Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Quero trazer o meu prximo combate para Angola

Joo Carmo - 18 de Agosto, 2010

Toni Kikanga, pugilista que faz histria a nvel mundial

Fotografia: Quindala Manuel

Como vai a sua carreira?
Vai de vento em popa.Graças a Deus, todos os anos luto para um título mundial. Lutei por oito diferentes títulos mundiais e sempre tenho a graça e sorte de ganhar.Tenho a honra de trabalhar com um grande "manager", o Manolo, que me leva sempre a disputar um título mundial. A última vez que combati foi a 29 de Maio, em Helsínquia (Finlândia).Antes, lutei na Sérvia, no Canadá e na Dinamarca. Estou sempre no activo e, se calhar, sou o único angolano em competição ao mais alto nível.As notícias daquilo que faço não chegam a Angola por falta de interesse dos órgãos de comunicação social, até porque às vezes ligo para alguns órgãos. Se fosse futebol, seria diferente.

Continua a defender o seu título, então?...
Sim.Defendi todos os títulos transcontinentais (TWBA). Tenho falado com o Manolo e o homem que trata da minha carreira em Portugal e ambos acham estar na hora de partir para outra versão, porque ninguém me vence. A título de exemplo, fiz um recorde de 12 combates e igual número de vitórias. Quando os outros competidores sabem que vão lutar contra o Kikanga, sabem que vão perder. Mesmo quando defendi o cinturão fora de Portugal, em França, na Inglaterra, na Sérvia ou na Bósnia, ganhei sempre.

Para quando combater numa versão mais competitiva?
A categoria em que estou é bastante competitiva.O boxe profissional está dividido em terceira, segunda e séries. Em termos de cinturão, fiz o título IBS (uma versão americana), na Sérvia, e da IBO (outra versão americana), na Bósnia. Em suma, apenas me faltam duas versões que são a WBA e WBC.

Pensa competir nas versões que diz faltarem?   
Tenho de trabalhar muito para lá chegar, apesar de estar muito perto, pois quando o pugilista compete na UBC (União de Boxe Universal ou Conselho Mundial de Boxe), está dentro da WBA e pertence ao Conselho Mundial de Boxe (WBC). No fundo já ando nisto, faltando um empurrão, protecção, coisa que não acontece comigo. Lá fora, até sou protegido, mas aqui não.

Vontade não lhe falta...
Não, até porque disputei por duas ocasiões o título da UBC fora do país. Se fosse protegido, fazia-o em Angola ou em Portugal e ganhava. Fi-lo no Canadá e só ganharia se tivesse mais protecção.É difícil vencer um título na terra do outro, na medida em que os nativos criam todas as condições para o estrangeiro não vencer. Então, os angolanos é que têm de criar todas as condições para eu trazer competições ao país e ganhá-las.

Tem algo em manga no que toca à realização de combates do género em Angola?    
Estou cá para promover o combate para o título da UBC. Caso consiga vencer, será o maior título da minha carreira. Tenho de ganhar para honrar a mim, ao meu país, à Federação Angolana de Boxe, às pessoas que me protegem e às que estão comigo. Acho que tanto a federação quanto o Carlos Luís, que é o meu sponsor, estão a trabalhar para o efeito.

Então, enquanto passa férias, aproveita para promover o seu próximo combate?    
Quero trazer o combate marcado para o dia 28 de Outubro, em Portugal, para cá. Em Portugal, há todas as condições para uma boa gala, mas quero e preciso que seja em Angola, para ter mais chances de ganhar e de ser visto. As vezes que lutei em Angola, fui mais visto além fronteiras, do que quando aconteceu em Portugal. Os portugueses fecham-se. Se tanto, passam as informações dentro da União Europeia. Aqui, tenho mais possibilidades de ser visto na CNN, o que é muito importante. Só para realçar, o campeão desta versão é o Evander Hollyfield, título ganho há três meses. Como angolano, seria uma honra ter um título que esteve na mão de Hollyfield, Mike Tyson, mas isso na categoria de 80 kg, a que pertenço.    
 
Que passos deu para o afeito?Houve receptividade das pessoas e organismos que contactou?
A recepção tem sido boa.Conversei com muitas pessoas e todos me garantiram que a gala sai.

Nesse caso, podemos estar certos de que, a 28 de Outubro, temos peleja em Angola?   
No dia 28 Outubro é em Portugal.As pessoas que contactei aqui disseram que se vão esforçar para contactarem o meu sponsor, em Portugal, a fim de transferirem o combate para Angola.

A receptividade que teve demonstra que passa a ser mais reconhecido no país, a contrário de há alguns anos, em que passou por alguns contratempos?      
Já passou muito tempo.Foi há cinco anos e, naquela altura, o senhor (Luís) Gregório não era o Secretário-Geral da Federação Angolana de Boxe nem o Carlos Luís o meu sponsor.

Tem sonhos para a sua carreira, mas a idade, se calhar, já começa a dificultar. Concorda?
Não tenho muitos sonhos, pois ganhei tudo o que havia como pugilista. Venci 12 títulos diferentes e só não ganhei outros por falta de sorte e porque não fui bem acompanhado. Fui campeão de África e ganhei tudo em Portugal, país onde me tornei muito conhecido e que ficou pequenino para o meu bolso.

Explique-se melhor...
Não considero um sonho lutar para o título da UBC, mas uma etapa a deixar, pois, se ganhar, não mais o farei. Tenho um contrato de dois anos com o Sport Lisboa e Benfica, que acaba lá para Agosto do próximo ano, e vou aproveitá-lo, pois a idade não é um grande problema.Veja o caso do Hollyfield, que tem 50 anos e anda a bater as crianças.O George Foreman ficou 20 anos sem lutar e, quando voltou, ganhou o campeão mundial.Recuando no tempo, o Mohamed Ali lutou até aos 40 anos.

Qual é o segredo para essa performance?
A idade não é problema desde que se tenha uma vida regrada, seja um bom pai de família, não saia muito à noite, em suma, desde que tenha algo que "dou para vender".

Isso quer dizer que ainda não pensa pôr fim à careira?      
Quando terminar o meu contrato com o Benfica, termino a carreira.

Está a dizer daqui a dois anos?
Daqui a um ano e meio.Mas depende: por exemplo, vou lutar pelo título da UBC e, se ganhar, o Carlos Luís não me vai deixar sair (risos).É como em Portugal: quando digo que este é o meu último ano, convence-me, dizendo que ainda não posso deixar, por ser o campeão em título.Na rua, as pessoas puxam por mim e tenho de fazer a vontade delas. Sou um pugilista que toca no coração das pessoas.Quando luto, todos sabem e ficam preocupados comigo, tanto em Portugal, quanto em Angola.
 
Ganhou muitos títulos. Já pode dizer que vive do boxe?
(Risos) Ganhei muita coisa desde que estou no boxe, amigos, sobretudo. Em Portugal, sou bem referenciado pelo que, de fome não morro, mas tenho de trabalhar.Não vale a pena pensar que o dinheiro que ganhei dá para toda a vida. Com ele, penso vir a Angola para abrir um negócio, um ginásio, etc. 

O fim da sua carreira será, por conseguinte, um trampolim para investir no país…      
Sim.Quero ficar ligado ao boxe, mas nunca pensei em ser treinador e lutador ao mesmo tempo.O futuro pertence a Deus, mas sempre sonhei ter o meu próprio ginásio e formar miúdos.Quando falo de ginásio, não é apenas para o boxe, mas também para o kickboxing, o vale tudo, o halterofilismo, etc. Não sei se sabem, mas também luto kickboxing e vale tudo, sendo que tenho 14 combates de kickboxim e oito de vale tudo. 

É preciso mais trabalho interno

Como avalia a modalidade
no país?
Não poderei responder a essa questão, pois estou distante da realidade angolana e corro o risco de ferir sensibilidades. Estou de férias e, quando sair, quero deixar as portas abertas. São pessoas novas que estão na Federação, os jornalistas escrevem de uma forma e cada um lê da sua maneira.

Há condições e potencial para, daqui a algum tempo, aparecerem atletas capazes resgatar a história de um António Kikanga ou de um Manuel Gomes?
O boxe aqui não vai morrer porque o Gomes abandonou recentemente em Portugal ou porque o Kikanga vai abandonar daqui a um ano e meio.Mas têm de trabalhar porque, mais tarde, vocês vão querer questionar.Ouço falar do boxe pela Internet, sobretudo do campeonato nacional.Não se fala em Taça de Angola, nem de outras provas.Fala-se muito da modalidade quando venho a Angola.

"Já me sinto valorizado no meu país"

É mais valorizado em Angola ou em Portugal?  
Nos dois países.

Ao que sabemos, há alguns anos, teve dificuldades para se afirmar no país…
Tive em relação a algumas estruturas e a pessoas que estão "lá em cima", mas a população sempre me aceitou.Hoje, sou o pugilista mais querido de Angola.Em Portugal, divido a popularidade com o Mantorras, apesar dele ser futebolista.Não passo despercebido em qualquer esquina, nem saio de casa para tomar um café sem ser reconhecido.Em Angola, nos dias que correm, sinto a mesma coisa.Por onde passo, sabem que aquele é o Kikanga.A popularidade em Portugal era tanta que, há alguns anos, a minha casa era como se fosse o Consulado de Angola.Todo o angolano que estivesse perdido era conduzido para lá.
 
Sempre que fala de Angola, fá-lo também de Portugal. Fica-lhe difícil separar os dois países?
Sim, na medida em que vivo em Portugal há muitos anos. As minhas malas estão já arrumadas para regressar a Angola, mas não posso falar mal de Portugal. Não posso cuspir no prato em que como, já que aquele país me recebeu e tratou bem.Os meus filhos e a minha mulher são portugueses e aquela terra estará sempre no meu coração, apesar de não a poder comparar com Angola, onde nasci, onde estão os meus amigos. Claro que antigamente era mais conhecido em Portugal e na Europa do que aqui, mas essa fase já passou.

Já não é assediado para se nacionalizar português?    
Todo o angolano que está lá há mais de dez anos tem direito a nacionalizar-se como português. Não me nacionalizei porque tinha feito um acordo com o senhor Marcos Barrica (antigo ministro da Juventude e Desportos), em que garantiu que caso não me nacionalizasse, me dava uma remuneração de atleta de Alta Competição. Apenas me enviou por duas ocasiões, mas, apesar disso, cumpri a minha palavra. Sou dos poucos angolanos que rejeitou a nacionalidade portuguesa, apesar de me oferecerem de tudo, inclusive a possibilidade de pertencer à selecção local. Sempre disse que preferia manter a minha nacionalidade.

Pararam as tentativas de içar a bandeira portuguesa ao invés da angolana quando ganha um título? 
Já ouve.Eles sabem que eu rejeito, mas às vezes insistem. Sentem orgulho de mim.Às vezes, chamam-me o português António Kikanga (risos), mas rectifico. Saí do Boavista porque mandei parar o hino de Portugal, o presidente não gostou e deu-me a carta de rescisão. Como haviam muitos clubes interessados em mim, fui para o Futebol Clube do Porto.