Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Se eu estivesse no Cala seria o Interclube a fazer contas

Matias Adriano - 28 de Outubro, 2010

Ex-tcnico do Recreativo da Cala diz em grande entrevista ao Jornal dos Desportos

Fotografia: Jos Cola

Sabemos que antes de vir trabalhar em Angola esteve ligado à área de formação das camadas jovens do Manchester United. Como se dá este casamento?
-“Bom, eu vou trabalhar para o Manchester United a convite do senhor Michael Gley, em reconhecimento ao trabalho que vinha desenvolvendo, sobretudo no que toca a sondagem e prospecção de valores em emergência para o futebol. Este senhor é o coordenador técnico do futebol jovem do Manchester, cujo trabalho incide na preparação de atletas dos seis aos 12 anos. Respondendo ao convite fui conhecer a academia do Manchester United e passei a trabalhar nos seus núcleos em Nidoton e Restelo que era a minha área de residência.”

Podemos saber quais foram os feitos de maior realce que terão influenciado o convite que lhe foi formulado por Michael Gley?
Antes dedicava-me a dar treinos na comunidade, aproveitando os tempos livres enquanto estudante, até como forma de custear os meus estudos. As pessoas foram acompanhando este processo e foram também avaliando as minhas qualificações. Aliás, em função do trabalho que fazia cheguei a ser distinguido com o diploma de melhor treinador voluntário do ano. E quando fui fazendo as formações como treinador ganhei maior visibilidade, acabando por ingressar no Bury FC onde durante três anos trabalhei nas camadas jovens. Tive nesta equipa profissional, da segunda Liga Inglesa, uma boa experiência, porque depois comecei a fazer parte da equipa principal. Foi dai que sai para o Manchester.”

Diante deste ascendente que sonho alimentava. Conseguir se firmar como técnico na Inglaterra ou vir trabalhar em Angola?
-“Angola foi sempre o meu destino. Aliás, repetidas vezes disse às pessoas, à minha família particularmente, que quando terminasse a minha formação como treinador de futebol regressaria logo ao país. Pois, em regra, quando alguém está em formação fá-lo sempre para aplicar os conhecimentos absorvidos em benefício do seu país.” 

Obtida a formação vem para Angola já com alguns contactos adiantados ou arriscou simplesmente, na esperança de que no mercado sempre haveria clube interessado nos seus préstimos?
-Arrisquei. Quando sai da Inglaterra não tinha estabelecido qualquer contacto com clubes nacionais. Mas estava seguro, porque tinha terminado a formação e estava diplomado pela Uefa, o que em si só já representava meio caminho andado. Deixam-me dizer que eu venho pela primeira vez jogar para os Amigos do Akwá, e lembro-me que muitas pessoas amigas pediram-se para que ficasse. O Gil Gomes e outros fizeram alguns movimentos no sentido de conseguirem uma colocação para mim no mercado.”

Será ai que surge o interesse do Recreativo da Caála?
-“Quase, porque dias depois vieram-me dizer que o presidente do Recreativo da Caála precisava falar comigo. Fomos ao seu encontro, no Hotel Alvalade e conversamos. Tendo gostado da proposta de trabalho que me foi apresentada, abracei então o projecto Recreativo da Caála, como primeiro desafio no mercado.”

Que referências tinha na altura da equipa do Huambo?
-”Sabia apenas que era uma equipa da primeira divisão, que com trabalho colectivo e aposta podia fazer o mesmo que faziam as outras equipas. Aliás da mesma forma que eu arrisquei também arriscou o presidente do clube. E eu encorajo a coragem que teve o senhor Horácio Mosquito em apostar num técnico que ele mal conhecia. Lembro-me que quando cheguei no Huambo os dirigentes do clube diziam que eu era aposta do presidente.”

Mesmo depois a agradável surpresa não mudaram o discurso?
-Eu não os crítico. Pois é normal que tivessem criado este conceito. Porque na verdade eu era mesmo alguém estranho para a maioria. Cabia a mim mostrar trabalho e resultados que invertessem o pensamento destas pessoas, e foi exactamente o que fiz ou o que a equipa foi fazendo no aspecto competitivo, e foram todos chamados à razão.”

Não tendo reforçado o plantel com novas unidades. Onde esteve o segredo da brusca mudança de comportamento da equipa, assumindo o espírito ganhador que veio catapultá-la na liderança do campeonato?
-“Tratei apenas de moldar a mentalidade da equipa ao meu estilo. Fui conversando aturadamente com os atletas, passando-lhes a mensagem de que no futebol só não se atingem determinadas metas quando não se aposta. Quando não há auto-estima. Fui dizendo aos atletas que eles podem respeitar o adversário mas nunca se sentirem inferiores. Aquilo que os outros são capazes, nós também somos, desde que acreditarmos, desde que apostarmos e lutarmos determinados para isso. Felizmente, eles captaram a mensagem e fomos somando vitórias atrás de outras.”

Em que posição classificativa encontrou o Recreativo da Caála?
_”Quando segurei na equipa esta ocupava a nona posição. Fruto do seu índice de produção seis jornadas depois estava na liderança do campeonato, o que foi bastante bom, já que conferiu aos próprios jogadores maior motivação, passando estes a acreditar mais nas minhas palavras. Pois eu lhes dizia: recordem-se onde vocês estavam, vejam onde estão e imaginem onde podem chegar.”

“Sou um técnico ambicioso
e exigente comigo mesmo”

Tinha assinado para o Caála para quantas épocas e foi indemnizado pela rescisão?
-“Com o Caála o contrato celebrado era apenas até o próximo mês de Novembro. Quanto à indemnização e liquidação de outros pendentes isto está a ser tratado entre a direcção do clube e o corpo dos meus advogados. Mas o “feed-beck” que tenho recebido indica que está tudo a correr dentro da normalidade.”

A sociedade desportiva ficou indignida com a sua saída do Caála. É que até hoje não houve um melhor esclarecimento das razões do “divórcio”. Não se importa abrir o jogo?
-“Acho que não há jogo a abrir. Porque eu próprio, que sempre tive um relacionamento bastante salutar com o presidente até hoje não sei quais foram as razões que levaram ao meu afastamento. Não sei.”

Mas o presidente em entrevista ao programa “Futebol no Estúdio” da Rádio Cinco”,  diz que se tratou de uma rescisão amigável. Houve uma espécie de acordo de cavalheiros?Será?
-“Não. Não houve acordo nenhum. Eu fui despedido. E nada mais do que isso.”

“Tenho vários convites
para treinar em Angola


Desde a saída do Caála de certeza que já teve outros convites. Tem estado a estudar os mesmos, ou não lhe interessa começar um novo projecto em fim de época?
-“Neste capítulo é normal que surjam propostas em função do bom trabalho desenvolvido onde nós passamos. Mal sai tive logo outros convites, mas tenho estado a ponderar, pois quero dar seguimento a um bom projecto. Vou trabalhar em Angola e dar o meu contributo à nação.”

Não se importa dizer, pelo menos, quantos convites tem à mesa?
-Só sei que são muitos e de grandes emblemas do futebol nacional.”

Fala-se na sua ida para o Petro de Luanda. Há contactos avançados neste sentido?
-Quando falo em grandes emblemas pressupõe desde já a inclusão do Petro de Luanda. Mas digo-vos que até este momento(terça-feira) em que falo para vocês não houve nada de concreto.”

Falou-se também na sua integração numa Comissão que trabalharia para a Selecção nacional. Até que ponto isto corresponde à verdade?
-“Não passa de mera especulação. Nunca tive contacto algum com a Federação Angolana de Futebol. Agora sim, tenho estado com os professores Oliveira Gonçalves e Romeu Filemon a engendrar alguns projectos para o bem do futebol nacional. Este é um projecto nosso que não vincula a Federação Angola de Futebol.”

Sendo certo que na próxima época estará vinculado a um clube da primeira divisão, voltará a definir o título como meta?
-Não sou de virar cara à luta. Gosto de dasafios. Sendo assim, seja em que clube for, o objectivo será o mesmo: lutar pelo título. Procurarei sempre dar o melhor de mim e com o pouco que aprendi ajudar os clubes e os atletas a serem campeões.”

“É preciso investir em técnicos
para os escalões de formação”


David Dias sugere investimento na formação de técnicos para as camadas jovens. Considera a desatenção nesta área responsável pela crise que vive o nosso futebol em termos de talentos.-“A formação no nosso futebol é bastante débil. Defendo que haja maior formação de técnicos vocacionados ao trabalho com as camadas de formação. As Associações e os clubes devem chamar a si esta tarefa. Só assim podemos traçar um quadro melhor para o nosso futebol no futuro.”

Pressupõe isto abertura de Academias nas províncias?
-“Talvez fosse a saída mais airosa, sobretudo num país como o nosso em que o desporto comunitário não existe. Nos outros países o desporto comunitário tem vitalidade. Os próprios governos provinciais procuram maneira de formar estes voluntários. É quase uma obrigação.”

Os técnicos para os escalões de formação devem ter uma formação específica?
-“Claro. O investimento nas camadas jovens passa pela formação de técnicos para esta área. No Huambo por exemplo está a emergir um bom projecto. Mas ainda assim há falta de técnicos com formação específica para fazer o projecto vingar. Há técnicos que iam ver os meus treinos, que copiavam aquilo que eu dava aos meus atletas para irem dar a mesma carga a crianças de seis, sete anos. É errado.”

Continuando:
“É uma pena eu ter saído do Huambo, pois estava a pensar instrui-los, transmitir-lhe o pouco que aprendi, porque afinal demonstram muita vontade. Não teria dificuldade de copiar os livros da minha formação, distribuir-lhes as cópias para irem se orientando.Precisamos de mais técnicos como Carlos Queirós. Aliás, Carlos Queirós devia ter um núcleo de colaboradores que o assessorassem no trabalho que faz.”

Título para o Caála
teria sabor especial


Interclube e Recreativo da Caála partem para a última jornada do Girabola quase em igualdade de circunstâncias, as únicas que lutam pelo título. Na sua perspectiva, para que lado pende favoravelmente a balança?
-“No futebol tudo é possível, o título tanto pode sorrir para o Interclube ou para o Caála. Mas, temos de convir que em termos de probabilidades o Interclube vê-se em melhores condições. Logo, se estivesse a jogar totobola apostava mais no Interclube.”

E se for o Recreativo da Caála?
-“Como disse no futebol tudo é possível. Não se pode descurar esta hipótese. Aliás, se for o Caála melhor ainda para mim, sentir-me-ei orgulhos. O título teria um sabor especial, porque nele teria quota parte do meu trabalho.”

Domingo estará no Santos FC-Interclube ou no Petro de Luanda-Recreativo do Libolo?
-“Sem dúvida alguma estarei na Cidadela no Petro de Luanda-Recreativo da Caála.”

Imaginemos que no desfecho dos jogos, que serão disputados em simultâneo,  o título sorria para o Caála. Qual será a sua reacção no memento?
-“Eu não sou homem de recalcamentos, e não tenho dificuldade nenhuma. O que farei será descer da pancada para o campo, abraçar os atletas, saudar os dirigentes e juntar-se à festa da consagração. Pois, insisto, se o Caála ganhar terei sempre o sentimento de ter também contribuído na conquista.”

Acha que se não acontece a sua saída o Caála já era campeã?
-“Eu diria, sem tirar mérito ao actual técnico, que a equipa estaria melhor situada. Ou seja, neste momento não seria o Caála a depender de terceiros. Seria o Interclube a fazer contas à vida ou a andar atrás do prejuízo. Veja que o Interclube esteve na liderança antes do Caála. Mas depois chegou a ficar a 12 pontos de diferença quando o Caála assumiu a liderança. Não se concebe que esta equipa tenha recuperado a ponto de voltar à liderança. Está claro que alguma coisa falhou.”

Está claro que entre os dois candidatos ao título torce pelo Recreativo da Caála. Estamos certos?
-“Absolutamente.”

 Por Dentro

Nome: David dos Santos Dias
Naturalidade: Luanda
Data de Nasc: 13 de Novembro de 1969
Modalidade: futebol
Profissão: Treinador (com licença da UEFA)
Clube: Sporting de Portugal
Religião: Católica
Virtude: Ser exigente
Defeito: Não saber perder
Prato: Funge com carne seca
Bebida: Vinho à refeição
Tabaco: Não faço uso
Cantor: Paulo Flores e Dog Murras
Política: É para os políticos
País: Angola
Cidade: Luanda e Huambo
Cor: Azul