Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Restaurar a unidade em África

Álvaro Alexandre - 17 de Setembro, 2014

Aguinaldo Jaime foi eleito vice-presidente da Federação Internacional de Xadrez em Agosto último na cidade norueguesa de Tromso

Fotografia: Domingos Cadencia

Jornal dos Desporto- Durante o Congresso da Federação Internacional de Xadrez (FIDE) realizado em Tromso, Noruega, o presidente da Federação Angolana de Xadrez (FAX) foi eleito vice-presidente do órgão reitor do xadrez no mundo. O que representa esta eleição para Aguinaldo Jaime e para o xadrez angolano?
A.J -Fiquei satisfeito por ter sido eleito vice-presidente da Federação Internacional de Xadrez. Suponho que a minha eleição é o reconhecimento do contributo que dou ao desenvolvimento do xadrez em Angola, auxiliado pelos restantes membros da direcção da FAX, jogadores, clubes, Associações e dirigentes desportivos, sem esquecer o papel do Ministério da Juventude e Desportos, dos patrocinadores e dos amigos do xadrez. Acredito que a minha eleição é também, o reconhecimento do modesto contributo que tenho dado à reconstrução nacional, nos diferentes cargos públicos para os quais tive a honra de ser nomeado pelo Presidente da República. Foram estas de resto, as razões apresentadas pelo presidente da FIDE, Kirsan  Ilyumzhinov, para justificar o convite à minha pessoa, na carta que me enviou. Com a minha eleição, o xadrez angolano vai ter um representante no Colégio Presidencial da FIDE, o que vai facilitar a busca de soluções para os problemas e desafios com que o xadrez se confronta no nosso país.

Para muitos experts, o convite de Kirsan Ilyumzhinov foi surpreendente, uma vez que o presidente da FAX, Aguinaldo Jaime, integrou a lista concorrente liderada por Anatoly Karpov nas eleições passadas...
Não se pode falar, propriamente, em surpresa. Repare que, nestas eleições, o então secretário-geral da FIDE, escolhido por Kirsan Ilyumzhinov, Ignatius Leong presidente da Federação de Xadrez de Singapura, apareceu a integrar a lista de Garry Kasparov. Neste caso, sim. Talvez se possa falar em surpresa, pois trata-se  de um colaborador directo e de longa data do presidente da FIDE, que apareceu, sem renunciar o seu cargo, a apoiar a lista concorrente. No meu caso, é verdade, fui convidado pelo ex-campeão mundial, Anatoly Karpov, a ser seu vice-presidente nas eleições passadas. Nas presentes eleições, Karpov não concorreu e decidiu apoiar a lista de que fiz parte. E deixe-me acrescentar que a minha posição, quer nas eleições deste ano, como nas realizadas há quatro anos, só foi tomada após consulta aos restantes membros da direcção da FAX e tendo em mente a defesa dos interesses do xadrez angolano.

Ainda no tocante às eleições presidenciais da FIDE, falou-se muito de uma alegada tentativa de politização destas eleições. É da mesma opinião?

É público que Garry Kasparov tem  sua agenda política e está no seu direito de tê-la. Também é pública a posição que Garry Kasparov tem sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, que não vou comentar. O que já não me parece correcto é tentar utilizar o xadrez para fins que lhe são totalmente estranhos. Como sabe, o lema do xadrez é “Gens una sumus” que, em português, significa “Somos uma família”.  Se é verdade que se pode comparar o jogo de xadrez a uma batalha, em que se confrontam duas equipas, cada uma delas com a sua táctica e a sua estratégia, não é menos verdade que nesta batalha não há derramamento de sangue, nem perda de vidas, o que transforme o xadrez num jogo nobre, de rara beleza e sentido estético. Por isso, julgo que são infelizes as tentativas de reeditar, no mundo do xadrez, a confrontação Leste-Oeste, típica da guerra fria e reavivada pela crise que se vive na Ucrânia.

Quais serão, exactamente, as suas responsabilidades no Conselho Presidencial da FIDE?
Como angolano e africano é óbvio que o presidente da FIDE conta comigo, para promover o desenvolvimento do xadrez em todo o continente africano, a partir do conhecimento que tenho do xadrez em Angola e do diálogo que por ocasião da realização dos torneios internacionais, mantenho com jogadores africanos de xadrez. Mas porque o Colégio Presidencial debate os problemas do xadrez em todo o mundo, as minhas responsabilidades vão para além de África.

Face às responsabilidades que assume no país, como vai conciliar com as de vice-presidente da FIDE?
Para além do presidente, secretário-geral e dos vice-presidentes, a FIDE ainda tem os chamados presidentes continentais, há um para cada continente, incluindo a África, que estatutariamente estão subordinados aos vice-presidentes. E a FIDE tem ainda um conjunto de comissões constituídas, uma delas para o desenvolvimento do xadrez nas escolas. Se cada um fizer o seu trabalho, não vai haver sobrecarga para ninguém. As modernas tecnologias de informação e comunicação permitem por exemplo, que eu tenha reuniões de trabalho com pessoas fora de Angola, sem que me ausente de Angola ou essas pessoas tenham de se deslocar a Angola.

Já tem algum plano de trabalho para os próximos três meses? Quais as suas prioridades, como vice-presidente da FIDE?
A primeira prioridade vai ser restaurar a unidade no seio da família africana do xadrez, que ficou de algum modo abalada, em consequência das conturbadas eleições presidenciais. E há que trabalhar com todas as federações, mesmo com aquelas que votaram na lista adversária, como é o caso das federações da África do Sul, Nigéria, Senegal, Gana e Costa do Marfim, para que a África possa falar numa só voz. Por outro lado, o presidente da FIDE incumbiu-me de pensar na criação de uma Fundação Africana de Xadrez para a promoção e o desenvolvimento do xadrez em África, que constituiu uma das promessas da sua campanha eleitoral. Gostava como angolano  que essa fundação ficasse sediada em Angola. Vou procurar igualmente, que Angola possa colher um maior benefício dos programas e facilidades de todo o tipo que a FIDE oferece aos países africanos para o desenvolvimento do xadrez. Enfim, vou estimular a expansão do xadrez em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.

Há alguma hipótese de a sede da Fundação Africana de Xadrez ficar em Angola? Ou há outros países interessados e mais bem posicionados?
A decisão vai ser  baseada em critérios objectivos, que estou a preparar. Os factores fortes de uma candidatura de Angola eram o quadro de estabilidade política e económica que o nosso país oferece e o desenvolvimento que a modalidade do xadrez conhece entre nós. Graças ao xadrez, a marca “CUCA”, que dá o nome a um torneio de xadrez, é hoje muito conhecida além-fronteiras. E o facto de eu, vice-presidente, residir em Angola e estar incumbido de acompanhar as actividades da Fundação, pode ser outro factor a fazer pender a balança a nosso favor. Como factores menos positivos, temos o facto de a nossa moeda, o Kwanza, embora seja estável, não ser convertível, o elevado custo de vida e da intermediação financeira, assim  como a percepção existente em alguns círculos que temos de combater, de haver alguma dificuldade no acesso à moeda externa para a realização de operações com o exterior. Apesar disso, vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que a Fundação fique sediada em Angola.

DE ÁFRICA"  
“Angola não é dos piores países”


O vice-presidente da FIDE explicou que o desenvolvimento do xadrez no país está condicionado à superação da escassez de material desportivo, infra-estruturas, número insuficiente de treinadores e de formadores para a prática massificada, falta de financiamento para as competições nacionais e internacionais. Mesmo perante o quadro negro, o dirigente confessa que não é dos piores do continente. Justifica a existência de nações africanas que não puderam estar presentes em Tromso, na Noruega, por não terem receitas para suportar as despesas.

Jornal dos Desportos - Quais para si, os principais desafios que o xadrez enfrenta em África?

A.J-Os desafios do xadrez nos países africanos ao sul do Sahara, com excepção de uns poucos, como a África do Sul, Botswana e Nigéria, são parecidos: escassez de material desportivo (tabuleiros, peças e relógios) e de infra-estruturas para a prática do xadrez, número insuficiente de treinadores e de formadores para a prática massificada do xadrez, falta de financiamento para as competições nacionais e sobretudo  internacionais e o número reduzido de jogadores  principalmente com o estatuto de Grande Mestre. Angola, devo confessar-lhe, não é dos países em pior situação.
Houve por exemplo países africanos que não puderam estar presentes em Tromso, na Noruega, por não terem receitas para suportar os bilhetes de passagens e ajudas de custo, de jogadores, treinadores e dirigentes. Daí que, tivessem recorrido ao mecanismos das procurações, que tanta controvérsia suscitou. Já a África do Magreb está em melhor situação económica e social e por isso mesmo, as condições para a prática do xadrez nesses países são mais favoráveis. E sem surpresa é a África magrebina que tem o maior número de Grandes Mestres em xadrez e está mais bem colocada no ranking africano e mundial, com o Egipto a ocupar o primeiro lugar no ranking africano e salvo erro, o 23º lugar  no ranking mundial.

Para quando o primeiro Grande Mestre de xadrez angolano?
Tínhamos esperança de que o Mestre Internacional Adérito Pedro pudesse ser o primeiro a conseguir tal feito. Infelizmente, por razões várias, que estão fora do âmbito do xadrez, tal ainda não foi possível. Mas a FAX vai na medida das suas possibilidades, ajudar Adérito Pedro a superar os seus problemas pessoais para que possa exprimir no tabuleiro, toda a força do seu jogo e tornar-se Grande Mestre. Temos igualmente grande fé em alguns jovens jogadores e jogadoras. Recordo-lhe a  respeito, que Esperança Caxita é a campeã africana júnior, em título; Cristiano Aguiar é o actual campeão africano sub-14 e Erikson Soares já foi campeão e vice-campeão africano júnior. De notar ainda que Luciano Oliveira conquistou recentemente a medalha de bronze no Zonal da nossa sub-região e que Maria Domingos é, após as Olimpíadas de Xadrez de Tromso, candidata a Mestre FIDE. Todos eles e outros que não referi, podem vir a ser num futuro não muito distante, Grandes Mestres de Xadrez.

Terão sido os resultados, obtidos por jogadores das camadas jovens, que o levaram a lutar pela candidatura de Angola para organizar o próximo africano de xadrez na categoria de juniores?
Exactamente. Também nos move o propósito de mostrar que o desenvolvimento do xadrez em Angola não se confina à capital ou ao litoral, antes é uma preocupação nacional, para os poderes públicos e para a FAX. Por isso, vamos realizar o africano de xadrez na categoria de juniores em Saurimo, na Lunda Sul, na expectativa de mantermos o título feminino e reconquistar o masculino. Para tal, contamos com o apoio pessoal e institucional da Governadora Cândida Narciso e do Ministério da Juventude e Desportos. Vamos tentar sensibilizar patrocinadores a apoiar este evento continental. Também esperamos, com o campeonato africano júnior, incentivar ainda mais os nossos jovens para a prática do xadrez, de Cabinda ao Cunene, pois daí decorrem benefícios para o rendimento escolar, como sabemos.

DIRECÇÃO DA FAX
Recandidatura
está excluída


Vai continuar à frente da FAX, após o fim do seu mandato?
Não. Não vou continuar como presidente da FAX, não apenas porque já vou no meu terceiro mandato e tal não é possível à luz da nova legislação e regulamentação das Associações desportivas, mas também porque o exercício do dirigismo desportivo nessas condições é extenuante, mesmo quando o nosso amor pela modalidade seja grande. É  tempo de fazer uma pausa e permitir que outros, que gostem do xadrez assumam os destinos. Continuarei ligado não à FAX, mas apenas à modalidade, como vice-presidente da FIDE e vou procurar mobilizar todo o apoio possível para o desenvolvimento do xadrez, não apenas no país, mas igualmente noutros países da África subsaariana. Por isso, daqui a dois anos, vai ser necessário encontrar alguém para continuar o trabalho em curso, alguém identificado com os problemas do xadrez, que goste do xadrez, que seja capaz de gerar consensos internos, projectar uma imagem positiva do país e da modalidade nos fóruns internacionais e que esteja disposto a consentir sacrifícios pessoais em prol do fomento e da massificação do xadrez.

Vai tentar influenciar a escolha do próximo presidente?
Não, não vou. A escolha deve ser da família do xadrez, da qual também faço parte. Como membro, vou  limitar-me a dar a minha opinião, em função do perfil dos candidatos que na altura surgirem.

Durante os três mandatos, a FAX teve três secretários gerais e um vice-presidente demissionário. Isso reflecte alguma instabilidade?

Acho que não. Devo dizer-lhe, que mantenho com todos eles uma boa relação pessoal. Quando somos parte integrante de uma organização, tenha ela carácter político, desportivo, cultural, religioso, ou outro, é normal que surjam divergências de opinião, relativamente a uma ou outra questão. O que caracteriza as organizações não é a ausência ou não de divergências de opinião, pois estas vão existir sempre, o que até é um sinal de vitalidade democrática das organizações. O que as distingue é o modo como as divergências são resolvidas. E a FAX procurou sempre  resolver os seus diferendos de modo urbano, não deixar passar algumas notícias que, a este respeito, vieram a público de pura especulação jornalística. Francisco Briffel preferiu afastar-se na sequência de uma reunião de direcção que não foi presidida por mim, pois eu encontrava-me ausente. Fui informado depois das suas razões, quer merecesse ou não a nossa concordância, têm de ser respeitadas. Mas repito, mantemos até hoje, um bom relacionamento pessoal. Todos eles foram, como eu próprio, jogadores de xadrez e integram a grande família do xadrez e têm um papel importante na definição dos rumos do xadrez.

GRANDE APOSTA
Melhoria no ranking africano


Aguinaldo Jaime não vai poupar esforço para deixar o país na quinta posição do ranking africano no final do seu mandato. Actualmente, Angola ocupa o sétimo lugar, na classe masculina e oitavo na feminina. O ranking é dominado pelo Egipto, em ambos sexos.

O que explica os melhores resultados nas camadas jovens?
Os jovens são na sua maioria estudantes e a sua principal preocupação é conciliar as responsabilidades estudantis com as desportivas, pois muitas vezes há sobreposição entre os calendários  escolares e os desportivos. Os adultos são chefes de família e por isso, com outro tipo de responsabilidades,  os seus problemas pessoais interferem com o equilíbrio psíquico e somático, que é indispensável para a prática do xadrez. Apesar de todos os constrangimentos, gostava quando terminasse o meu mandato como presidente da FAX, de deixar Angola na quinta posição no ranking africano, onde ocupamos actualmente em masculinos a sétima posição, atrás de países como o Egipto, a Tunísia, África do Sul, Botswana, Zâmbia e Uganda, que ocupam por esta ordem, as primeiras sete posições, no ranking africano. Em feminino, estamos na oitava posição no ranking africano, atrás do Egipto, Argélia, África do Sul, Zâmbia, Botswana, Nigéria e Tunísia. A nível mundial, em masculino, ocupamos a posição 103, em 150 países.

Ainda sobre os problemas do xadrez angolano. Para além dos que já referiu, gostava de acrescentar algo não abordado nessa entrevista?
Se tivesse de escolher o principal problema que afecta o desenvolvimento do xadrez, como aliás de outras modalidades desportivas, podia dizer que é o financiamento. De facto, tem sido muito difícil assegurar o financiamento das competições internas e da nossa participação nas competições internacionais, praticamente sem falhas. Como sabemos, assegurar a regularidade do calendário desportivo é essencial para garantir a constante elevação do nível competitivo dos nossos atletas. Se juntarmos a isso, o recrutamento de técnicos estrangeiros para acompanhamento dos integrantes das nossas selecções, o pagamento de prémios a jogadores nacionais e estrangeiros, a formação de árbitros, o pagamento de salários, pode-se concluir que é com muito sacrifício que conseguimos manter toda esta máquina em funcionamento. O Ministério da Juventude e Desportos faz o que pode, com a exiguidade de recursos destinados ao desporto, face a outras prioridades nacionais em matéria de desenvolvimento. E encontrar patrocinadores para o xadrez não é fácil, pois ao contrário de outras modalidades desportivas, não é uma modalidade que arrasta multidões, torna  menos atractivo a publicitação de produtos e serviços nessas condições. Por isso, os membros da direcção e sobretudo o seu presidente, têm sido chamados a fazer sacrifícios pessoais que nem sempre são devidamente valorizados por alguns, muito lestos a criticar, mas sem trazer soluções para os problemas estruturais com que a modalidade se confronta.