Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Segurana garantida

Josefa Toms - 23 de Julho, 2013

Sub-comissrio e porta-voz da Polcia Nacional garante que a segurana do Campeonato do Mundo vai contar com todos os meios do Ministrio do Interior

Fotografia: Joo Gomes

"Mundial tem segurança garantida"
O facto de ter sido nomeado representante da Polícia Nacional no Comité Organizador do Mundial fez do porta-voz, Aristófanes dos Santos, uma pessoa autorizada para falar das questões de segurança da prova. A 24 horas do seu aniversário natalício, o antigo praticante de judo, hoje sub-comissário da corporação, falou ao Jornal dos Desportos sobre
a segurança.
Atente à entrevista:   
                                     



Qual é a importância da segurança para uma prova de dimensão mundial?
Qualquer actividade de natureza desportiva, cultural, religiosa, política ou outra, independentemente de todo o sistema organizativo, a segurança é fundamental. Tudo o que é actividade de massas tem de ter segurança. Segurança no plano interno do local onde se realiza o espectáculo ou actividade, culto ou jogo, segurança no exterior e nos locais que vão dar ao local do espectáculo ou actividade… Portanto a segurança é a base fundamental para o sucesso de uma actividade. Por se tratar de uma prova como esta, mundial, sobretudo porque é a primeira vez que um país africano acolhe uma prova desta natureza, a actividade é mais melindrosa do ponto de vista da segurança.


Significa dizer que tem de haver uma preparação melhor?
Sim. As forças e serviços de segurança do país, no caso Angola, devem estar bem preparados para este evento. Porque está em primeiro lugar em causa o nome do país mas, para além do nome do país está a segurança das pessoas. Como canalizar as pessoas? Que medidas devem ser tomadas? Que estratégia? E depois há um aspecto fundamental que é a mistura de culturas. Vamos ter em Angola outros povos: franceses, americanos, angolanos… e cada um com os seus hábitos usos e costumes. Todos sujeitos às normas de um só país. Então a polícia, no âmbito do dever constitucional de garantia da ordem e segurança no plano interno, para os nacionais e estrangeiros, tem de estar preparada.


Em que consiste o sistema de segurança para o Mundial?
A nossa actuação vai ser feita mais fora dos pavilhões. Nas estradas e nos acessos aos pavilhões. Dentro dos pavilhões vamos ter os ARDs.


O que são ARDs?
São uma força criada e preparada pela polícia e com indumentária própria. São Assistentes de Recintos Desportivos. As regras internacionais de segurança no desporto exigem a criação desta força. Porque as pessoas vão para os locais de jogo para se divertirem e não cai muito bem um pavilhão cheio de polícias. Dá uma sensação até de insegurança. Nós vamos ter polícias no interior do estádio mas, em locais estratégicos, para além da polícia à paisana, no interior do pavilhão mas, vamos ter mais assistentes de recintos desportivos. Se houver uma alteração substancial da ordem imediatamente em cinco minutos as nossas forças vão intervir.


São polícias?

Não. Os ARD não são agentes da polícia. O seu papel é garantir a segurança, integridade e boa ordem das multidões de espectadores. Eles cumprem essa missão observando, dando assistência e, se necessário, admoestando firmemente mas não de forma agressiva. Como não têm poder que excedem os do cidadão comum, devem requerer ajuda logo que as circunstâncias lhe fujam ao controlo.


Vai haver deslocação de forças de uma província para outra?
Sim. Teremos deslocação de forças. Por exemplo força do Lubango que vão apoiar Namibe. Força de Kwanza Norte que vão apoiar Malange, etc.
 

Mas esta deslocação de forças só é feita em casos pontuais?
Todo o mundial para nós deve ser considerado uma actividade de risco. Vamos estar de emergência. É preciso que quando se fazem planos desta natureza se considere que as coisas estão mal para que quando acabe poder dizer que correu tudo bem.


Este plano de segurança abrange as fronteiras?
Exactamente. Não é por acaso que há dias o comandante da polícia de guarda fronteira esteve a visitar a fronteira norte. Está tudo dentro de uma conjuntura. Os polícias das províncias onde não vai haver mundial também estão engajados directa ou indirectamente.

 
O treino da polícia que vai estar envolvida no Mundial já começou?
A polícia tem um treino permanente. Naturalmente que para esta competição específica temos de fazer mais seminários pontuais. Por altura do CAN fizemos um treino pontual mas, a polícia já está formada. Há sempre aqueles cuidados, alguns melhoramentos, a farda, a imagem, portanto todos os aspectos organizativos estão em curso. Estivemos em Malange e aprimoramos alguns aspectos ligados ao torneio José Eduardo dos Santos. Depois viremos cá e vamos ao Namibe fazer a mesma coisa”.


Quer dizer que vai haver uma preparação específica para este Mundial?
“Exactamente. Por exemplo, vai haver agora a Cimeira dos Grandes Lagos e há uma preparação específica para a Cimeira. Há o mundial de hóquei e há uma preparação específica para o mundial. Isto porque vamos lidar com estrangeiros, culturas e pessoas com hábitos, usos e costumes diferentes.


POLÍCIA
Pavilhão de Luanda
com mil efectivos

Quantos efectivos estão pre-     parados para a prova em Luanda?

À volta de 1.000 efectivos directamente ligados ao asseguramento. O pavilhão de Malange e do Namibe vão ter 700 efectivos cada, para além de 100 Assistentes de Recintos Desportivos (ARD) que é uma força que nós criamos, para cada província. Luanda terá 1.000 efectivos mais 200 ARDs. Estes vão estar directamente ligados ao asseguramento mas, há outros cujos números são variáveis em função da situação de segurança pública que vive o país. Estes são os que vão estar envolvidos na canalização do pessoal, nas atenções e tudo mais.


Todas essas forças são necessárias?

Todos os jogos do campeonato do Mundo são classificados como jogos de risco, a excepção da sessão de abertura que é o primeiro jogo e por isso classificado como de risco elevado e do último que também é de risco elevado. Todos os outros jogos são de risco. Podem perguntar-me porquê jogos de risco? Prevê-se que haja perigo? A questão que se coloca é que vai ter delegações estrangeiras. O problema que se coloca é que é uma competição geral então é melhor considerar jogo de risco para ter muita atenção e não falhar nada. No outro, considerar de alto risco para ter muita, muita atenção para não falhar nada. Todo o jogo pode não ter problema mas pode ter uma alteração imediata”.


CAMPEONATO
“Acredito na conquista do pódio”


Acredita na conquista do pódio pela Selecção Nacional?

Eu peço à nossa população que tenhamos fé na nossa selecção. É muito difícil. Angola não é um país tradicionalmente bom em hóquei mas, não é dos piores países. Nas últimas competições que disputámos ficamos em sexto lugar mas, vamos lutar para chegar ao pódio. Muitos dizem que é uma miragem. Sim, mas também não se pensava que íamos ter o mundial de hóquei, o CAN e não se pensava que a guerra acabava. Vamos ter fé naqueles rapazes novos.

O factor motivacional da Selecção pode ser preponderante?
Eu estive há bem pouco tempo com eles em Portugal, na final da taça dos clubes campeões. Fui visitá-los e vi que estão motivados. Nós temos que pensar positivo para a nossa selecção ser positiva. Vamos lutar e quem sabe Deus até pode ser angolano e conseguimos alguma coisa. Eu acredito piamente que vamos ao pódio. Agora podem me dizer mas o senhor é maluco... Tem a Argentina, Portugal, Espanha e França mas como é que vamos ao pódio? A minha resposta é: Deus Existe.

“Estamos a contar com Interpol”

A Polícia Nacional está a contar com a Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol)?
Já estamos a contar com a Interpol porque o nosso plano já começou. Desde a nomeação do Comité Organizador do mundial foi criada a sub-comissão de segurança que é chefiada pelo senhor segundo comandante da polícia, o comissário chefe, Paulo de Almeida. Nós integramos esta comissão. Nós temos três etapas que é o antes (o período que estamos a viver até agora), o durante (que é ao longo da competição) e o depois, até à saída da última delegação. Para estas etapas contámos com todas as forças e meios do Ministério do Interior, bombeiros, polícia canina, montada, enfim. Todas as forças que forem necessárias lá vão estar.

Também estão a contar com a Interpol?

A Interpol já começou, porque é a Interpol quem nos confirma os que podem e os que não podem vir. A Interpol está a trabalhar em tudo, de acordo a sua especialidade com os homólogos dos países que vêm para cá e com outros. Na semana passada chegou de França o senhor Comandante Geral da Polícia Nacional, que foi a uma reunião da Interpol em França. Entre outras actividades que lá foram tratadas, naturalmente que o mundial de hóquei em patins não escapou à agenda. Portanto a Interpol é chave fundamental. Aliás os seus representantes já estiveram connosco, estamos a interagir e vamos continuar a trabalhar.


Já estiveram cá?
Não. Ainda não estiveram cá para a competição, mas, por exemplo, quando vem o presidente da Federação Internacional de Rink Hoquei fazer os levantamentos, traz oficiais de segurança, do próprio comité de segurança do rink hóquei, consigo.


Que medidas estão previstas para as claques dentro do pavilhão?

As regras de policiamento são claras e dizem-nos que as claques não se misturam. Devem ficar em lugares opostos para que a organização as identifiquem. Assim, a claque A fica em determinado lugar e a B noutro. Depois tem a regra de que no final do jogo, a claque da equipa visitada sai primeiro e da equipa visitante sai depois e, sob escolta, se for o caso. Se calhar não se vai colocar esta questão aqui no hóquei mas, não podemos descurar de nada. Tudo é possível. Temos que garantir as pessoas que há segurança e trabalhar para que haja efectivamente segurança.


As cidades limítrofes das sedes do Mundial têm segurança reforçada?
Naturalmente. A segurança é feita a partir das cidades sedes com todas as suas ligações. A Huíla para o caso do Namibe, Kwanza Norte para o caso de Luanda, por exemplo… Isto tudo faz parte do plano geral. As próprias estradas são objecto de segurança, porque há turistas que vão de carro. A BET tem que sofrer reforço. Portanto, o plano de um mundial tem que prever todas as situações. Temos que criar condições nas estradas. Temos de ver os nossos postos de socorro, os bombeiros que estão connosco, os médicos, a protecção civil. Quer dizer que é um plano geral. O plano geral engloba tudo.


Dentro deste plano geral, o que há de concreto para as claques que queiram deslocar-se de um local para outro, com um grande número de integrantes?
Felizmente para este mundial e também já foi assim no CAN, nós fazemos parte da organização. Porque se não fizéssemos parte da organização o normal era as pessoas solicitarem a organização e a organização solicitar –nos , mas como fazemos parte da organização, as claques devem acertar as listas, dizer as pretensões e até levam escolta policial.


É um processo rápido?
 É um processo rápido. Olha, vou-lhe dar um exemplo. Na semana passada foi-me comunicado num dia que havia uma delegação de pessoas ligadas ao hóquei que queria ir a Malanje. Um dia depois já tínhamos disponível um carro que levou a delegação até Kwanza-Norte e no Kwanza- Norte a outra polícia recebeu e levou até Malange. No regresso foi a mesma coisa. Por exemplo a delegação de oficiais quando chega ao aeroporto, verifica-se se os nomes  constam da lista, vão para as viaturas e estão ali os polícias para fazer a escolta até ao hotel. Dali vão para o credenciamento e para o hotel. Tudo deve estar devidamente controlado em função do nível de cada um, entidades vips é very vip.


SEGURANÇA
“Selecções têm diferentes graus de ameaça”

Em que consiste o sistema de segurança para as selecções?

O sistema de segurança é feito por uma coisa que nós chamamos grau de ameaça, que não é o mesmo para todas as selecções. O grau de ameaça da selecção de Angola não é o mesmo da selecção francesa e nem da americana. Isto vai exigir muito mais atenção tanto de um lado como do outro. Há a atenção geral e depois há a atenção redobrada em determinados locais.


Nesse caso prevê-se segurança reforçada no hotel em que vai estar hospedada a selecção dos EUA?
A segurança é para todos. Não há discriminação do ponto de vista de segurança. Todas as equipas vão estar seguras mas, naturalmente, há equipas mais propensas ou seja estão mais expostos à actividades terroristas ou outras. Naturalmente a segurança nestes locais está mais reforçada. Não se trata de uma ser melhor que a outra mas sim de um reforço específico das delegações. Também faremos isto  em relação aos oficiais de segurança dos países, porque cada país tem o seu oficial de segurança. A nossa selecção também tem dois oficiais de segurança que andam com a selecção. Não  parece mas estão com ela.

O número de oficiais de segurança obedece a algum critério?

Cada selecção trás oficias de segurança. Estes oficiais de segurança conversam connosco. Podem ser um ou dois. Depende muito de cada país”.


O controlo da polícia inclui as saídas e passeios para as selecções?
Sim. As delegações não podem sair sem o nosso controlo. Se for necessário colocarmos 10.000 polícias a controlar uma delegação vamos pôr. Se for preciso um dois ou três, vamos pôr. Podem surgir aquelas delegações que querem dar uma volta, conhecer a cidade, ir à praia, fazer compras, etc. Nós estamos aqui para isto. Tudo isto está previsto no nosso plano.


PAVILHÕES
“Todos os locais  são vigiados”


Da visita que efectuou ao Arena de Luanda constatou que há condições de segurança para o público?
Eu tive a felicidade de fazer parte do lay-out dos três pavilhões, porque fui nomeado representante da Polícia, no Comité Organizador. Pelo que constatei os três pavilhões têm segurança máxima. Sob nossa recomendação todos eles têm o sistema de circuito fechado de televisão para o interior e para o exterior. Têm cabines e postos de controlo em  todas as câmaras do estádio. Todos os locais são vigiados a partir do posto de controlo do comando policial. Têm os melhores e mais sofisticados sistemas de detecção de fumo e incêndio. Têm locais para socorro, esquadra policial dentro dos pavilhões, postos de atendimento para encaminhamento das pessoas…. É um espectáculo. Do ponto de vista da segurança podemos afirmar sem medo de errar que foram tidas em conta todas as medidas. Isto foi salvaguardado porque a segurança está desde a primeira hora com a organização. Nós participamos do sistema de organização.


Estamos a chegar ao fim da nossa entrevista, tem alguma recomendação para a população?
Quero pedir à nossa população que tenha confiança na nossa polícia e nos nossos governantes, porque a segurança está garantida. Temos segurança máxima. Devemos acorrer aos pavilhões porque está em causa o nosso nome. É bom que os nossos pavilhões estejam cheios. É bom que nós como povo inteligente, carinhoso e hospitaleiro como sempre fomos, apoiemos os nossos atletas e os estrangeiros. Porquê não ir se há segurança? Os bilhetes são por séries e eu acho que isto é uma mais-valia. Já não estão em causa as pessoas. Está em causa o país e quando assim é devemos fazer tudo, porque precisamos que os pavilhões estejam cheios para nós também testarmos a nossa capacidade. Para dizermos que valeu a pena os dias sem dormir, as dificuldades, mas está aqui o nosso produto.


PERFIL
Nome: Aristófanes dos Santos
Idade: 45 anos
Prato preferido: Funji com carne seca, feita com óleo de palma.
Bebida: Vinho
Passatempo: Aproveito os tempos livres para ficar em casa, brincar com os meus filhos, tratar do jardim e brincar com os meus oito cães.
Formação: Doutorando em Direito Penal.