Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Pintar promete uma equipa melhor

Daniel Melgas, no Luena - 26 de Dezembro, 2016

Treinador nacional diz ser um homem ambicioso e promete formar um grupo sua imagem

Fotografia: M.Machangongo

O FC Bravos do Maquis está de volta ao Girabola. Despromovido em 2015, a direcção prometeu que a passagem pela Segundona era  questão de uma época e cumpriu. Para não voltar a ter os mesmos dissabores, ultrapassada  a questão do patrocinador, a formação do Moxico foi a primeira a abrir as "oficinas"

O técnico João Pintar, o obreiro do regresso dos maquisardes à I divisão, assumiu em entrevista ao Jornal dos Desportos que consumado o primeiro objectivo, iniciou o trabalho para a formação de um grupo competitivo, para realizar uma campanha tranquila.

"Estamos a trabalhar para que a nossa equipa seja uma das melhores do campeonato nacional e de Angola. Este, é  o nosso objectivo. Vamos continuar a dar o nosso melhor ,até o fim das nossas vidas desportivas", assumiu.

O treinador confessou estar a sentir alguma sintonia com os seus pupilos. "Os jogadores  estão sincronizados, tanto os antigos como os novos,  começam a perceber que no Maquis é mesmo trabalho, e isso, deixa-me super feliz", regozijou.

"Existem posições no plantel que precisam de ser preenchidos, por isso, começamos cedo para avaliar o potencial de cada jovem. Não estamos a exigir muitos deles, com excepção de alguns pormenores técnicos, táctica individual, e a mentalidade, porque no futebol é preciso pensar", comentou.

No início da preparação que denominou transitório, e não de pré-época, João Pintar reiterou observar os jogadores e considera que  tem miúdos com talento e qualidade para fazer um bom campeonato.

"Como é óbvio", lembrou que "nunca se vai à guerra e dizemos que vou para morrer. Vamos jogar para fazer bons jogos e precisamos ainda de atletas para equilibrar o plantel", declarou.

O técnico considera-se um homem ambicioso, razão por que quer sempre mais. Promete manter a mesma determinação e tranquilidade para satisfazer as pessoas que depositaram confiança em si.

"Temos de alegrar estas pessoas e que muito merecem. Queremos ver a equipa brindar o seu povo ,inclusive, iremos passar a quadra festiva cá (no Luena), porque o profissional é mesmo assim. Acho que talvez é a primeira ou a segunda equipa que faz isso", destacou.

"Temos de criar hábitos de profissionalismo, porque na Inglaterra até dia o 25 de Dezembro joga-se, porque é que nós não podemos fazer isso. Trabalhámos até dia o 24, para podermos alicerçar a nossa equipa para o Girabola Zap", reforçou.

João Pintar afirmou que apesar de estar a trabalhar com a equipa desde a disputa do campeonato nacional da 2ª divisão, apenas a posição de guarda-redes está definida. "Neste momento, a baliza está encerrada. Na defesa, falta-nos um central, um 'pivot' defensivo e um atacante", sublinhou.

"Hoje, o Maquis não pode ser considerado  pequeno. Em termos de organização, ombreia com qualquer equipa de Angola, e isso, não tenho medo de dizer. Falo com conhecimento de causa. Agora, isso, tem de aliar o resultado à organização administrativa", alertou.

ELEIÇÕES NA FAF
“Presidente deve cumprir promessas”


Entusiasmado com a vitória de Artur Almeida e Silva, João Pintar revelou que apesar do candidato da Lista A não ter apresentado um programa convincente, foi o que esteve mais próximo dos objectivos dos eleitores.
"O Artur Almeida e Silva não teve o melhor programa, mas foi o mais convincente. Se repararmos bem a margem de pontuação nas urnas, dispensa comentários", esclareceu.

Para o bem da modalidade, o treinador apelou à união da família futebolística, para evitar-se mais erros. Justificou a posição pelo facto do presidente eleito ter boas ideias e necessita de estar bem acompanhado para não complicar mais o que já está mal.

" Não podemos pensar só em criticar, conforme é hábito. Vamos todos apoiar, imprensa, amantes da modalidade e treinadores para que o seu programa seja exequível. Não queremos que tudo que foi apresentado seja engavetados",destacou.

O treinador maquisarde aponta como prioridade, e o primeiro desafio para Artur Almeida ,"a solução imediata dos 13 meses sem salários que os funcionários da Federação enfrentam, porque humanamente é complicado viver nestas condições", lamentou.

João Pintar afirmou que muito se diz sobre os escalões de formação, nas campanhas eleitorais, mas na pratica pouco ou quase nada se tem feito em prol do futebol nas escolas. Salientou a necessidade de dedicar-se uma especial atenção ao futebol jovem.

Sublinhou a importância de valorizar-se mais a formação em detrimento dos seniores como acontece. Para o técnico que antes de regressar ao Maquis esteve a desenvolver um ambicioso programa no Sporting do Bié, a escola é a base para termos no futuro bons atletas, sem descurar o investimento em infra-estruturas.

"Se melhorarmos nesta vertente, termos bons campos e investirmos nas competições provinciais, nacionais e procurarmos realizar bons torneios, vamos ter muito bons jogadores e grandes selecções, como se faz no Brasil e na Argentina, em que cada garoto durante uma época desportiva pode fazer 60 a 70 jogos", exemplificou.

Adverte para a necessidade de se rever a disputa dos campeonatos nacionais sub-12 e 14. Afirmou que da maneira como se disputa actualmente, numa semana e com jogos diários, "criamos uma fadiga muito grande", alertou. No seu ponto de vista "os jogos deviam ser realizados em intervalos de 24 ou 48 horas", defendeu.

"Sabe que a minha vida foi na formação , e nos campeonatos que disputei, só perdi jogos porque sempre joguei com pessoas adultas. Temos de persuadir a nova direcção da FAF para que corte isso, e sei que conseguem, porque tem no seu elenco uma pessoa que é muito rigoroso na formação, que é o senhor Norberto de Castro", elogiou.

CRIAÇÃO DA LIGA
Técnico considera prematura


Muito se fala sobre a criação de uma Liga em Angola, pretensão manifestada por alguns dirigentes e reforçada pelos candidatos nos seus programas de candidatura, mas João Pintar, considera prematura avançar para uma solução desta dimensão.

"A Liga é importante, mas o grande problema são os dinheiros, porque se não forem criadas as bases acabariam por ficar apenas os clubes de Luanda, a não ser que o governo interviesse. A nível de outras províncias acredito que o Libolo e um número bastante reduzida de clubes pudessem fazer parte", disse.

Para o técnico com mais de quatro década de idade, parte dela dedicada ao futebol nacional, considera a iniciativa louvável mas aconselha a criar as bases para partirmos com os pés firmes.

"Vamos fazer as coisas por etapas, senão vamos criar a Liga e depois regredirmos. Se existe esta possibilidade e com pessoas sérias, então vamos trabalhar para não fazermos um futebol de mentira,  enquanto isso, temos de criar as condições para o nosso futebol que já é um produto rentável", acentuou.

Reconheceu que a só a entrada da Zap (televisão por satélite detentora dos direitos de transmissão da aprova) como primeira experiência, significa que hoje o campeonato  é visto em qualquer parte do mundo e são muitas as vantagens que podem daí advir.

"Hoje há pessoas que vivem do futebol,  precisam mostrar isso, mas a Zap vem facilitar. Temos agora de trabalhar mais, para que as pessoas que estão fora vejam o nosso futebol como uma liga inglesa, francesa ou espanhola. É preciso trabalhar com rigor e responsabilidade", defendeu .

MUNDUNDULENO
“Vamos manter
o Estádio um inferno”


O técnico promete que o Estádio do Mundunduleno, palco oficial dos jogos do FC Bravos do Maquis, vai continuar a ser um 'inferno' para os adversários.

Depois de 12 anos, João Pintar regressa ao Moxico com a mesma determinação e vontade de voltar a colocar os maquisardes no top do futebol angolano, para  evitar possíveis despromoções.

Diz não estar preocupado com o feito alcançado em 2004, quando foi eleito pelos críticos da Rádio 5, canal desportivo da Rádio Nacional de Angola, o técnico revelação, de uma coisa tem a certeza:

"Vamos continuar a fazer do Mundunduleno um inferno. Prometo um dia convidar-te para ouvir a nossa prelecção. Se os jogadores cumprirem com a nossa estratégia, vamos complicar a vida aos nossos adversários em casa", reafirmou.

Prometeu aos adeptos  terem paciência e continuem a puxar pelo o Maquis. "Os adeptos devem ser incentivadores, mas quero advertir que nem todos os jogos vamos fazer com perfeição, contudo, a nossa intenção é fazermos bons jogos. Confiem em nós, porque estes profissionais querem honrar a camisola do clube.

Afastado no final da época de 2011 do comando técnico do FC Bravos do Maquis, o técnico declarou que regressa uma vez mais ao Moxico sem ressentimentos e disposto a ajudar a equipa no que são as pretensões da direcção.

"A minha relação com o clube é super boa,  nunca tive qualquer problemas com as direcções das formações por onde passei. Repare, que andei na Académica, fui para o Soyo, Sporting do Bié, no Chicoil,  e esta é a quarta vez que venho aqui (no Luena). Se alguém apontar que Pintar tem problemas com algum dirigente, não é verdade", confessa.

Alertou que isso não impede de manter as exigências, porque considera-se um profissional e compreende as peripécias que se passam, actualmente.  "O Treinador de futebol é um mediador de conflitos e se considerarmos assim, temos de procurar equilibrar. Não vamos ao lado A nem ao B".

AFROTAÇAS
“Falta de experiência ditou  afastamento”


O insucesso das equipas angolanas nas Afrotaças preocupa a família futebolística e muito boa gente aponta várias razões que estão na base das campanhas menos conseguida dos embaixadores angolanos.

O nosso entrevistado sustenta a falta de mudança de mentalidade dos jogadores, e minimiza a questão de calendários, pois, na sua opinião a melhoria da prestação depende única e exclusivamente dos atletas, e da programação dos clubes.

"Tem a ver  com a não mudança de mentalidade dos jogadores. Repare, se mudarmos o calendário vai ver que pouco ou nada vai alterar. Os jogadores têm de imitar as coisas bonitas da Europa. Podemos mudar, mas será determinante", recordou o facto de que com este mesmo calendário termos jogado várias finais.

"Há atletas que depois do jogo vão para a roulotte acompanhado de mulheres, uma rotina de vida que não tem nada a ver com o futebol. Podemos até metodicamente programar melhor a época, mas se não mudarmos de mentalidade e acompanhar a rotina, a exigência da alta competição é a mesma. O futebol é uma coisa séria e leva multidões", lembrou.

João Pintar acredita que a FAF sob o comando de Artur Almeida e Silva, tem como um dos objectivos principais o acerto do calendário, mas é importante também que trabalhemos com mais rigor e profissionalismo.

Defende que o jogador tem de mentalizar-se de que o futebol não é só quando se está em campo. "O jogador angolano é pouco profissional, mas se mudar de mentalidade e reconhecer de que a minha vida ganha -se em campo, então teremos grandes atletas até porque valores individuais temos muitos", defendeu.

“Os nossos atletas
estão preparados”


Num outro ângulo da conversa mantida com o JD João Pintar da Silva, confirmou o facto de que o atleta Benedito Ngueve esteve perto de rumar para Portugal.

O treinador sublinhou que a ida do ex-pupilo para o exterior não se efectivou em 2014, no âmbito de um protocolo que o Sporting do Bié mantinha com clubes lusos, por razões de força maior.

Reiterou, por outro lado, que o médio-central Sayovo chegou a seguir para Portugal neste mesmo ano, em que o emblema leonino tinha na presidência Manuel Nunes, mas Ngueve, por razões que desconhece, “não viajou à Portugal”, destacou.

“De facto engajei-me bastante neste processo e mantive contacto com o senhor Ernesto Munali Antunes, pai do atleta, mas talvez a direcção do Sporting do Bié está em condições de esclarecer melhor as razões da não ida do atleta à Portugal”, disse.

De resto, como técnico que durante muitos anos esteve envolvido no escalão de formação, João Pintar assume o discurso de que enquanto conduziu esse processo no Bié, sempre deu o melhor de si e colocava-se inclusive, “no lugar de pai” dos seus jogadores.

“Por isso mesmo, não compreendo e nem imagino com que propósito pessoas que lidam com o futebol do Bié levantam situações dessa natureza contra a minha pessoa”, rematou descontente com as denúncias que pesam sobre si.                                                
SVD