Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Seleco est a trilhar por um bom caminho

Paulo Caculo - 16 de Outubro, 2009

Armando Machado, presidente honorrio da Federao Angolana

Fotografia: Jornal dos Desportos

Conhecido como um grande conversador, Armando Machado dispensa apresentações sempre que convidado a reviver as primeiras experiências vividas pela selecção nacional de futebol nas fases finais do Campeonato Africano das Nações.
Foi, precisamente, de forma categórica que o actual presidente honorário da Federação Angolana de Futebol abordou ao nosso jornal os CAN´s de 1996 e 1998, disputados na África do Sul e Burkina-Faso, respectivamente.
O antigo líder da federação fez questão de sublinhar que sente muito orgulho e grande motivação para recordar um período, que considera ter sido muito marcante no historial dos Palancas. Fala das dificuldades e como conseguiu reunir argumentos para superá-los. Elogia os méritos de toda a equipa que consigo trabalhou na altura, ao mesmo tempo em que assegura ter saído da federação de cabeça erguida.

"Tenho uma saudade muito grande dos CAN´s"

Que significado representa para si o facto de ter sido sob seu mandato que os Palancas alcançaram a primeira presença na maior competição futebolística do continente, o CAN?
Devo agradecer a oportunidade de, mais uma vez, poder estar em contacto com os leitores amantes do futebol. De facto fui o primeiro privilegiado em qualificar uma selecção de futebol para uma disputa de um empreendimento tão grande, é assim que lho chamo porque também vamos organizar. Os dois primeiros CAN´s a selecção fê-lo com a minha participação e de todos os meus colaboradores, a quem reitero mais uma vez os meus agradecimentos, quer as equipas técnicas quer aos roupeiros e massagistas. Tudo foi realmente extraordinário e penso que, naquela altura, quando fomos a Joanesburgo, com o malogrado treinador Carlos Alhinho, tivemos o ensejo de apresentar uma selecção tremendamente boa.

Mas nem por isso os resultados foram animadores…
- De facto. Uma selecção que está a ganhar por 3-1 aos Camarões e deixa-se empatar já no período de compensação, isto em Durban, mas que perde com a África do Sul, que organizava a prova, por 1-0, ficou mal. Depois acabaríamos por perder também com o Egipto, por 2-1. Foram os resultados que tivemos. De qualquer forma, deixou uma recordação e uma saudade grande. Era a primeira vez que o país aparecia na senda do futebol africano ao mais alto nível. Era um país em guerra, com dificuldades tremendas, tudo eram dificuldades, até para o pagamento de prémios de jogos aos atletas tínhamos que esgravatar, chorar, fazer absolutamente tudo, porque o país estava mal. Esta situação da guerra transmitia uma situação financeira tremendamente má e tornava-se muito difícil.

Mas nem por isso deixou de representar para o país uma experiência memorável?
- Foi bonito, gratificante e de tal forma que no CAN a seguir voltamos a estar presentes, no Burkina-faso. Isso corresponde aos períodos em que estive na direcção da federação e depois veio os outros que deram continuidade ao trabalho.

Sente-se, de alguma forma tranquilo, por ter provado esforços para garantir a primeira presença de Angola na competição?
- Mas não pensemos que fui o herói destas participações nos CAN´s, nem tão pouco mais ou menos. Penso que o herói foi o primeiro presidente, o presidente da comissão administrativa e só depois eu, porque há um contributo que cada um deu na melhoria da organização do nosso futebol. Complementei de uma forma mais convicta, mais sensata e vigente, o que os outros não conseguiram complementar, mas todo esse trabalho desde o primeiro presidente da federação até à minha pessoa, e depois da minha passagem para o actual presidente da federação já deu mundial, mais dois CAN´s, um deles que assisti, no Egipto, sem esquecer os campeonatos africanos de sub-17 e de sub-20. Portanto, isso é muito bom.

Como era manter a união do grupo e o bom ambiente de balneário perante tantas dificuldades?
- Normalmente chama-se a isso ter cabine, ter balneário. Tem-se estas coisas quando os líderes à frente de cada frente de trabalho são carismáticos, têm comando e têm sentimento nacionalista de poder congregar tudo à volta do mesmo objectivo. Nós felizmente tínhamos isso. Sempre fui um indivíduo com objectivos previamente definidos, com liderança e consegui arrastar comigo grandes forças, não só no quadro direccional da federação como na Assembleia Nacional, em que estava um homem, na altura, o Amílcar Silva, que era presidente de um banco e que ainda hoje continua a ser um indivíduo ligado ao desporto.

Guarda boas recordações de Carlos Alhinho?
- Muito boas. Foi um treinador que encontramos e que mostrou um grande carisma e trouxe para Angola uma mais-valia, porque não íamos buscar jogadores na diáspora. Ele (Carlos Alhinho) foi capaz de reunir belíssimos jogadores, constituiu uma brilhante selecção que deu origem a estes êxitos. Nós relegávamos as dificuldades para o segundo plano, porque várias vezes tivemos de ir ao CAN com óptimas selecções e conseguimos dar o salto qualitativo no aspecto de organização, que nos desse garantias de fazer mais e melhor. E nós conseguimos isso.

Acha que as dificuldades influenciaram de alguma forma no rendimento da selecção nesse período?
- Não tenho dúvidas que sim. Quando era presidente de clubes, se não houvesse uma boa direcção não podia haver uma equipa vencedora. Ganhei um campeonato nacional da segunda divisão com o Petro do Huambo e cinco seguidos da primeira divisão com o Petro de Luanda, com juniores e juvenis também, duas taças e três Supertaças, pelos aspectos organizativos que a gente tinha nas nossas direcções.

Considera, então, que a organização foi uma variável marcante do seu reinado na Federação?
- O aspecto organizativo de uma federação traduz e faz com que haja, efectivamente, uma boa equipa. A organização começa na estrutura que organiza o clube, que organiza a selecção e depois vem por aí abaixo, chega à equipa técnica e aos jogadores. Se não houve esta estrutura organizativa boa, coesa, por mais bom que sejam os jogadores acabam por não conseguir formar uma equipa boa, que seja batalhadora e trabalhadora em prol dos objectivos a que se propõe realizar, que são as competições.

Nunca fui convidado
pela direcção da federação

Alguns jogadores que fizeram parte da selecção de 96 e 98 referem-se a si como tendo sido o “milagreiro” pela forma como conseguia minimizar as dificuldades. Concorda que houve muito amor à camisola naquela altura?
- Também havia isso. Mas no meu tempo foi quando começamos a introduzir os pagamentos, já havia algumas regalias de prémios diferentes aos nossos atletas. Foi já no meu tempo. Já havia introduzido isso, já vinha com esta mística dos clubes, com esta forma de estar com os clubes. Recordo-me um dia que estávamos em segundo lugar no campeonato nacional, num jogo nos Coqueiros, quando vencíamos o 1º de Agosto por 3-1, desci ao relvado do estádio para cumprimentar a equipa técnica e os atletas e o técnico Carlos Queirós virou-se para mim e disse: ´daqui para a frente o senhor tem de começar a ganhar´. Entendi perfeitamente os dizeres do treinador. A direcção aí tinha de ser forte, de arranjar antídotos, melhorar os prémios de jogos. Foi isso que nós fizemos e voltamos a ser campeões.

Que contributo pensa dar o seu contributo pessoal a selecção durante a Taça das Nações do próximo ano?
- Olha o meu apoio pessoal é sempre dado, mas por livre e espontânea vontade minha. Nunca fui convidado pela direcção da federação Angolana de Futebol para apoiar no que fosse a nível do CAN. Não pertenço a nenhuma comissão, não faço parte de nada e tudo quanto faço, mesmo ao nível dos órgãos de comunicação social, que fazem o favor de me pôr o microfone à frente, é sempre com sentido construtivo, com sentido de vencer, porque sou a todos os títulos um ganhador.

Sente-se, no entanto, motivado para continuar a contribuir com o seu saber para os êxitos do futebol angolano?
- Sinto-me e faço, porque sou um homem com 53 anos de dirigismo desportivo, embora esteja há quatro fora do activo. Sou o presidente honorário da FAF, mas não posso fazer mais nada, porque não quero que as pessoas que não me convidaram venham a pensar que estou a me imiscuir em coisas que não devo. Portanto, por uma questão de ética, de respeito, de posição e de personalidade própria, mantenho-me na minha concha e só transmito para os demais quando jornalistas vêm ter comigo e me fazem perguntas nesse sentido.

Sente que deixou bem marcadas as impressões digitais do seu trabalho nos anais da Federação de Futebol?
- Não tenho dúvidas nenhumas. Diariamente recebo manifestações anónimas de pessoas que não conheço. Quando vou ao supermercado, quando ando na rua, diariamente dizem-me que tem de voltar, tem de voltar e aponto para a minha cabeça para que eles vejam os meus cabelos todos brancos. Já dei o meu contributo. Diariamente as pessoas falam comigo e tenho cenas realmente lindas, pois há um senhor muito velhinho e amparado por uma senhora vem ter comigo e que me disse nunca deixe de dizer ´nem que chovam picaretas´ e eu digo: ´nem com elas a chover a gente está a ganhar´, mas ele insiste: ´diga sempre porque eu gosto de ouvir´. Isto é bonito.

"Temos obrigação de fazer o nosso melhor"

De que forma é que vê hoje a selecção nacional?
- Hoje não estou a trabalhar junto dos atletas e da selecção, no entanto, não estou abalizado para poder fazer um juízo de valores, mas fico triste quando vejo jogadores a chegarem tarde à selecção e a serem punidos pelo treinador, porque as justificações não foram convincentes e mais tarde saber, através da comunicação social, que a própria direcção da federação é que não criou as condições necessárias para que eles pudessem chegar mais cedo lá. Portanto, isso não pode acontecer. Fico admirado, porque vejo na composição das responsabilidades da direcção das selecções um senhor como Alves Simões, um homem sempre metido no futebol, que ganhou títulos, que organizou e mostrou ser organizado porque construiu aquele estádio e estes são aspectos organizativos, como é que ele não estrebucha, não grita.

Acha que a situação merecia a intervenção de Alves Simões, na qualidade de coordenador da selecção?
- Bem, não cabe a ele preparar as condições de viagem e estadia, mas ele prepara tudo em redor da selecção, porque as outras condições cabem à direcção da federação. Se assim for, há que chamar a responsabilidade para que isso não volte a acontecer, porque a nossa selecção, quanto a mim, está neste momento a trilhar um bom caminho, empatou com uma super equipa dos Camarões.

Agradou-lhe a exibição e o resultado?
- Não há dúvidas de que os camaroneses mostraram ser superiores, mas a nossa selecção voltou a jogar debilitada, precisamente por falta de valores que foram punidos por aspectos disciplinares. Isso já mais pode acontecer, porque a direcção da federação tem que tomar uma posição e responsabilizar as pessoas que dão origem a estas situações.

Acredita que com o Manucho e o Flávio a história teria sido outra?
- Acredito que sim. Se tivéssemos jogado com todos os elementos presentes, talvez pudéssemos fazer melhor. Repito: a selecção fez um bom jogo, mostrou coesão, querer, uma certa garra e colectivismo diferente, mas poderia ter mostrado muito mais, se estes aspectos colaterais não tivessem acontecido.

Dado o nível que tem estado a espelhar os Palancas nos jogos de preparação e aliando ao facto de disputar o CAN em casa, acredita que temos fortes possibilidades de superar a posição alcançada no Ghana´ 2008?
- Não tenho a menor dúvida. Porque senão vejamos: quem organiza somos nós e normalmente quem organiza quer vencer. Ou seja, quem parte e reparte e não fica com a maior parte é porque não tem ambição. Se nós entramos nesta senda, fizemos as despesas que fizemos, se conseguimos fazer estradas, pontes, hotéis, então desta vez as responsabilidades são diferentes. A mentalização do povo angolano modificou por completo. É aquele que vai catapultar a nossa selecção com fervor, alegria e com querer, porque vai impulsioná-la para frente. Os jogadores, imbuídos como estão deste mesmo espírito, com uma equipa técnica cujo treinador conhece bem o futebol africano, tem obrigação de fazer mais e melhor.

Acha que podemos exigir ao seleccionador a final do CAN como meta?
- Não. Não podemos fazer exigências ao treinador, porque o contratamos tarde. Em seis meses não se faz uma grande selecção. Estou admirado como é que ele neste momento já chegou ao nível que chegou. Portanto, esta exigência não poderá ser feita, mas se tivéssemos trabalhado de outra forma e esta contratação sido feita atempadamente, pelo menos podíamos motiva-lo para que esta exigência fosse cumprida.

Que comentário se lhe apraz fazer dos eventuais constrangimentos que pode representar para a organização da Taça das Nações os relatos de atrasos das obras dos estádios?
- Não há dúvida nenhuma de que é preocupante esta situação e mais preocupante ainda é a situação relativamente a Luanda, porque os outros acabam por vir mais ou menos muito apertadamente e fora dos prazos que tínhamos previstos. A situação do estádio de Luanda é preocupante, está muito mais atrasado, não tem sequer os acessos e parqueamentos, para não falar na relva. Queira Deus que a gente não venha a ter problemas com a realização deste CAN, por não terem entregue os estádios atempadamente. Ora, fico muito admirado que isso esteja a acontecer, porque as visitas dos inspectores da CAF foram tão acentuadas e tão criticas. Houve montes de pareceres, de conferências feitas pelos membros do COCAN e no fim ainda estamos a titubear sobre estes aspectos. Isso faz-me um pouco de espécie. 

Sente receio de que algo possa comprometer a prova?
- Mas como nós acabamos por ser milagreiros, acabamos por em África demonstrar que até somos um povo guerreiro, que terminou uma guerra, uma luta, muito embora a gente continue a lutar com a água e a luz que não temos quase diariamente. Espero que, efectivamente, este querer dos angolanos, está responsabilidade assumida pelos angolanos, possa fazer para que a gente saia de cabeça erguida, de cara lavada deste empreendimento. Vamos dar tempo ao tempo, vamos ter fé que tudo acabe pelo melhor. Há aqui dois aspectos diferentes: um que é o desportivo e outro da realização de uma actividade destas que é empreendedora, que obriga ao desenvolvimento das próprias cidades. E nós aqui, provamos, embora com um certo atraso para que não se duvide da capacidade dos angolanos.