Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Quero fazer atletas de referência"

Hélder Jeremias - 11 de Julho, 2013

Antiga andebolista do Ferroviário está inserida no projecto “Crianças em Movimento” destinado à descoberta de novos talentos no ténis nacional modalidade que também praticou

Fotografia: Nuno Flash

Ana Balbina Martins é um nome incontornável no desporto nacional. Começou a treinar nos “courts” do Clube de Ténis de Luanda em 1979, ingressando depois na equipa de andebol do Ferrovia, clube em que se notabilizou com ponta esquerda. Conquistou vários campeonatos nacionais e taças africanas ao lado da Palmira Barbosa, atleta que mais admira. Licenciada em Geofísica, Ana Balbina é gestora de dados petrolíferos na Sonangol. Em entrevista ao Jornal dos Desportos fala do seu amor pelo ténis e a concepção do projecto “Criança em Movimento”.

Como nasceu a ideia de criar este projecto?
Este projecto surgiu num encontro familiar, durante o qual conversei com a doutora Ana Paula dos Santos, sobre o ténis, modalidade que nós praticámos desde 1979. Ao aperceber-se do estado da modalidade demonstrou, de imediato, o interesse em fazer algo. E assim surgiu a ideia de criarmos o projecto “Criança em Movimento”. Está no papel desde o início de 2012, mas devido a alguns constrangimentos de ordem material e de apoios levou algum tempo para a nascer. Não sabia a quem me dirigir porque na altura a federação estava sem presidente. No início deste ano, contactei o Genivaldo e o João Almeida para avançarmos.

A colaboração dos dois tem sido profícua?
Com certeza, até porque eu já tinha feito um projecto idêntico com o João de Almeida, mas que não tinha a dimensão deste. Estava aflita por ter perdido todos os seus contactos. Quando consegui encontrar o Genivaldo Dias mostrou-se receptivo, tendo-me informado que o momento era oportuno, pois ambos passaram a desempenhar funções nos novos corpos sociais da federação. O João de Almeida é o vice-presidente e o Genivaldo responde pelo secretariado-geral. Dei-lhes a conhecer a disponibilidade da Primeira-Dama, Ana Paula dos Santos, em avançar com fundos para podermos comprar o material de mini ténis. Foi assim que fizemos aquele lançamento e o projecto tem estado a andar. Continuamos a ter algumas dificuldades em conseguir patrocínios, mas vamos batendo a algumas portas para ver se conseguimos”.

Para quando a expansão do projecto aoutras regiões?
As dificuldades impedem-nos de dar passos, razão pela qual nós não conseguimos ainda expandir o projecto para os outros municípios, como é o nosso objectivo. Como não conseguimos ainda obter os patrocínios, vamos ter que nos manter onde estamos, muito embora tenhamos recebido convites de outros municípios e empresas. Sem patrocínios pouco o nada se pode fazer, mas o tempo é um grande mestre e só ele dirá quando estaremos em condições.

Que avaliação faz dos seis meses de trabalho?

“Fiquei muito surpreendida com a desenvoltura das crianças. São crianças que nunca tinham ouvido falar do ténis e logo no primeiro mês já estavam a jogar. No dia 1 de Junho fizemos uma demonstração, um torneio na baia de Luanda para motivá-las. Aquilo foi uma maravilha, pois elas estão a jogar muito bem, razão pela qual eu, mesmo sem patrocínios vou tentar pedir apoio a familiares meus para ver se pelo menos estas crianças não deixem de praticar a modalidade. Temos rapazes e meninas a jogarem muito bem o ténis. A preocupação reside agora no facto de terem que mudar de nível e o material que utilizam desde o início já não é compatível com o trabalho que doravante vão efectuar. Temos dificuldades em conseguir campos.Tentamos adaptar o campo do Kifica com redes para os escalões de juniores.

A única dificuldade prende-se com as infra-estruturas?

Infelizmente não. Outra dificuldade prende-se com os lanches. Continuamos a dar os lanches, mas devido à escassez de meios deixamos de fornecer todos os dias e passamos a intercalar os dias, isto é, duas vezes por semana para os mais pequenos e três para aqueles que já estão a jogar.

Como pensa resolver o problema da falta de campos?
Tivemos contactos com a administradora do município de Belas e ela prometeu arranjar-nos um terreno para a construção de vários campos de ténis, algo que julgo ser de grande importância para o desenvolvimento da modalidade. Se reparar, na capital praticamente só temos o Clube de Ténis de Luanda e a quadra do Miramar. Outros campos encontram-se em condomínios, cujo acesso é limitado aos seus moradores. A ideia é termos o terreno, que a administradora já identificou, seguidamente vamos tratar da papelada, contrato, para, depois corrermos atrás de algumas empresas que nos possam patrocinar para construir campos.

Massificação
Projecto promete
formar talentos


A direcção da federação está a colaborar? 
Devia colaborar, mas tal não sucede na prática. O director técnico do projecto é o secretário-geral da federação, o coordenador é vice-presidente. São pessoas que nos dão suporte, mas apoio da instituição no verdadeiro sentido não existe.

Vão sair do projecto tenistas de alta competição?

Este é o meu sonho e quero que se torne numa realidade. Vou correr atrás dos patrocínios para que aquelas crianças tenham um futuro feliz. Estou encantada, principalmente com as meninas porque olhamos para elas e vemos um semblante de felicidade nos seus rostos, já estão a jogar ténis com habilidades que nos permitem perspectivar boa qualidade técnica. Devo sublinhar o bom desempenho dos técnicos. Pensamos mandar rapazes e meninas para a Namíbia e África do Sul, onde podem ter uma espécie de bolsa de estudo com duração de um ou dois anos para aprimorarem a prática da modalidade em academias apropriadas. Esta é a idade propícia para o esboço de uma carreira desportiva auspiciosa e o talento demonstrado por elas serve de garantia de que poderemos ter uma “Serena” uma “Vénus William”aqui em Angola, porque elas já jogam mesmo.

Há contactos com clubes estrangeiros para receber as crianças?

“Ainda não temos nada de concreto, pois tudo começa por um plano, porém, os nossos técnicos João Almeida e Genivalddo Dias, que sempre estiveram nas lides do ténis, de certeza que têm o conhecimento dos melhores locais em que podemos formar as nossas crianças, para na devida altura, os contactos serem accionados.


ANA BALBINA CONTINUA CAMPEà 

Ana Balbina assegurou que está para breve a realização de um torneio para avaliar as apetidões das crianças que aprendem o ABC do ténis na capital. Depois de ter realizado com sucesso em Junho uma prova de demonstração, quer organizar um torneio em Dezembro próximo.

 Para quando a realização de um torneio?
Existe esta perspectiva, porque a evolução das crianças nos permite que isto seja feito periodicamente. Em Junho fizemos a demonstração na baía de Luanda e agora estamos a pensar em realizar uma competição em Dezembro. É uma ideia que está a ser amadurecida.

As crianças aceitam bem o ténis que é um desporto de elite?
Não existem desportos para elites, qualquer modalidade, desde que haja vontade e ajuda está ao alcance de qualquer pessoa e este nosso projecto existe para acabar com esse mito de que o ténis só pode ser praticado por pessoas das elites sociais. Temos exemplos de atletas que, com o seu talento, se tornaram nas maiores estrelas do desporto e vamos procurar que isto também aconteça com as nossas crianças no ténis.

Como entrou no mundo dos desportos?

Eu sou gémea, somos quatro meninas e dois rapazes. Naquela altura a juventude tinha outras formas mais saudáveis de ocupar os seus tempos livres. Eu, a minha irmã e a minha prima Ana Paula gostávamos de aprender coisas novas. Antes do ténis passamos pelo basquetebol, treinámos natação, Karaté e outras modalidades. Durante um passeio pela Baixa de Luanda fomos ao Clube de Ténis e ficámos apaixonadas pela modalidade. Começámos a treinar e o senhor Dido notou que tínhamos jeito. Em casa praticávamos batendo bolas contra uma parede.

Continuou sempre no ténis?

Como não havia muita competição mudámos para o andebol, no Clube Ferrovia, onde o meu irmão Camilo jogava. O treinador Pina também se surpreendeu com a nossa forma desportiva porque durante algum tempo treinávamos as duas modalidades, o ténis à tarde e o andebol à noite. A dada altura, o treinado disse que tínhamos que escolher e preferimos ficar no andebol uma vez que o técnico Dido, que era quem nos apoiava no ténis, acabou por falecer”.

Quais foram os momentos que mais a marcaram?

“Foi quando conquistamos o Campeonato Africano de Clubes de Andebol, pelo Ferrovia, em 1987, na Nigéria e quando, pela Selecção Nacional, conquistámos o Africano na Costa do Marfim. O treinador Beto Ferreira já tinha definido o “sete” inicial, que era composto pela minha irmã Bibi, no centro, eu como ponta esquerda e a Palmira Barbosa ao meu lado. Éramos provenientes do Ferrovia. Foi um grande campeonato e nós jogámos muito bem.

Foi a sua coroa de glória?

Foi um título que me marcou profundamente, também por razões pessoais. Alinhei pela equipa e estava grávida do meu primeiro filho, mas não sabia. O técnico dizia que eu estava a engordar e mandava-me fazer exercício, mas nada resultava. Até que a capitã de equipa, Palmira Barbosa, chamou-me, conversámos e disse-me que estava grávida. Voltamos para Angola, permaneci os nove meses fora das competições. Só voltei a competir em 1989 quando ganhámos outro Africano” .

Algum dos seus filhos pratica desporto?
Não. Estão mais preocupados com outras coisas como vídeo games. O mais velho gosta de correr, participa com regularidade na São Silvestre, mas os outros são um pouco preguiçosos. Já tentei pô-los a jogar ténis, mas não surtiu os efeitos desejados.

Além da Palmira Barbosa tem outras atletas de referência?

O meu marido Edgar Martins foi um atleta de alta competição que militou na equipa de voleibol do 1º de Agosto, considerado o melhor jogador africano pelas suas qualidades de canhoto. A Palmira Barbosa foi a atleta que mais me encantou, ela é a melhor jogadora de todos os tempos. Vejo agora jovens como a Marcelina Kiala, Naír Almeida e outras miúdas que jogam muito bem, mas a Palmira Barbosa marcou-me por ser uma atleta inteligente, super jogadora, tinha muita força e não era individualista. Não há ninguém como a Palmira Barbosa”.

Castigo levantado
“Foi um passo importante”


O levantamento da suspensão pela Federação Internacional de Ténis é bom para a modalidade?
Foi um passo importante e devemos todos ficar satisfeitos, mas ela não representa todas as garantias de que doravante as coisas vão andar de vento em popa, porque o essencial é a organização interna. A suspensão não pode justificar toda inoperância do ténis. Até agora não se viu a realização dos campeonatos nacionais nas categorias de juniores e seniores e já estamos na segunda metade do ano. Por isso, gostava de apelar à organização interna, pois sem isso de nada vale o levantamento da suspensão.

Porque razão o campo do Kifica está degradado?
Nós contávamos com o apoio da administração municipal que é a responsável do espaço. Este apoio, até certo ponto existe, mas sem um segurança no local, mesmo que se faça manutenção, o imóvel continua vulnerável às pessoas que o utilizam para outras práticas que nada têm a ver com o desporto. Todavia, esta preocupação já me foi apresentada pelo João Almeida em breve vamos contratar duas senhoras que vão passar a fazer a limpeza e a Epal vai mandar todos os meses uma cisterna de água.

ONTEM E HOJE
“No nosso tempo
era amor à camisola”


Como avalia a fase actual do andebol?
Não existem grandes diferenças, mas no meu tempo, as pessoas andavam à vontade sem correr riscos de serem assaltadas. Eu estudava no Makarenko e treinava no Ferrovia e, muitas vezes, fazia este trajecto a pé, à noite. Hoje já é possível viver só da prática do desporto, ao passo que no nosso tempo era mais por amor à camisola. Vencíamos várias competições nacionais e africanas mas não ganhámos bens materiais. As nossas atletas hoje já podem usufruir de rendimentos do desporto. Apenas existe essa diferença, mas não sei dizer qual delas é melhor, pois faz parte do processo de evolução da sociedade.

Como passa os seus tempos livres?

“Adoro ler, ver televisão. Durante a semana faço muitas caminhadas e nas férias viajo sempre para os Estados Unidos da América onde reside a minha irmã gémea, que é representante comercial de Angola naquele país”.

Que mensagem deixa à juventude?
“Devem praticar mais desporto e abdicarem de certas práticas nocivas á sociedade e à saúde, tais como o alcoolismo e a delinquência. No nosso tempo também tínhamos os nossos divertimentos em grupo, mas primávamos pelas práticas saudáveis. Hoje uma parte da juventude está mais interessada em beber, estar bem na vida sem esforço, existe muito oportunismo. Era bom que começassem a pensar e agir de forma que a serem modelos de dignidade”.

Castigo levantado
“Foi um passo importante”


O levantamento da suspensão pela Federação Internacional de Ténis é bom para a modalidade?
Foi um passo importante e devemos todos ficar satisfeitos, mas ela não representa todas as garantias de que doravante as coisas vão andar de vento em popa, porque o essencial é a organização interna. A suspensão não pode justificar toda inoperância do ténis. Até agora não se viu a realização dos campeonatos nacionais nas categorias de juniores e seniores e já estamos na segunda metade do ano. Por isso, gostava de apelar à organização interna, pois sem isso de nada vale o levantamento da suspensão.

Porque razão o campo do Kifica está degradado?

Nós contávamos com o apoio da administração municipal que é a responsável do espaço. Este apoio, até certo ponto existe, mas sem um segurança no local, mesmo que se faça manutenção, o imóvel continua vulnerável às pessoas que o utilizam para outras práticas que nada têm a ver com o desporto. Todavia, esta preocupação já me foi apresentada pelo João Almeida em breve vamos contratar duas senhoras que vão passar a fazer a limpeza e a Epal vai mandar todos os meses uma cisterna de água.

PERFIL

Naturalidade: Luanda
Data de nascimento: 20.02.64
Signo: Peixe
Religião: Católica
Cor preferida: Azul
Filhos: Três rapazes
Prato preferido: Não tem
País para férias: Estados Unidos
Sonho: Ver Angola cada vez melhor.