Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Renovação sem resultados

Augusto Fernandes - 02 de Janeiro, 2013

Félix João representou os Palancas Negras seis anos.

Fotografia: Jornal dos Desportos

No Mundo do futebol é mais conhecido por Felito. Foi um jogador inteligente, organizador de jogo ou “play maker” das equipas por onde passou.Despontou no Interclube de Angola, mas foi no Petro de Luanda que se notabilizou, conquistando cinco campeonatos nacionais, três Taças de Angola e igual número de Super Taças. Félix João representou os Palancas Negras seis anos consecutivos e teve o privilégio de compartilhar o mesmo palco com jogadores como Jesus, Ndunguidi, Sarmento, Mavó, Paulão, Vieira Dias, Mateus Fuidimau, Lucau, Lufemba e outros grandes nomes do futebol angolano.

A carreira futebolística de Felito começou no início dos anos 80 nos Caçulinhas da Bola dos Sengulas, com o falecido David Filipe (pai de Amaro e Anastácio) no comando da equipa que pertencia ao centro recreativo e cultural com o mesmo nome. Neste clube do Rangel, Félix João jogou com Chico Mutari, Chico Pintor, Gek e outros. Posteriormente rumou para os juvenis do Interclube em 1983, na altura treinados por André Cuca, até atingir os seniores em 1986. Ainda no futebol  jovem, jogou com Marques, Jesus I, Dedé, Joãozinho, Oliveira, Gerry, Luís Canivete, Breco e muitos outros e chegou a ser campeão provincial e nacional de juniores em 1985. No Interclube jogou três épocas na 1ª Divisão e ganhou uma Taça de Angola e uma super Taça, sob o comando técnico de Joca Santinho.

Transferência
para o Progresso

Em 1996, Felito foi jogar para o Progresso do Sambizanga por não ter chegado a acordo com o Petro de Luanda. Nesta equipa actuou duas épocas com Janguelito, Zico, Zezinho e outros, tendo ganho uma Taça de Angola com Joaquim Dinis no comando técnico. Felito diz que no seu tempo o Girabola era bem disputado e o campeão só era encontrado nas últimas jornadas, pois havia muito bons jogadores bem dotados tecnicamente, como o Minhas, Beto Carmelino, Paulão, Bolefe, Nsilulu, Assis, Bila, Barbosa, além dos veteranos Ndunguidi, Jesus, Sarmento, Vicy e outros. Felito chegou de igual modo a representar várias vezes a selecção nacional de juniores, tendo sido convocado pela primeira vez por Arnaldo Gabonal e efectuou um jogo na Rússia. Entre os seus treinadores conta-se também o técnico Joca Santinho. 

Em 1990 deu-se o segundo grande momento da sua carreira ao ser convocado por Nando Jordão para representar os Palancas Negras, aos 22 anos de idade. Faziam parte daquela selecção grandes vedetas do nosso futebol, como Amaral Aleixo, Túbia, Mavó, Vieira Dias, Bolefo, Jesus, Fuidimau, Minhas e outros. Foi uma experiência muito marcante para o jovem Felito. Durante seis anos Felito representou a selecção nacional de honras, chegando a capitanear algumas vezes a equipa e foi sempre um bom exemplo para os seus  companheiros. Fez mais de 40 jogos e marcou muitos golos. Embora nunca tenha disputado um CAN, foi dos melhores pensadores, organizadores e distribuidores de jogo que o país conheceu depois de 1975, ao lado de Geovete, Zeca, Chiby, Maria, Lufemba, Paulão, Avelino, Quim, Filipe, Zico e tantos outros. Hoje é treinador dos juniores do Inteclube de Angola e vive em Luanda no bairro Nelito Soares. COM JOÃO FRANCISCO

Contratação do Petro
foi o primeiro passo

Em 1989 deu-se o primeiro grande passo de Felito: “Naquela altura tinha apenas 21 anos de idade e fui contratado pelo grande Petro de Luanda, que tinha jogadores de grande valia técnica, como Ndunguidi, Avelino, Mona, Orlando, Ralph, Wilson, Carlos Pedro, Paulito, André, Bolingó, Abel, Lúcio, Paulão, Quim Sebas, Jesus, Nejó, treinados pelo carismático Carlos Queirós e neste mesmo ano ganhei o meu primeiro campeonato nacional”. Durante o tempo em que permaneceu no Petro de Luanda, conheceu vários treinadores, entre eles Goiko Zeck, Carlos Silva, Jesus e António Clemente. O seu primeiro jogo no Girabola pelos “tricolores” da capital foi num dérbi contra o 1º de Maio de Benguela de Nando,  Sarmento, Fusso, Santana, Júnior, Nelson, Zé Águas, Fidel e outras grandes personagens que davam cartas no futebol nacional. Para Felito “não foi fácil impor-se no Petro porque havia jogadores muito valiosos na sua posição, como o Carlos Pedro, Paulão e Avelino. O facto de o Petro ter gasto dinheiro para contratar-me mesmo com aqueles jogadores no plantel infundiu em mim muita confiança e com a ajuda de todos consegui impor-me e cheguei a ser o líder e capitão da equipa por muitos anos”, acrescentou.

MOMENTOS
Os dérbis entre o Petro de Luanda e o D´Agosto foram os melhores

Felito recordou ainda que no Petro de Luanda disputou mais de 14 dérbis contra o 1º de Agosto, tendo mais vitórias do que derrotas e alguns empates.“Além do 1º de Agosto havia outros dérbis difíceis como, por exemplo, contra o ASA, com Vesco no comando técnico, o Inter de Luanda, Independente do Tômbwa, Ferroviário da Huíla, com Mavó e Ndisso no comando e Académica do Lobito”, frisou. Com o Petro de Luanda, Felito fez vários jogos internacionais na Taça de África dos Clubes Campeões e Taça CAF e por isso muitos jogos marcaram a sua brilhante carreira. Um desses desafios foi contra o Hearth Oark do Gana. O Petro precisava de vencer no mínimo por dois a zero, pois tinha perdido em casa do adversário por 4-2. No jogo da “segunda mão” em pleno estádio da Cidadela, o Petro marcou muito cedo o primeiro golo, resultado com que terminou a primeira parte. “Na segunda parte, a nossa equipa entrou com a máxima força e marcámos o segundo golo antes dos 20 minutos. Mas o adversário era muito forte e conseguiu marcar um golo que impedia a nossa passagem à outra fase. Daí em diante tivemos de fazer o tudo ou nada para marcar o terceiro golo, conseguido já no tempo de compensação por Mona. Houve uma explosão de alegria no estádio e creio que em todo o pais. O Man Queiras não aguentou de tanta emoção e desmaiou. Este foi um dos momentos mais importantes da minha carreira que jamais esqueço”, disse.

POR DENTRO
Nome completo:
Félix João Pascoal
Filiação: José Pascoal e Vitória Alves Monteiro
Naturalidade e data de nascimento: Luanda, aos 6.7.1967
Estado civil: Solteiro
Filhos: Cinco
Altura: 1,77m
Peso: 70 kg
Hobbies: Leitura
Música: Semba
Bebida: Vinho
O que mais teme na vida: A morte
Filme: Policial
Prato: Fungi de calulú
Recorre à mentira: Evito
a mentira maldosa
Clube do coração:
Todos por onde passei
Sonho: Ser treinador
dos Palancas Negras

Perguntas e respostas

Jornal dos Desportos - Qual é a sua opinião sobre o actual estado do futebol nacional?

Felito - Não é novidade para ninguém que o nosso futebol não está bem e isto acontece porque não houve investimentos nas áreas fundamentais. Agora resta a quem de direito inverter o quadro.

Neste momento o que é mais importante para o nosso futebol, a renovação ou as conquistas?
 É ponto assente que é a renovação. Todos estão de acordo com isto. Não consigo perceber quando se exige resultados ao mesmo tempo. Em fase de renovação não se pode exigir resultados à equipa.

Hoje paga-se melhor, há melhores condições sociais… Mas a qualidade dos jogadores deixa muito a desejar. Quer comentar?
É verdade. É um fenómeno que tem explicação. Conforme já disse não se apostou no futebol jovem. Isto implica apostar não só nos jogadores como também nos formadores. No passado tínhamos grandes formadores que conheciam bem o abc do futebol.

O que espera dos Palancas Negras no CAN de 2013?
O melhor possível. Mas sou de opinião que o treinador devia dar mais oportunidade aos jovens, chamando poucos veteranos. Talvez só devesse chamar o Manucho, Djalma, Geraldo e o Galiano.