, ajudam de facto, se não vamos dizer que quando se pedem reforços pensamos que são jogadores que estão a ascender de escalão.

- Certamente está a falar da vossa base. Os atletas saídos dos juniores têm alguma hipótese de ter um lugar na equipa?
- Porque não? Os jogadores que estão a vir dos juniores também podem ter um lugar na equipa. As suas oportunidades aparecem paulatinamente. Por isso, se eles tiverem objectivos pessoais vão mostrar também o ar da sua graça, porque não é fácil, pela idade que têm, aparecerem já numa equipa da primeira divisão para emprestar o seu contributo a esse desafio espinhoso, difícil, mas não impossível, que é o da luta pela permanência.

"Procuramos
sempre incentivar
os atletas"


- A direcção do clube se debate com sérias limitações financeiras, o que acaba por se reflectir no moral e desempenho dos atletas nos treinos e jogos. Como é que a equipa técnica tem gerido e lidado com essa condicionante?
- Devemos saber lidar com as pessoas. Claro que isso exige muito cuidado e usar os melhores métodos, e não dizemos que dominamos esses métodos na totalidade, mas estamos a procurar os métodos mais viáveis nessa altura, como por exemplo a transparência. Chamamos à realidade aos jogadores, transmitimos-lhes a confiança. Durante a semana, ou antes e depois de um jogo, procuramos entrar no sentimento dos atletas e perceber o ânimo e criar sempre disposição que os possa incentivar a trabalhar.

- Mas só isso basta quando em jogo estão outros factores como salários e prémios de jogos?
- Outra vertente é a cultura da verdade desportiva. Fazemos dela uma bandeira partilhando aquilo que está a acontecer, ou seja, de treinador para jogador, de direcção para treinador, de direcção para jogadores. Então, graças a essa conversa que temos tido com os jogadores, eles têm vindo a compreender e por essa razão empreendido um esforço enorme.

PONTUAÇÃO
Águia quer vencer
todos os jogos em casa

- Há uma estratégia ou plano definido para a segunda volta do campeonato (já leva três jornadas) tendo em vista a obtenção de resultados positivos e assim tornar possível o objectivo da permanência?
- É verdade que existe. Mentalizar o jogador que na segunda volta não se deve perder pontos em casa e com facilidade. Não se deve pensar que o melhor resultado é dividir pontos em casa. Devemos pensar sempre que vamos pontuar em casa e conquistar algum ponto fora ou lutar pelos três pontos. Então, a estratégia é essa. O futebol é uma modalidade muito bonita. Acabamos há pouco tempo de acompanhar o Mundial, onde fomos apostando em sacos vazios, quando as surpresas vinham de outros lados. Se dissermos hoje que todos os jogos em casa vão ser vencidos, então não estamos a ser homens de futebol. Por isso, dizemos que estamos compenetrados de que devemos pontuar pela positiva nos jogos realizados em casa e procurar pontuar fora, porque os objectivos do clube ainda estão aquém daquilo que são as nossas pretensões.
 
- Quer com isso dizer que existe uma grande preocupação por parte da equipa técnica em relação à pontuação?
- Sim. Nós estamos preocupados porque queríamos pontuar mais. Mas nunca é tarde para ainda continuarmos a envidar esforços, redobrar responsabilidades e mentalizar os jogadores de que é possível fazer uma segunda volta com honra e dignidade mesmo dentro da situação real que estamos a viver.

"Trabalhar na primeira divisão
é uma experiência fantástica"


- O Benfica do Lubango ascendeu à primeira divisão após ter vencido, no ano passado, sob o seu comando, a série B do Zonal de Apuramento ao Girabola 2014. Como tem sido a primeira experiência como técnico principal de uma equipa no Campeonato Nacional da Primeira Divisão?
 - A experiência da primeira divisão é fantástico. É sabido que no futebol há três resultados possíveis. Ou se começa com glória ou se constrói a glória. Se outrora, na segunda divisão, lutámos para praticar e mostrar um bom futebol e colocar a equipa na primeira divisão, com trabalho, empenho e dedicação conseguimos alcançar essa glória que pretendíamos. Coube a nós essa responsabilidade e esse feito, graças ao esforço da direcção do clube, equipa técnica e os jogadores, principalmente da prata da casa. Agora, é claro, que os pergaminhos são diferentes, há muitas responsabilidades acrescidas e na primeira divisão a união em todos os aspectos devia-se fazer sentir com mais calor.

- Ainda assim mereceu a confiança da direcção mesmo sem nunca ter tido experiência no Girabola...
- Afirmativo. Quando me foi dado o voto de confiança para orientar a equipa no Girabola, foi sempre na óptica de reforçarmos a nossa equipa técnica com um treinador experiente, que viesse e que ajudasse a compreender as dificuldades que podíamos enfrentar e superar e em conjunto estarmos atentos, estudar, definir e aplicar estratégias e soluções. Uma confiança forte foi-nos dada e a partir dessa altura passámos a compreender que temos também uma palavra a dizer como técnicos de futebol. Até porque ninguém nasce a andar. Aliás, é de pequenos que se fazem caminhos grandes. Por isso, estamos nessas hostes a crescer com essas grandes dificuldades, experiências e escola.

 - E como tem sido a gestão de um plantel que enfrenta enormes dificuldades no dia-a-dia para tirar o máximo dos jogadores?
- Joga quem está melhor, em melhores condições, e que não é por uma equipa ganhar que se diz que em equipa que ganha não se mexe. Isso também é uma nova experiência. Pode-se mexer sim, porque há muitos factores que contribuem para que o jogador adormeça em certos resultados. É uma nova experiência. Estamos num clube humilde, pequeno, diferente de outros, mas também com objectivos pautados. Respeitamos sempre a camisola do clube e temos objectivos bem definidos. E se as coisas não estão a correr como deviam, se calhar é porque muita coisa tinha de ser feita antes. Como treinador só tenho a dizer que é uma experiência boa e que está a ser bem vivida.

- Essa experiência tem sido uma aprendizagem e um contributo para os seus conhecimentos?
- Felizmente, as pessoas que têm estado do nosso lado, a dar-nos força, a dar voto de confiança, estão a observar que há uma luz, um desenvolvimento presente e futuro em relação ao nosso trabalho como jovens treinadores. Temos estado a obter resultados positivos, vitórias, porque temos tido avanços.

CONSTATAÇÃO
"Erros na selecção de honras partem da base"


- Que avaliação faz do trabalho de formação e aquele que é desenvolvido nas selecções jovens, principalmente a de Sub-17, que teve uma preparação conturbada para o jogo com Moçambique (disputado sábado), referente à primeira-mão da segunda eliminatória para o CAN de 2015 no Níger?
 - Sobre a selecção de todos nós, e principalmente da de Sub-17, não vou utilizar a palavra preocupante, vou dizer que os dirigentes desportivos estão distraídos. Porque depois só se cobram responsabilidades aos treinadores, são sempre os responsabilizados, sacrificados quando os resultados em campo são negativos. As coisas correram mesmo bem do ponto de vista administrativo, sabendo que alguns atletas não puderam viajar por falta de documentação? Quem é o culpado desta situação?

- Ainda assim fala-se muito de que se quer ver o nosso futebol a atingir grandes patamares. É possivel com situações anómalas como essas?
- Claro que não se justifica para quem está a dizer que quer ver o nosso futebol crescer e a seguir em frente, pois os erros que se verificam na selecção de honras parte das camadas jovens. Então, se estamos a errar nas camadas jovens como é que vamos colmatar esses erros graves?.

- E para esse mesmo jogo a selecção viajou apenas com um guarda-redes...    
- É grave. Então vamos dizer que em Angola só temos um guarda-redes? Então com aquela idade, Sub-17, quem está em condições de viajar ou de representar a Selecção Nacional? Se houve questões administrativas, com casos não solucionados, e por isso alguns jogadores ficaram em terra, que se recorrese a outras províncias. Se calhar, há um guarda-redes da mesma idade e bom em alguma das províncias que tem todas as condições em termos administrativos, em relação à documentação e que pudesse viajar e pelo menos fazer o banco. Como é que os nossos dirigentes se desculparam lá no local do jogo quando lhes perguntaram porque levaram apenas um guarda-redes?

- De quem é a culpa?
- Continuo a dizer que temos de rever o nosso dirigismo desportivo. Uma selecção que parte da capital, lá onde se pode resolver tudo em 24 horas, administrativamente falando, não pode ter este tipo de problemas. Houve tempo e perdemos tanto tempo para preparar esta selecção.

- Quer dizer que se podia fazer mais e melhor?
- Sim. Sabemos que o treinador pediu há algum tempo, e escreveu para o departamento técnico das selecções jovens, no sentido de ir assistir ao jogo de onde ia sair o adversário com quem Angola jogou, e foi recusado. Isso também é inadmissível num país como o nosso. Parece que o objectivo, se calhar, é mais o de participar. A organização para esse jogo não foi das melhores. Devia ter-se envidado mais esforços, até porque temos embaixada nesse país (Moçambique) em que Angola jogou. Isso dava para ter uma ideia antecipada da forma como o adversário joga. Fomos lá com os olhos fechados à espera que os jogadores fossem artistas. Mas, nessa idade, os jogadores não devem ser considerados artistas. Devem, sim, ser considerados base sólida para daqui a seis ou sete anos mostrarem já uma qualidade de futebol que queremos para o nosso país.