Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Recordista de ttulos nacionais no ciclismo aposta no associativismo

Simo Kibondo - One-line - 28 de Janeiro, 2013

Corredor que venceu 13 Campeonatos Nacionais Justiniano Mendes Arajo - Juti

Fotografia: Domingos Cadncia

Detém o recorde de Campeonatos Nacionais ganhos e foi, entre os anos 80 e 90 inspirador da nova geração que agora dá cartas na modalidade. Chama-se Justiniano Mendes de Araújo, 47 anos, ou apenas Juti, para os fãs e no meio ciclista. Apesar de ter nascido no Kwanza-Norte, fez toda a sua carreira em Luanda e Benguela, e teve uma efémera experiência em Portugal. Apesar de se ter retirado do activo continua a dar o seu contributo à modalidade como dirigente. Actualmente, ocupa o cargo de Director Técnico da Escola David Ricardo, cuja equipa, curiosamente, é do ciclista com o mesmo nome que chegou a ser seu adversário competições.

O ex-ciclista fez parte do corpo técnico da selecção nacional entre 1993 e 1999, quando disputou os primeiros Jogos Pan-Africanos de Harare. Em 1999, voltou a estar integrado na selecção angolana para os Jogos Pan-Africanos de Joanesburgo, sempre com a dupla função de treinador/ciclista.Juti é irmão do ciclista e treinador do Sport Luanda e Benfica Carlos Araújo mas, contrariamente à experiência de relativo sucesso deste na equipa portuguesa da Sicasal/Acral, a sua passagem pela equipa de Ciclismo do Sporting de Loures de Torres Vedras/Malveira (Portugal), não foi por aí além.

Um dos “rebentos” de Justiniano Araújo, Bruno Araújo, é o actual Campeão Nacional Juvenil de Ciclismo, comprovando a máxima de que “filho de ciclista sabe pedalar”.  “Surgi no Ciclismo em 1978 nas provas domingueiras do Bairro Operário com bicicletas normais, chamadas prateleiras, que na altura eram organizadas pelo senhor Tirone. Mas, também gostava de futebol, onde cheguei a ser guarda-redes da Académica Social Escola do Zangado, uma das equipas onde jogou o Joaquim Dinis depois de regressar de Portugal”, revelou.

 “No escola do Zangado cheguei a ter adversários na baliza de jogadores que atingiram a Selecção Nacional, como Lúcio e Tozé, mas foi o ciclismo que mais me marcou em 1979, quando depois da fundação da Federação Angolana da modalidade, a instituição recebeu um lote de 130 bicicletas para massificar a modalidade só não fui contemplado na distribuição devido à minha tenra idade, pois tinha apenas 14 anos e não fui autorizado”, recorda.
“A Federação distribuiu as bicicletas e formou três equipas, denominadas Capacetes Azuis, Capacetes Verdes e a N´zamba, suportada pela cadeia de supermercados de Luanda com o mesmo nome”, conta ainda.

MOMENTOS

“De medalha de bronze passei para quarto nos II jogos da África Central ” Em Julho de 1980, Juti é convocado para integrar pela primeira vez a Selecção Nacional para a Volta da Zâmbia, mas não seguiu viagem para aquela competição coincidir com a época escolar. Em Agosto do mesmo ano venceu a sua primeira prova em linha de 65 quilómetros, disputada entre o km 44 de Viana até ao Ministério da Defesa.

 De triste memória para o corredor, que já estava “maduro” no início dos anos 80, foi o facto de em 1981 ter participado nos II Jogos da África Central disputados em Luanda, nos quais se classificou na terceira posição, medalha de bronze, mas quando anunciaram a classificação final relegaram-no para a quarta posição. “Lembro-me da minha classificação, na terceira posição, em que fiquei atrás de Josef N´kono (Camarões), Mpassi (RDC) e Baonga (RDC), na quarta posição, a quem acabou por ser atribuído o meu tempo. Não sei o que aconteceu, a verdade é que houve uma conversa entre os dirigentes das duas Federações e da Confederação Africana, na altura, que não me revelaram até agora”, disse.

Justiniano Araújo viveu a sua experiência no ciclismo profissional em Portugal em 1990 no Sporting Clube de Loures da região de Torres Vedras/Malveira. Mas as responsabilidades familiares e outras obrigaram-no a regressar a Angola no mesmo ano. “ Naquela altura já tinha um filho e outros encargos, pelo que acabei por regressar ao meu país, onde voltei a ganhar dois Campeonatos Nacionais de Ciclismo de Estrada antes de terminar oficialmente a minha carreira como ciclista”, sublinhou.

Das equipas que ajudou a formar e representou, Juti recorda-se da Edimbi de Luanda, Ede (Fabrica de borrachas de Viana), Eka do Dondo, Persistentes de Luanda, Marcenaria Muxima de Benguela, Cimex- Benfica, Casa-Caianda. Neste momento, é empresário do ramo da Construção Civil e Director Técnico da Escola David Ricardo, devendo fazer parte da lista do elenco de Diógenes de Oliveira, que vai recandidatar-se a um terceiro mandato para o ciclo 2012-2016.

Depois destes bons e maus momentos estava lançada a carreira de um dos melhores ciclistas que Angola já teve e que envergou muitas vezes a braçadeira de “chefe de fila” (capitão) da equipa nacional e bateu recordes de Campeonatos Nacionais ganhos, que não sabemos se um dia vão ser alcançados. Além dos ciclistas que regressaram do exílio e deram um grande contributo ao desenvolvimento da modalidade no passado, Justiniano Araújo recorda-se de outros corredores da sua geração, como José Miranda, Nelito Monteiro, David Ricardo de Benguela, Anadeu Paiva, Emílio Domingos, Carlos Araújo, Mário Guerra, Luís Amaro, Filipe de Carvalho, todos de Luanda.


AUTORIZAÇÃO
Pai assinou termo de responsabilidade para competir

Para Justiniano Araújo ter acesso à sua primeira bicicleta de competição teve que convencer o pai, Leonel Araújo, que também foi dirigente do Ciclismo (já falecido) a assinar um termo de responsabilidade a autorizar que os dirigentes da Federação pudessem atribuir-lhe um meio e a competir antes da idade regulamentar, ou seja, a maioridade. “Assim, só em 1980, recordo-me como se fosse hoje, é que depois de ter treinado regularmente durante um ano, participei na minha primeira prova oficial alusiva ao aniversário da Mulher Angolana., em que não fui para aí além na classificação”, confirmou.

Justiniano Araújo refere que na altura as equipas formadas em Luanda chegaram a ter 95 por cento de corredores angolanos retornados da Republica do Congo, como a Capacetes Azuis, da qual fazia parte e que era liderada pelo ciclista André Coche.  “Naquela altura (anos 80) quem reactivou o ciclismo angolano e até a Federação Angolana de Ciclismo (FACI), que chegou a ter como Presidente, Luís Pedro Menga, foram os nossos compatriotas que estiveram exilados nos dois Congos,  é também a eles que devemos o ciclismo que temos: André Coxe, N’gola Simão, Francisco Tchindele, Malanguta Pedro, entre outros, estiveram sempre no pelotão da frente naquela altura ”, reconhece. 

PING- PONG
“Lance Armstrong
devia ir preso”

Jornal dos Desportos: Tem acompanhado o caso do ciclista norte-americano Lance Armstrong?
Justiniano Araújo:
Sim. Numa primeira fase estou muito desapontado. Fui um dos grandes admiradores do Lance Armstrong. Tive a oportunidade de acompanhar todas as voltas a França em pormenor que ele venceu. Era um grande ídolo meu. Aliais, muitas das provas que realizei no meu tempo de ciclista no activo, foram inspiradas na sua pessoa. Mas, neste momento, estou bastante decepcionado. Se, realmente, o que se diz, o que se comenta, for verdade, acho que ele devia pagar e bem caro, porque durante este tempo todo andou a enganar o mundo inteiro.

JD: Qual acha que devia ser o seu castigo?
JA
: Em princípio devia ser irradiado totalmente do Ciclismo e a nível do Desporto. Isto sem prejuízo de outras penalizações, uma vez que o que ele fez é crime e devia levá-lo igualmente a um julgamento em tribunais civis e sancionado exemplarmente.

JD: Na sua opinião pode haver doping no Ciclismo em Angola?
JA: Não. Tenho a plena certeza, porque o nosso ciclismo é aquele que tem os “vícios”, que muitas vezes acompanha o “profissionalismo encapuçado”, com grandes somas em dinheiro, mas que no final são castelos de areia. Mesmo que haja o recurso às novas tecnologias de informação que podem às vezes virar a cabeça dos nossos rapazes, não acredito que algum deles fosse cair neste erro. Isto é extensivo a outras modalidades. Enquanto o nosso desporto for ainda por “amor à camisola”, e ainda bem, não acredito que alguém pratique acções dessa envergadura, nem tão pouco os seus mentores tentem introduzir essa “máfia” em Angola.

JD: Tem acompanhado o CAN 2013?
JA: Tenho sido um espectador frequente. Acho que devíamos pressionar menos os jogadores angolanos. Principalmente os órgãos de informação, que fazem os directos com participação de ouvintes, e há prognósticos que afectam os próprios futebolistas e o público.