Jornal dos Desportos

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Melo Clemente - 19 de Novembro, 2016

Paulo Madeira reconhece que no sector feminino h muito trabalho a fazer prximos tempos

Fotografia: Nuno Flash

Ao contrário do que se propala, o basquetebol angolano continua a registar níveis de crescimento elevado, fundamentalmente, no sector masculino, de acordo com Paulo Alexandre Madeira, presidente cessante da Federação Angolana de Basquetebol (FAB).

O actual homem forte da FAB assumiu a candidatura para mais quatro anos de mandato e considera positivo os primeiros quatros com a execução de quase na totalidade dos programas.

Que avaliação faz ao mandato que cessa agora?
"Embora seja a parte mais visível e importante o sucesso desportivo das selecções nacionais, não se deve avaliar o desempenho das direcções das federações nacionais apenas tomando este pressuposto como referência. O que é feito ao nível da melhoria da competição interna, controlo do desenvolvimento e idades dos atletas de formação, do rigor e melhoria do nível profissional de todos os intervenientes da nossa actividade sãoos que produzem os meios (atletas) para que as nossas selecções continuem a ser alimentadas com atletas de qualidade e talento. Isso fizemos muito bem com o apoio dos clubes parceiros da Fab.

Sobre o balanço?

“Foram cumpridos os dez objectivos do nosso Programa de Candidatura "Inovar para Vencer", em 2012: Cumprimos e mantivemos a prática de ser a nossa modalidade dirigida por membros da grande família do basket nacional. Estabelecemos várias regiões de desenvolvimento do basquetebol, representadas nos órgãos sociais. E durante todo o mandato, o Presidente do Fórum das Associações Provinciais de Basquetebol (Órgão colegial das Associações Provinciais) fez-se representar nas reuniões de Direcção. Foi alterada a estrutura de gestão e organização. Criaram-se áreas com maior responsabilidade executiva. Dividiu-se a actividade da área administrativa da desportiva. Eliminamos em absoluto os atrasos nos processamentos de pagamentos dos vários agentes do jogo, que chegavam a ficar meses em dívida. Melhoramos o sistema de cobrança das obrigações devidas a FAB. Colocamos  100 por cento da gestão financeira dentro do sistema bancário”. 

E ao nível da Funcionalidade dos Órgãos Sociais?
"A figura do presidente de direcção, secretário geral, director técnico e de formação e directora da Escola Nacional de Formação de Quadros da FAB, funcionaram como os únicos membros com responsabilidades executivas diárias e remuneradas. Foi materializada a desconcentração de tarefas, nomeadamente ao nível das áreas de intervenção das vice-presidências, o que permitiu melhorar a comunicação com os demais membros ordinários da FAB,  melhorou a tarefa de mobilização de patrocínios.

Mantivemos e incrementamos a agressividade na formação de quadros no seguimento do iniciado (2008) programa PEDBASKET. Foram realizados todos os anos cursos de treinadores Nível I, Nível II e Nível III. A arbitragem e Oficiais de Mesa sofreram várias acções formativas e qualificativas. Os Estatísticos receberam formação por video conferência com a empresa parceira da FIBA (na Austrália), para a melhoria do sistema de transmissão dos jogos e estatísticas via internet em tempo real.  Uniformizamos as normas de avaliação e selecção de Comissários, Árbitros e Oficiais de Mesa, no respeito estrito das normas e recomendações FIBA".

Quanto à competição Interna?
“Tivemos um verdadeiro ganho, aumentamos o número de praticantes federados em 66,6 por cento.  Melhoramos o sistema de inscrições e transferências. Foi lançado o basquetebol 3x3, com eventos que nos permitem começar a construir o Ranking Nacional. Levamos basquetebol de formação e de alto nível e rendimento a várias regiões do país, como Benguela, Bié, Huila, Namibe, Malange e Luanda. Apoiamos com tabelas de mini basket, bolas diversas, sapatilhas e equipamentos, associações, clubes e núcleos em Luanda, Bié, Namibe, Benguela, Lobito, Baia Farta e  Malange.  Durante os últimos quatro anos, nenhuma prova nacional ao nível da formação decorreu em Luanda. O que permitiu a forte divulgação do basquetebol fora da capital do país”.

 Pode nos caracterizar a relação da FAB com os seus membros?

"Não tomando como referência os pontos de fricção e pressão, a FAB estreitou e melhorou de forma significativa as relações com os clubes e os demais membros ordinários. Conscientes de não poder agradar a todos, nem de serem os seus actos e decisões perfeitos. Mas com certeza, actos que marcaram como principal motivação, a melhoria da gestão da coisa desportiva, mas sempre com o compromisso do respeito dos regulamentos e dos interesses comuns dos membros ordinários da FAB.  Vários membros de Associações Provinciais integraram e participaram na coordenação de delegações nacionais que participaram em competições internacionais. Foram celebradas parcerias com Portugal e Espanha para a formação de quadros, e criados acordos de entendimento com academias e clubes em Espanha, Portugal e Estados Unidos. Foi melhorada a nossa influência dentro da FIBA, introduzimos mais um angolano que  vai  coordenar a Comissão das Federações Nacionais”.

E em relação ao capítulo desportivo?

"Mantivemos o título do Afrobasket em seniores femininos em 2013, conforme projectado. Embora não tenhamos sido felizes em 2015 no Afrobasket, conseguimos a medalha de bronze nos Jogos Africanos. Resgatamos o título perdido em Antananarivo, em Abdijan 2013, e em 2015 fomos vergados na final pela Nigéria, nos seniores masculinos. Ano em que fomos campeões dos Jogos Africanos em masculinos e bronze em femininos. Conquistamos pela primeira vez na história do basquetebol angolano, o Afrobasket sub-16 masculino em 2013, e vinte e oito anos depois o Afrobasket Sub 18, em 2016 no Ruanda. Estivemos presentes em três campeonatos do mundo em 2014, dos quatro que a FIBA realizou.Apuramos os nossos Sub 18 para a disputa do Primeiro Campeonato do Mundo em sub-19 a realizar-se em África em 2017 no Cairo, Egipto. Em síntese, em quase quatro anos de mandato, fica registada a conquista de quatro Taças em Afrobasket, uma dos Jogos Africanos, Medalhas de Prata e de Bronze em vários escalões e categorias”.

O que ficou por fazer durante este mandato?
"Do programa, perspectivado em 2012 objectivamente, ficou muito pouco por se cumprir. Devido as dificuldades de acesso aos cambiais, fica por implantar a uniformização dos troféus das competições nacionais, e por abrir, embora já montada, a Loja de Merchandising do Basket. E acreditamos nós que o funcionamento pleno deste recurso, poderá criar rentabilidade que permitirá cobrir alguns programas de expansão e melhoria da prática do basquetebol. Mas a verdade, é que a execução prática da nossa actividade diária, acaba por suscitar muitas outras perspectivas, e nesta ordem ideias, o que posso dizer hoje, é que existe ainda muita coisa por realizar, dentro daquilo que é o pensamento de crescimento da nossa modalidade”.


Afrobasket´s jovens
“Resultado do trabalhado iniciado em 2013”


Que considerações faz as conquistas de títulos africanos a nível dos escalões de formação?
"A conquista dos afrobaskets sub-16 e sub-18, são o resultado claro de um trabalho necessário, que se iniciou em 2013 com o treinador Manuel Silva "Gi", de melhoria e crescimento dos nossos atletas, visando a médio prazo, a sua integração na Selecção Nacional de Seniores.  Para que possamos continuar a acreditar no nosso potencial de conquista ao nível de África e da melhoria das nossas classificações ao nível das provas mundiais. Esta é a nossa visão, é fundamentalmente nisto que temos focado o nosso trabalho. Pois foi a reforma profunda efectuada na gestão da competição interna ao nível da formação que veio permitir a criação desta possibilidade. Mas garanto-vos que o resultado ainda não nos satisfaz, pois o potencial existe, para muito mais possibilidades e ambição".

É candidato à presidência da federação ?
"O grupo de trabalho do qual faço parte vai candidatar-se. Quero concorrer como líder desta candidatura. Vou esperar ser merecedor desta confiança".

Caso vença as eleições, quais serão os pontos fortes do novo mandato?
"Claro que os pontos fortes obedecerão a uma lógica de continuidade do programa que temos vindo a implementar. Os detalhes serão divulgados no momento próprio”.

O elenco vai se manter ou pensa fazer algumas alterações? É possível adiantar alguma coisa?

"Na minha perspectiva deve-se manter um núcleo chave, mas acredito que existirão algumas alterações em pontos chave".


Porque?
"Porque são necessárias, acredito".

Deixa a modalidade pior do que encontrou ?

"Por tudo o que já foi dito nesta entrevista. Acredito que o basquetebol está bem mais rico, e só quem não está na vida diária do basquetebol não percebe. Mas é importante reafirmar, que não encontrei a modalidade pobre, muito pelo contrário, acho que nestes quatro anos conseguimos, dar continuidade, e realizar coisas que se calhar, em momentos anteriores, por algum circunstancialismo não foi possível realizar".

Porque?
 "Porque crescemos, administrativamente e desportivamente. E o futuro irá demonstrar isso".


Perda do título
Instabilidade emocional
foi decisiva naquela época   


Aquando da perda do título continental para a Nigéria, houve muita contestação a FAB. Não pensou naquela altura abandonar o barco?
"Não. Nunca. Porque a perda do título não foi fundada na incompetência ou incapacidade de trabalho da nossa direcção. Sabíamos das dificuldades que encontraríamos para chegar ao pódio. Tínhamos uma equipa mais jovem, iniciaramos o processo de rejuvenescimento e isto tem as suas consequências. Infelizmente, existiram muitos factores externos à selecção nacional, que investiram na desestabilização da equipa, misturaram querelas de índole pessoal com interesse supremo da Nação nesta área, que é o sucesso desportivo. O objectivo era chegarmos a final e jogá-la, infelizmente a instabilidade emocional não contribui para que alcançássemos o sucesso.  Mas temos também de ganhar consciência que o Afrobasket não é um passeio de amigos. É uma prova  dura e os outros países tem investido na sua melhoria competitiva. Temos de continuar a crescer, rejuvenescer para continuarmos a competir com ambição de ganhar.  

 Prefere o estatuto de presidente da FAB ou de advogado?

"Presidente é uma missão temporária. Advogado é aquilo que adoro ser e é o que me mantém como ser com responsabilidade social. É a minha profissão, o meu sustento".

Qual é avaliação que faz do actual momento da modalidade no país ?
"Estamos a viver um crescimento, incrível no basquetebol masculino. Muitos atletas com potencial, alguma melhoria dos processos de treinamento, com a elevação da exigência, rigor e qualidade do treino, pois acredito que aumentou a competitividade entre os técnicos. Penso que temos condições para começarmos a olhar pró mundo mais do que apenas na África. Temos condições de ambicionar mais, mas para isso é necessário cruzar muitos factores sociais transversais. O treino e o que fazemos não é tudo. Tem de existir uma intervenção social maior. Infelizmente não se passa o mesmo com o feminino. Estamos perante um "fornada" de atletas que não é tão talentosa, nem atleticamente tão habilitada como a geração Nacissela, Nadir, Luísa, Nguendula. Teremos de estar mais atentos e concentrados para perceber o que pode ser melhorado, visando equilibrar as categorias. É determinante que os clubes percebam que tem de trabalhar também com feminino, como faz o 1º de Agosto, o Maculusso e o Interclube. Sem competição não haverá melhoria nem  desenvolvimento.

Sente  que a família do basquetebol anda desavinda ?
"Não existe família desavinda. Nem existe família unida que partilhem todos os mesmos pontos de vista e posicionamentos. Isto é uma utopia. Não temos de estar de acordo com relação a todas as questões, e pior ainda quando contestamos sem conhecimento sequer daquilo que a outra parte defende. E este tem sido o maior problema. As pessoas não aparecem quando são chamadas para transmitir as suas contribuições e depois falam apenas na rua, nas roulotes e no facebook. As diferenças, as lutas de contrários, são muito boas para o desenvolvimento e provoca um espírito de concorrência. Agora, esta dinâmica deve ser manifestada nos momentos e locais adequados às normas de convivência social da ética, moral e FairPlay. Valores próprios da vivencia desportiva. Os jogos são ganhos no campo respeitando as regras em vigor. Alguns se propõem e só actuam no âmbito da "batota", usando por vezes recursos à disposição para falsear ou criar situações que impeçam os demais a esgrimir os argumentos de razão e concorrer em pé de igualdade. A família do basquetebol deve condenar estas práticas de "batota" e garantir que todos tenham o seu momento para apresentar e defender os seus argumentos e perspectivas. Desta forma, o basquetebol continuará a crescer".

Convicção
Presidente mantém fidelidade aos ideais


Mudaria de actuação se chegasse apenas agora a direcção da FÁB?
"Não mudaria com certeza".

Porque?

"Porque considero que o foco da nossa actuação foi o correcto e necessário, nos vários momentos a que tivemos de dar resposta, as situações de gestão corrente, mas também as situações de maior pressão, próprias da vida do desporto de competição. Mas hoje tenho toda a convicção de que embora a actuação fosse a necessária, em muitos momentos, pela experiência acumulada, se calhar, os percursos não teriam sido os mesmos. Coisas do envelhecimento".

O que fez de diferente de outros presidentes?
"É muito difícil falar sobre isso. No desporto todos têm um ego elevadíssimo e por vezes sobrevalorizamo-nos. Tenho o privilégio de estar a frente de uma instituição de enorme prestigio, na qual tive como antecessores verdadeiros monstros sagrados do  dirigido desportivo e que deixaram legados muitos elevados da nossa passagem pela nossa casa. Por isso, peço a Deus todos os dias estar pelo menos ao nível deles e deixar alguma referência".


Quatros anos são suficientes para implementar um programa de gestão da FAB?

"Não são suficientes".
Porque?
"No nosso caso, ainda mais grave. Pois iniciamos funções com um ambiente de suspeição e contestação judicial. Logo, perdemos muito tempo e dispersamos muita energia, concentração e motivação em actividades que não se focavam no basquetebol. Para além disso, não é possível implementar um programa estruturante e ambicioso como o nosso.  Os primerios anos servem  para se estabelecer uma relação de confiança com os associados, tornando-os parceiros.  O envolvimento dos clubes como parceiros do programa é vital para a sua efectivação".


  Durante a campanha sempre falou em gestão participativa. Ao longo do mandato registou-se três desistências...

"Quando falamos de gestão participativa, estamos a falar da participação efectiva daqueles para os quais trabalhamos. Entenda-se membros ordinários (Associações e Clubes). E isto foi feito. Todas as associações e clubes membros da FAB participaram e colaboraram ".

 O que é que esteve na base destas desistências ?

"Tivemos a saída do vice Bendrau Júnior, e da secretária-geral Isabel Major. Na base estiveram razões de natureza pessoal de cada um e a direcção e a Assembleia geral optaram por respeitar estas decisões. Temos de respeitar as expectativas das pessoas e as avaliações e prioridades que definem para as suas vidas".

Arrepende-se de alguma decisão que tomou como presidente da FAB?
"Arrependo-me com certeza de algumas. Embora mais vezes me arrependa de não ter tomado algumas decisões em momentos que devia telas tomado".