Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Queremos resgatar a mstica futebolstica da Lunda-Norte

Armando Sapato,no Dundo - 02 de Maio, 2012

Clubes da Lunda-Norte contam com o apoio do novo elenco da APF local

Fotografia: Jornal dos Desportos

O novo presidente da Associação Provincial de Futebol da Lunda-Norte, Lourenço Muvuma, eleito em Março, disse, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que o seu elenco pretende recuperar a mística da província, a nível da modalidade, “para fazer parte do elenco dos mais fortes do país”. Esta posição, afirmou, visa sobretudo combater as assimetrias regionais, onde as acções prioritárias devem consubstanciar-se na massificação do futebol infanto-juvenil, com a criação e recuperação dos equipamentos desportivos existentes nos nove municípios da província, com realce para os campos de futebol de 7.

Questionado sobre a realidade do futebol na região, Lourenço Muvuma foi cauteloso, afirmando que “ o cenário não é bom nem mau, mas tem falta de união, organização, da participação de todas as forças vivas da sociedade local e demais interessados no seu desenvolvimento”. Por isso, “ Ti Loló”, como é carinhosamente tratado nas lides desportivas, assegurou que vai, nos próximos quatro anos, dirigir uma associação representativa, baseada num diálogo franco e aberto, com vista a estabelecer mecanismos eficazes para dar solução aos problemas de que enferma o futebol na província.

Jornal dos Desportos (JD) – Por que motivo concorreu à presidência da Associação Provincial de Futebol na Lunda-Norte (APFLN)?
Lourenço Muvuma (LM) – A trajectória histórica do futebol na província, após a conquista da Independência Nacional, leva-nos a repensar seriamente no futuro, pois a Lunda-Norte foi colorida de grandes conquistas, que na altura encheram de alegria a população local.

JD – Pode ser mais explícito?
LM - A conquista do título de campeão nacional do Girabola pelo Sagrada Esperança, em 2005, e as duas edições da Taça de Angola nas épocas 1988 e 1999, além da presença de jovens originários da Lunda-Norte nas selecções nacionais jovens. A nossa digna participação em campeonatos nacionais inter-escolares e a presença em três edições das provas seniores femininos Portanto, todos esses altos momentos desportivos desfrutados, que devem ser recuperados, aliados à dinâmica do processo de desenvolvimento social, político e económico que a província tem vindo a ganhar, motivaram-me a assumir esse desafio, cujas responsabilidades admito serem de vulto.

JD – Qual é o seu grande desafio?

LM – O grande desafio do novo elenco da APF da Lunda-Norte é, inicialmente, o de promover a organização no seio dos associados, estabelecer a união, com vista sobretudo a conquistar também a confiança das autoridades governamentais, conseguir parcerias e patrocínios para recuperar a identidade e a mística futebolística da província.

JD - Que avaliação faz do actual momento do futebol na Lunda-Norte?
LM –Temos um diagnóstico avançado sobre o estado actual do futebol na província, mas não podemos dizer que seja tão mau assim, muito menos, bom. Ao mais alto nível, temos o Sagrada Esperança, única equipa da primeira divisão da província. Obviamente que é pouco para uma região como a nossa. Por isso, não devemos ficar apegados apenas ao Sagrada, precisamos de outras projecções, através de uma nova dinâmica e explosão futebolística para estarmos onde merecemos. Pretendemos alcançar o pódio da elite em que se encontram os mais fortes do país.


MASSIFICAÇÃO

“Contamos com apoio dos empresários locais”



JD - A massificação do futebol é uma das apostas do seu mandato. Para quando o regresso dos campeonatos de juvenis e juniores?
LM – Não temos tempo definido, queremos que os iniciados conquistem espaço de juvenis, estes cresçam para juniores e consequentemente para os seniores, porque temos a certeza que com a passagem de uma criança nessas etapas temos grandes executantes no futuro.

JD - Que apoio espera do sector empresarial da província?
LM - O papel e o apoio dos empresários no desenvolvimento do futebol, e do desporto de uma forma geral, é muito importante. Esse sector pode trazer muitos ganhos.

JD - Quais, exactamente?
LM - O nosso elenco é composto por pessoas do ramo empresarial, fazendo jus ao nosso projecto, no qual os clubes devem construir as suas sedes sociais e serem exploradas. Por isso, um dos grandes apoios que esperamos que essas empresas, sobretudo as ligadas à construção civil, ajudem as equipas a erguerem as suas sedes. Felizmente, temos tido uma boa receptividade dos nossos empresários.


APOSTA

Reabilitação das infra-estruturas nas prioridades da nova direcção



JD – Acredita que o princípio da auto-suficiência pode determinar a expansão da modalidade na província?

LM – A auto-suficiência dos clubes vai, pelo menos, proporcionar uma capacidade à altura para a aquisição de materiais desportivos, como é o caso de bolas, equipamentos e outras pequenas despesas correntes, dentro de um grupo de homens. Tivemos, no passado, muitas equipas que acabaram por desaparecer, porque não tinham como se sustentar e nós queremos evitar esse tipo de fracassos, tendo em conta que hoje a dinâmica do mundo obriga que as agremiações desportivas criem também as suas condições para se sustentarem. Vamos por isso, de uma forma insistente, encorajar os nossos associados para que nada lhes falte, pelo menos dentro das competições domésticas.

JD – Que quer isso dizer?
LM – Vamos internamente ter as condições criadas para a prática do futebol na Lunda-Norte e criar a possibilidade de termos mais um clube na Primeira Divisão.


JD - Para isso é importante que as infra-estruturas estejam à altura. O que está projectado para a modernização dos campos?
LM - Numa primeira fase, os campos vão ser reabilitados para, num futuro breve, os modernizarmos de forma simples mas funcional. E como estamos também interessados na dinamização do futebol feminino, isso obriga-nos a pensar seriamente na criação de condições, com destaque para os balneários nos campos. O processo de desenvolvimento das infra-estruturas da província que se regista nos últimos meses, era impossível em campos de futebol sem balneários.


DA PROVÍNCIA

Clubes advertidos à  boa organização



JD – Que dinâmica pretende imprimir para alterar o quadro menos saudável do futebol na província?
LM - Precisamos de organizar em todos os aspectos, do ponto de vista administrativo e desportivo. Fizemos passar um projecto que foi suficientemente estudado pelos nossos associados e temos fé que com a dinâmica que caracteriza esse grupo de trabalho, programámos uma série de elementos que vão ajudar-nos a materializar os nossos intentos.

JD – Pode adiantar algumas linhas de força do vosso programa?
LM – As linhas de força com vista à inversão da realidade que apoquenta a modalidade rainha na província, passa exactamente em apostar nas camadas de formação, tendo como ponto de partida a criação de infra-estruturas desportivas, de modo a que haja campos para a prática do futebol. Existem programas do próprio governo da província, através do organismo que representa o Ministério da Juventude e Desportos, que devem juntar-se aos nossos no sentido de termos êxito.

JD – E além disso?
LM - O outro projecto da associação tem a ver com a necessidade de os clubes locais construírem as suas sedes sociais, para facilitar a identificação dos mesmos. Pensamos que os clubes sem sedes são como algo sem identidade própria, demonstrando a falta da observância do princípio de organização. O principal objectivo é que essas sedes sejam exploradas de várias maneiras, de forma a haver rendimentos para sustentar as mesmas agremiações desportivas, através da criação nesses sítios de estabelecimentos comerciais, como restaurantes, cabeleireiros e outros serviços.

futuro
Mavuma garante cumprimento das promessas no seu mandato



JD – Falou na possibilidade da Lunda-Norte ter a médio ou curto prazo mais um representante no Girabola. Estão salvaguardadas as condições para atingir esse objectivo?

LM - Estamos a trabalhar para isso e acreditamos ser possível, desde que tenhamos fé nas nossas capacidades, começando pela base, com apostas sérias e concretas na massificação, uma das principais responsabilidades dos clubes que vão contar, como é óbvio, com o nosso apoio.

JD - Tem quatro anos de mandato pela frente. Há um horizonte temporal para a sua direcção cumprir esse objectivo?
LM – Felizmente, a organização que a nossa província vai tendo e o país no seu todo levam-nos a perceber que precisamos de ser prudentes e cautelosos com aquilo que estivermos a fazer. Portanto, a meta é já, mas se temos projectos e queremos que surtam efeito imediato, provavelmente enfraqueceremos. Nada de imediatismos, porque não temos programa, mas sim um projecto, e isso leva tempo.

JD – O que quer dizer com isso?
LM - Se quisermos que um determinado grupo de jovens faça parte de uma Selecção de Sub-18, temos a missão de começar da base, a partir de tenra idade, e facilmente se percebe que isso não se consegue num ano. Por isso, o projecto de termos mais um representante no Girabola é de médio e longo prazo. De início, vamos primar pela paciência, ser fiéis ao nosso projecto, na certeza de que cada passo vai oferecer-nos a oportunidade de adicionar isto ou retirar aquilo.

JD - Que comentários tem a fazer sobre o estado das infra-estruturas de futebol?
LM - O quadro é francamente sombrio. Normalmente, na nossa província, quando falamos das infra-estruturas desportivas, olhamos logo para as instalações do Sagrada Esperança, o que é errado, porque os patrocinadores dessa equipa cumpriram a sua missão, ao criarem aquilo que é primordial para a continuidade dos seus projectos. Agora o que temos de fazer é lutar para que consigamos ter um estádio de futebol semelhante ao que a Endiama fez para o Sagrada Esperança.

JD - O governo provincial anunciou a construção de um estádio.

LM - Recebemos com muito agradado o anúncio público do governador quanto à construção de um estádio municipal no Dundo, com capacidade para mais de 20 mil espectadores, uma vez que vai garantir o desenvolvimento do desporto na província. Em termos de recuperação dos campos já existem políticas para isso. A APF manteve um encontro com algumas administrações municipais para cedência de espaços e chegámos a acordo relativamente a alguns terrenos. Recebemos também a confirmação que vão ser recuperados os seis campos pelados da cidade do Dundo.

JD – Isso é ponto assente?

LM - Nos próximos dias, esses campos vão ser reabilitados com uma nova terraplanagem para a realização com êxito de competições locais, com destaque para os jogos da categoria infanto-juvenil. Quero também lembrar que a Lunda-Norte não é apenas o Chitato, e que o convénio que tivemos com as autoridades municipais, vamos também ter com as demais circunscrições, tendo em vista o combate às assimetrias regionais. É por causa disso que temos delegados nessas localidades, e dois representantes em Luanda, o centro das decisões, para tratar das nossas questões junto da FAF, uma vez que nem sempre os telefonemas e a internet resolvem tudo, sendo necessária a presença física.



AVALIAÇÃO

Lundas dão o seu voto de confiança ao elenco do presidente Pedro Neto


JD - A Gestão da Federação da Angolana de Futebol satisfaz os interesses dos associados da Luanda-Norte?
LM - A actual Direcção da FAF surgiu de forma forçada devido ao momento conturbado que estava a viver o elenco cessante. Ainda assim, considero que era a altura certa para termos um outro grupo de homens a dirigir a Federação.

JD - Então dá um voto de confiança ao elenco de Pedro Neto?
LM – Claramente. Estou disponível a dar o meu voto de confiança a essa direcção na próxima luta pelo cadeirão máximo da FAF. Para os cépticos desde que essa Direcção assumiu a Federação, era suposto constatar-se algum desequilíbrio, mas não é caso. Os campeonatos nacionais de futebol estão aí e acabam por ser muito competitivos, daí estarem aqui treinadores e atletas estrangeiros,que vêm não somente para conquistar títulos ou ganhar dinheiro, mas acima de tudo lograrem a sua projecção profissional. Apesar de a APF Lunda-Norte não ter ainda um contacto directo com o elenco do General Pedro Neto, vamos, com certeza, tê-lo nos próximos dias. Ainda assim, afirmo que em termos de gestão é competente e dou o meu voto de confiança.

JD - A indicação de Romeu Filemon para o cargo de seleccionador Nacional interino dos Palancas foi a mais acertada ou foi a possível?
LM - O Romeu Filemon é um grande estudioso e dos mais astutos treinadores angolanos que temos. Na minha opinião, já devia ser o treinador dos Palancas há bastante tempo, porque passou nas selecções jovens, além de ter um bom registo nos clubes onde esteve.

JD - Defende a contratação em definitivo do Filemon como seleccionador e não na condição de interino?
LM - Pois claro, porque o homem é competente e já deu mostras, mas se tiver bons resultados na dupla campanha de apuramento com a Selecção, para o CAN’2013 na África do Sul e Mundial de 2014 no Brasil, por que não darmos uma oportunidade? Vamos buscar outro para que? Não julgo uma posição certa. O meu ponto de vista é que é um treinador angolano e merece toda a nossa confiança e apoio.