Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Santana pede reflexão sobre futebol

Sack Santos - 08 de Janeiro, 2014

O técnico da equipa juvenil de futebol do ASA

Fotografia: José Cola

A formação na modalidade de  futebol dirigida por escolas específicas em Angola está “atrasada no tempo e no espaço”, por isso, deve ser objecto de reflexão ‘mesa redonda’ para que seja discutida em profundidade. A afirmação é do técnico da equipa de juvenis do Atlético Sport Aviação (ASA), Santana António José, em entrevista ao Jornal dos Desportos.

Para o jovem técnico da formação aviadora, os homens do futebol deviam aproveitar a pausa obrigatória para discutir o momento do desporto-rei quer a nível provincial como nacional.

“Estamos atrasados no tempo e no espaço. Devia-se aproveitar o defeso, para discutir  o nosso futebol, tanto a nível provincial, como a nível nacional”, disse.
O técnico Santana José defende uma maior divulgação do futebol jovem em Angola, porque “motiva o atleta, ao aperceber-se que a sua execução está a ser analisada, julgada, comentada e passada para o ouvinte, o telespectador ou o leitor”, lamenta o trabalho desenvolvido por alguns árbitros mesmo nas competições de formação, quer nos campeonatos provinciais, como nos ‘nacionais’. 

“A arbitragem nos escalões de formação não vai bem. Até a esse nível vive num clima de suspeição, não digo de acusações, mas de suspeição. Alguns têm mais defeitos do que qualidades. A esse nível por tratar-se de formação deviam ser nomeados os melhores árbitros, para corrigir, com métodos pedagógicos, em detrimento dos estagiários”, sublinhou.

Um outro aspecto realçado por Santana José e que na sua óptica contribui para que não haja formação «saudável» no país, tem a ver com a falta de união e de solidariedade  na classe de treinadores nacionais.

“A classe de treinadores está desunida. A classe devia estar representada a nível provincial, através de associações até nacional, bem como de um Sindicato para defesa dos membros”, sublinhou.

Santana José referiu que o trabalho desenvolvido pelos técnicos dos escalões de formação é pouco reconhecido e valorizado mesmo pelos dirigentes desportivos.
“Somos mais reconhecidos por pessoas de fora. Acredito que, os dirigentes desportivos, reconhecem e valorizam pouco, o nosso trabalho”, criticou.
Dedicado à formação, Santana José, questionado sobre o biótipo do jogador de futebol, disse que “o jogador não precisa de ser alto, baixo, magro, forte ou viril.
O bom jogador é aquele que pensa antes da execução, e, que antecipa várias acções em campo”, sustentou.

CONSTATAÇÃO
“Temos poucos técnicos formados”


O número reduzido de técnicos formados na área do treino e de gestão de futebol,  a falta de campos relvados,  equipamento  e de acompanhamento por parte dos dirigentes dos clubes são apontados pelo treinador Santana José, da equipa juvenil do ASA, como os principais aspectos que influenciam  a qualidade da formação dos futebolistas nacionais.

“ É bom que se diga temos poucos técnicos, formados na área do treino e de gestão de futebol. Esta é uma das lacunas e causas da estagnação do nosso futebol. Não trabalhamos bem com os garotos. Há falta de campos relvados, onde o atleta possa treinar de manhã, de tarde ou de noite. Faz-se pouco trabalho com a bola, logo, os fundamentos técnicos não são aperfeiçoados. Faltam equipamentos, para os treinos e para os jogos, bem como uma alimentação adequada.

Tudo isto reflecte-se também, na falta de acompanhamento dos dirigentes desportivos. Há uma ausência acentuada, de quem de direito. A esmagadora maioria dos nossos dirigentes são imediatistas. Preferem acompanhar os seniores, contratar jogadores já feitos. Se desse investimento não tiver dividendos, foi desperdiçado, foi mal gasto.

Em detrimento do dinheiro gasto no escalão de formação, onde não há perdas, só há benefícios”, referiu o técnico dos juvenis do ASA que acrescentou: “O jogador deve ser formado desde a infância. Ele cresce e forma-se como homem e jogador.

É fundamental não formar só o jogador, mas sim, formar um homem, porque, jogador de futebol encontramos muitos. Portanto, formar homens enquanto atleta... é que são elas…. Por isso, o rentável é lançar a semente à terra, cuja recolha vai demorar alguns ciclos, sem saltar etapas. Porque, a matéria humana no nosso país, temos e muita. O que eles precisam é ser bem acompanhados, no clube, na rua, na escola e na família. Nós no clube fazemos a nossa parte. A nossa convivência, é de pai para filho”, sublinhou.

ESCALÃO JOVEM
Santana defende padrão
no trabalho dos técnicos


A inserção de antigos jogadores nas equipas técnicas de formação tem as suas vantagens e desvantagens. Por isso, o treinador Santana José, da equipa juvenil do Atlético Sport Aviação (ASA) aconselha os colegas e aspirantes a técnicos de futebol no referido escalão, a ter uma “ formação académica compatível” com o cargo que vão exercer, no domínio da metodologia de treino e na gestão do futebol.

“Em relação aos jogadores que treinam o escalão de formação, após o término da sua carreira futebolística, há vantagens e desvantagens. Primeiro, aconselho-os a ter uma formação académica compatível com o cargo que vão exercer, no domínio da metodologia de treino e na gestão do nosso futebol.

Deve saber o porquê de estar a fazer determinado exercício. O treino envolve componente: física, técnica e táctica, que têm que ser conciliados, a teoria e a prática. Sou de opinião, que devem ser chamados monitores, porque, em cada um de nós existe já um monitor, e esse lado liberta-se, quando estamos no terreno”, disse.

O técnico aviador recordou "O futebol de ontem, não é o futebol de hoje, há sempre alguma variação, ou evolução e, o técnico em qualquer escalão, em que se encontra, tem que estar ciente disso. Muitos jogadores, no término da sua carreira, enveredam para área técnica, julgam que sabem tudo. Aconselho-os a estudar, a formar-se, a licenciar-se, a doutorar-se. Alguém disse um dia, que, a curva do conhecimento, é muito curta, por isso as pessoas, estão sempre a aprender. Portanto, acho que devia haver uma escola, que iria padronizar todo o trabalho de formação dos técnicos”.

Santana defende que os clubes devem “ter uma política bem elaborada, baseada na organização, disciplina, planificação e estrutura. Outra componente muito importante também é a interacção entre dirigentes, técnicos, atletas e órgãos de apoio. Finalmente, saber formar atletas desde os iniciados, com técnicos bem formados e capacitados” sustentou.

ENTREVISTA  SANTANA JOSÉ
"Trabalhamos bem no ASA"


O técnico do escalão de juvenis do Atlético Sport Aviação (ASA), Santana José, considera que o processo de renovação na equipa do aeroporto está a ser "bem feito". O entrevistado do JD justificou a sua afirmação com o facto de a equipa de seniores poder "receber" este ano, cinco ex-juniores, todos com potencial para se impor na formação treinada por Ernesto Castanheira.

"Se três, quatro ou cinco jogadores dos juniores entrarem nos seniores, como por exemplo o guarda-redes Rui, o “play maker” Silva, o médio esquerdo Ady, o trinco Zé e avançado Fofo (irmão de Love Cabungula) melhor do que o irmão (risos), é sinal que a renovação está a ser bem feita, logo, o trabalho no escalão de formação está a ser bem feito", sublinhou.

Questionado se os juniores estão preparados para singrarem nos seniores, para a chamada renovação, o treinador dos juvenis do Atlético Sport Aviação (ASA) disse ser "muito relativo", pois as exigências no escalão principal são maiores, assim como o ritmo competitivo.

" As exigências nos seniores são maiores, os ritmos competitivos, a velocidade, a intensidade do jogo, são mais elevados. Tem de haver tempo para adaptação. Os mais novos devem aprender com os mais velhos, esperar por uma oportunidade e agarrá-la. É nos seniores que os atletas atingem a sua afirmação. É nos seniores que, o atleta põe em prática aquilo que aprendeu no escalão de formação.

Assim, mais facilmente, podemos avaliar o trabalho contínuo que é feito, finalizando assim, como dizia, nos seniores", sustentou.

O sucesso do ASA, de acordo com Santana José, tem muito a ver com o "bom trabalho" a nível da planificação do treino e da época desportiva.
"A planificação do treino e a programação da época desportiva são fundamentais para se atingir os objectivos de um clube. O ASA é um clube que planifica a época e o treino, através de planos e programas. Portanto, a formação funciona.

É de enaltecer, modéstia parte, todo trabalho desenvolvido e os resultados que se têm obtido. Não falo apenas de resultados desportivos, mas também de chamadas de atletas nossos, da nossa formação, à selecção de Sub-20 e Sub-17. Mais do que os resultados desportivos, é esta valorização dos nossos atletas que põe o ASA, num patamar mais elevado", referiu.

CLUBES NACIONAIS
"Aviador" reprova imediatismo nos clubes


O técnico Santana António José mostrou-se agastado com o facto de os gestores desportivos nacionais apostarem em projectos imediatos e criticou-os por gastarem milhões de dólares na contratação de atletas, "muitos deles já em fim de carreira".

De acordo com o técnico da equipa juvenil do ASA, os dirigentes dos clubes nacionais "pecam pelo imediatismo nos seniores", o que relega o processo de formação para segundo plano.

"Os dirigentes dos clubes preferem o imediatismo, gastam milhões de dólares na contratação de atletas, muitos deles, já em fim de carreira. Julgo que deve haver uma simbiose entre todos os clubes, em apostar na formação, em detrimento destas contratações. Os clubes devem rejuvenescer os seus plantéis, para salvarem o nosso futebol. Só assim, o nosso futebol vai dar um passo em frente, rumo à renovação de que tanto se fala. O futuro está na formação e não no imediatismo", disse.

Santana José reprovou igualmente o facto de as contratações milionárias de jogadores e treinadores não terem alterado em quase nada a exibição.
"Os nossos dirigentes desportivos dão-se ao luxo de contratar jogadores e treinadores, num futebol que segundo a lei ainda é amador, mas continuamos com a mesma exibição e com clubes sem infra-estruturas. É um paradoxo. Alguns queixam-se da falta de dinheiro.

Por outro lado, preocupam-se em demasia com as vitórias, quando nas camadas de formação o importante é criar as bases para um futuro auspicioso. Esquecem-se que na formação os títulos não significam nada se não forem acompanhados pela convicção de que, por detrás deles, existem mecanismos de regeneração e desenvolvimento deste sector".

FORMAÇÃO
Falta de condições
preocupa treinador


O Atlético Sport Aviação (ASA) é um dos clubes de referência na formação de futebolistas nacionais. Contudo, o trabalho desenvolvido no grémio do aeroporto é considerado uma "gota no oceano" pelo técnico Santana José, que considera que na maioria das agremiações desportivas não existem condições.

Apesar disso, Santana José elogia o trabalho feito pelas direcções do Petro de Luanda, Norberto de Castro, Progresso do Sambizanga, 1º de Agosto, Interclube, Nacional de Benguela e Académica do Lobito, pois são clubes que têm criado condições para os jovens.

"Alguns destes clubes têm melhores condições em relação aos demais. Por isso o escalão de formação tem muito que se lhe diga. É algo muito complexo, abrangendo diferentes contexto e factores, especificamente a vida do atleta feita em casa, a família, a escola, a relação com colegas de escola, com os amigos, professores e funcionários e no clube com os dirigentes, técnicos, colegas de equipa e finalmente na rua", disse.

 Para o jovem técnico aviador, essas relações, assumem vertentes e realidades diferentes em cada atleta. “Portanto, não é fácil conduzir atletas do escalão de formação, preparando-os para o futuro, conduzi-los para o escalão seguinte", e por isso Santana José defende a construção de Centros de Treinamento Desportivo, para formarem o atleta.

"Temos um défice em termos de infra-estruturas desportivas. Portanto, tudo isto, passa por uma organização dos nossos clubes. No cômputo geral, trabalha-se pouco nos fundamentos, repito, por falta de material desportivo adequado, sobretudo para os treinos específicos", realçou.


PERFIL
Nome:
Santana António José
Naturalidade: Malanje
Município: Cacuso
Data de nascimento:18-10-1974
Filhos: 4
Estado civil: Solteiro
Signo: Balança
Altura: 1,79 m
Peso: 103 kg
Calçado: 43
Cor preferida : Laranja
Músico: Yuri da Cunha
Comida Angolana:Funje com peixe seco e kizaka
Religião: Católica
Férias: Em Angola
Bebidas: Água e sumos
Cidade mais bonita de Angola: Malanje
Treinador de referência: “É inevitável dizer que é José Mourinho, porque ele é o melhor do Mundo. No entanto, admiro todos aqueles com os quais tive o prazer de trabalhar, mas destaco Miller Gomes.”
O que não suporta: Falsas promessas.
O que não perdoa no futebol: Quem maltrata um formando.