Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Seleccionador de Moambique reala moralizao da equipa

Betumeleano Ferro|Maputo - 03 de Setembro, 2013

Seleccionador de Moambique reala moralizao da equipa

Fotografia: Jos Soares

A vossa preparao foi de superao no meio de muitas dificuldades. At que ponto isto vos pode ser prejudicial para atingir os objectivos traados para o mundial?
Conseguimos fazer tudo o que tnhamos planeado desde o incio. Realmente, enfrentamos muitas dificuldades, mas nunca permitimos que nos afectem. Em Maio, quando iniciaram os trabalhos, Pedro Nunes era o treinador. Ele passou-me o testemunho em Agosto e estou a dar sequncia ao trabalho iniciado com alguma antecedncia pelo meu antecessor.

A escolha do grupo final teve influncia no testemunho que recebeu ou procurou decidir com base nas suas convices?
O plano de preparao obedecia a duas fases. Cheguei na segunda, na qual teria de trabalhar com menos atletas. Afastei os que tinha de afastar e escolhi os que considerei serem os melhores, em funo do desempenho que demonstraram nos treinos. O mais importante que a nossa programao est a ser cumprida a cem por cento, dentro dos nossos objectivos.

Os jogos de controlo com equipas em vez de seleces vo ajudar a conferir a qualidade competitiva para disputar o mundial em p de igualdade?
Vamos fazer um estgio de duas semanas e meia e prevemos realizar nove jogos com equipas de topo do hquei portugus como o Benfica, Sporting, Salesiana, Braga, enfim, so adversrios que servem muito bem aos nossos objectivos. Quando chegarmos a Angola, tencionamos realizar mais um jogo de controlo, em princpio, vai ser o ltimo, com uma das melhores equipas angolanas. Ainda estamos a ponderar antes de fazer a escolha final.

Moambique tem feito muitos treinos no recinto da Escola Portuguesa, cujo piso nada tem a ver com as quadras em que vai jogar. No teme que isto possa prejudicar o bom desempenho dos atletas?
Infelizmente, desde que c estou, ainda no realizamos um nico treino sequer num recinto que tenha o mesmo tipo de piso que vamos encontrar no mundial. Isso s vai acontecer no estgio que fizermos. Portanto, no por causa disso que vamos deixar de dar o nosso melhor. O esprito de abnegao parece ser uma divisa do seu grupo de trabalho, os jogadores vm das suas casas com meios prprios, mas suam como se tudo estivesse s mil maravilhas
O meu grupo de trabalho est moralizado. Vocs acabaram de v-lo a treinar, estamos a trabalhar com muita intensidade. Muitos deles sabem que no vo viajar, temos de reduzir o grupo, porque j temos atletas escolhidos em Portugal. H luta, h entrega e crena. Ento, s tenho de estar satisfeito com eles e com a federao.

A entrega dos atletas nos treinos aqueceu a cabea do treinador na hora da escolha para o estgio?
Nunca fcil fazer este tipo de escolhas, porque h sempre coisas complicadas. Mas de uma coisa estou certo, os que forem a Angola so os que merecem. Mas ateno! No estou a dizer que quem for afastado, no merecia ir ao estgio ou ao mundial. Felizmente, os meus jogadores compreendem que tenho de fazer a minha escolha, eles sabem que no vou escolher A, B, C ou D por ser quem , quero ser o mais justo possvel no final de tudo.

O sangue novo que vimos na quadra j um sinnimo de renovao ou apenas foi chamado para completar o grupo de trabalho?
Ainda bem que vocs repararam nos atletas que esto a treinar. J estamos a fazer uma renovao a pensar em 2015. Por isso, metemos muita malta jovem, temos dois jogadores de 16 anos, um de 18 e dois de 24. Estamos a comear a renovao. Como fcil de ver, nem todos vo ao estgio ou ao mundial, mas queremos incentiv-los a trabalhar para o futuro.

Que mais precisam de fazer os atletas internos para estarem no mesmo nvel dos que actuam em Portugal?
Precisamos de trabalhar mais horas. Esses jogadores precisam de mais horas de trabalho ao longo da semana. Se isto acontecesse, seguramente, chegariam com outras condies tcnicas e tcticas necessrias. Mas isso est a entrar aos poucos na cabea de cada um deles. Os prprios dirigentes da Federao e dos clubes comearam a perceber que importante reorganizar alguma coisa. Mas as infra-estruturas tambm so muito importantes para haver desenvolvimento. Precisamos de mais ringues para arrancar com a formao. Quantos mais midos tivermos, melhor. Assim, podemos ter o futuro assegurado, se virmos midos dos sete aos 14 anos a praticar hquei em patins.

Pelos vistos, tudo isto apenas vai acontecer quando aparecerem mais empreendedores como o presidente Nicolau Manjate?
O presidente Nicolau Manjate tem feito tudo para que nada nos falte. Apoia-nos muito, estou a adaptar-me bem a esta nova realidade que encontrei, estou aqui h quase um ms, mas como se estivesse em casa. No tenho de me queixar de nada. Sei que h dificuldades, mas prefiro enaltecer o desempenho de todos.


A empatia no seu discurso permite-nos ler nas entrelinhas que est a valer a pena esta sua primeira experincia em frica?
Estou a viver a minha primeira experincia em frica, mas estou a ser bem tratado. Todos me apoiam, o presidente da federao est a trabalhar para nos dar o melhor, o que importa ver que Moambique est a perceber que precisa acordar para ter origens mais puras e verdadeiras feitas mesmo aqui em Moambique. No estou a dizer que os de fora no esto a trabalhar, mas preciso investir na formao e nas infra-estruturas. Ainda no realizamos um nico treino sequer num recinto que tenha o mesmo tipo de piso que vamos encontrar no mundial.


MUNDIAL DE HQUEI EM PATINS
" As equipas v~sao respeitar-nos"


O feito alcanado em San Juan faz de Moambique o alvo a abater por todos os adversrios que vai enfrentar?

Vamos dar tudo o que temos. Estamos a preparar-nos para manter a mesma imagem do ltimo mundial em que fomos a equipa sensao. Agora perdemos este estatuto, porque todas as equipas j nos conhecem e vo respeitar-nos, mas vo aplicar-se mais contra ns. Todos os adversrios vo estar mais concentrados contra ns, mas vamos lutar com todas as nossas armas. isto que procuro mentalizar a este grupo a que se juntam aos quatro que militam em Portugal. Sabemos que cada jogo vai ser uma autntica final.

Moambique est em condies de ir ao encontro dos seus anseios, quando a competio interna mais fraca que a dos adversrios que vai enfrentar?
por estarmos atentos a isto que decidimos estagiar em Portugal. O nosso grande objectivo termos competio. J temos um esquema preparado, um sistema criado. Agora, s vamos precisar dar mais competio a todos os jogadores. Em Moambique, a competio interna feita de apenas 18 a 20 jogos por poca. muito pouco, porque vamos encontrar seleces como a de Angola que tem um campeonato mais forte, embora com poucas equipas tambm. A grande diferena entre ns que a seleco angolana faz muitos jogos de preparao. Ao longo dos ltimos dois anos, fez 30 a 40 jogos. Vamos tentar aproximar-nos mais das outras equipas das outras potncias.

Moambique vai viver um jogo de cada vez ou vai tentar provar aos adversrios que o feito de 2011 reflexo da sua evoluo?
O nosso grande objectivo pensar jogo a jogo. Primeiro tentar passar a fase de grupo para ficarmos entre as oito seleces apuradas, depois cada jogo vai ser uma autntica final. No importa se vamos defrontar os EUA, Itlia, seja l qual for o adversrio; vamos empenhar-nos como se estivssemos prestes a ganhar o campeonato do mundo.

A "intromisso" moambicana na elite do hquei mundial deve estar a espicaar os mais fortes para tentarem provar que a vossa seleco est num patamar em que no devia estar?

Quem est dentro do desporto sabe que no fcil manter ou at mesmo alcanar o quarto lugar num campeonato do mundo. Sabemos que h outras equipas com mais potencial. No h palavras para definir o que Moambique fez no ltimo mundial; foi como se tivesse ganho o mundial. Agora, temos de ir precavidos contra tudo e todos. Se conseguirmos repetir a mesma proeza, vou ter motivos para louvar os meus atletas.

Todos os adversrios da primeira fase so acessveis ou preferia estar num grupo mais confortvel?
Achei desde o incio que estamos num grupo complicado, porque os EUA so sempre uma incgnita. Pela experincia que tenho, d para concluir que capaz de tudo; nunca se sabe bem do que capaz; tanto pode aparecer com uma equipa competitiva e, noutro momento, com uma sem muita atitude competitiva. A Colmbia est a preparar-se em Espanha, h dois anos. Seguramente, no vai ser a mesma seleco dos ltimos anos, pois vai estar mais bem preparada. A Itlia est em fase de renovao, esta a garantir o futuro, mas tem jogadores que fazem 50 a 60 jogos por poca. Esto a ser bem orientados pelo Massimo Mariotte e pelo Roberto Cordelli, dois antigos jogadores habituados a rotinas de campeonatos do mundo. Para mim, a Itlia tem tudo para ser cabea-de-srie deste mundial, mas somos os cabea-de-srie. A Itlia uma seleco a ter em conta.

Pela avaliao que faz, d para concluir que Moambique tem de ser irrepreensvel em todos os momentos para superar a concorrncia?
A nossa estratgia em todos os jogos vai ser a mesma, garantir que a bola no entre na nossa baliza. Se conseguirmos isso e marcarmos mais golos que o adversrio, ento vou ter motivos para estar bastante satisfeito; significa que o nosso trabalho est a ser bem feito. Neste momento, todos os sectores da equipa ainda me preocupam bastante. Estamos a trabalhar tudo. mais fcil defender do que atacar. Normalmente, diz-se que mais fcil destruir do que construir, mas vamos tentar equilibrar os dois sectores. A linguagem do hquei universal. Agora, j no h mais nada para ser inventado, no h mais coisas a ser descobertas. Tenho 27 anos como treinador, j trabalhei em Espanha, Portugal, j fui vrias vezes a Angola com o Liceu de La Corunha participar no torneio Z Du. Ento, j est tudo inventado. S falta os jogadores assimilarem e meterem tudo na prtica.

O quarto lugar de Moambique e os investimentos feitos por Angola (torneios internacionais e construo de infra-estruturas) so sinais de que frica pode comear a escrever uma nova pgina no hquei mundial?

As grandes potncias continuam a ser Portugal, Espanha, Itlia e Argentina, estas so para mim as grandes favoritas conquista do trofu. Ainda assim, julgo que Angola pode ser includa neste lote, por ser a equipa anfitri e com oportunidades de chegar final, porque joga em casa. Angola fez trs excelentes pavilhes com condies para trabalhar. Se ns tambm tivssemos aqui (em Moambique) pelo menos dois com as mesmas condies, j estaramos muitos satisfeitos. Existe vontade, jogadores e midos para praticar. Agora, falta dar-lhes todas as condies favorveis. Mas bom tambm realar que no fcil fazer um atleta de alta competio, no em um ou dois anos que isto acontece. Esse processo demora anos e deve ser feito desde muito cedo; formar escolas, ter stios para comear a trabalhar e s depois aparecem os frutos. O moambicano como o brasileiro no futebol; tem razes e condies prprias para praticar esta modalidade. Agora, falta aperfeioar com horas de trabalho e condies para trabalhar.

capaz de apontar uma seleco capaz de ser a zebra do mundial?

Para mim vai ser a Frana. Por tudo o que tem feito nos ltimos anos, tem tudo para fazer uma boa figura; pode ser a grande surpresa deste mundial. Angola tambm pode ser includa entre as possveis surpresas pelas mesmas razes que a Frana.