Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Quanto mais equipas seniores melhor ser a competio interna

Jlio Gaiano, em Benguela - 07 de Dezembro, 2010

Mariano de Almeida, comentarista desportivo

Fotografia: Jornal dos Desportos

O que diz sobre a evolução do andebol no país?
A evolução do andebol nacional é marcada um pouco pelos títulos que o país vai conquistando na arena internacional. São 10 títulos africanos em seniores e cinco em juniores femininos. A estes, juntam-se 30 títulos conquistados pelas senhoras do Petro Atlético e um na classe masculina pelo 1º de Agosto (aconteceu em 2007, no Benin). Isso para não citar outros cerca de 60 pódios, que colocam o país entre os mais titulados do continente. Pena é que esses feitos não têm reflectido no aumento de jogadores, o que é preocupante para o futuro da modalidade.

Essa apreciação é notória no escalão de seniores, em ambas as classes, mas não acontece nos escalões de formação, pelo menos nos últimos anos…
É verdade que nos escalões de formação, nomeadamente iniciados, juvenis e juniores, a história tem sido diferente. Nos últimos anos, temos registado um número crescente tanto de atletas quanto de clubes. Repare que, nos últimos campeonatos realizados, foram cerca de 30 equipas nas diferentes categorias, o que explica o quanto os clubes estão apostados na promoção da modalidade. Esperamos que isso seja o sinal de que, no futuro, teremos um campeonato de seniores mais competitivo e participativo. Acredito que quanto mais alargado for o número de equipas nos campeonatos seniores (masculinos e femininos), melhor será a competição interna.

Quer com isso dizer que os campeonatos organizados no país não oferecem a competitividade exigida? Qual seria a melhor saída para se mudar o quadro?
Cinco equipas em seniores femininos e outras tantas masculinas não garantem um campeonato forte. Defendo que se deve alargar a estrutura de base do nosso andebol para no futuro termos mais equipas seniores a participarem em provas nacionais (Campeonato e Taça de Angola). Espero que sejam os clubes e os governos provinciais a definirem políticas para a sua dinamização.

Ao contrário da cidade capital, no resto do país, os clubes queixam-se da falta de dinheiro e os governos provinciais dão pouca assistência à modalidade, o que complica ainda mais a situação…
Há muito por fazer para se ultrapassar os problemas que existem na maioria dos clubes. Por exemplo, aqui na cidade do Lobito e em Benguela, existem muitas empresas potencialmente fortes em termos financeiros, que podiam apoiar o andebol, uma modalidade que já fez história na província. Por isso, não faz sentido existir em Benguela apenas um clube a movimentar o escalão seniores femininos e registar-se a cada ano a extinção de equipas masculinas, como aconteceu recentemente com o Grupo Desportivo da Zona Aérea da Catumbela (ZAC).

Aprovação da Lei do Mecenato
no Desporto impõe-se


Apenas com a aprovação da Lei do Mecenato no Desporto poderemos ultrapassar o problema que a modalidade enfrenta. Concorda?
Concordo perfeitamente, até porque, dada a ausência desta lei, o resultado é aquilo que observamos no dia-a-dia desportivo: clubes a anunciarem desistência desta ou daquela modalidade por falta de recursos. Aliás, nas actuais condições em que vivemos, torna-se muito difícil, senão complicado, gerir o desporto de alta competição por muito tempo. Logo, há motivos suficientes para o Estado Angolano aprovar a Lei do Mecenato no Desporto.

Então defende que, com a aprovação da Lei do Mecenato no Desporto, muitos problemas serão resolvidos, como, por exemplo, acabar-se com os campeonatos nacionais de seniores em regime concentrado?
Absolutamente! De outra maneira não poderia ser, até porque, nos dias que correm, os campeonatos nestes moldes já não se usam noutras modalidades. O futebol e o basquetebol são exemplos disso mesmo. Também acredito que não é fácil, nas condições em que a maioria dos clubes se encontram, realizar um campeonato nacional no regime continuado. A saída estaria mesmo na implementação da Lei de Mecenato, já que a mesma proporciona benefícios fiscais às entidades singulares e colectivas que se prestam a contribuir para causas desportivas, como a isenção de impostos.

Apesar das vantagens aqui avançadas, há quem diga que a lei por si só dificilmente resolve o problema, por estarmos em presença de uma gritante falta de cultura do patronato no desporto. Qual é a sua visão?
A minha posição é singular. Por isso, não tenho porquê discordar do pensamento das outras pessoas, até porque nascemos diferentes e de forma diferente executamos as nossas acções. O importante é fazermos tudo em prol do único objectivo: encontrar o caminho ideal para o andebol nacional. Todas as leis, quando novas, têm algumas repercussões na hora da sua implementação. Dessa forma, não é isso que me preocupa, mas sim encontrar empresários fiéis para a causa do desporto nacional. O resto vem mais tarde.

Voltando aos campeonatos concentrados, podemos dizer que o formato de realizações dos campeonatos seniores masculinos e femininos não dá o número de jogo necessário aos atletas que competem em diferentes frentes internacionais, pois encontram andebolistas com médias do jogos que rondam entre 80 a 150 por época…
Esse é o maior problema que, infelizmente, reina no nosso andebol. Por isso, há que corrigir tais situações, o que passa por se arranjar mais patrocínios no mercado nacional, de forma a reduzir os custos aos clubes. Só assim teremos mais equipas a competir em provas nacionais, proporcionando aos atletas mais jogos e acabar com o “handicap” que apresentam nas competições internacionais. No entanto, tudo passa por se realizarem provas do formato diferente do actual, em que as equipas se concentram numa determinada cidade. O pior de tudo é que nem todos os que manifestam interesse em participar, aparecem no local da prova, alegando falta de dinheiro e forçando a organização a albergar um campeonato com cinco ou seis equipas, numa autêntica cópia ao “provincial” realizado na cidade de Luanda, o que é mau para o andebol. Por isso, acredito que, com a aprovação da Lei do Mecenato, muita coisa que está por detrás da falta de competitividade desportiva no andebol nacional será ultrapassada, com a naturalidade que se lhe impõe.

"Modalidade deve merecer
atenção das autoridades locais"


Como pessoa que acompanha a evolução do andebol nacional, que apreciação faz da modalidade em Benguela?
Já esteve em bom plano, mas, nos últimos tempos, regride de forma assustadora. Tudo porque os clubes se queixam da falta de apoios financeiros por parte da classe empresarial e do executivo local. Fruto disso, registam-se fugas de atletas e de técnicos, que vão para Luanda à procura de melhores condições sociais e económicas, que os possibilitem continuar a carreira desportiva. Para agravar a situação, nos últimos nove anos registaram-se grandes clivagens entre os dirigentes e clubes da província, o que se reflectiu negativamente na organização administrativa, tanto nos clubes, quanto na própria associação provincial. Fruto disso, o resultado está aí à vista de todos os amantes da modalidade. Muitos clubes deixaram de apostar no escalão de seniores. O Eléctro do Lobito é a única agremiação que resiste às intempéries, mas sozinho não é capaz de absorver as atletas que ascendem ao escalão seniores, o que não é bom para uma província potencialmente forte em termos sócio-económicos.

Há quem diga que a rivalidade entre as duas principais cidades de Benguela contribui negativamente para o desenvolvimento da modalidade. Concorda?
Não é esse o caminho que devemos seguir, se quisermos trabalhar para o bem da modalidade na província. Também não é verdade que exista rivalidade entre os agentes da modalidade das duas cidades (Lobito e Benguela). Existe sim, uma espécie de divergência nalguns aspectos ligados ao andebol. Todavia, fico preocupado quando me chegam informações dizendo que as supostas rivalidades entre as duas cidades partem de certos (ir)responsáveis ligados à modalidade. Isso é mau! Acho que o andebol benguelense tem muito a dar ao país e, por isso, não é com pequenas quezílias que vamos resolver o problema que a todos afecta. É preciso acabar com essas confusões e pensarmos seriamente no futuro da modalidade. Afinal, o que nos une é muito maior do que tudo o que nos divide. É preciso acabar-se com as divergências e cultivar a harmonia, pois só unidos na diversidade, o andebol benguelense se tornará forte e vencedor, como aconteceu num passado recente.

A possível desistência do andebol júnior feminino do 1º de Maio e do Nacional de Benguela inquieta os agentes da modalidade na província, que clamam pela intervenção de quem de direito. O que diz sobre a situação? 
Esta situação deixa preocupado todo o mundo que anda no andebol nacional e eu não fujo à regra. Na verdade, mexe comigo. Entristece-me ouvir coisas que em nada dignificam a cultura desportiva de uma província que já foi considerada a segunda maior potência do desporto nacional. A sociedade local deve criar condições para estancar esse mal, sob pena de voltarmos a assistir a cenas como no passado, em que muitos atletas, técnicos e dirigentes viram-se obrigados a deixar a província e rumar para a cidade capital com o propósito de continuar a carreira desportiva.

Ao que tudo indica, a fuga de atletas para Luanda baixou consideravelmente nos últimos anos …
É verdade. Mas não é tudo, até porque a nível local já não se produz muito como acontecia no passado. Por exemplo, na cidade do Lobito, além do Electro, havia a Casa do Pessoal do Porto, clube patrocinado por uma empresa de grande peso na balança sócio-económica da província e do país. A Académica do Lobito, o 1º de Maio e o Nacional, só para citar apenas estes, foram os clubes que produziram atletas que hoje evoluem em clubes de Luanda, quando deviam permanecer aqui e desenvolver a modalidade. Infelizmente, não foi possível mantê-los em Benguela, porquanto os clubes não têm condições suficientes para o efeito. Sem dinheiro, nada podiam fazer senão libertá-los contra a sua vontade. Actualmente, as coisas mudaram, já existem universidades e os atletas podem permanecer na província e dar continuidade aos seus estudos.

Ainda assim, o problema da fuga de atletas para a capital não está terminado. Que saída aponta para a solução desse problema?
É preciso entrarem em jogo outros factores. As autoridades da província devem intervir, como mobilizar a sociedade local a comparticipar financeira e materialmente na modalidade, que neste momento carece de apoio. Não havendo dinheiro para custear as despesas dos atletas, os clubes não podem resistir. Por exemplo, não faz sentido, com as grandes empresas que existem no Lobito, como o Porto, o CFB, a Sécil (fábrica de cimento), além de outras tantas de pesca que existem em Benguela e Baía-Farta, o andebol andar de rastos, por falta de financiamento aos clubes.

À procura do novo técnico
para a selecção feminina


O técnico Paulo Pereira foi afastado do cargo de seleccionador nacional do andebol sénior feminino. O que estará na base dessa posição tomada pela Federação Angolana de Andebol?
Costuma dizer-se que em equipa que ganha não se mexe. Acontece, porém, que por aquilo que nos deu a observar, tanto no campeonato mundial quanto como no africano, o técnico não se terá adaptado ao andebol africano. Aliás, os resultados alcançados nos referidos certames dizem tudo. A selecção nacional piorou a sua classificação no “mundial”. Ou seja, do sétimo lugar conquistado com o professor Jerónimo Neto regrediu quatro, quedando-se na 11ª posição. Para agravar a sua posição, há muito que a selecção nacional não vence uma prova continental à tangente, como aconteceu no último “Africano”, na Tunísia, em que, na final, as angolanas venceram as anfitriãs por um escasso golo (31-30). Acredito que todos esses factores pesaram no seu afastamento, o que não é de espantar.

Para o cargo que o português deixa, cogita-se a contratação de um coreano e outros nacionais, sendo o professor Vivaldo Eduardo o mais apontado…
Ao contrário do que alguns pensam, o professor Vivaldo Eduardo é a pessoa mais indicada para assumir o cargo, até porque, sendo o técnico do Petro de Luanda, equipa campeã africana em título e a que mais atletas fornece à selecção nacional, estará em condições para levar a bom porto a equipa de todos nós. Outro factor que pesa a seu favor é a comunicação. É angolano e facilmente se comunica com as atletas e os adjuntos que com ele poderão trabalhar. O mesmo não poderá acontecer caso a federação avance com a intenção de contratar um coreano, que além de ter como entrave a língua (não fala português), tenho dúvidas que faça melhor do que o professor Paulo Pereira, um técnico que, apesar ter sido formado numa das melhores escolas do mundo andebolístico, em Espanha, e dominar a língua (é português de nacionalidade) não foi capaz de convencer os dirigentes da Federação Angolana de Andebol e daí a sua rescisão. Por isso, acho certa a indicação de Vivaldo Eduardo para dirigir os destinos da nossa selecção sénior feminina.