Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Pesca desportiva rende mais que a de barcos Long Liners

lvaro Alexandre - 30 de Outubro, 2011

Jan Hendrik Jongschaap, capito da equipa Tudo Fish

Fotografia: Domingos Cadncia

As águas angolanas oferecem grandes quantidades de peixes de bico que possibilitem a realização de torneios com sucesso?
Os peixes de bico, o marlin e o veleiro vivem em função dos cardumes de sardinha e de carapau. Com a pesca descontrolada com redes junto da costa, limpa-se toda a comida natural destas espécies. Com a sua escassez, procuram novas localidades para sobreviver. As ausências de peixes de bico provocam um impacto negativo na pesca desportiva. Outro factor é a pesca de barcos Long Liners, traduzida na colocação de quilómetros e quilómetros de linhas de pesca com anzóis e bóias ao longo do mar para a captura, principalmente, de atum. Os peixes de bico também acabam por cair nestas armadilhas e morrem em grande quantidade.

Isso tem implicações económicas…
O potencial do rendimento financeiro e a sua contribuição económica pode ser maior na pesca desportiva do que a praticada pelos Long Liners. Em síntese, a pesca desportiva rende mais aos cofres do Estado que a de barcos Long Liners. As condições para a nossa pesca desportiva são melhores nas águas marítimas do Lobito e de Benguela do que em Luanda. As águas do Lobito são menos exploradas e mais limpas do que as de Luanda, factores importantes no exercício da modalidade.

Quais são os exemplares de peixes de bico mais capturados em Angola?
Em todos os tempos, as espécies mais capturadas são os blue marlins e os veleiros. Há poucos dados disponíveis para descrever por regiões. Existe pouca exploração na costa marítima angolana. O factor distância de Luanda para outras regiões impede a exploração na sua plenitude. Não é fácil navegar em qualquer barco para o Lobito e pior para o Namibe ou Cabinda. As distâncias são longas e muitas embarcações não têm autonomia suficiente. A comunicação por satélite não é disponível para todas as embarcações e implica riscos se houver avarias ou acidentes. Nas condições actuais é possível desfrutar, por mais alguns anos, das quantidades de peixes de bico disponíveis entre Luanda e Benguela, pelo pressuposto de que as espécies dos peixes de bico são libertadas e devolvidas ao mar com vida.

Há algum plano para a organização de provas internacionais no país?
Sim. Está previsto no programa da Federação a realização duma prova internacional. Houve acertos com o Governador de Benguela e o Administrador do Lobito para acolher um torneio mundial em 2013. Escolheu-se o Lobito pelo seguinte aspecto: é mais fácil fazer deslocar as equipas de Luanda para aquela localidade do que o contrário, devido às diferenças das embarcações existentes em cada uma das províncias. A organização desta prova internacional vai ter impacto muito importante na modalidade; vai ocasionar uma evolução.

Que factores impedem a realização de provas internacionais no país?
A sua realização transcende algumas questões conjunturais. Os clubes organizadores de torneios não possuem uma reserva confortável de embarcações, no sentido de apoiar os pescadores estrangeiros interessados em competir nos torneios realizados em Angola. Muitas equipas do Brasil, Portugal, Espanha e África do Sul mostraram-se interessadas em participar nos nossos torneios. A falta de disponibilidade de barcos constitui o único elemento que os faz desistir da agenda piscatória desportiva angolana.

O que se tem de fazer para evitar a desistência?
Tem de se criar as condições para oferecer serviços de  barcos suficientes a fim de assegurar a presença estrangeira. Quando nos deslocamos ao estrangeiro, no intuito de participarmos nos torneios internacionais, são-nos oferecidas inúmeras oportunidades de aluguer de barcos e com a sua tripulação.

Face à experiência, até hoje não há iniciativa angolana?
Já existem várias iniciativas privadas para se desenvolver este tipo de negócio em Luanda. Portanto, até 2013,  espero que já possamos contar com uma participação significativa estrangeira.

Que diferenças existem entre os torneios realizados em Angola e no estrangeiro?
Em 2007, conseguimos um segundo lugar num torneio que deu direito à participação pela primeira vez no Campeonato do Mundo, organizado todos os anos em Cabo San Lucas,  México.  Foi uma experiência boa. É uma competição completamente diferente da nossa. A maneira de pescar e o tipo de peixes de bico são diferentes. As regras são leves. Gostamos mais da nossa maneira de pescar. Fora do país, valoriza-se mais o comércio do que o desporto. As nossas regras são mais pesadas, as desqualificações das capturas são frequentes, a apresentação das imagens ao júri é rigorosa; devem ter a maior nitidez possível, conforme as exigências das regras estabelecidas.

A marcação do peixe de bico deve ser bem processada e tem de se devolver o peixe de bico ao mar com vida. Agora, essas regras vamos inseri-las no campeonato nacional. Os torneios de Luanda são considerados provas pontuáveis para o campeonato provincial. O torneio do Lobito, agendado para o mês de Fevereiro de 2012, vai ser considerado do campeonato nacional. Quem ganhar este concurso representa a bandeira de Angola nas provas internacionais. Foi um passo importante decidido este ano pela Federação Angolana de Pesca Desportiva.

“A nossa aposta é obter
bons resultados”


O resgate do título perdido na época passada é o objectivo principal da equipa Tudo Fish na presente época. Para a sua concretização, o capitão diz que está de olho aberto sobre Tubarões Fishing Team, os actuais campeões. Sem desprimor dos demais, a equipa de Fernando Santos “Fefé” é a que mais incomoda a de Jan Hendrik Jongschaap.

Que barco a equipa Tudo Fish vai contar para os torneios da época de 2011/2012?
Para a presente época, vamos contar com a sua habitual embarcação. O barco de Tudo Fish constitui uma divisa bem referenciada nos concursos realizados no país. Temos mais experiência, mais disciplina e melhorámos as tácticas. O nosso barco tem capacidade para fazer longas distâncias, pela autonomia que ganha na vertente velocidade.

Quem vai assegurar a manutenção dos meios?
A manutenção do barco está entregue a um técnico superior do ramo e a um marinheiro, que trabalham todos os dias. Limpam fora e no interior, fazem a manutenção de todo o equipamento instalado no barco. Para além deste trabalho permanente, está garantida a assistência técnica da parte estrangeira. Contratou-se um engenheiro norte-americano, que vem a Angola periodicamente fazer manutenção técnica e mais profunda dos motores interiores do barco da marca MAN. Infelizmente, em Angola, ainda não há técnicos licenciados da marca para prestar este serviço.

Quais são as ambições para a presente época desportiva?
Decidimos começar a sério e com muito empenho. O nosso maior problema é o arranque neste início de época em que entrámos um pouco retraídos por alguns factores, como a temperatura baixa da água. Não temos ainda as condições perfeitas para a pesca desportiva no alto mar, pois é necessário um pouco de sorte e saber orientar-se para as melhores áreas de pesca nos concursos. A nossa aposta é obter bons resultados nos três primeiros concursos a organizar-se ainda este ano. As ambições estão fixadas em ocupar os cinco melhores da época.

Quem são os principais adversários a derrubar?
São muitos. Os Tubarões Fishing Team é uma equipa organizada e disciplinada. É um grupo que também pesca bastante. Quase todos os fins-de-semana vão à pesca. É diversificada nas diferentes variantes da pesca desportiva. Gozam de uma elevada experiência em relação à nossa equipa, um factor determinante nos torneios de pesca. Os Tubarões Fishing Team ganharam o Campeonato da época 2010/2011, mas em 2008/2009 ficaram muito em baixo. Também destaco a equipa do Manganga, o Jikula O’mesu, que ficou em último em 2010/2011, com dois pontos. O último classificado  é também detentor de muitos troféus conquistados nos anos anteriores.

Por que destaca os Tubarões Fishing Team?
Os Tubarões são os principais, mas há outras equipas boas. A nossa equipa também já é respeitada. Existem cinco formações que estão quase sempre entre os melhores lugares de cada torneio.

Quais são os factores que os fazem manter com bons resultados?
A dedicação e disciplina, ter material desportivo sempre em ordem e realizar a manutenção com perfeição. Cuidar da melhor forma as canas de pesca, os carretos, as amostras e até o próprio barco. Não podem existir falhas. A câmara de filmagem deve estar em prontidão perfeita. O essencial é a disciplina na equipa. Cada membro deve assumir com zelo a sua responsabilidade. A disciplina interna conta para o sucesso.

Que sectores da equipa mais beneficiam do fundo de quotização dos membros?
O material de pesca é bastante caro. O mercado angolano não responde às ansiedades dos pescadores. Para superar essa falha, recorre-se ao mercado estrangeiro. Portanto, a questão financeira tem muito a ver com a boa manutenção do barco, para que esteja habilitado a participar nos concursos. Aliado ao transporte, tem de haver várias canas, carretos, amostras e pelo menos uma câmara de filmagem. Muitas vezes, o material vem dos Estados Unidos da América, o que acarreta alguns investimentos. Com quatro ou cinco membros da equipa e cada um a dar a sua contribuição financeira, a coisa fica minimizada.

Uma boa cana para combater com um Marlin custa à volta de mil dólares norte-americanos. No pacote está inserido um carreto pesado e frete aéreo ou DHL, os direitos de importação, os impostos e outras taxas. Uma cana completa chega à mão do pescador entre 1.500 e 2.000 dólares. As contas são feitas de acordo com as necessidades. Normalmente, precisa-se entre seis e sete canas. Este é o investimento de vulto e o restante é relativamente leve, tal como as linhas e o combustível para o barco.

Quantos títulos e troféus têm na galeria?
Não estou em condições de dizer com exactidão os troféus conquistados. Em cada torneio realizado ficámos entre os cinco premiados. Obtivemos vários segundos, terceiros e quartos lugares; ganhámos prémios de Top Tagger, melhor pescado, melhor exemplar de Dourado e outros prémios. O total ronda à volta de 60 a 70 prémios. A diversificação e a quantidade, bem como a qualidade de prémios, têm muito a ver com a disponibilidade financeira dos patrocinadores.

Quando foi e como está constituída a Tudo Fish?
A equipa Tudo Fish foi constituída depois da chegada do novo barco há três anos. A embarcação tem também o nome de Tudo Fish. É composta por sete membros efectivos. Normalmente é composta por quatro pescadores e um operador de câmara que, às vezes, também tem a função de pescador. É um conjunto grande, onde se vive a lealdade, amizade desportiva e muita camaradagem. Compartilhamos as alegrias e as dores, as vitórias e as perdas.

Para a presente época, vão manter os membros ou optar por reforços?
Vamos manter os membros da equipa para a época 2011/2012. O conjunto é já uma família. O espírito de equipa é coeso. Com o mesmo grupo ganhámos o último concurso do Lobito, uma das melhores competições de pesca desportiva realizadas no país e vencemos o campeonato da época 2009/2010. À equipa que ganha não se mexe.

Qual foi a pior e melhor época desportiva do Tudo Fish?
A pior época não me recordo. Tivemos várias épocas, nas quais ficámos em nono ou décimo lugar. Sempre ficámos entre os dez melhores. A melhor época foi a de 2009/2010, em que ganhámos o campeonato, sem vencer nenhum concurso. Ocupámos muitas vezes o segundo e o terceiro lugar e essas classificações decidiram o troféu do campeonato. Foi um pouco estranho, vencer a época sem ocupar um primeiro lugar nos oito torneios da mesma.