Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Podemos falhar presena nas Afrotaas

Augusto Panzo - 18 de Novembro, 2010

Jos Venncio presidente de direco do ASA

Fotografia: Nuno Flash

Que avaliação faz da prestação da equipa de futebol do ASA na época recém-terminada?
No início da época, traçámos como objectivos ficar entre os cinco primeiros lugares do Girabola, ir à final da Taça de Angola e tentar ganhá-la. Felizmente, conquistámo-la e terminámos em sexto lugar no Girabola. Consideramos ter atingido os objectivos preconizados, porquanto era o nosso propósito número um a Taça de Angola. Em relação ao Girabola, poderíamos subir mais um ou dois degraus, mas em função de tudo que o ASA passou, não foi fácil chegarmos onde chegámos.

Que perspectivas faz para a próxima época?
Não podemos fazer ainda uma abordagem sobre essa matéria neste momento, porque o ASA é uma equipa que tem dono: está ligado à TAAG, o seu principal patrocinador, e a mais outros três (patrocinadores), que conquistamos no actual mandato. São instituições que acompanharam de perto o clube durante a última época.

Está a dizer que estão pendurados…
Efectivamente. Primeiro, temos de nos sentar com a TAAG, na qualidade de principal patrocinador, para sabermos o que pretende para o ano de 2011. Se pretende continuar a ser o número um ou quer sair dessa condição e entregar a gestão do clube a um outro patrocinador, que esteja interessado, ou outros potenciais patrocinadores que possam surgir. O diálogo é necessário, porque é extremamente importante saber o que se pretende fazer e que futuro se reserva para o ASA. Precisamos de definir a situação do clube, porque andamos numa incógnita.

Qual será o ponto fulcral do encontro com os patrocinadores?
O nosso ponto principal de discussão vai cingir-se à situação que acabei de elucidar, porque para o ASA dar qualquer passo, tem de saber com que linhas se vai coser. De forma mais clara, quero dizer que é necessário que se saiba com que dinheiro o ASA vai enfrentar os próximos desafios. Neste momento, os outros clubes já estão a trabalhar no reforço das equipas, mas o ASA não consegue fazê-lo todos os anos com antecedência, por falta de capacidade financeira.

Isso inviabiliza qualquer clube de fazer um projecto ambicioso…
Exacto. É difícil para qualquer clube fazer um projecto ambicioso, quando a componente financeira lhe falta. Aliás, o velho ditado é bem claro: “não se fazem omeletas sem ovos”. A título de exemplo, até ao momento que lhe concedo essa entrevista (15.11.2010), ainda temos dívidas para com os nossos jogadores, relacionadas ao pagamento de prémios de jogo e de luvas. Portanto, só conseguimos cumprir com a cobertura dessas cláusulas todas, se merecermos mais atenção por parte de quem é dono do clube, no caso, a TAAG.

Há outras hipóteses para o ASA caminhar sem a TAAG?
Não.


Porquê?
Se estivermos sozinhos, sem a devida atenção de quem é dono do clube, fica difícil tanto para a direcção como para os jogadores fazerem o desporto de alta competição. Vamos sentar com o ministro dos Transportes (a quem agradecemos pelo seu empenho e por tudo que tem feito pelo ASA) com o fito de encerrarmos internamente a época.

O encontro vai definir a (possível) participação da equipa nas Afrotaças?
Efectivamente. É preciso que realizemos o encontro com o Ministro dos Transportes para se definir a continuidade da TAAG à frente dos patrocinadores; que equipa teremos para o Girabola de 2011 e chegarmos a um consenso sobre a participação ou não nas Afrotaças. Também aproveitaremos esclarecer uma série de coisas que não vão bem no clube. Isso só será feito com a ajuda do Ministro, em companhia da TAAG, da Enana, do Conselho Nacional de Carregadores e da Unicargas, os nossos patrocinadores. Temos de definir e analisar bem as coisas, porque o ASA é um clube histórico, criado no tempo colonial, ganhou títulos nos períodos antes e pós-independência e, tal como os outros, também é suportado por verbas vindas do Estado. Portanto, todos devemos dar mais atenção ao clube.

Diz que o ASA passa por dificuldades financeiras, sabemos que a TAAG viveu e ainda vive momentos conturbados financeiramente. Como se explica a vossa inquietação?
Entendemos as dificuldades financeiras e as contrariedades por que passou a TAAG. Mas, por aquilo que oiço dizer, talvez, agora, esteja melhor do que há um ou dois anos. Quando assumimos a direcção, coincidiu com a entrada da TAAG na lista negra da IATA (como havia sido chamado), o que complicou a situação financeira da companhia. A TAAG ficou proibida de voar para a Europa com os seus próprios aviões. Como solução, teve de alugar aviões de outras companhias. É claro que o dinheiro dispensado para o aluguer de outras aeronaves serviria para o reinvestimento na própria companhia e, se calhar, para dar melhor apoio ao clube. Mas não foi possível. Hoje, já não se verificam essas imposições internacionais. Há mais ou menos um ano, a TAAG voa com os seus aparelhos e deixou de pagar dinheiro a outras companhias.

Perante o novo cenário, o que lhe ocorre no pensamento?
Agora, é uma questão de as pessoas redefinirem o que querem para o ASA. Durante o mandato de todas as direcções passadas, o clube sempre foi patrocinado pela TAAG; é um filho que a empresa sempre carregou consigo. Portanto, é necessário não o abandonar nem o deserdar nos dias correntes; é preciso que se dê apoio e mais apoio, porque o desporto se envolve cada vez mais com questões financeiras.

E tudo está mais caro…
Evidentemente. Os atletas são mais caros, os treinadores também o são; paga-se muito mais ao pessoal administrativo que trabalha nos clubes. O que era pago há dois ou três anos não é o mesmo que se paga hoje. Os novos orçamentos dos clubes, para que lutem para o título, são extremamente elevados. Por isso, repito, é necessário que haja maior definição. Acredito que a TAAG pode disponibilizar muito mais do que tem dado.

"O clube tem dívidas
de luvas para com atletas"


Como avalia o trabalho do técnico José Dinis ao longo da época recém-terminada?
Se o técnico não fosse bom, não o contrataria. Hoje, posso dizer que houve algumas contrariedades no início, não pelas suas capacidades técnicas, mas porque não conhecia a realidade do futebol angolano, para além dos métodos de relacionamento com os angolanos. Felizmente, foi ultrapassado à medida que o tempo passava e conhecia a realidade do futebol e dos cidadãos angolanos. É um técnico com elevada capacidade profissional e muito sociável. Devemos entender que cada um tem a sua forma de ser. Não tenho razões de queixa, embora diga que, a dado momento, alguns sócios, adeptos e aficionados tentaram insurgir-se contra o técnico e tive de o defender. Felizmente, fui bem sucedido nessa acção de defesa. Como resultado, o técnico está para ficar e tentar cumprir o contrato até ao próximo ano.

Que contrariedades prevê nas Afrotaças em função das dificuldades financeiras da TAAG, o vosso maior patrocinador?
Por mérito próprio, já estamos qualificados para as Afrotaças. Agora, o que falta é o nosso comprovativo para dizer se estamos em condições ou não de representar o país nessas competições. O ASA sempre esteve nas competições africanas com legitimidade e apurado para o fazer. No entanto, seria mau não estar presente, independentemente, de todas as dificuldades que está a passar. Gostaria de estar inscrito e competir, desde que alguns pressupostos fossem ultrapassados.

A participação nas Afrotaças, nessa condição, seria uma aventura?
Efectivamente. Não adianta estar presente nas Afrotaças sem ter alguns problemas resolvidos. O clube tem dívidas de luvas com os jogadores, precisa de alguns reforços para as competições africanas. Portanto, é necessário que tudo isso seja ultrapassado para ir às Afrotaças. Aconselha-se a não participar se alguns pendentes graves não forem resolvidos. Tem de se ultrapassar antes todos esses pressupostos para se dar um passo em frente.

E se os patrocinadores disponibilizarem o dinheiro?
Se o patrocinador se engajar e se for também vontade do Estado que Angola participe com o ASA, que por mérito logrou o direito, vai ser essencial que nos esforcemos e paguemos as dívidas com os atletas.

Defende uma reorganização interna do clube para tomar um rumo certo e não viver de aparências?
Exactamente. Para mim, isso seria o ideal. Primeiro, fazer uma reorganização interna, reforçar a nossa capacidade de gestão e financeira, sobretudo, essa última componente, e só depois pensar nas competições africanas. Sem termos o suporte financeiro equilibrado, o que me vale competir nas Afrotaças? Por que acrescentar as minhas dívidas? Sem reorganização interna, não vale para nada. A nossa participação justifica-se, se os patrocinadores assumirem os custos da nossa presença nas Afrotaças, pagarem os contratos dos potenciais reforços da equipa e prémios dos jogos. Com esses pressupostos resolvidos, a crise interna desaparece e a participação nas Afrotaças é bem-vinda; posso ir à competição continental. Ao contrário, prefiro pagar os meus jogadores a fazer outra figura em África. O Girabola terminou, mas ainda há dívidas por saldar. São coisas que devemos honrar.

O tempo urge…
Infelizmente, o tempo está a escassear cada vez mais. Temos de saber o mais cedo possível se há ou não essa disponibilidade dos patrocinadores em injectar as verbas; temos de nos preparar para o estágio pré-competitivo, confirmar a nossa presença nas competições africanas, rever a questão dos contratos com aqueles jogadores que pretendem prolongar para mais épocas as suas estadias no clube. Para tudo isso é preciso dinheiro. Ironicamente, o ASA não fabrica dinheiro; sempre viveu de um só patrocinador, no caso a TAAG, ao qual se juntaram agora a Enana, o Conselho Nacional de Carregadores e a Unicargas. Mesmo assim, não conseguimos ter a capacidade financeira desejável. Não sei, onde está o erro.

A decisão já é taxativa?
Não. Vamos aguardar, porque abordaremos esse assunto por via do Ministro dos Transportes e juntamente com as empresas patrocinadoras. Veremos se há ou não acordo para continuar a apoiar o ASA e de que forma querem continuar a apoiá-lo nas próximas épocas.

Orçamento é inferior a duzentos mil dólares


A ser verdade a não participação do ASA nas Afrotaças, como acha que vai reagir a massa associativa do clube  e o povo angolano em geral?
Se o ASA não for às Afrotaças, a Federação Angolana de Futebol pode indicar outra equipa para o fazer e Angola não vai perder nada em termos de representatividade na CAF. Agora, para a nossa massa associativa, será uma grande decepção, porque podem não entender as razões. Em função disso, depois da reunião que houver com os patrocinadores, todos devemos ter a coragem de dizer publicamente os resultados da reunião aos aficionados do clube. O ditado é bem claro: “não se fazem omeletas sem ovos”.

Para quando o encontro de concertação com os patrocinadores?
Quando o Ministro dos Transportes e as empresas em causa estiverem disponíveis. Nesse momento, já estamos a trabalhar nesse dossier internamente. Depois, vamos levá-lo à Sua Excelência e chamar as empresas para nos dizerem se vão ou não atender à nossa questão. Se disserem que não, então que venham outros patrocinadores interessados em suportar o ASA, nem que seja necessário deixar de jogar com equipamento timbrado de TAAG.

É uma decisão difícil, mas necessária?
Sim. Mas tem de haver uma decisão, porque não podemos levar o clube sozinhos. Não é meu, nem é de um dos meus vice-presidentes. Portanto, o clube é de todos; tem uma estrutura à qual sempre esteve ligado que é a TAAG. Então, se tem um dono, a quem sempre prestou informações e contas, e sou o presidente, porque o voto legitimou o meu mandato para o dirigir, temos de reunir e discutir o futuro do clube. Em todas as modalidades, a TAAG vem estampada nas camisolas. Defendo isso, porque durante esse tempo todo, carrego o ASA sozinho. O clube tem Conselho de Direcção, Conselho Fiscal, Assembleia-geral, mas se via que o ASA era o presidente e os seus vice-presidentes. As pessoas com responsabilidades no clube ficaram escondidas.
 
Poucos clubes revelam os seus orçamentos. Estaria em condições de o fazer?
O orçamento mensal do ASA é inferior a 200 mil dólares . O que se pode fazer com um orçamento tão ínfimo? Isso é caricato, porque não se pode gerir um clube com três modalidades com um orçamento desses.

Que apelo faz à massa associativa?
Aos nossos sócios, adeptos, jogadores, membros de direcção do ASA e simpatizantes, gostaria de dizê-los que não foi fácil chegarmos até ao final do Girabola. A dado momento, muitas pessoas pensaram que a equipa fosse descer de divisão, mas sempre acreditei. Juntamente com os meus vices lutamos contra tudo e contra todos e conseguimos levar o clube até onde está. Gostaríamos que nos fossem dados mais apoio para recolocar o ASA no lugar que lhe é mere