Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

So Silvestre Oramento pode passar de 1 milho de dlares

14 de Julho, 2010

Carlos Rosa,presidente da federao de atletismo

Fotografia: Jornal dos Desportos

Nos últimos tempos, a Federação Angolana de Atletismo organiza competições oficiais fora de Luanda. O que se lhe oferece dizer sobre esta aposta?A nossa mensagem é que o nosso atletismo não se restrinja apenas a Luanda, Huambo, Lubango e nas províncias do litoral. A ideia é levar o atletismo a todo o país, isso é, dentro das dezoito províncias que compõem o mosaico nacional. É lógico que nalgumas províncias não obstante em termos de circulação é menos oneroso por via terrestre, já que estão melhoradas as condições das estradas, mas ainda assim sentimos dificuldade em realizar algumas provas nas províncias situadas no Norte e no Leste do país. A exemplo do ano passado, haverá alguma inovação? À semelhança do ano passado, realizaremos alguns circuitos nalgumas províncias com a abertura da época no mês de Setembro e esperamos que a prova se mantenha no nosso calendário. Estamos a envidar os esforços no sentido de irmos ao Moxico e ao Cunene, conforme disse anteriormente. A nossa promessa é levar o atletismo a nível nacional com a calendarização de algumas provas que consideramos de prémios pré-São Silvestre, logo após o término da época, que será no mês de Agosto. A Federação realiza muitas provas de estrada.Esta frequência potencia os corredores angolanos a ponto de termos candidatos à vitória na próxima edição da corrida São Silvestre?É um sonho que esperamos dentro de pouco tempo e auguramos que se torne realidade, embora tenhamos a consciência de que o estágio do atletismo no país não é o mais adequado. Pessoalmente não acredito que, nos próximos cinco anos, tenhamos um atleta angolano em condições de ganhar uma competição desta natureza. A Federação envida esforços em todas as associações provinciais no sentido de encontrar uma resposta a quem desejamos, mas o grande défice dos nossos atletas está nas competições. Infelizmente, dentro dos circuitos que fizemos, depois da abertura, são no sentido de não haver um hiato muito grande.   Há algum programa ímpar com a abertura da época?Com a abertura da época no mês de Setembro, haverá um circuito de quinze em quinze dias, cujas provas visam dar uma certa competitividade aos nossos atletas. É uma visão estratégica da Federação para beneficiar os atletas que competem nas estradas. Independentemente de a época começar, as associações provinciais devem criar provas de pré-época para que os atletas de pistas não se sintam prejudicados; e não haja um grande desfasamento nas provas regulares. Que mensagem passa para que se realizem provas nas províncias?As Associações provinciais devem ter um pouco de visão mesmo onde não houver pistas de tartan. Se não há pista, há mil metros.Não podemos continuar a permitir que uma província como a de Benguela não esteja entre as mais potenciais na modalidade de atletismo e, o argumento de não existência de pista sirva como desculpa. Há circuitos que se podem fazer localmente, embora saibamos das dificuldades por que passam os nossos associados. Os circuitos fechados, a nível da província, podem absorver muitos atletas. Temos de ser realistas na medida em que não podemos apresentar orçamentos embaraçados, enquanto temos noção das dificuldades que as associações provinciais atravessam.Quer dar algum exemplo?No Dia Mundial do Atletismo, fizemos uma actividade a custo zero para a Federação Angolana de Atletismo. Conseguimos movimentar mais de duzentas crianças no Estádio dos Coqueiros, com a ajuda dos colégios sedeados em Luanda e reconhecemos que na maior parte, possuem os seus meios de transportes, o que facilitou a transportação dos jovens. Foi muito mais fácil congregar todos os alunos para a modalidade e pelo menos conseguimos fazer o que a Federação Internacional recomenda; conseguimos cumprir com a actividade em que a massificação do atletismo esteve envolvida com o meio ambiente. Depois da actividade desportiva, levamos os atletas para uma estufa, onde tiveram contacto com as árvores, conciliando assim a prática desportiva com o meio ambiente. São Silvestre pode custarmais de 1 milhão de dólares A São Silvestre é o cartão de visita da Federação Angolana de Atletismo e o seu elenco já trabalha para a prova de 2010. Como estão os preparativos da competição?Dentro das perspectivas que a Federação tem para a realização da São Silvestre’2010 em parceria com uma empresa angolana, cuja responsabilidade assenta na comunicação e imagem, acreditamos com esta iniciativa ter uma boa prova. Outrossim, pela dimensão que a prova tem, a nível de direcção da Federação, temos envidado todos os contactos necessários para que, no dia 22 de Dezembro, tenhamos o lançamento da prova. Pode adiantar-nos o orçamento da prova?Está orçada entre os 300 e 400 mil dólares e dentro da nova imagem que está a ser estruturada prevê-se um orçamento de 1 milhão e 400 mil dólares. Há alguma probabilidade de o vencedor da última edição ser convidado?Isso mantém-se sempre, porquanto os vencedores das edições anteriores são sempre convidados. A atleta Queniana que tem vindo pelo Kabuscorp e não pela Federação daquele país, tem marcado sempre presença. Em relação à Etiópia, tem sempre problemas, porque os atletas vêm pela Federação local. Habitualmente solicitamos o atleta vencedor, mas não somos bem sucedidos, porque é a Federação local que assume a responsabilidade de indicar e opta em função do estado dos atletas. Agora, com a realização do Campeonato Africano, no Quénia, a equipa angolana participante vai fazer a entrega de convites às federações e esperamos que o último vencedor esteja em condições de defender o título alcançado em 2009. Que outras estrelas pensa trazer para a edição 2010?Estamos a negociar com dois manager’s, que não podemos avançar nomes, porquanto estamos na fase de negociação terminada, mas a ideia é de prever um atleta de topo para a edição 2010. É lógico que isso tem custos e à semelhança das edições anteriores em que há sempre uma comparticipação das Organizações Kabuscorp na vinda dos atletas, vamos tentar negociar com esta organização no sentido de assumir o pagamento dos valores desses atletas. Num encontro que tive com o presidente do Recreativo do Libolo, Rui Campos, também mostrou interesse em ter um atleta deste nível na corrida. Logo, temos dois clubes interessados e em função das negociações preliminares que tivermos, chegaremos a um acordo e levaremos os dossiers desses clubes para vermos os atletas que vão representar a prova deste ano.     No início deste ano, houve o "meeting" internacional após a disputa da São Silvestre. A iniciativa vai manter-se?Esta é uma prova prestigiada que já era realizada há mais de vinte anos e felizmente com as obras do Estádio dos Coqueiros voltaram a revitalizar os meetings.Já que assumimos a realização do meeting na edição passada é obvio que temos de mantê-lo este ano e está salvaguardada a realização do meeting.Os convites enviados alertam a obrigatoriedade de os atletas participarem do mesmo, uma vez que é uma forma de ânimo para que a prática do atletismo seja um facto em todo o país.          Que balanço faz do meeting realizado, após vários anos de ausência?O balanço é de certa forma positivo, uma vez que o grande objectivo é acima de tudo o convívio.O meeting possibilitou o encontro dos ex- atletas e dirigentes que não se encontravam há mais de uma década. São pessoas que estão ligadas à mesma modalidade de maneira a podermos dar as boas-vindas aos nossos companheiros e amigos, perspectivando melhoramento nos anos posteriores.    Os acordos assinadosdevem ser aproveitados Sabemos que a Federação Angolana de Atletismo tenciona enviar alguns atletas angolanos aos diferentes Centros de Alto Rendimento espalhados pelo mundo. Como está este processo?É uma pretensão. Infelizmente, não acredito que vá se concretizar ainda este ano, porque a componente financeira é deficitária. A título de exemplo, tínhamos enviado alguns atletas para um estágio em Portugal e não conseguimos realizar os nossos sonhos. Existe algum acordo com os Centros de Alto Rendimento?Tenho conhecimento da existência de um Centro de Alto Rendimento na África do Sul e creio que há acordos entre os dois países, o que não sei é, se há algum aproveitamento neste aspecto. Também temos relações com Cuba, Alemanha, Egipto, entre outros países, que exigem uma visão estratégica de quem superintende o desporto no país, no sentido de tirar maior proveito possível da existência desses centros. Hoje, o potencial humano existe no país, isso está mais que aprovado, mas as condições de habitabilidade, alimentação e recuperação ainda não são as mais desejadas. Ao nível de alguns países da região têm técnicos a trabalhar para a posteridade, o que, infelizmente, não conseguimos em Angola. Porquê?A título de exemplo, hoje há técnicos cubanos no Lesoto, Botswana e Suazilândia que auferem um salário de mil dólares.Este mesmo técnico não aceita vir para Angola por este valor. Há uma sobrevalorização do mercado angolano que faz com que qualquer contrato seja averbado por três a cinco mil dólares. Logicamente, se tiver de pagar a um técnico cubano este valor adicionando os custos de transportação, alojamento e alimentação vai ficar por dez mil dólares. Não temos orçamento para suportar isso, aliás, tem de ser da responsabilidade do Estado em função dos acordos existentes para tirar o aproveitamento dos atletas. Ter acordos no papel e não saber aproveitá-los a favor do atleta, não estamos a fazer absolutamente nada. Há uma preocupação da Confederação Africana de Atletismo de enviar periodicamente alguns atletas para alguns Centros. Tivemos o convite para enviarmos uma atleta no Quénia, na especialidade de martelo, mas não se concretizou, porque pela obrigatoriedade da Confederação Africana, a atleta teria sido acompanhada por um técnico nacional. Infelizmente, esta atleta vive em Portugal, assim como o seu técnico, o que a Confederação Africana vetou o acompanhamento de técnico português. A nível do Comité Olímpico Internacional, quais os contactos mantidos em relação a este aspecto?    Regularmente, mantemos contactos com o presidente do Comité Olímpico do Quénia, também responsável de um Centro de Treinos, e talvez com oportunidade do grupo que vai participar no Campeonato Africano e com alguns contactos preliminares, vamos ver se conseguimos criar as condições de ter um grupo de atletas fora do país ao nível desejado. Que dificuldades emperram o desenvolvimento e a criação de um grupo desejado? Enquanto os atletas trabalharem em Angola, estaremos muito distantes dos nossos objectivos, em termos de desenvolvimento e performances. A título de exemplo, o nosso técnico no Huambo vive muitas dificuldades, na medida em que o atleta não pode fazer bi-diário por falta de uma refeição condigna.     Recentemente, o Atletismo angolano fez-se representar em competições internacionais como o Campeonato Regional júnior de Maputo e os jogos Ibero-americanos.Que indicadores colheu destas participações?No Ibero-americano, tivemos o apoio da Federação Portuguesa de Atletismo. E em função da nossa realidade financeira, Angola fez-se representar exclusivamente naquela competição por atletas angolanos residentes em Portugal, onde foram seleccionados três: Mafuta, em Lançamento, Gomes, em 800m, e Zé Carlos, em 1500m. O último atleta é um jovem com potencial, mas precisa de ser acompanhado e de uma certa atenção.    Aproximam-se os jogos da CPLP e da Zona VI.Que ambições tem para estas duas competições?Qualquer país da região, neste momento, tem volume de trabalho superior ao de Angola. Passamos a mensagem de que nas modalidades colectivas possam haver surpresas.