Jornal dos Desportos

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Entrevistas

\"Sagrada pode lutar por títulos\"

Armando Sapalo - Dundo - 24 de Julho, 2017

Turco-alemão diz que diamantíferos devem lutar por títulos e descarta lutar para ficar na primeira divisão

Fotografia: José Soares | Edições Novembro

A época de estreia do treinador Ekrem Asma, na equipa do Sagrada Esperança, já é considerada de sucesso. A excelente campanha protagonizada na primeira volta do Girabola Zap fez conquistar a simpatia dos exigentes adeptos da equipa. Com boa passagem pela Académica do Lobito, o técnico ambiciona, num futuro breve, ser campeão com as cores dos diamantíferos. O turco -alemão, especialista em futebol de formação, para além de  falar  das suas ambições no clube, apresentou igualmente sugestões sobre o que a equipa da Lunda Norte precisa para se afirmar. 


O Sagrada Esperança é muito elogiado por ser uma  das poucas equipas do interior do País, que oferece boas condições de trabalho e resistir às crises, mas por outro, é acusado por ter relações conturbadas  com os treinadores .  O que o motivou a aceitar o desafio de assumir o comando técnico de uma equipa com essa dualidade? Uma positiva e outra negativa?
 Não sei nada sobre a direcção do Sagrada Esperança ter relações difíceis com os seus treinadores. Apenas sei, que o Sagrada Esperança é uma grande equipa que em minha opinião, ela e o seu patrocinador ( Endiama) têm tudo  para lutar por títulos de campeão do Girabola, e não  lutar para ficar apenas na Primeira Divisão.  Conheço também um Sagrada Esperança com uma boa direcção, composta por pessoas sérias, comprometidas com a equipa e à sua estabilidade. Sabe que não é fácil ter uma equipa no Girabola onde em cada época há muitos que choram por falta de condições, para assumirem as despesas do campeonato. Não falo de dinheiro, pois não determina tudo. Claro que o dinheiro é importante para a vida. Falo da organização, do compromisso, e vontade de fazer bem as coisas.

Sente que existe essa vontade das pessoas fazerem  bem as coisas para o bem do clube ?
Gostaria primeiro, dizer que como em qualquer parte do mundo, onde há homens existem posições diferentes, e certamente, o nosso caso não é excepção. Existe algumas coisas que precisam ser melhoradas, isso é completamente normal. Por isso, estou feliz no Sagrada Esperança, gosto da cidade do Dundo, das pessoas e a direcção da equipa tem imenso respeito por mim , dos meus colaboradores e dos jogadores, por esse motivo constituímos uma das melhores famílias do Girabola.

O que quer dizer com isso?

Quero dizer que aceitei o desafio de treinar o Sagrada Esperança, porque além ser  a minha profissão, sabia também que vinha para uma  grande equipa. Tenho boas relações com os dirigentes do clube,  sobretudo, com o presidente- executivo Osvaldo Van -Duném, que é um grande dirigente desportivo, o vice-presidente e outros  membros da direcção.

Disse que existem aspectos que precisam de ser melhorados. Quais exactamente?
 Nós no Sagrada Esperança sabemos o que precisamos de melhorar, e vejo muita vontade, determinação e abertura nas pessoas em colaborar. O treinador sabe o que deve melhorar, os jogadores, a direcção e outras pessoas dominam o nosso potencial e as nossas fraquezas. Então, cada um sabe do seu desafio, e responsabilidade. Acredito que estamos no bom caminho.

Quer com isso dizer que o Sagrada Esperança tem tudo para lutar por títulos, e não limitar-se apenas por ficar na Primeira Divisão? 

Só posso dizer-lhe que precisamos de sentar à mesma mesa , pensar no futuro da equipa com um projecto mais ambicioso.  Pensar na estrutura da equipa, desde os escalões de formação, até à equipa principal.

Será que o facto de avançar com a ideia de estruturar melhor o futebol do clube retira a ambição Sagrada Esperança de voltar aos anos de glórias no Girabola?
Não. O Sagrada Esperança é um grande clube. Oferece condições invejáveis aos jogadores, treinadores e todas as pessoas que trabalham para equipa. Quando cheguei, assumi o compromisso de estabilizar a equipa, e acredito que estamos a caminhar bem.  Nesta época de 2017, assumi  organizar o esqueleto base do plantel, na ordem dos 70 por cento. Este foi o plano saído da minha cabeça, e a minha direcção deu-me esta oportunidade. Se a gente conseguir estabilidade neste ano (2017), em 2018 vamos procurar atacar o campeonato. É este o meu desejo. Tenho fé de que somos capazes.  Sei que a direcção da equipa pensa  num dia voltar a ganhar o Girabola, como aconteceu em 2005, e eu vou convencer com o meu trabalho para avançarmos para este desafio.


“Temos futuro”
O Sagrada Esperança tem jovens com capacidade para assegurar o futuro da equipa, dada ambição que tem, e conforme é a sua preferência?
Até certo ponto sim. Eu mesmo fui buscar jogadores jovens, e com futuro em aberto.  Temos por exemplo o Adó Pena, 21 anos de idade, que está a justificar, porque o Sagrada Esperança foi contratá-lo ao Académica do Lobito, para reforçar a equipa na segunda volta do campeonato. Temos agora quatro jovens da equipa de juniores do Sagrada Esperança, que trabalham com a equipa principal, dois dos quais já têm contrato para a próxima época: o Gaspar e o Miranda. Até à próxima época, o Gaspar que é um excelente defesa central , vai ser  bastante útil para o Sagrada Esperança, porque tem um potencial que vai surpreender Angola. Temos o Lulas que só não é titular porque a nossa defesa no Girabola está muito boa. Já conversei com ele, e foi muito educado comigo ao entender, que por ser jovem ainda vai ter muitas oportunidades.

Mas isso só, não basta...
Claro. Os miúdos que temos, se forem bons trabalhadores, dedicados, e humildes, no próximo ano vão jogar muito futebol, e dar muito trabalho aos mais velhos.  Estamos a formatar grandes motores no Sagrada Esperança. Eu olho para os quatro miúdos que fomos buscar aos nossos escalões de formação, com um futuro promissor e muita confiança neles. Tudo vai depender deles, e das oportunidades que lhes forem dadas.
Eu acredito, que temos futuro no Sagrada Esperança. Se haver compromisso e ambição, vamos chegar longe. Eu acredito. Quando o treinador acredita todos podem acreditar.

Acompanha as iniciativas do Sagrada Esperança em relação à formação ?
Sim acompanho, não só no Sagrada Esperança, como em toda a cidade do Dundo, tal como fazia no Lobito. Esta cidade (Dundo) e muitas outras em Angola têm miúdos que se apostar neles, Angola já era uma potência em África. Eles só precisam de campos e oportunidades para jogar. Gosto do que o Sagrada Esperança está a fazer, em termos de aposta, no futebol de formação. O futebol angolano só precisa de aliar a prática à teoria. O imediatismo faz mal ao futebol. O futebol precisa de planos, projectos, muita seriedade. Isso, requer muito trabalho.Não basta entusiasmo e motivação. É necessário também  muita inteligência e conhecimento sobre as bases que orientam o futebol de formação.


ESTA ÉPOCA
“Primeiro desafio é garantir a estabilidade da equipa”

O técnico diz que o Sagrada Esperança é uma equipa do topo,  que deve lutar por títulos. Será que a direcção do clube está aberta para este desafio, já na próxima época?

Acredito que o nosso desempenho nesta época (2017) vai ditar o que podemos fazer na próxima. O primeiro desafio foi garantir a estabilidade da equipa, na tabela de classificação deste ano. Estamos a ir bem. Basta ver que desde Fevereiro que começou a temporada, nunca ficamos depois do quinto lugar. É só o primeiro ou no mínimo o quinto lugar na tabela de classificação. Chegámos em alguns períodos a superar em termos de classificação a determinadas equipas grandes do campeonato. Então, estamos a caminhar bem, rumo à conquista do nosso principal objectivo desta época, que é ficar entre os cinco primeiros.

 Se bem entendemos, o Sagrada Esperança vai lutar para ser campeão na próxima época...
 Eu sou turco de origem, mas vivo na Alemanha há 47 anos.  Na Alemanha, onde tive toda a minha vida profissional  desde jogador de futebol até a de treinador, aprendi que  não se conquista o campeonato com surpresas. Podem existir surpresas, porque é a dialéctica da vida. Mas raras vezes, isso acontece no futebol. Está aí, o exemplo do Leicester City, na Inglaterra, que surpreendeu ao ganhar  a Premir League, mas onde está hoje, que inclusive custou a vida do treinador?  Para ganhar campeonato é necessário sentar-se à mesa e pensar no projecto, e no sistema. É preciso perder muito sono e pensar  com inteligência.

O facto de ter apenas um ano de contrato não o preocupa? Acredita na renovação?
É verdade. Tenho contrato de um ano com o Sagrada Esperança, que termina no final desta época. Não sei se vou merecer a confiança da direcção para continuar. Estou a fazer o meu trabalho, para justificar tal confiança. Já disse que o meu primeiro desafio é organizar a estrutura do meu gabinete, da minha equipa técnica, e jogadores. Espero que a direcção conte comigo. Só o trabalho justifica se os dirigentes apostam novamente em mim.


Treinador aposta em atletas jovens

O facto de ter apenas um ano de contrato não significa que houve da parte da direcção do Sagrada Esperança dúvidas em relação à sua capacidade?
Não. Claramente que não! É estratégia da direcção, em função daquilo que julgam ser melhor, para se alcançar os objectivos traçados. A direcção do Sagrada Esperança deu-me uma excelente oportunidade de trabalho, um bom contrato e paga-me muito bem o salário. Não exijo muito, o dinheiro que me pagam no Sagrada Esperança chega. Não preciso de mais. Por isso, eu disse que a minha continuidade vai depender dos resultados do trabalho que vou fazer esta época. Se conseguir, talvez tenha sorte de continuar. Se continuar, quero atacar o campeonato.

Se continuar à frente da equipa técnica, do Sagrada Esperança, tem a certeza que a   a direcção vai criar as condições para atacar o campeonato?

É possível. O Sagrada Esperança é um grande clube. Tem homens fortes e inteligentes na sua direcção. O primeiro desafio é investir no plantel. Isso, a direcção já me deu, a 70 por cento.

No caso da direcção dar um voto de confiança para continuar na equipa técnica, com o objectivo de lutar pelo título, vai atacar o Girabola Zap com os jogadores que tem?
Já tenho 70 por cento de jogadores de outros "planetas" , que têm  qualidade para me  oferecer mais de metade do que preciso.  Só precisava de mais quatro jogadores, um para cada posição.  Tenho a licença “AA” de especialização em trabalho com os escalões de formação. Depois de terminar a carreira de jogador, trabalhei durante 18 anos  como treinador,  e coordenador  de futebol jovem na Alemanha, em todos os escalões de formação. Trabalhei com iniciados, juvenis e juniores. Depois trabalhei como adjunto na principal Liga. Primeiro, é aprender para depois passar a treinador principal.  Por isso, prefiro trabalhar com jogadores para o futuro. Isso, significa ter no plantel jogadores jovens. Não gosto de trabalhar com jogadores a cima dos 32 anos. Só se acrescentar um valor e saber transmitir experiência aos mais jovens.


Ekrem Asma elogia postura da equipa

A prestação do Sagrada Esperança da Lunda Norte até agora no Girabola Zap, disputadas que estão 20 jornadas, é considerada positiva pelo treinador Ekrem Asma. O turco -alemão diz estar satisfeito, por em alguns períodos da competição ter superado fortes candidatos ao título, na tabela de classificação.

 Um assunto não menos importante, que Ekrem Asma fez questão de sublinhar na entrevista em que fez duras críticas, é o da postura de alguns comentadores e treinadores nacionais, que segundo ele, têm tendências de fomentar  a “ xenofobia”  no futebol angolano.

O treinador do Sagrada disse que as equipas do 1º de Agosto e do Petro de Luanda são os potenciais candidatos à conquista do Girabola Zap 2017.  

Como avalia a prestação da equipa do Sagrada até agora?
Positiva. Conforme disse, desde o inicio do campeonato,  nunca ficámos atrás do quinto classificado. Isso, é sinal que estamos bem.  A minha equipa vai agora manter o equilíbrio conseguido na primeira volta , porque pretendemos melhorar a nossa forma desportiva. 

Qual a oposta do Sagrada Esperança para as restantes jornadas do campeonato?
A nossa aposta é a de continuar a melhorar na classificação. Sei que se continuarmos com a mesma determinação e espírito de trabalho, vamos superar o que traçamos, porque temos aqui condições que a nossa direcção criou, que pode levar-nos a patamares diferentes. Temos também os melhores adeptos deste país. Vou a Luanda e a outras províncias, mas os Estádios nunca estão cheios. No Dundo é diferente, os adeptos do Sagrada Esperança enchem o Estádio e ajudam a sua equipa a  representar bem a província.  O futebol sem adeptos não tem sabor. Os adeptos são muito importantes no futebol.

Como vê a disputa do presente Girabola Zap?
Não tão competitivo. As equipas estão muito fechadas, e os resultados são muito apertados, com poucos golos. Este, é um campeonato que para mim, pode ser disputado por duas equipas. O 1º de Agosto e o Petro de Luanda são os favoritos a levar o Girabola. Têm boas equipas e bons treinadores. Nas suas posições, ainda pode haver muita luta, onde o Sagrada Esperança procurar com todo o atrevimento entrar.


“Bianchi tem todo o meu apoio”

Está em Angola faz tempo  certamente acompanha a Selecção Nacional  de honras, principalmente, desde que passou a ter um novo seleccionador, o hispano -brasileiro Beto Bianchi. Como vê o futuro dos Palancas Negras?
Eu dei a minha nota positiva quando apostaram no Beto Bianchi, para treinar a Selecção Nacional, porque é um bom treinador, está a fazer um excelente trabalho no Petro de Luanda. Ele precisa de tempo para fazer uma  boa selecção. O Beto Bianchi tem uma estratégia e filosofia de trabalho, que eu aprecio. Ele tem todo o meu apoio.

Acredita que Beto Bianchi faça um grande trabalho à frente dos Palancas Negras?

O grande problema do futebol angolano é o imediatismo. Assim, é difícil um dia Angola ganhar o CAN. Vocês (jornalistas nacionais) pressionam muito os treinadores da selecção. Apelo à Federação Angolana de Futebol a ter um projecto com o mesmo treinador. O que fala no futebol são projectos e não nomes. Oiço muito  falarem dos nomes dos jogadores que devem fazer parte da selecção. Isso não é correcto. Aliás,  acompanhei também alguns comentadores e um treinador a dizer que em Angola há muitos treinadores estrangeiros.

Como homem do futebol, qual foi a  reacção ao ouvir isso, de um colega de profissão?

Fiquei muito triste, logicamente, ao ouvir essas palavras, vindas de um colega, de um treinador de futebol. Assim, eu diria também que os grandes jogadores africanos que estão a brilhar na Europa não deviam estar lá. Essa palavras não fortalecem o futebol. O futebol e o desporto em geral não são políticos. Não há xenofobia nem separação. Futebol é um forte mecanismo de unidade, entre pessoas de diferentes origens; futebol  é factor de união, de  amizade , fraternidade , solidariedade e amor. O futebol já formou muitas famílias. 

A luta deve ser a união e não há separação no futebol...?
Com certeza. Desde o momento que vesti a camisola do Sagrada Esperança, eu passei a ser desta equipa. O estrangeiro vem para ajudar o futebol angolano. Tanto o treinador angolano, como o estrangeiro , têm todos o mesmo objectivo, que é  ver o futebol deste grande país a conseguir conquistas.