Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Precisamos de um camisola 10"

Morais Cnamua| no Lubango - 19 de Fevereiro, 2013

Treinador dos

Fotografia: Jornal dos Desportos

O técnico do Clube Desportivo da Huíla, Mário Soares, disse em entrevista ao Jornal dos Desportos que a equipa militar do Sul está preparada para competir no Girabola de 2013. O treinador, que fez uma abordagem exaustiva da preparação da equipa, assegurou igualmente que, embora haja algumas dificuldades na preparação, tudo está a ser feito para que o principal objectivo da formação militar na I Divisão, a manutenção, se mantenha intacto. Mário Soares assegura que o plantel à sua disposição dá garantias para a realização de uma boa época, embora esteja à procura de um camisola 10 para colmatar a fraqueza na zona intermédia do meio-campo.

Jornal dos Desportos – Depois do torneio de Benguela e numa altura em que se aproxima o arranque da temporada 2013, que plano de trabalho será cumprido até lá?
Mário Soares – Gostaria de dizer que depois de uma viagem terrestre, um pouco desgastante, estamos aqui para dar continuidade ao processo de preparação com vista à nossa participação no Girabola que se avizinha. Estamos a consolidar, como deve calcular, todos os processos. Ou seja, os aspectos físicos principalmente. Temos que admitir que temos atrasos na nossa preparação. Arrancámos no dia 20 de Janeiro, mas mesmo assim sentimos que temos algum atraso no processo de treinamento.

 O que pensam fazer para recuperar o tempo perdido?
Vamos continuar a trabalhar de forma metódica e árdua. Sabe que hoje, felizmente, os métodos disponíveis já nos possibilitam fazer um treino integrado, introduzindo vários aspectos, como sendo os tácticos e técnicos. Vamos consolidar tudo isso, em concordância com aquilo que pretendemos para a nossa preparação. Deixe-me dizer que no torneio de Benguela conseguimos introduzir todos os conteúdos de treino. Nestes dias que restam, vamos rectificar o que esteve mal, consolidar o que esteve bom e corrigir o que esteve menos bem.

Há ainda muitas coisas a corrigir?
Sim. Há ainda muitas coisas a corrigir. Como disse, temos muito pouco tempo de trabalho. Seria utopia dizer que a equipa já está boa e perto daquilo que pretendemos. Não nos queremos enganar. Vamos cumprir todos os pressupostos da nossa preparação. Pretendemos entrar no campeonato não já em forma desportiva mas próximos dos níveis atléticos, técnicos e tácticos. Que a equipa esteja, pelo menos, próxima daquilo que pretendemos e, naturalmente, com o decorrer do campeonato, melhorar todos os dias, jornada após jornada, procurando cumprir os nossos objectivos.

Este ano, a equipa foi renovada na ordem de 70 por cento, o que implicará o aumento do vosso trabalho...

De facto. Isso realmente acresce o trabalho que temos pela frente. Muitos atletas são novos, teremos novos métodos de trabalho até os atletas entenderem a nossa maneira de trabalhar e eu entender a forma como eles jogam. Este processo está em curso. Isso, naturalmente,  leva o seu tempo. Felizmente a direcção da equipa pôs-me à disposição alguns atletas com qualidade acima da média. Temos que pensar que a integração nos novos métodos de trabalho irá, de certa maneira, facilitar todo o processo. Aliando isso à qualidade técnica de cada um deles, obviamente que teremos tudo para atingir os objectivos que preconizamos.

Com um plantel com qualidade certamente terá algumas “boas dores de cabeça” para definir a equipa principal?

Sim, admito que irei ter muitas “boas dores de cabeça” em alguns sectores. Realmente o plantel é vasto e com bons valores, mas, por exemplo, na questão do médio central, o tal número 10, temos algumas dificuldades. Temos apenas um pensador de jogo. Queremos reforçar-nos neste sentido ou “inventar” alguém que faça essa posição para criar a concorrência que se impõe neste sector. Noutros, as dores de cabeça serão salutares, porque temos mais opções e assim a luta será igualmente mais cerrada e isto, como sabe, só beneficiará o próprio colectivo.

O plantel para a época 2013 já está fechado?

Não. De forma nenhuma. Tal como disse, temos deficiências no sector intermediário. Falta-nos um camisola 10 no plantel e vamos lutar para consegui-lo ainda antes do início do campeonato.

Já têm alguém em vista alguém?
Há esforços ingentes da direcção do clube nesta perspectiva e creio que, a seu tempo a imprensa saberá quem é.

De onde virá esse camisola 10?
Está ainda no segredo dos deuses e logo saberão. Virá mesmo da nossa praça e é bastante conhecido nos círculos futebolísticos. Assim que este reforço chegar, as perspectivas serão muito boas para aquilo que pretendemos.

Independentemente dessa situação os objectivos de manutenção continuam intactos?

Sim, têm que se manter intactos. Sabe que nós somos uma equipa modesta e, obviamente, os nossos objectivos têm que ser modestos. Não queremos equiparar esta nossa subida a um elevador. Quando fui contactado para fazer parte deste projecto havia dito, na ocasião, que a província da Huíla estava emprestada à II Divisão. Tínhamos que colocar o futebol huilano na I Divisão, que é o seu devido lugar. Agora que este objectivo foi alcançado, temos que fazer jus, trabalhando arduamente para que o objectivo de manutenção seja um facto.


PLANTEL EM DIA
“Balneário da equipa é salutar”

Falava-se que a vinda de alguns jogadores do 1º de Agosto para o CDH poderia causar problemas de balneário. Essa situação existe?

Mário Soares – Não se constata de maneira nenhuma. Como sabe, apenas estou há dois anos a treinar seniores, mas acumulo mais de 20 anos a trabalhar no futebol jovem. Tive o privilégio de treinar boa parte dos futebolistas que estão na nossa praça. A maioria desses garotos que vieram do 1º de Agosto trabalhou comigo durante largos anos. Portanto, como pode notar, conheço-os muito bem e quando existe esta empatia entre atletas e técnico, os chamados maus climas de balneários podem ser ultrapassados de forma natural e com muita facilidade. Todos esses atletas conhecem as suas potencialidades e capacidades. Eu sou do tipo de treinador que dou oportunidade a quem trabalha. Acho que técnica e tacticamente podemos solidificar o nosso trabalho, fazendo um balneário bom. Desde que iniciámos a nossa preparação não senti nenhuma azia no balneário. Estamos a criar uma autêntica família. Todos os atletas terão as mesmas oportunidades desde que cada um deles se empenhe devidamente, para termos harmonia dentro da equipa.


NO PAÍS
“Temos obrigações”

Jornal dos Desportos – A vossa equipa é apelidada de “1º de Agosto B”, em função do número de atletas provenientes daquela equipa de Luanda. O que tem a dizer sobre isso?

Mário Soares – Não concordo, nem devo concordar. Nós somos o Clube Desportivo da Huíla, temos as nossas obrigações para com o público huilano. É certo que o patrocinador é o mesmo, mas, ainda assim, isso não nos identifica como sendo 1º de Agosto B. Nós somos o CDH, com obrigações firmadas, e cumprimos as nossas responsabilidades na competição nacional e a nível do próprio futebol do país. Se fossemos 1º de Agosto B, isso pressupunha, à partida, que teríamos obrigações perante o 1º de Agosto A e isso, como sabe, não é bem assim. Nós somos o Clube Desportivo da Huíla, uma colectividade independente, que tem obrigações, repito, para com o futebol nacional, respeitando pura e simplesmente a verdade desportiva. É assim que têm que nos ver, como mais um elemento para engrandecer o futebol em Angola.


“Somos uma família unida”


Jornal dos Desportos – Que Desportivo da Huíla se pode esperar no seu regresso ao Girabola em que será “rebaptizado” pelo Kabuscorp do Palanca?
Mário Soares
– Como sabe, a nossa equipa terá de jogar com todos os adversários do campeonato. São 15 equipas que nós iremos defrontar. Na primeira jornada calhou o Kabuscorp do Palanca, como poderia ter calhado outra das 15. Por isso, só nos resta preparar a equipa devidamente, não só para o jogo inaugural, mas para toda a prova. É natural que iremos pensar jogo por jogo, mas as atenções serão para o campeonato todo. Com o Kabuscorp teremos  atenções acrescidas. Somos uma equipa inferior. O Kabuscorp, jogando em casa, terá a obrigação de ganhar. Nós, como sabe, não somos perú. O perú é que morre na véspera. Sendo assim, faremos tudo para contrariar esse favoritismo e procurar não perder, mas pontuando na jornada inaugural.

Com um plantel bastante jovem é possível fazer boas coisas?
Temos uma equipa com uma média de idade de 24 anos. Estamos com uma miscelânea muito boa. Para formar a equipa tipo, vamos  procurar aliar a juventude à veterania para podermos ter uma equipa bastante equilibrada e fazermos frente aos nossos adversários. Repito, somos modestos e as nossas ambições também são modestas. Vamos promover jovens desde que esta acção não coloque em causa os nossos resultados desportivos.


Com quantos atletas pensam fechar o plantel?
Vamos formar um plantel com 28 jogadores e mais três juniores. Realmente dão-nos dão o direito de utilizar cinco juniores, mas eu acho que não devemos promover juniores por promover, temos, isso sim, de fazê-lo quando virmos que há qualidade, para que amanhã possam ter garantias de espalharem o “perfume” do seu futebol na praça nacional. Deste modo, na nossa equipa, vimos três garotos com boas perspectivas de um dia aparecerem em grande no nosso futebol. Os outros deverão esperar a sua oportunidade e trabalharem mais um bocado. Vamos formar um plantel com 31 atletas.


 Que avaliação faz das relações entre atletas, técnicos e direcção do clube?

Nós temos uma direcção bastante exigente e empenhada em todos os assuntos que se ligam ao futebol. É claro que devemos entender quando uma e outra coisa corre mal. Por isso, procuramos ajudar para que as falhas não se repitam. Ultrapassamos todos os constrangimentos conjuntamente e o entendimento é salutar.

E  com os seus adjuntos?

Somos uma família unida. Formamos um quarteto onde impera a harmonia, compreensão e grande sentido de entreajuda. São todos trabalhadores. Gostam do trabalho que fazem e empenham-se muito pela causa do clube. Não temos problemas nenhuns em relação a isso.


PARA TREINAR E JOGAR
Falta de campos é preocupação


A falta de campo para treinos tem sido um grande problema para a vossa equipa. Como têm contornado a situação?
Mário Soares – Nesse aspecto temos, de facto, muitos constrangimentos. Não temos campo para trabalhar. Acredito que, desde o princípio do trabalho, se tivéssemos campo digno para treinar, a equipa estaria melhor. Nós temos um estilo de trabalho integral. As carências de campo têm limitado a progressão laboral da equipa. Tivemos de fazer trabalho físico de forma analítica, o que já não se usa nos tempos actuais e também não se coaduna com a minha forma de estar no futebol.

Isso tem provocado muitos problemas?
De facto. Daí alguns atrasos nos automatismos de preparação da nossa equipa. Entendemos que essa dificuldade não é só da responsabilidade da direcção do clube, embora ela seja a maior interessada. A superação dos quatro campos transcende as responsabilidades da direcção do clube. Resta-nos, neste particular, agradecer à direcção do Benfica do Lubango que tem aberto as suas portas para realizarmos uma preparação menos titubeante.

O Desportivo da Huíla marcou poucos golos no campeonato da II Divisão. Como é que será a próxima época?

A dificuldade de campo tem influenciado bastante neste aspecto. No ano passado trabalhámos muito no pelado e, como sabe, para quem trabalha no pelado e joga no relvado, os gestos técnicos são diferentes. Foi bastante difícil, porque nas semanas que jogávamos em casa tínhamos o direito de treinar uma única vez no relvado. A adaptação é difícil. Acredito que este foi o motivo principal da fraca concretização. Se nós superarmos o problema do campo para treinos e jogos, a questão da finalização será superada naturalmente.

Será que essa situação só tem a ver com a falta de campos?
É claro que não. Tem a ver igualmente com a qualidade técnica dos nossos atletas. Temos bastante concorrência no sector atacante, com jogadores de grande valia e acredito que isso obriga-os a trabalhar mais concentrados. Nós, os treinadores, temos muito por onde escolher. Sabe que um ponta-de-lança vive de golos, sendo assim, cada um deles deverá empenhar-se a fundo para marcar sempre.


ATAQUE
Desportivo bem servido

O sector atacante parece-nos ser o mais forte da equipa. Que comentários se lhe oferece fazer?

De facto temos bons atacantes. Temos cinco ou seis verdadeiros “homens-golo”. O Bena, Banda, Giresse, Orlando, Chiquinho e o Pépe estão a muito bom nível. Temos que reconhecer que Bena e Giresse, no ano passado, foram os mais produtivos do 1º de Agosto e, como sabe, o D’Agosto é o que é. É o eterno candidato ao título. Tanto eles, como os outros, terão que se empenhar a fundo. Acredito que ninguém deve dormir à sombra dos seus feitos. Por outro lado, se nós, os técnicos, não dermos qualidade ao trabalho e se a direcção não disponibilizar os apoios que se impõem, claro que eles não serão as tais mais-valias que queremos que sejam. Terão que ter, sobretudo, bastante humildade para serem iguais a si mesmo.

Sente-se privilegiado por ter esses bons pontas-de-lança no seu plantel?

Sim. Gabo-me de tê-los na minha equipa. Ainda assim, acho que isso só será mais-valia se eles se empenharem no trabalho. Esse, para já, será um dos motivos que me irá dar imensas dores de cabeça, no bom sentido.

As questões de material e equipamento desportivo para a equipa de futebol estão salvaguardadas para a época que se avizinha?
Acho que estão a ser salvaguardadas. Há promessas de melhorias substanciais. Mais dia, menos dia poderemos ver as promessas cumpridas e vocês, naturalmente que saberão. Temos vivido algumas dificuldades neste arranque de preparação, mas julgamos serem normais para uma equipa como a nossa. Temos consciência do esforço que a direcção faz para colmatar todas essas insuficiências. Temos confiança  absoluta na  direcção do clube.


DESEJO
“Público deve apoiar”


Que apoio espera do público huilano que sempre acarinhou o Clube Desportivo?
Mário Soares – Espero que continuem a acarinhar a equipa. Quando se sentirem agastados com ela, que se virem para mim, porque sendo eu o treinador assumo as responsabilidades de todos os maus momentos. Peço que acarinhem essa rapaziada para que eles possam ter sempre ânimo de fazer o melhor e honrar a camisola que vestem. Nós iremos precisar do apoio de todo o público huilano e faremos tudo para corresponder a esse carinho e apreço. Terão que saber estimular a equipa quando as coisas não correrem bem e incentivá-la quando estivermos embalados. Eu sou apenas o treinador, não sou o fazedor do espectáculo. Os artistas são os atletas. Cada elemento do público deve ser um autêntico inspector para nos ajudar a debelar as nossas insuficiências com conselhos, reparos, críticas construtivas. Enfim, vamos unir forças para elevar bem alto a nossa bandeira e contribuir para a manutenção da equipa no Girabola.

Quer acrescentar alguma coisa?
Quero apenas agradecer a oportunidade que o Jornal dos Desportos nos oferece para falar do trabalho que desenvolvemos. Não posso deixar de agradecer igualmente à imprensa desportiva no geral, pela forma como tem estado a acompanhar aquilo que fazemos. Temos que reconhecer que estamos a crescer com as críticas construtivas. Estamos abertos a satisfazer todo tipo de dúvidas que a imprensa desportiva tiver.