Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Queremos fazer do futsal modalidade de excelncia"

Paulo Caculo, Casablanca - 10 de Fevereiro, 2020

No Alexandre descarta recandidatura para mais um mandato na FAFUSA

Fotografia: Jornal dos Desportos

Angola regressou do Campeonato Africano das Nações (CAN) de Futsal, que se disputou no reino de Marrocos, de medalha ao peito. Na hora de balanço, não restam dúvidas ao presidente da FAFUSA, Noé Alexandre, que os feitos ora alcançados serão recordados, de forma indelével, na história do desporto nacional.

Qual é o seu sentimento, após estas duas grandes façanhas conseguidas pela Selecção Nacional, no campeonato africano, a conquista da medalha de bronze e o apuramento o Mundial deste ano, na Lituânia?

O sentimento é do dever cumprido, porque correu, precisamente, como a Federação programou. Apesar das dificuldades que já antevíamos, baseando-se nos problemas que o país atravessa, pois, não podemos fugir à realidade, conseguimos atingir os nossos objectivos, com espírito de patriotismo, humildade e disciplina com algumas mãos invisíveis. Tudo isso ficará na história do desporto angolano e não só, especialmente, da família do futsal.

Acreditava que o grupo pudesse ter tanto sucesso, após a preparação deficiente que teve em Luanda e com “makas” de dinheiro à mistura?

Sim. Sempre acreditámos que podia ser possível, apesar desses problemas. Mas, estes feitos, têm a ver com os esforços de toda a família do futsal, especialmente, as Associações provinciais, clubes, escolas da modalidade,  a quem enviamos o nosso grande apreço e respeito por eles. Porque, se eles não trabalhassem, não estaríamos, hoje, a enaltecer estes resultados. Mesmo sem apoio nenhum, sabemos nós que as APF’s dependem dos próprios governos provinciais, mas nunca me apercebi que alguma Associação tivesse beneficiado de uma verba do Governo, para desenvolver a modalidade nas suas províncias, e isso não falando apenas do futsal, mas extensivo à outras modalidades.

Acha que as Associações são os principais artífices desta conquista?

Desempenharam um papel fundamental. Este pessoal tem sido herói, está na chuva e aceita molhar-se. Este feito, também, é fruto do trabalho deles. Estamos todos muito satisfeitos e isso, dá-nos maiores responsabilidades. Além de termos carregado a coroa de \'miss futsal\', da região subsaariana, mas no ranking da CAF somos terceiro, com a grande responsabilidade de representar o continente  condignamente num campeonato do mundo.

E, de que forma é que pensa que se pode criar condições para uma representação no Mundial, que honre a bandeira nacional e o continente africano?

Espero, que isso não seja, apenas, um trabalho da Federação, mas do país, porque da mesma forma que conseguimos hastear a bandeira de Angola, cá no continente, é uma parte do mundo que esteve atenta ao nosso desempenho. Mas no campeonato do mundo é diferente,  qualquer desorganização belisca a imagem de todos angolanos, começando pelos governantes e terminando nos jogadores.

Defende que a Nação deve estar unida para uma campanha que orgulhe a todos?

Toda a gente tem responsabilidade pública, no desempenho da Selecção. Por isso, deixamos o nosso apelo para que a sociedade olhe para estes jovens desportistas e que proporcionem todo o apoio necessário, para que a Selecção possa ter uma preparação condigna e consiga, também, representar muito bem o país no campeonato do mundo.

O mundial é uma competição completamente diferente do CAN, acredita que Angola terá condições para participar, sendo que para estar presente na prova africana enfrentou muitas dificuldades, inclusive para realizar um estágio de preparação no seu próprio país?

Sabemos que o Mundial é uma competição a doer, vão grandes selecções, nós com espírito de patriotismo, disciplina e determinação, podemos fazer uma boa figura. Tudo passa por fazer bons jogos de preparação, porque é de todo o interesse da Federação, fazermos do futsal uma modalidade por excelência no país.

Concorda que o brilharete alcançado em Laâyoune, no Reino de Marrocos, tem sabor especial, sobretudo, pelo sacrifício submetido a este grupo de jovens?

Concordo, plenamente, consigo! Este sucesso tem um sabor para lá de especial. Porque foram muitas noites mal dormidas e outras perdidas, muita tensão alta, muitas zangas com as nossas próprias famílias. Algumas vezes fomos obrigados a pegar no que é de casa, para dar à Selecção. Este gesto deve ser entendido como patriótico, porque passamos por muitas peripécias e não conseguimos sequer fazer um estágio, em Benguela, Lubango e Namibe, como estava programado, por falta de dinheiro.

Sente que o futsal é um “parente pobre” do desporto angolano?

Não há uma credibilidade total, sobretudo, pela forma como o futsal é tratado. Veja, que posso afirmar, dificilmente nos é cedido o Pavilhão Principal da Cidadela Desportiva, para a Selecção treinar. É necessário fazer algumas ginásticas, viver pequenas humilhações, mas não entendemos  por que em termos de desporto de sala, o futsal nunca tinha provado que é uma modalidade que podia dar qualquer título ao país. Espero que estas pessoas mudem de atitude e que o tratamento seja igual para todos.

Durante o ciclo de preparação da Selecção, ainda em Luanda, chegou a lamentar o facto de ter sentido a obrigação da Federação fazer dívidas...

As dívidas que fomos fazendo são saudáveis, porque, agora, podemos trabalhar para pagar. Recebemos do Ministério da Juventude e Desportos a verba de apenas oito milhões de kwanzas, para os jogos de eliminatória, contra a Zâmbia, quando o nosso plano era de 20. Tivemos de pagar árbitros, em divisas, alojamento, compra de bilhete de passagem e de prémios para as equipas de arbitragem, alojamento e alimentação para a equipa estrangeira e tivemos de fazer dívidas.

PRÉMIOS DA CAF
“Estamos na expectativa de saber quanto merecemos”


A FAFUSA já sabe quanto vai receber da CAF pelo apuramento ao CAN, ao Mundial e a conquista da medalha de bronze?

Até ao momento não sabemos qual é a nossa cabimentação financeira, quer pelo apuramento ao CAN, quer pela qualificação ao Mundial e muito menos pela conquista da medalha de bronze neste campeonato africano, porque estamos de fora da FAF. Por isso, estamos apenas na expectativa de saber quanto vamos receber.

Sente a urgente necessidade de ter um vice-presidente na FAF para tratar apenas do futsal?

Claro que sim. Se estivermos lá dentro, torna-se tudo mais fácil, embora já tivesse manifestado esta preocupação ao presidente Artur Almeida, que me tranquilizou, assegurando que qualquer coisa que for depositada pela CAF para o futsal irão me tranquilizar. Mas se isso acontecer, será a primeira vez que a FAFUSA irá receber alguma verba através da FAF

Nunca foi convidado pela federação para participar de um Congresso CAF?

Nunca. E sei que quando se está a falar de futebol, em qualquer Congresso da CAF ou da FIFA, também fala-se de futsal. E é necessário que alguém do futsal esteja aí dentro, na FAF, para representar a federação, porque conhece a especificidade da modalidade. A título de exemplo, estivemos no CAN e houve alguns aspectos nas reuniões que tivemos e que para nós também foi novidade.

FUTSAL
Dirigente defende urgente integração na FAF


Continua a defender a integração do futsal na FAF?
Com certeza. Porque acabámos por ganhar todos. Estes feitos do futsal e, posso dizer sem medo de errar, e o brilharete que teve a Selecção de sub-18, e as outras actividades que a FAFUSA realiza, os feitos todos é para o desporto angolano, em especial à FAF. Porque, quem está de fora, tem logo em mente que é uma grande organização o nosso futebol. Mas nós também entendemos, porque não sei o que se passa de uma forma geral. Desde que a FIFA criou o futsal deixámos de jogar a versão FIFUSA. A integração nunca foi ao seu todo.

O que é que mudou desde que a FIFA assumiu a organização das provas de futsal?

Acho que a FAF está em melhores condições de responder a essa pergunta. Apesar de que com esta direcção da Federação tivemos vários encontros, e num destes encontros criámos as comissões para integração do futsal, mas não significa dizer que a FAF teria de abocanhar a FAFUSA. Não. Continuaríamos sempre com a nossa estrutura, mas o link com a FIFA seria através da FAF.

A experiência da FAF podia trazer vantagem ao futsal. Certo?

De facto e aproveito para afirmar que a federação de futebol, tem mais experiência que nós nessa vertente de competições internacionais, apesar de mudar de Direcção, tem ajudado bastante. Não há dúvidas de que bebeu alguma experiência da anterior direcção também e, através deles, pude receber uma mensagem de felicitações do Presidente da República, sua excelência Camarada João Lourenço, e da senhora ministra da Juventude e Desportos, Dra Ana Paula Sacramento.

Mas, sente este Feedback positivo da direcção de Artur Almeida
?
A federação está disposta a trabalhar com a FAFUSA, para que junto da FIFA consigamos alguns apoios, para a preparação da nossa Selecção. Por isso, é sempre um desafio e nós gostámos de desafios, sempre disse isso, mas também esperamos aprender mais. Foi a minha primeira vez que estive a acompanhar a Selecção num CAN e sinto-me honrado por ter sido feliz na primeira viagem com o grupo.

Que outras vantagens espera ver o futsal dispor com uma possível entrada dos seus membros na FAF?

O que muito gostaríamos é de também beneficiarmos dos programas da CAF e da FIFA. Porque a federação de futsal, tendo o seu programa à parte, apresentado apenas ao Ministério da Juventude e Desportos, das federações internacionais não conseguiria nada em termos de forma ao e apoios para o desenvolvimento do futsal e na massificação. São estes aspectos que leva-nos a debater e concluir que a integração seria ouro sobre azul. No qual, os presidentes dos conselhos da FAFUSA seriam vice-presidentes na FAF e não vejo razão para isso não acontecer.