Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Queremos lançar atletas aos grandes clubes do país

Gaudêncio Hamelay, no Lubango - 30 de Setembro, 2010

Aurélio Moisés, director para o basquetebol do Benfica do Lubango

Fotografia: Arimateia Baptista

Como descreve o estado do basquetebol no Benfica do Lubango?
É um desporto em crescimento, desde a sua implementação antes da minha chegada ao clube. Actualmente, o basquetebol é representado em cinco escalões. Estamos a participar nas competições provinciais com iniciados e cadetes, em ambos os sexos, juniores, em masculino, e com a previsão de participarmos com equipas seniores em ambos sexos.

Quantos praticantes estão controlados no clube?
Nos escalões de cadetes, temos 75 atletas e 35 meninas afectas à Escolinha do Benfica, perfazendo um total de 110 praticantes. Não temos juniores femininos, porque sofremos uma sangria. Todas as atletas que fizeram parte da equipa júnior, que foi campeã, ascenderam ao escalão sénior.

Por que não acautelaram a situação de transferência?
Infelizmente, por mau trabalho nosso no clube. Não tenho vergonha de dizer isso. Vivíamos à sombra da bananeira, porque se coleccionavam títulos atrás de títulos e as pessoas esqueceram-se das idades das atletas. Ignorou-se a formação contínua e a única geração que conquistou os troféus nacionais está adulta. Cresceram e mudaram de categorias. Hoje, temos de recomeçar o processo.

Que objectivos persegue o Benfica do Lubango com a massificação do basquetebol em curso?
Como representante da área técnica, diria que o Benfica do Lubango pretende ir o mais longe possível. Isso não depende somente dos técnicos, mas essencialmente da direcção. Nos discursos feitos por dirigentes do grémio, denota-se a vontade de ver o basquetebol a atingir patamares jamais alcançados na província ou resgatar o lugar que sempre identificou a Huíla. Antes da independência nacional, a nossa circunscrição já foi campeã nacional com uma equipa feminina. Esse é o objectivo do clube encarnado da Chela.

Existem projectos concretos para elevar o basquetebol da águia do Lubango?
Temos um projecto com as nossas duas equipas nos escalões femininos. A área técnica e o departamento traçaram como meta apostar na formação durante os próximos quatro anos. Só assim, começaremos a pensar em títulos nos escalões de formação. Na nossa agremiação, todos os praticantes têm Bilhete de Identidade de forma a combater a adulteração de idades. Asseguro que os praticantes do Benfica do Lubango possuem idade real. Então, estamos crentes que as equipas nos tragam títulos a começar pelos escalões de juniores, porém, já começamos a ganhar campeonatos. Em masculino, o alcance do objectivo é mais difícil. Reconhecemos as nossas limitações, pois as equipas de Luanda investem mais dinheiro.

Sem dinheiro para investir, qual é a perspectiva dos jovens em formação?
Estamos a actuar na formação de jovens com a ajuda de um técnico experiente. Depois de lapidados, queremos lançá-los nos grandes clubes do país. Existe muito diamante por lapidar na Huíla. Essa é a nossa aposta.

Quantos técnicos estão integrados no projecto?
Trabalhamos com três técnicos com formação aceitável. Dois técnicos com formação de nível II, o tecto máximo ministrado em Angola. Contamos também com a vasta experiência de Papy Chamuague, técnico angolano regressado da República Democrática do Congo.

Todos os técnicos actuam nos escalões de formação?
Contrariamente a outros clubes, trabalhamos de forma diferente no Benfica. Os técnicos com mais formação também se encarregam dos escalões inferiores. Para o efeito, ao Papy está incumbido a responsabilidade de treinar os escalões de iniciados e o de seniores. Os escalões de cadetes e de juniores são assumidos por António Severino.

O que vos motivou a apostar num técnico com "vasta experiência" para o o ABC do basquetebol?
Não é que o clube tenha ido à busca de um técnico estrangeiro. O técnico viveu fora do país durante muito tempo. Foi para RDC ainda criança, numa fase perturbada da história do país. Voltou ao país natal como técnico e o clube convidou-o para trabalhar. É filho de pai angolano e mãe congolesa; possui o perfil desejado que muitos clubes do país definem. Aliás, o técnico recebe elogios pelo trabalho; tem um currículo invejável; trabalhou com grandes equipas de nível superior ao nosso. Foi técnico principal do escalão sénior masculino no TP Mazembe, equipa da RD Congo; técnico-adjunto da selecção nacional feminina da RD Congo; técnico do BC Lupopo, do BC RAM, só para citar esses clubes. O primeiro contacto com Papy Chamuague ocorreu, em 2009, num torneio internacional que a Huíla acolheu. Era técnico-adjunto da selecção feminina da RD Congo. As suas qualidades enquadram-se no nosso projecto. Desde 1998, está credenciado para treinar equipas de basquetebol.

A inserção do técnico Papy Chamuague no corpo técnico trouxe outro dinamismo ao clube?
A nossa equipa de júnior masculino está em primeiro lugar no torneio de abertura que conta com a participação da equipa sénior do Desportivo da Huíla. Estamos a liderar o torneio, nesse momento. O nível competitivo das equipas masculinas huilanas está equilibrado. Assistimos aos jogos com elevada técnica no campeonato provincial. Hoje, o cidadão huilano prefere assistir a uma partida de basquetebol entre equipas locais do que assistir aos jogos de certas equipas que competem na divisão nacional. As nossas equipas mostram um basquetebol vistoso. Não sou o único a dizer isso.  Quem leu a última entrevista do técnico Emanuel Trovoada, no Jornal dos Desportos, pode depreender das suas palavras que o campeonato provincial está uma maravilha e dá gosto de se ver. Esse sucesso tem a mão do técnico Papy Chamuague. O treinador Papy está a dar uma outra dinâmica, porque conhece o basquetebol. Estamos a ser honestos e reconhecemos o esforço de Papy empreendido a menos de um ano.

Está a dizer que teremos um Benfica do Lubango mais forte a nível nacional?
É o nosso desejo. É a nossa esperança. É só esperar para ver.

Equipas mal uniformizadas
e sem bola ideal para treino


Quanto ao material desportivo e equipamento. Estão bem servidos?
As dificuldades são várias. As pessoas que vão ao pavilhão constatam isso: debatemo-nos com dificuldades de equipamento. Creio ser um problema temporário e vai ser ultrapassado a breve trecho. As nossas equipas apresentam-se mal uniformizadas nas sessões de treino ou de competições. Há garantias de que estaremos bem uniformizados no próximo campeonato provincial e a actual situação faz parte do vazio no torneio de abertura. Também, temos dificuldade no concernente à qualidade de bolas. O clube tem 20 bolas, porém, a qualidade não é a melhor. O mercado local não a oferece. Treinamos com a bola nº 7, destinada para a categoria de juniores e de seniores masculinos. As nossas equipas femininas também treinam com as mesmas bolas. Para tentar minimizar a carência, às vezes, vamos ao mercado paralelo comprar bolas de borracha para os escalões de formação e iniciados.

Que incentivo o clube proporciona aos praticantes de forma a atrair cada vez mais atletas?
Os incentivos são os possíveis. A criança gosta de praticar desporto. Para os escalões de formação, o clube dá equipamento, refeições após os treinos e jogos. Os escalões de seniores têm um incentivo financeiro.

Aproxima-se o campeonato provincial de basquetebol. Em função das ambições definidas, há perspectivas de contratar novos atletas ou manter o leque em formação no clube?
Concretamente, não está nada assegurado, mas há previsões de se reforçar a equipa. É algo que está na forja entre o departamento e os técnicos. Agora, só nos resta esperar que tudo se concretize.

Como estão servidos em infra-estruturas?
No tocante aos recintos de treino, estamos bem servidos. Contamos com um pavilhão reabilitado no âmbito do Afrobasket’2007.

Lacuna deixada por surydiane ntyamba

Por onde anda a atleta Surydiane Ntyamba, uma basquetebolista de prestígio no Benfica do Lubango?
Surydiane Ntyamba foi uma atleta que fez parte das escolas de basquetebol do Benfica do Lubango até ao escalão sénior. Por razões académicas, foi para Luanda. Quando se trata de formação, o clube não pode privar a saída, porque a formação da atleta está em primeiro plano e só depois o basquetebol. Esse é o nosso adágio. Não nos restou outra alternativa senão a desvincular do Benfica para o 1º de Agosto.

Quais foram os termos do contrato?
Não houve nenhum contrato entre o Benfica e 1º de Agosto, porque a Surydiane foi a Luanda como estudante. O 1º de Agosto não veio buscá-la no Lubango. A menina gosta do basquetebol, pediu-me e o clube deliberou-a. Esperamos que tenha sucessos na sua formação superior, assim como no desporto.

A atleta deixa alguma lacuna na equipa?
Isso é indiscutível. A Surydiane Ntyamba deixa um grande vazio no Benfica de Lubango, porque temos poucas atletas na província com as qualidades da Sury. Foi eleita por quatro vezes como a MVP nos campeonatos nacionais de juniores. O prestígio de Surydiane transcende as fronteiras da província.

Basquetebol feminino só é jogado na águia


Como avalia o actual estado da prática do basquetebol na província?
Nesse momento, está melhor que no passado, embora ainda tenhamos problemas de formação de técnicos. Se tivéssemos mais técnicos com formação ideal, o basquetebol na província estaria melhor. Por outras palavras, se os treinadores levassem mais a sério o trabalho, teríamos um basquetebol bom. Estamos a falar dos escalões de formação. Os técnicos podem alegar possuir curso de nível I, todavia, o problema incide na seriedade com que as pessoas levam o basquetebol. Temos muitos problemas e não gostaria de os abordar, porque não me dizem respeito. Contudo, o basquetebol poderia estar melhor, se as pessoas assumissem as verdadeiras responsabilidades no basquetebol.

E a classe feminina, em particular?
Na classe feminina, está o calcanhar de Aquiles. O Benfica do Lubango é o representante da classe feminina na província há muitos anos. Só o é, porque há clubes locais que não querem escalões femininos na grelha de equipas. É uma constatação dos dirigentes dos grémios locais. As pessoas interiorizaram o que aconteceu em 1980, quando uma atleta se engravidou. Então julgam que a cena também se pode repetir em 2010. Os clubes tradicionais como Sporting do Lubango e Ferroviário da Huíla estão agarrados a ideias do passado, razão pela qual não têm escalões femininos, deixando a responsabilidade ao Benfica do Lubango. O passado pertence ao passado. O momento é de elevar o prestígio da jovem angolana que já deu provas no continente.

O basquetebol feminino angolano já esteve no pódio do continente. Por que a Huíla também não concretiza esse sonho?
É uma pergunta que deixo aos demais agentes e actores do desporto local.

Se o Benfica do Lubango é o único clube com equipas femininas, com quem jogam?
Os núcleos escolares são as nossas adversárias. Estou a falar do Núcleo Escolar 27 de Março e 1º de Dezembro. São equipas que não dão a competitividade necessária às equipas do Benfica, mas são as possíveis que se podem fazer nas terras da Chela. Para quem assistiu ao campeonato nacional de cadetes, realizado, em Benguela, no ano passado, a nossa equipa debateu-se com falta de jogos. Localmente, às vezes, as nossas equipas femininas são obrigadas a jogar com equipas masculinas para que tenham rodagem competitiva que as permite participar nos campeonatos nacionais. O Benfica tem quatro escalões femininos e só temos adversários no escalão de iniciados. A Chibia, 27 de Março e 1º de Dezembro são os nossos prováveis adversários no campeonato provincial. Os outros campeonatos são unificados. Os cadetes, seniores e juniores estão a efectuar o campeonato unificado e jogam contra rapazes, porque não há mais equipas femininas.

Qual é o saldo de participação da equipa feminina nos campeonatos nacionais?
Temos vários títulos. Quatro, em cadetes, e dois, em juniores. São títulos conquistados pela geração de Surydiane Ntyamba. Os campeonatos provinciais são unificados e no final a única equipa feminina participante é a campeã provincial. Não levamos em consideração os títulos provinciais. Aproveitamos a competição para rodar as equipas e prepará-las para os campeonatos nacionais.

Que apelo faz aos dirigentes desportivos locais?
Que velem por esta situação premente. Já tivemos 8 a 9 equipas femininas na Huíla. Não é por se engravidar uma atleta que o basquetebol feminino deve acabar na Huíla. O facto de jogarem basquetebol, não implica deixarem de ser mulheres. A gravidez também acontece fora das quadras. As pessoas não querem entender isso e fazem da história de há 20 anos um grande mal para o desporto nacional.