Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Queremos mais do que a permanncia

Paulo Caculo - 09 de Maio, 2011

Filemon sente que tem uma equipa capaz de sonhar muito mais.

Fotografia: Kindala Manuel

O novo treinador do Santos FC, Romeu Filemon, disse, em entrevista ao nosso jornal, que gosta de desafios, e após aceitar o convite da direcção, definiu os objectivos da equipa no Girabola de 2011: “salvar” o conjunto santista da situação complicada que ocupa na tabela classificativa. Numa conversa dominada por muito optimismo da sua parte, Filemon assegurou,  de forma peremptória, que está à frente de uma equipa diferente e cujo plantel, apesar de considerar de qualidade razoável, lhe permite aspirar por altos patamares.  De resto, o novo responsável técnico dos santistas fala feliz e diz estar rodeado de gente empenhada e capaz de tirar o futebol do Santos do actual marasmo em que se encontra. Atente, pois, à conversa.

Acaba de assumir o desafio de tentar tirar o Santos FC da zona aflita que ocupa na tabela classificativa. Sente que tem condições para acreditar no êxito da equipa?
Nós, técnicos de futebol, temos de estar preparados para tudo e, de certeza absoluta, que me sinto extremamente animado por este desafio. O nosso actual clube encontra-se numa condição altamente difícil, sabemos que temos de trabalhar muito, ser muito audazes e muito inteligentes. Portanto, temos uma tarefa muito difícil, precisamos urgentemente tirar o Santos dessa situação, teremos de criar uma equipa muito equilibrada, dinâmica do ponto de vista competitivo e, também, criarmos sinergias entre atletas, direcção do clube e técnicos, para que possamos, a partir de agora, fazer resultados positivos e, consequentemente, catapultarmos na tabela classificativa.

Reconhece, no entanto, que tem pela frente uma grande responsabilidade?
Reconhecemos que estamos numa posição muito perigosa da classificação, que em nada dignifica o bom nome do clube, mas penso que este é um desafio que estimula, porque fará com que puxemos muito mais pelas nossas cabeças, para que possamos contribuir de uma forma positiva para que a equipa fuja deste marasmo.
 
E o plantel que encontrou dá garantias de poder sonhar?
Todos sabemos que a situação é difícil e preciso moldar a equipa dentro da minha filosofia e do modelo de jogo que constitui para esta equipa e com as suas variantes. Isso não é fácil. Muitas vezes chega a mexer com a psique dos jogadores. Mas tem-se dito que quando maior for a qualidade do atleta, mais rápido ele se adapta aos novos métodos, às novas filosofias de trabalho. Mas é evidente que temos de respeitar determinados princípios e, não obstante o momento da equipa, acredito que ela tem alguns fundamentos que a equipa técnica anterior realizou. Portanto, vamos aproveitar todas estas boas coisas para continuarmos a melhorar o grupo. 

Considera imperioso fazer alguns reajustamentos ao plantel?
Evidentemente que vou encaixar aquilo que também é melhor para o grupo, para que tenhamos um grupo muito consistente, muito coeso, inteligente e com grande pensamento táctico, para que possamos entrar para o jogo de forma tranquila e com os pés bem assentes no chão. Isto é necessário para que possamos realizar os jogos de forma equilibrada e lutarmos com os nossos adversários sem sobressaltos e no final podermos respirar de alívio pela obtenção das vitórias que tanto precisamos.  

O que o faz acreditar que é possível materializar os objectivos que persegue?
Primeiro, porque sou uma pessoa optimista, conheço o nosso campeonato, não sou um treinador novato, ando no Girabola há cerca de 16 anos. É evidente que nestes anos nem sempre estive como técnico principal, mas também como preparador físico e treinador adjunto e agora assumo esta função de técnico principal. E segundo, porque acredito na capacidade dos jogadores, na direcção do clube e em mim mesmo. Já conversámos, traçámos “linhas mestres”, para que possamos tirar a equipa do marasmo em que se encontra.
 
Qual tem sido a sua primeira grande preocupação deste que tomou contacto com a equipa?
Tenho procurado transmitir aos jogadores que precisamos encarar as próximas jornadas como autênticas finais, mas sem pressão nem stress. Teremos de mexer no estado psicológico dos jogadores e quando isso acontecer é possível que se consiga o positivismo e, portanto, esse meu crer prende-se com tudo isto. Algo me faz estar tranquilo e procuro passar todos os dias essa mensagem aos jogadores.
 
Salvar a equipa da zona de despromoção é, certamente, a grande exigência imposta pela direcção do clube. O que é que exigiu em contrapartida?
Fiz um diagnóstico à equipa, que está a ser analisado por mim, e já obtive algumas respostas. Mantive uma conversa com o nosso vice-presidente para o futebol e, consequentemente, com o presidente do clube, na qual traçámos algumas metas. Acertámos que teremos de cumprir determinadas tarefas para que possamos caminhar com pés bem assentes no chão. Felizmente essas tarefas estão a ser cumpridas e isso tem os seus reflexos positivos no processo de treino e competitivo. Em face disso, poderão ver nas próximas jornadas uma equipa do Santos diferente e, se isso acontecer, evidentemente que será bom para nós e importante para o clube.  

Preocupa-o apenas tirar a equipa dos últimos lugares, ou aspira muito mais?
Nós não queremos só sair dos últimos lugares. Não. Queremos subir um pouco mais na tabela classificativa, porque quanto mais tranquila uma equipa estiver em termos competitivos e de resultados, maiores são as probabilidades de melhorar em todos os aspectos.

Espera, no entanto, fazer uma primeira volta do campeonato tranquila?
É isso que pretendemos para a nossa equipa. Queremos terminar a primeira volta com pontos suficientes, que nos darão imensa tranquilidade para a segunda volta. Mas olhe que não estou a falar apenas por falar, porque uma coisa é desejar algo e a outra é realizar o trabalho na prática. Como temos uma noção das coisas, é evidente que todo esse trabalho tem de ser levado a cabo com muita inteligência e saber, mas, sobretudo com muito querer. Se isso acontecer, de certeza que estaremos, no futuro, muito satisfeitos.
“Os resultados vão aparecer”

De que forma acha que o plantel pode reagir a esse período de pressão?
Passei a mensagem aos jogadores de que a partir de agora será tudo diferente. Espero que os meus jogadores não entrem para os jogos pressionados ou em stress, porque a prática ensinou-nos que quanto mais pressionada uma equipa estiver, mais erros ela vai cometer.
 
Também tem preparado a equipa em termos psicológicos?
Claro. Todos os dias passamos a mensagem de que é preciso estabilizarmos do ponto de vista emocional, obedecermos a muita disciplina táctica, que significa bom comportamento, ter uma vida social digna, porque o processo de treino e de competição não obedece apenas ao trabalho prático, mas também àquele treino invisível e de auto-análise e auto-reprodução mental que os jogadores devem fazer quando estiverem a repousar. 
 
Está a levar os jogadores a terem sentido de responsabilidade?
De facto, porque é uma componente essencial em todo este processo. E quando digo repouso, falo da alimentação e dos meios de recuperação, pois quando essas componentes todas estiverem juntas, o atleta entra para o jogo estável. Mas essa condição de estável não significa que ele não terá que lutar e ser disciplinado nos aspectos tácticos ou ter um comportamento também bom no aspecto técnico. Portanto, quando equilibrarmos todos esses processos, é evidente que os resultados irão aparecer, independentemente da qualidade da equipa que tivermos.
 
A primeira vitória conseguida, no passado sábado, pode ser uma prova inequívoca disso mesmo?
Com certeza que sim. Era fundamental vencer, porque estamos, ainda, numa situação complicada da tabela. O nosso objectivo é recuperar ao máximo os pontos perdidos nas jornadas anteriores.

“Temos um
plantel razoável”

Acha que a qualidade que tem à disposição no plantel é suficiente, ou considera urgente reforçar a equipa com mais algumas valias?
Todo o treinador gostaria de ter consigo os melhores jogadores e eu não fujo à regra. Mas sabe que o Santos é uma escola, zela muito pelos jogadores proveniente dos escalões de formação internos do clube, e isso é muito bom. Temos muita juventude, mas é evidente que o clube foi também à procura de alguns jogadores. Não estive nesse processo no começo da época, mas deu para ver que temos um plantel razoável.  

O que significa ter um plantel razoável?
O razoável para nós é feito com um plantel que tem valor. Mas também com aqueles jogadores que têm alguma dificuldade do ponto de vista técnico e táctico, que não conseguiram adaptar-se ao grupo de trabalho. Em suma, conseguimos ter um grupo razoável, com os seus pontos fortes, mas com alguns desequilíbrios em alguns sectores.  

Qual o sector da equipa que mais o preocupa?
Penso que temos de trabalhar muito mais nos sectores onde existem os tais desequilíbrios e tentar melhorar naqueles jogadores que constituem o elo mais forte. Teremos de melhorar e aperfeiçoar sempre, para que no processo de treino e competição possamos ter um grupo equilibrado.

Direcção está empenhada
em garantir todas as condições
 
Um dos problemas que a equipa sempre enfrentou prende-se com a falta de campos para treinar. Como é que encara isso?
O grupo está muito unido e coeso. Temos o suporte administrativo de uma pessoa por quem tenho muita consideração, que é o senhor Oliveira Gonçalves, o nosso vice-presidente do clube. Também contamos com o senhor Amaral, o nosso supervisor e o director-geral e todo o pessoal de apoio. Essas pessoas estão todas empenhadas em garantir que nada falta à equipa. Acho que nesta primeira semana tudo correu bem, não tivemos problemas de campos. Vamos lutar para que nada falhe. Tenho fé, acredito nestas pessoas. Acho que podemos fazer um grande trabalho. 

Sente que tem muito trabalho a desenvolver no Santos?
Acredito que a tarefa que nos espera é muito árdua, que obedecerá a muito sacrifício, muita inteligência, para que possamos atingir os objectivos que traçámos de imediato. A disponibilidade regular de um local para treinar acaba por ser algo de essencial para o seu trabalho. O treino é essencial e fundamental no êxito de qualquer equipa e penso que temos tido esse apoio e vamos continuar a tê-lo, porque as pessoas sabem, na verdade, o que temos de fazer. Portanto, há uma concórdia, e quando isso acontece há vitórias.