Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Queremos ser de novo campeões"

Paulo Caculo - 10 de Agosto, 2015

Como consequência, Roberto do Carmo disse que o grande objectivo é o regresso ao estatuto de campeão.

Fotografia: José Soares

O Atlético Sport Aviação (ASA) está a protagonizar uma excelente recuperação no campeonato. O bom momento de forma da equipa aviadora, é considerado pelo técnico brasileiro Roberto do Carmo “Robertinho,” como fruto de um trabalho árduo e aturado, centrado na aposta em jovens talentosos que estavam “esquecidos” nos escalões de formação,  que acabou por ser fundamental para retirar a equipa da turbulência que enfrentou na primeira volta do campeonato.

Em entrevista exclusiva ao Jornal dos Desportos, o treinador recorda os períodos conturbados vividos pelo conjunto que dirige, no início da competição e destaca a capacidade colectiva evidenciada pelos jogadores neste começo de segunda volta,  aborda os objectivos da equipa transpondo-os para uma realidade mais ampla. Atente, à conversa.

A equipa não começou o campeonato da melhor forma. A que se deveu o mau momento da primeira volta?
“Nós tivemos uma óptima pré -época no Brasil, no complexo da selecção brasileira de futebol, o que seria uma mais valia para o nosso arranque no campeonato, já que trabalhamos com todas as condições. Desde a alimentação, os campos relvados em boas condições, sala de musculação, horário para dormir e trabalhos de vídeos. Conseguimos criar todas as condições para iniciarmos bem a época”.

Mas nem por isso a equipa foi capaz de ser regular no arranque da competição...
“É verdade, mas toda a boa preparação tem um tempo de validade e nesse tempo de validade, tem de se dar prosseguimento à tudo que se iniciou. Depois de 45 dias de Girabola, começamos a sentir a diferença da estrutura do começo da época em relação à nossa realidade. Ou seja, aqui a alimentação já não era a mesma, a estrutura, os campos, não tivemos estruturas de musculação e isso tudo influenciou”.

Sente que isso foi fundamental?
“Somos seres humanos e fundamentalmente os atletas, quando não se alimentam e treinam como deve ser, começam a ter perda de níveis. Depois deixamos de treinar no nosso relvado que já não era a mesma coisa e tivemos que nos deslocar ao campo do 1º de Agosto. Posteriormente a isso, perdemos a chance de continuarmos lá e tivemos de voltar para o nosso campo, onde também não havia, ainda, condições para a gente trabalhar”.

Que condições faltavam nessa altura?
“Havia no local ferros, pedras, areia,  esse período foi exactamente em que a equipa ressentiu-se muito e teve uma quebra de qualidade. Se não conseguimos treinar correctamente, é lógico que a produção jamais será a mesma”. O facto é que a equipa conseguiu dar a volta por cima nesta segunda volta. “Exactamente. E o mais importante nisso tudo, é que a direcção do nosso clube, os jogadores e a equipa técnica depois de uma reunião, conseguimos superar o período de turbulência, que enfrentamos. Quando falta essa estrutura, o nível técnico, táctico e psicológico, social tende a baixar. Mas a união que tivemos, fundamentalmente entre a direcção, jogadores e equipa técnica, fez com que ao final da primeira volta encontrássemos soluções para inverter o quadro. Estava a aguardar ansioso o fim da primeira volta, porque sabia que a segunda seria positiva para o ASA”.

O que esteve na base deste optimismo quando a equipa enfrentava sérios problemas e não se vislumbrava uma solução?

“Contratamos alguns reforços, como o guarda-redes Baguet, Minguito, Love e Cabiri, todos solicitados pela equipa -técnica, e a direcção prontamente atendeu. Estava doido que terminasse a primeira volta, para  colocar em campo esses novos jogadores para acrescentarmos mais qualidade e consistência à equipa, para que tivéssemos uma trajectória muito mais qualificada”.

Sentiu que a equipa precisava urgentemente de ser reforçada?
“Perfeitamente. Diante das nossas necessidades, tivemos várias reuniões e estava exactamente à espera deste momento, para que pudéssemos ter os resultados que almejávamos. Como tivemos 30 a 40 dias para treinar com a nova equipa e de forma mais tranquila, concluímos que estávamos mais fortes e muito mais estruturados para fazermos uma boa campanha. E graças a Deus, conseguimos. Ao mesmo tempo que isso me dá uma grande satisfação, porque não trouxe nenhum brasileiro para trabalhar comigo e nenhum jogador brasileiro, dei oportunidade a todos os angolanos que estão na equipa técnica, onde existem profissionais de qualidade”.

Técnico valoriza quadros

Nota-se na equipa técnica ex-jogadores, foi uma iniciativa sua ou algo que lhe foi imposto pela direcção do clube?
“Foi iniciativa minha. Quando cheguei ao ASA, notei que podia integrar alguns profissionais na minha equipa técnica. O Matias que era o meu central e o Corolla que veio dos juvenis, para que ganhassem experiência para o futuro. São todos quadros angolanos e da equipa do ASA, que estão a trabalhar comigo e a fazerem um excelente trabalho. Isso, é muito importante para mim, porque me dá satisfação”.
   
Está satisfeito com a colaboração desses quadros?
“Como estrangeiro, quero apenas que seja feita justiça. Quero que sejam valorizados todos aqueles quadros ou jogadores que estejam em bom nível na equipa. Atletas como Silva, Jonson, Nelito, Kaká, João, Adi, Fofo e tantos outros precisaram de mim para serem lançados na equipa principal, porque quando cheguei estavam sem ficha, na equipa B, sem jogar e sem competição, porque tinham sido preteridos pela anterior equipa técnica”.

Valeu a aposta nestes jogadores que são hoje peça preponderante na filosofia de jogo do ASA?
 “Resolvi fazer a minha avaliação aos jogadores e não depender da avaliação que os outros fizeram aos atletas. Resultado: descobri todos estes talentos de qualidade que estavam sem jogar. Tinham contrato, mas não podiam jogar, porque não tinham espaço”.
   
Pelos vistos, está a depositar total confiança nestes jovens.
“Penso que estou a valorizar o quadro interno do clube, mas é bom que se saiba, que quando se faz uma reformulação na equipa, ela não deve ser de forma absoluta. Decidi com os meus adjuntos não deixar apenas os miúdos, porque os jovens têm de ter uma responsabilidade gradual para evitarmos que acusem qualquer tipo de pressão.

Mas a presença de alguns jogadores mais experientes é justamente para evitar que eles assumam toda a responsabilidade?
“Com certeza. Por isso, fiz questão que ficasse o Manuel, que é o meu capitão e um grande exemplo para eles também. O Matias como meu primeiro adjunto, o Milex, que é um jogador que pedi para que assinasse contrato, o Kialunda e tantos outros. São jogadores experientes e o nosso objectivo é que haja um equilíbrio que possa permitir a divisão de responsabilidades. Se hoje o ASA está bem, é por tudo isso, e não por sorte”.

FUTURO
“Objectivo é voltar a sermos campeões do Girabola”

Tem objectivos
imediatos no ASA?

“O mais importante é que estamos a construir uma base para quatro ou cinco anos. O objectivo, é que nesse período, possamos lutar pelo título. Às vezes a verdade parece que incomoda as pessoas, mas esta é a verdade”.

Acredita que a equipa pode voltar a ser campeã?
Temos de ser transparentes e limpos. Temos jogadores de qualidade para sonhar. Se o Silva estiver melhor que o Jonson ele tem de jogar, se o Fofa estiver melhor que o Milex, também tem de jogar. Na minha equipa, só joga quem estiver em melhor plano. E com todos em boa , podemos vencer muitos jogos e conquistar o título no futuro”.

Sente que está a realizar um trabalho no qual os adeptos podem depositar confiança?
“Fico feliz quando entro no supermercado e recebo mensagens de adeptos que nunca os vi, que demonstram a satisfação por hoje eles estarem a ver exactamente as coisas que eu falava, estarem a acontecer. Não é porque eu falava só, mas porque a gente sabia que precisava de um tempo para acertar as coisas. Tudo na vida carece de um tempo”.

Está confiante
quanto ao futuro?

“Estou e o mais importante para mim é que falta pouco para encerrar o Girabola. O ASA está no meio da classificação e vamos fazer o possível e o impossível, para que a equipa se mantenha na primeira divisão, para que esses miúdos nas próximas épocas sejam as grandes referências do futebol angolano, como é o Ary Papel, Gelson e outros. Esses jogadores que o ASA está a revelar hoje, têm os mesmos níveis destes que acabei de mencionar, basta apenas darmos oportunidade.