Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Quero ganhar títulos

João Constantino, no Huambo - 28 de Novembro, 2012

Técnico português está confiante na sua passagem pelo futebol angolano

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jornal dos Desportos – O que o levou a trocar a equipa técnica do Real Madrid, como um dos colaboradores do categorizado técnico José Mourinho, pelo Recreativo da Caála?
Ricardo Formosinho – Não houve troca. O que aconteceu é que quando aceitei o convite do Clube Recreativo da Caála (CRC), era um treinador livre. Com total apoio do José Mourinho decidi terminar o vínculo para regressar às tarefas de campo, como treinador principal, tal como atesta a declaração do Real Madrid assinada pelo próprio José Mourinho. Esta é a minha paixão, liderar e potenciar um projecto. Entre Tunísia, Tailândia ou Angola, optei por Angola e estou feliz com a decisão.

Sendo a primeira experiência no continente africano, o que o motivou a assumir o comando de uma equipa angolana?
É um facto que vai ser a primeira vez que treino um clube em África, mas não é a primeira que tomo contacto com a cultura africana, já estive na Tunísia, mas não como técnico. A larga experiência que tenho da Ásia faz-me sentir capacidade de adaptação fácil a uma nova realidade. Escolhi Angola por várias razões, como a língua, a paixão pelo povo angolano e também por ser, em todas as vertentes, um país emergente e com boa visibilidade no mundo futebolístico.

Essa mudança de continente e de clube demonstra que gosta de desafios. Está preparado para vencer no CRC?

Sem desafios não há grandes vitórias. Gosto de sentir a adrenalina do jogo e a paixão do treino faz-me sentir vivo.

O conhecimento que tem do futebol africano e angolano permite-lhe ter a certeza de que vai vencer este novo desafio?
Com certeza que sim. Acompanho o futebol, independentemente do continente ou país. Há algum tempo que me foco no Girabola.

JD – Vem de uma escola de futebol muito diferente da nossa, com filosofias de treino e tácticas de jogo diferentes, não teme dificuldades de adaptação dos seus futuros atletas?
Não, porque apenas têm de se adaptar como apreciar, embora a adaptação tenha dois sentidos: de eles para mim e de eu para eles”.

Que projecto lhe foi apresentado pela direcção do CRC para os próximos dois anos?
Os projectos estão sempre relacionados com os resultados desportivos. No entanto, acredito na estabilidade e no sucesso. Queremos potenciar tudo o que foi feito de bom no clube e aproximarmo-nos de uma organização de topo.

Na época desportiva de 2011 do Girabola, o Recreativo da Caála foi segundo classificado. Este ano terminou na décima posição. Em termos classificativos o que lhe foi solicitado para a próxima época?
O passado tem o peso de nos conferir responsabilidade sobre o que foi feito de mais importante. O futuro constrói-se a respeitar o passado, mas o essencial é ter a consciência do que todos juntos podemos fazer pelo presente e para o futuro.

Qual é o objectivo que se propõe alcançar, na sua primeira época desportiva em Angola?
Objectivamente ganhar o maior número de jogos possível, fortalecendo a paixão dos adeptos. Afinal, é para eles que jogamos e lutamos até à exaustão.

Vai apostar nos atletas que actuam fora do país ou vai manter a maior parte do actual plantel?

O futuro prepara-se hoje e é com essa visão que estamos a trabalhar no processo de construção de um plantel que tenha o presente e também o futuro”.

O CRC vai estar envolvido em três competições diferentes. Qual vai ser a prioridade da equipa?

A prioridade vai ser gerir de forma inteligente e equilibrada um plantel “família” que possa dignificar o clube, a província e o país.

Dos clubes que orientou já teve a oportunidade de trabalhar com algum jogador angolano?
Com alguns. De momento lembro-me do Nuno Rodrigues, Kali, Capuco, Maquemba, Lameirão e o Fernando Pereira, que faz parte da actual equipa técnica da Caála. Há mais, com certeza, que não me recordo de momento”.

JD – Por tudo aquilo que disse até ao momento, podemos depreender que vem para Angola tranquilo e confiante em realizar um bom trabalho e corresponder às expectativas da direcção e da massa associativa?
R.F – Por norma trabalho sempre à vontade, pois, para mim, o trabalho é sagrado e faço-o com enorme paixão dedicação e respeito.

JD – Quando é que acontece o primeiro contacto com os jogadores?

R.F – Já começámos a comunicar-nos. Todos os jogadores que vão manter-se no clube já receberam uma carta minha. Foi o começo de uma relação que se deseja sã.

JD – A estatística é primordial no futebol e o CRC é dos poucos clubes em Angola que tem essa área organizada e bem estruturada. Pensa fazer algo diferente?
R.F – As estatísticas são de vital importância para a avaliação. Foi com agradável surpresa que recebi do CRC um verdadeiro check-up. Não imaginava que o clube tivesse essa organização de top. Uma base de dados ao nível das melhores a que já tive acesso. Estou a falar de excelência mundial. Perante o que me foi apresentado, foi possível obter todas as informações que precisava para um conhecimento correcto, rápido e fácil, não só dos jogadores do Caála, como de jogadores a militar nas outras equipas que participam no Girabola. Parabéns ao CRC.

JD – No seu currículo não consta a passagem como técnico de formação. Como pensa lidar com o escalão de base do clube?
R.F – Tive o privilégio de ter uma experiência como Coordenador Técnico da Formação do Vitória de Setúbal. Por isso tenho experiência para o efeito.

DESAFIOS
“Tratar do presente preparanfo o futuro”


O que se pode esperar do Recreativo da Caála nos próximos dois anos?
Dois anos neste contrato, mas desejo ficar alguns mais. Tratar do presente preparando o futuro, portanto, estamos também focados em dar atenção e valorizar a formação do clube.

Qual é o sentimento de ter Francisco José Matos “Agatão” como adjunto?

O Francisco Agatão é um homem sério e sabe respeitar o seu espaço, além de ser um conhecedor do futebol na sua realidade e sermos companheiros de visão. Junto a tudo isto, há uma amizade de anos, e não é a primeira vez que vamos trabalhar juntos, pois tanto ele como o Fernando Pereira e o Sérgio Mourato já colaboraram comigo no Santa Clara e com sucesso”.

Deixa de fazer parte do staff da equipa técnica do Real Madrid com o sentimento do dever cumprido?

A declaração assinada pelo próprio treinador José Mourinho responde a essa questão com clareza e melhor que eu.

Qual é o sentimento de ter trabalhado com um dos melhores treinadores do mundo?

Permita-me opinar que “o melhor”, por questões que só mesmo quem está próximo consegue entender. Sentimento de ter bebido do seu saber, da sua liderança e de ter trabalhado com um ser humano fantástico. Tenho pena que poucos conheçam esse lado.

Como treinador como se caracteriza?
Profissionalmente sou um inquieto na procura do desenvolver e do saber. Cultivo o ambiente familiar de equipa, porque penso ser esse o caminho mais curto para o sucesso. Como numa família feliz, todos se gostam, respeitam e mostram solidariedade, onde todos sabem quem é o chefe de família, o pai que ama os seus filhos. Um treinador, um pai, um amigo sempre disponível para apoiar e ajudar, mas também para exigir.

E fora de campo?
Socialmente sou homem de família e agradeço a Deus por ter a família fantástica que tenho, e que me apoia nestas minhas longas ausências.
Que mensagem quer deixar para os seus futuros atletas no CRC?
Digo-lhes que, com humildade, dedicação, espírito de grupo e respeito, nem imaginam o que juntos podemos fazer.

Vai para um clube onde os sócios e a massa associativa são muito exigentes. Sabia disso?
Adeptos exigentes existem em todos os clubes. Eles vão ao futebol para ver a sua equipa ganhar e jogar bem. Isso é paixão e amor ao clube, e nós temos de trabalhar para os fazer felizes.

O Recreativo da Caála apurou-se para a Taça da Confederação (CAF). Qual é a sua ambição nesta prova?
A ambição faz parte do nosso ADN, está dentro de nós.

CAN 2013
Técnico confia
nos Palancas


Agora que abraçou este desafio no futebol angolano, que conhecimento tem do valor desportivo de algumas equipas africanas?
Assim como fiz com o futebol angolano, procedi da mesma forma para algumas equipa do continente africano.

Pelas andanças que tem no futebol, já pensou em orientar uma selecção africana?
Não tenho preferências. Nenhuma selecção está no meu horizonte imediato. O meu caminho nos próximos anos vai ser o Clube Recreativo da Caála. Para o CAN 2013, vou apoiar Angola, por ser um país irmão e que me vai acolher nos próximos anos. Tenho a ambição de vir a ganhar muitos títulos.

POR DENTRO
Ficha técnica
de Formosinho


Ex-Jogador Profissional de Futebol dos 17 aos 33 anos.
Internacional sub-18, sub-19, Esperanças (Sub 21).
Campeonato Europeu de Juniores “Suécia 74”
S.C.Farense Finalista vencido da Taça Portugal 89/90
Últimos dez anos como Treinador:
- 2000/01 F.C.Penafiel
 Treinador Principal
- 2 001/02 Imortal D.C.
 Treinador Principal
- 2002/03 S.C. Espinho
 Treinador Principal
- 2003 S C Farense
(Manager Técnico)
- 2003/04 José Mourinho’s Assistant (Scout back room staff )
- 2004//05 G.D.Santa Clara Açores - Treinador Principal
- 2005/06 V.F.C Setúbal – Responsável pela Academia
- 2006 G.D.Chaves - Treinador Principal
- 2007 Al Khalejj Saudi Arabia - Treinador Principal
-2007/08 G.D.Santa Clara - Treinador Principal
- 2008 Análise Treino de Elite (Estudo realizado Real Madrid 2008)
- 2009 G.D.Chaves - Treinador Principal
- 2010 Dong Tam Long An Vleague (Vietname) -Treinador Principal
- 2011 Becamex B.Duong Vleague (Vietnan) -Treinador Principal
- 2011/12 José Mourinho’s Staff (Scouting Team Real Madrid).