Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Queremos um lugar condigno"

Manuel Neto - 24 de Maio, 2010

Joo Ricardo,tcnico do Sport Luanda e Benfica

Fotografia: Jos Soares

João Ricardo, técnico do Sport Luanda e Benfica, considera o presente Girabola mais competitivo que o transacto. Diz que a equipa que dirige tudo fará para alcançar um lugar condigno neste campeonato nacional e apela às pessoas de direito no sentido de apostarem cada vez mais na construção de infra-estruturas desportivas, por ser o caminho para o desenvolvimento do desporto nacional. Assumiu o comando da equipa na terceira jornada do Girabola e tem-se saído bem. O que diz?Foi uma surpresa enorme, porquanto o que aconteceu não fazia parte dos meus planos. Aconteceu e conto com o apoio da direcção. Humildemente falando, os frutos do trabalho que o Benfica colhe, não são apenas do João Ricardo mas de uma equipa constituída pela direcção, atletas e três membros da equipa técnica: eu, o Abel e o Master. Graças a Deus, até ao momento tudo corre bem. Que avaliação faz da prova, dez jornadas disputadas?A classificação actual mostra claramente que o presente campeonato está mais aguerrido do que o anterior. Estamos na décima jornada e já tivemos quatro líderes. Em termos de pontuação,  o primeiro e o nono classificados têm uma diferença mínima. Caso o oitavo posicionado ou o sétimo vençam, saltam para os lugares cimeiros. Tudo isso demonstra que estamos diante de uma grande competição, coisa que não acontecia no passado, pois a esta altura o Petro de Luanda já somaria dez ou quinze pontos de vantagem sobre o segundo classificado. Nesta edição, as ditas grandes equipas, no caso o Petro de Luanda e o 1º de Agosto, já perderam muitos pontos. O mesmo pode dizer-se do Libolo (que ainda não se encontrou) e do ASA (que está numa fase menos boa). Sobressai o Maquis, a surpreender pela positiva. Tudo isso espelha o quanto o presente campeonato está competitivo. O que lhe foi exigido pela direcção do clube?Nada de especial, pois conhecemos as dificuldades que o clube vive. Aliás, a maior parte das equipas as vive, com particular realce para as infra-estruturas e a logística. A direcção está atenta a tudo isso e, obviamente, as exigências não podem ser grandes. Nos últimos anos o Benfica habituou-nos a ser uma equipa simpática, sendo que no ano passado conseguiu o terceiro lugar que muitos pensaram ser por acaso. Hoje estou com o grupo e vejo que não é isso, pois o clube tem bons atletas e quando compete tudo faz para somar vitórias e assim conseguir uma boa classificação. É neste padrão de ideias que a direcção trabalha. Qual é afinal o vosso objectivo?É fazer algo similar ao que aconteceu nos últimos anos. Estamos conscientes que os lugares cimeiros são para outras equipas, com melhores condições, mas apesar dessa vantagem e privilégio, vamos tentar contrariar e chateá-las ao máximo para melhor cumprirmos com os nossos objectivos, que passam por fazer um bom campeonato. Ainda estamos na décima jornada e nada está definido. Tudo faremos para alcançarmos um lugar condigno.   Como avalia o plantel?Não temos grandes preocupações, uma vez que, no ano passado, não houve muitas mexidas. Mexeu-se apenas no sector defensivo, em que saíram dois ou três atletas preponderantes na manobra da equipa e, para colmatar o vazio, recorremos a jogadores da casa. Até agora estamos bem. Podemos concluir que na segunda volta não será necessário o reforçar?Não.Temos um bom conjunto, bem acompanhado pelos juniores durante os treinos. Caso necessitemos de reforço, os juniores poderão dar o seu contributo. Por isso, vamos talha-los da melhor maneira possível para as necessidades que se impõem. Aliás, é cultura do Benfica lançar todos os anos pelo menos um ou dois atletas juniores. É das poucas equipas que faz um bom aproveitamento das camadas jovens. "Há cada vez maior sincronia entre a equipa técnica e a direcção" Está há pouco tempo na pele de treinador. Tem o apoio necessário da direcção "encarnada"?Sim. Há cada vez maior sincronia entre a equipa técnica e a direcção. Sabemos das dificuldades do dia-a-dia, mas o futebol tem destas coisas. Ainda assim os apoios são suficientes para nos sentirmos cada vez mais responsáveis, rumo aos objectivos por nós preconizados.É bem pago?Sim. Não há comentários a fazer acerca disso. Existe um acordo entre mim e a direcção que só a nós diz respeito. Resta fazer o meu trabalho. Quer dizer que não encontra grandes dificuldades?As dificuldades são de vária ordem, ou seja, quase as mesmas que a maior parte das equipas angolanas vive, com realce para a logística. Aliás, são poucas as  equipas no Girabola com um campo próprio, onde possam concentrar os atletas. Esta é uma das grandes dificuldades que o país enfrenta. As entidades de direito devem unir esforço nesta perspectiva e oferecerem melhores condições de trabalho aos atletas. "Nunca pensei em ser treinador de futebol" Ganhou muita coisa enquanto futebolista?Sim. Como profissional, alcancei algumas metas, com particular realce para a participação no Mundial-2006, e acho que superei as expectativas. Em termos financeiros foi muito pouco, porquanto todo o dinheiro é pouco, mas estou conformado com o quanto ganhei e ganho no desporto. Sonhava continuar no desporto depois de pendurar as botas?Como futebolista sim, mas ser treinador de futebol nunca foi  meu sonho. Pelo contrário, sonhei ser dirigente desportivo, colaborando para dar melhores condições de trabalho aos atletas, uma vez que ao longo do tempo reuni alguns conhecimentos nesta área. Infelizmente a vida prega certas surpresas, algumas agradáveis e outras desagradáveis. Hoje, gosto muito do trabalho que faço. Além do desporto exerce outra actividade?Claro, mas o futebol tem me ocupado cada vez mais e quase fico sem tempo para a família e outros afazeres particulares. Estou ligado à Construção Civil, concretamente na área de carpintaria, e à área de material desportivo para guarda-redes. "Deve-se reestruturar o futebol nacional" Fale do futebol angolano no geral?Costuma-se dizer que a qualidade de um campeonato interno se reflecte nos valores que a sua selecção apresenta. Como disse, o Girabola será muito competitivo e espero que isso se reflicta na selecção. Apesar de não assistir ao jogo entre Angola e México, sei que a nossa selecção fez uma grande exibição. Penso que isso é fruto do trabalho interno, o que me leva a concluir que estamos no bom caminho. Acha que a nossa competição interna é suficiente para dar rodagem competitiva aos jogadores?Penso que é a possível, pois a federação não tem muitas alternativas para o efeito. Não adianta haver muito mais competições enquanto não houver condições, pois, se assim for, se corre o risco de se fazerem as coisas sobre os joelhos e obtermos má qualidade competitiva. Ainda assim, penso que se deve fazer uma reestruturação do futebol nacional, começando pela construção de pelo menos um estádio em cada província, melhorar a organização dos clubes de formas a facilitar que todas as províncias se façam representar com uma equipa de futebol. Acredito que isso seja possível, bastando em primeiro lugar, apostar seriamente em infra-estruturas. Para o CAN-2010 foram construídos e recuperados alguns estádios, mas é muito pouco para a grandeza do país a julgar pelos patamares que pretendemos atingir. E quanto às camadas jovens?Dizem pouco, na medida que há igualmente pouca organização, aliada a falta de infra-estruturas, de material desportivo, bolas, botas e vestuário. Por isso, acho que ainda há muita brincadeira e que deve terminar urgentemente para o bem e desenvolvimento do futebol. "O jogador angolano não é bem tratado em Portugal" Jogou em Portugal. Qual é a diferença entre o futebol daquele país e o angolano?Bastam duas palavras para definir: infra-estruturas e organização. São, a priori, as duas grandes diferenças. Infelizmente, em Angola ainda há alguns problemas porque a maior parte das equipas continua no amadorismo. Olhando pela perspectiva que o futebol pretende alcançar, concluo que deve haver mais empenho de todos, desde atletas, técnicos e dirigentes. A formação de dirigentes, técnicos e atletas é um dos indicadores para se ir mais longe...Claro.Quando falo de organização, falo de pessoas formadas.Se formos à Europa, notamos que quase uma dúzia de dirigentes por clubes são profissionais e as coisas estão definidas. As pessoas bem formadas procuram o melhoramento e o aperfeiçoamento de todas as condições inerentes ao desporto. Só assim pode existir retorno que se resume na obtenção da qualidade pretendida em qualquer desporto. A isso alia-se um bom balneário, um campo de futebol (com mínimas condições) e acompanhamento médico para que as coisas surjam de forma científica. Entretanto, dada a força de vontade que os dirigentes desportivos têm, acredito que as coisas melhorem em breve.    Geralmente o futebolista angolano não consegue atingir grandes patamares.Porquê?Há vários factores, sendo o primeiro relacionado com a componente humana.Outro erro que se comete é chamarem profissionais apenas aos jogadores que evoluem no exterior do país. É uma grande falha, pois todos devem ser chamados como tal. Temos jogadores que jogam e jogaram em grandes clubes portugueses como o Mantorras, o Vata, o Akuá, etc. É verdade que ao jogador angolano também falta um pouco mais de mentalidade, tudo porque no país está habituado com a protecção paternal e quando vai fora e encara as primeiras dificuldades, desiste logo. Por isso, tenho dito a muitos jogadores que pensam evoluir em Portugal, que é um pensamento muito curto pois o futebolista angolano, infelizmente, em Portugal não é bem tratado. Ele não é valorizado como um profissional, coisa que também acontece com os próprios portugueses. Significa que o inglês, o italiano e o francês são mais bem tratados que o português e o angolano. Seleccionador nacional deve ser apoiado Uma opinião sobre o seleccionador Hever Renard?Espero que seja o ideal.Tivemos um encontro com ele e vimos que tem muita ambição. Se for devidamente apoiado, poderá dar um contributo valioso ao país. Caso as condições de trabalho não lhe forem dadas, o seu projecto sairá fracassadoAceitaria um dia treinar a Selecção de Angola?Tudo é possível, quem sabe!? Nunca sonhei fazer parte da equipa técnica do Benfica, mas hoje estou aqui. Por isso, tudo o que poderá futuramente acontecer só o tempo dirá, embora ser uma tarefa muito difícil. Como vai a sua relação com a direcção do Petro de Luanda?Tenho uma grande estima e consideração pelos meus ex-colegas, pelo treinador e os seus colaboradores, mas lamento os maus momentos por que passei lá Até esta altura o diferendo ainda não foi ultrapassado. O processo segue os trâmites legais e procuramos encontrar a melhor forma para o solucionar. Sabemos que o assunto em referência afectou a sua família…Foi o pior momento da minha vida, mas tudo já passou. Tenho dois filhos. Tudo aconteceu num momento em que o primeiro tinha dez anos e o segundo, dois meses. Hoje, dou graças a Deus que tudo voltou ao normal, a minha esposa já conhece bem Luanda; já consegue sair sozinha para resolver certos problemas da família. Embora o assunto ainda não esteja resolvido, a vida não para. Vamos aos poucos nos recompondo.