Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Praga no girabola

Matias Adriano - 24 de Maio, 2011

Na verdade, a situao parece tomar contornos preocupantes, estando, na nossa ptica, a sugerir um amplo debate em que seja talvez definido e aprovado.

Fotografia: Jornal dos Desportos

O presente Campeonato nacional de futebol da primeira divisão já regista, à saída da 10ª jornada, sete “chicotadas psicológicas.” Ou seja, já viu sete treinadores serem mandados para o desemprego, estando a situação, pelo alarmismo dos índices percentuais, a causar alguma inquietação aos agentes desportivos, e não só. Na verdade, a situação parece tomar contornos preocupantes, estando, na nossa óptica, a sugerir um amplo debate em que seja talvez definido e aprovado o diploma que defenda os interesses dos técnicos, vezes sem conta, despedidos sem qualquer dignidade, beliscando com isso o seu ego profissional.

Desde já, a nossa consciência recusa-se a acreditar que sejam os técnicos os principais responsáveis em todos os casos que tenham a ver com má prestação das equipas em campo, embora saibamos que estes, em regra, são contratados com o objectivo único de pôr as equipas a desbobinar futebol bonito, produzir resultados e lograr troféus. Aliás, é sabido, há muito, que em desporto conta muito o colectivismo. Tanto assim é que quando há bonança, entenda-se êxitos, é comum ouvirem-se frases como por exemplo: “tratou-se de uma conquista de grupo, em que todos, direcção, equipa técnica, atletas e demais tiveram participação”.

Se assim é, está-se por saber por que razão são os técnicos chamados, sozinhos, à pedra quando as coisas dão para o torto?
Não se apela aqui que os clubes ou suas direcções se devem contentar com fracassos sistemáticos, estando eles no direito de agir, enquanto parte contratante. Mas, convenhamos, agir com ponderação e realismo e não de forma selvagem como as coisas ocorrem no Girabola, em que os treinadores, que são humanos, passaram quase à condição de objectos descartáveis. Além de mais, a prática tem mostrado que em muitos casos tais alterações nas equipas técnicas não trazem nada de novo.

Remetem, antes pelo contrário, as equipas a uma penosa crise de resultados, como se a emenda tivesse saído pior que o soneto. Em nada interessa buscar exemplos. Mas eles abundam no nosso futebol. Não pode um campeonato estar mais animado pelo cortejo de “chicotas psicológicas” do que propriamente pela qualidade de futebol exibido nas quadras. Infelizmente, é isso que se está a registar no nosso Girabola, talvez o pior da história no que toca à onda de despedimentos de técnicos ou à relação destes com os clubes.

Entende-se que a rescisão de contrato de trabalho entre a parte empregadora e a empregada não é incomum. Ela consta e está prevista nas cláusulas contratuais. Só que não deve ser de forma abusiva. No caso em que nos propusemos aqui abordar, a chicotada tornou-se num outro campeonato dentro do campeonato propriamente dito. Tal é, pois, a sua atracção. Chamemos-lhe, com a vossa permissão, “Girachicote”. Temos acompanhado, bem ou mal, os campeonatos de outros países, e as coisas não se processam desse modo.

Na maioria dos casos, mesmo com resultados desencontrados, tem-se observado a prudência de deixar o técnico terminar a época, salvo em situações mais graves e que exigem uma tomada de medidas rígidas e imediatas. Mas são raríssimos, falemos de Portugal, Espanha, Itália ou Inglaterra, onde o futebol é uma indústria geradora de dinheiros. Os treinadores, pelo sim pelo não, formam uma classe profissional com intervenção utilitária no exercício desportivo. Logo, desencadear, como parece, uma guerra à classe, fazendo parecer que não se trata de um ofício que confira estabilidade psicológica, se está a inibir a adesão de outras gerações a esta classe, e isso pode não ser benéfico para o próprio desporto.

Talvez alguns dirigentes de clubes estejam carentes de um saneamento mental para que possam perceber que a responsabilidade do técnico em determinado jogo não representa cem por cento. Existem nele outros intervenientes, entre os quais os próprios dirigentes de clubes. À guisa de exemplo, que resultados se podem exigir a um técnico com um plantel em desânimo, por falta disto ou daquilo? Sabemos que nos clubes existem problemas mil de atrasos salariais ou falta de pagamento de prémios. Afectando este factor no seu rendimento a quem, há legitimidade para imputar culpas ao treinadores? Não seria à direcção?

Sem sermos advogados do diabo, pensamos que não sendo os clubes propriedade privada, excepção feita ao Kabuscorp do Palanca, seria bom que os resultados nas equipas fossem melhor avaliados, de modo a que as chicotadas pendessem sobre os técnicos quando fossem realmente culpados e sobre os dirigentes, se fossem eles os causadores de situações que levassem ao fraco rendimento das equipas em campo.

De resto, é justo que se o treinador contratado para três épocas, às vezes nem uma faz, também o dirigente eleito, em assembleia do clube, para um mandato de quatro anos, pode ver interrompido o seu consulado por má prestação. Aqui chegados, defendemos que a Associação de Treinadores de Futebol Angola-ATFA deve revitalizar as suas acções e elaborar e aprovar, se for o caso, estatutos que defendam a classe contra abusos do género. Os treinadores são profissionais e, como tal, merecem alguma dignidade.

“Os dirigentes
dos clubes não colaboram”

O presidente da Associação dos Antigos Futebolistas de Angola, Quim Sebas, defende a revitalização da Associação de Treinadores de Futebol (ATF), para melhor proteger os interesses desses profissionais face a onda de despedimentos que se regista no Girabola deste ano. O antigo praticante de futebol referiu que, com uma associação forte, haverá a defesa da classe do futebol. “Muitos sustentam as suas famílias com esse trabalho. Temos de inverter o quadro para que os técnicos gozem dos seus direitos e não sofram abusos por parte dos dirigentes dos clubes”, afirmou.

Temos deficit de treinadores nacionais?
– Sim, o que não acontece com o basquetebol.

O que acha que deve ser feito para mudar o quadro?
– Precisamos de um projecto mais sério para salvaguardar a classe.

Que tipo de projecto?

- Precisamos de uma Associação de Treinadores de Angola, mais activa. Não podemos continuar a ver pela rua treinadores formados a andarem à deriva.

Está a querer dizer que a Associação actual nada faz?

- Não existem pessoas dispostas a sacrificarem-se para o bem da classe. Não se admite que treinadores que foram estudar no exterior, hoje, não tenham sequer um clube para treinar. Alguns dos treinadores nacionais não vêem sequer uma luz ao fundo do túnel, pelo menos aqui em Luanda. Fale-nos um pouco desta geração de treinadores. - Há quem possa falar melhor desta geração do que eu. Não quero correr o risco de não mencionar muitas coisas.

O que a classe deve fazer?
– Acho que se deve respeitar o passado, de forma a unirmos todos os integrantes em prol da modalidade, caso contrário, nada feito.

Os clubes têm razão em afastar os treinadores?

– O problema está nos resultados que os dirigentes querem alcançar num curto espaço de tempo. Os dirigentes desportivos não estão preocupados com os escalões de formação nos seus clubes; querem títulos e nada mais. Não há entusiasmo. Eles não são do desporto rei.

Qual o futuro dos treinadores, tendo em conta todos esses problemas?
– É bastante complicado. Os dirigentes dos clubes agem mais à base da emoção e acabam por estragar a vida de muitas pessoas que se formaram nessa área. Eles só querem o imediatismo. Por essa razão é que antes se jogava com vontade, hoje poucos fazem isso.

Não está a faltar algum incentivo aos treinadores, como jogos amistosos. Isso não os pode estar a afectar?
- Os dirigentes dos clubes não colaboram. A Associação de Treinadores de Angola devia ser parceira dos clubes, no sentido de auxiliar os mesmos na selecção dos treinadores que vão buscar para o nosso mercado futebolístico.

Sardinha Teixeira

“Derrota
acontece a qualquer um”

“Nenhum treinador é apologista da chicotada psicológica porque traz um princípio que é contra todos nós. Fficar com uma equipa que vai ter de adquirir novos processos, o que é difícil, [bem como] dirigir jogadores que você não escolheu”, argumentou ontem com o Jornal dos Desportos o técnico do 1º de Agosto Carlos Manuel. Sem receio de meter a sua foice em seara alheia, o timoneiro exortou as direcções a adoptarem uma paciente atitude de espera antes de optarem pela mudança de treinadores.

Se este critério prevalecer, alguns passos falsos podem ser evitados, pois vai haver unanimidade na hora de decidir, pois, segundo este treinador, “quando se chega ao consenso de que o treinador não serve mais, têm de analisar também o seu grupo de trabalho, as pessoas às vezes não entendem certas coisas, porque não estão sempre connosco”. Ao contrário do que é voz do povo, Carlos Manuel enfatizou que numa situação de crise o mais importante é colocar o dedo na chaga em vez de se mudar de casa, por causa de goteiras no telhado. Senão os problemas podem persistir mesmo com a demissão do suposto culpado.

“Há quem é mais obrigado a vencer do que os outros, mas esta coisa de ganhar ou perder acontece a qualquer um, então tem de se analisar o que faz, não pode haver pressa nenhuma”, aconselhou. A palavra chicotada psicológica originalmente foi cunhada por causa dos jogadores. A intenção era espicaçar as suas mentes para serem mais competitivos, mas a prática tem provado o contrário. Os atletas não são barro na mão de um oleiro, mas o começo de uma nova era traz consigo novos processos de aprendizagem.

Estes obrigam o plantel a mudar em tão pouco tempo a sua mentalidade competitiva, para que vá ao encontro do recém-chegado treinador, garantiu Carlos Manuel. Os técnicos ás vezes acabam por ser o elo mais fraco quando há crise de resultados, todavia, o nosso entrevistado esclareceu que todos os técnicos celebram contratos “para fazer o melhor possível”, mas nem sempre conseguem alcançar este desiderato. Em face disso, ele enalteceu o trabalhado desenvolvido pelo seu antecessor Ljubinko Drulovic.  “Fez todo o máximo para que tudo corresse”, sintetizou.

Toda a profissão tem os seus ossos do ofício, mas Carlos Manuel revelou que a aposta na continuidade pode trazer uma era de bonança para o futebol nacional, ainda mais porque o futebolista made in Angola tem valor e recomenda-se. “Felizmente há muita qualidade neste país, mas tem de se tornar o jogo mais vivo e rápido, alcança-se isso quando as equipas são mais consistentes nos processos de treinos”, rematou Carlos Manuel.

Albano César
apela ao cuidado

Com mais de vinte anos de carreira, o técnico Albano César, de 48 anos, natural de Benguela, procura manter um prestígio do seu trabalho  e defende a necessidade de as direcções darem formação aos técnicos, atletas e dirigentes para evitar-se precipitações negativas no comando das equipas. Por falta disto, ele disse que rescindiu o comando técnico do Académica do Lobito, de depois de substituir Daniel Quinhentos. “ Quando o assunto diz ao afastamento de um técnico é preciso ter-se muito cuidado para, depois, se puder acertar o xadrez”, disse.

A tamanha preocupação desse técnico que outrora brilhou, enquanto profissional, passou pelo Desportivo da Eka, Petro Atlético do Huambo e Atlético Desportivo da Sonangol, leva-o a reflectir melhor no momento em que é sondado, no sentido de defender a sua posição. “Apesar de ter ficado apenas duas semanas à frente da Académica do Lobito valeu mais uma vez a experiência. A equipa técnica apresentou-me aos jogadores, registamos duas derrotas consecutivas, com o 1º de Maio de Benguela, por três zero, e com o Benfica de Luanda por quatro um, este ultimo em casa. É algo que nunca tinha vivido, por isso, preferi sair porque sem contrato a solução não podia ser outra”.
                     
Hermínio Fontes

“A profissão
de treinador é de riscos”

O antigo craque de futebol, Daniel Ndungidi é de opinião de que o imediatismo e a falta de estruturação do nosso futebol são dois factores que estão na base das constantes chicotadas psicológicas que o Girabola está a registar. “A profissão de treinador de riscos, porque quando você ganha é bom e deve continuar, mas quando perde, já não presta e vai para a rua. É lógico que há situação em que, tanto ganhando ou perdendo, você é posto no olho da rua. Aí podem residir factores pessoais. Contudo, digo que o mal maior no futebol angolano está na falta de estruturação e no imediatismo de alguns dirigentes”, disse Daniel Ndungidi.

Indagado se isso não terá a haver com algumas interferências de certos dirigentes dos clubes nos trabalhos das equipas técnicas, Daniel Ndungidi disse que um treinador que se preze não deve se deixar levar pela vontade da direcção. “Não me deixo e nunca me deixei levar pelos gostos dos dirigentes. Se vou assinar um contrato de trabalho para treinar uma determinada equipa, não posso ser uma marioneta da direcção. Um treinador tem de ser autónomo no desempenho do seu trabalho. Não pode ser uma figura conduzida pelo interesse dos dirigentes dos clubes.

A direcção traça metas para se atingir, mas não pode ser, por exemplo, um dirigente a dizer que o treinador deve alinhar este ou aquele jogador, contrariando a vontade do técnico. Isso é errado”, afirmou. Para aquele antigo praticante de futebol que se notabilizou através das equipas do 1º de Agosto, Petro de Luanda e Selecção Nacional, a importação de técnicos estrangeiros também é outro factor a ter em conta, pois, muitos desses não são de nível credível nas suas terras de origem.

“Também constitui um erro grave a contratação de treinadores estrangeiros, muitos deles para vir lutar para a manutenção da equipa no Girabola. Sinceramente, isso é uma aberração, porque muitos deles lá nas terras deles são treinadores de terceira divisão e chegam aqui com discursos pintados a campeão. Nada disso. Para isso, é preferível que se dê oportunidades aos nacionais”, referiu Daniel Ndungidi.          
 
Augusto Panzo

Demissões em massa de
técnicos só fere a qualidade do futebol

As bastantes chicotadas psicológicas que têm vindo a se verificar nos no Campeonato Nacional da primeira divisão, Girabola 2011 que somou até a nona jornada, sete expulsões de técnicos, nacionais e estrangeiros em função dos maus resultados que algumas equipas têm vindo a fazer, mereceu uma reacção da parte dos antigos praticantes de futebol. Amaral Aleixo disse ao Jornal dos Desportos que algumas equipas andaram na expectativa de que teriam feito bons contratos, mas passado o tempo as partes, isto é, direcções e técnicos, começaram a se desentender.

Uma outra questão, segundo Amaral Aleixo, prende-se com as acções das direcções, através das suas palavras que muitas vezes se excluem dos compromissos assumidos. Por outro lado demonstra que grande parte das direcções deviam ter em conta a sua dinâmica na participação no campeonato. Questionado sobre as consequências que tais chicotadas psicológicas possam acarretar, Amaral Aleixo, diz que isso só vem prejudicar o futebol, de formas a que o mesmo vem perdendo cada vez mais as suas qualidades.

“As consequências duma maneira geral, são a título individual, passível aos clubes, mas, também isso faz com que não haja maior qualidade de futebol” defendeu Aleixo. Indagado se tais chicotadas têm razão de ser, o nosso interlocutor disse não estar em condições de dizer se têm ou não razão de ser, pois para ele cada um conhece melhor a sua casa, mas que de uma forma geral que se baseasse num principio que na sua visão tem  a ver com a má estruturação da época ou com elevada expectativa, logo a acontecer tem haver com alguns parâmetros que muitas vezes não conseguem exercer os mesmos”disse.

“Os clubes devem dar
condições para desempenho dos técnicos” 

Abel Campos assevera que muitas vezes os maus resultados não surgem por culpa dos treinadores ou jogadores, porquanto as direcções também têm culpas no “cartório”. Furtam-se da criação de condições suficientes para o grupo de trabalho, mormente ao treinador. Mas duma ou de outra forma, diz o antigo craques, que independentemente de tudo, a primeira pessoa apontada nos maus momentos ou seja com os maus resultados é o técnico, dai a razão das constantes mudanças de técnicos o que em abono da verdade prejudica o futebol nacional.

“Todo o trabalho tem um princípio e um fim. Pois, de qualquer das formas, os treinadores ao ser contratados são pa ra mudanças nos resultados acima de tudo. O presente Girabola está a ser bastante competitivo, pois é objectivo de todas equipas competir de igual para igual de formas a que cada equipa tire o maior proveito” disse Abel Campos acrescentando em jeito de conclusão, que é importante que os clubes saibam honrar os seus compromissos em termos de condições de trabalho para os treinadores de formas a que estes saibam dar resposta no desempenho das funções a si atribuídas.        AU

Onda de demissão de técnicos
inquieta adeptos da Académica

As recentes demissões dos técnicos principais na Académica Petróleos Clube do Lobito por, alegadas, consequências dos maus resultados no presente Girabola, continuam a constituir motivos de comentários desencontrados entre os aficionados da “modalidade-rainha” que, em terras lobitangas, esperavam mais da actuação dos estudantes na prova. Em menos de um mês, a direcção da Académica do Lobito despediu dois treinadores, designadamente, Daniel Quinhentos e Albano César, este último viu-se forçado a   desistir do cargo, por carência de qualidade técnica do plantel.

Para colmatar o vazio, a direcção convidou José Rocha, então preparador físico, sem contudo definir os moldes da sua contratação para a sua nova função que acabou de assumir; pelo menos, esta hipótese ficou transparecida, no passado dia 17 do corrente (terça-feira), momento depois de ter sido apresentado aos atletas que o aguardavam para mais uma sessão de treino. “Por enquanto, não posso dizer nada. Estamos em negociações com a direcção.

Depois de resolvermos alguns pendentes, aí sim, estarei em condições para responder a qualquer questão que me colocarem em volta da equipa que nos foi dada a trabalhar para determinado período”, disse (e nada mais) o professor José Rocha. Em função desta realidade, fica tudo complicado sem saber até que ponto a instabilidade permanecerá no grémio lobitanga. Na verdade, está uma complicação que até mesmo dirigentes do segundo escalão desconhecem o que estará a passar-se num reino que aos poucos afunda-se cada vez mais. Foi assim, no reinado de Pedro Santos, continuou com Aníbal Rodrigues.

Júlio Gaiano, no Lobito