Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Sempre acreditamos no ttulo

Melo Clemente - 28 de Outubro, 2011

Tcnico deposita confiana no elenco de Gustavo da Conceio

Fotografia: Jornal dos Desportos

 

Ainda no calor da conquista do XXII Campeonato Africano das Nações da em seniores femininos (Afrobasket) e o consequente apuramento aos Jogos Olímpicos de Londres, o seleccionador nacional, Aníbal Moreira, afirmou em entrevista ao Jornal dos Desportos que a conquista do ceptro africano foi o culminar de um projecto iniciado em 2005, quando lhe foi incumbida a responsabilidade de dirigir os destinos do cinco nacional. Apesar das homenagens de que têm sido alvo, o treinador lamentou a postura de algumas instituições que têm “denegrido” o trabalho da equipa técnica, dando todas as honras às jogadoras. 

 

Qual foi o segredo da conquista do título inédito?
Acredito que a chave do sucesso, como sempre, foi o trabalho, a forma como nos entregamos e fundamentalmente a determinação das jogadores durante a competição”.

O segundo lugar alcançado nos Jogos Africanos terá servido como incentivo para a conquista do Campeonato Africano?
Em parte, penso que sim. Mas, costumo dizer que este projecto já vem desde 2007, nos Jogos Africanos de Argel, altura em que voltamos a subir ao pódio. A partir daí, foi apenas uma questão de tempo, porque no Afrobasket de Antananarivo tivemos uma meia-final em que só não nos qualificamos para a final por infelicidade nossa. Portanto, aquilo foi um indicativo de que, num espaço muito curto, nos tornaríamos campeãs africanas”.

As dificuldades que tiveram durante a preparação, onde faltou um estágio e jogos de controlo com equipas cotadas a nível do mundo, a conquista do título não era mera ilusão?
Não diria uma mera ilusão, porque independentemente das dificuldades por que passamos, quer aquando da nossa preparação para os Jogos Africanos de Maputo, quer para o Campeonato Africano da Nações de Bamako, já tínhamos uma ideia do nosso potencial em África. Repito, em Antananarivo, isto em 2009, só não jogamos a final por falta de sorte, depois do prolongamento, onde havia quatro jogadoras com cinco faltas e, infelizmente, acabamos por perder o jogo. Aquilo, sim, foi um indicativo de que mais cedo agente chegaria ao título africano.

Como é que foi trabalhar as atletas no meio de tantas dificuldades?
Foi difícil, como é óbvio. Mas, em função do que tinha acontecido em 2007, nos Jogos de Argel, e no Afrobasket de 2009, em Antananarivo, utilizámos a experiência que tínhamos adquirido muito em função dos nossos erros e incutimos na mente das nossas jogadoras de que era possível conquistar o Campeonato Africano. Elas acreditaram nas suas capacidades e, felizmente, veio a acontecer para a alegria de todos os angolanos.

Foi fácil introduzirem na mente das jogadoras o espírito de superação?
É evidente que não, mas, aos poucos, as atletas foram percebendo que era necessário superar as dificuldades que tivemos durante a nossa preparação e, graças a Deus, elas conseguiram demonstrar a determinação durante toda a competição.

A eliminação da selecção caseira, o Mali, nas meias-finais terá contribuído para o êxito na final?
Acredito que sim. O facto de termos eliminado nas meias-finais a selecção da casa, no caso, o Mali, elevou o moral das nossas jogadoras que, diga-se, se superiorizaram em todos os aspectos.

Depois de terem perdido com o Senegal por mais de 20 pontos, durante a fase preliminar, passava na sua cabeça que era possível vergar as senegalesas?
Claro que sim. É preciso dizer que perdemos o jogo por mais de 20 pontos fundamentalmente porque chegamos tarde à competição e isso foi fatal. Numa situação normal, reconhecendo naturalmente as qualidades das jogadoras senegalesas, a selecção do Senegal nunca nos ganharia por mais de 20 pontos.

Na final, a partir de que momento é que deu conta de que o título estava do lado angolano? 
 O jogo da final foi extremamente equilibrado. Só nos últimos quatro minutos é que conseguimos fugir e, a partir daí, os nossos ataques passaram a ser mais controlados até ao apito final.

Sentiu-se, de alguma forma, surpreendido com a conquista do título africano?
De maneira alguma. A conquista da XXII edição do Afrobasket só foi o culminar de um projecto que começou em 2005, quando fui convidado pelo presidente da Federação Angolana de Basquetebol (FAB), o senhor Gustavo Vaz da Conceição, a assumir o comando da Selecção Nacional sénior feminina. Durante estes anos todos, direcção da FAB, equipa técnica e jogadoras trabalhámos arduamente para que a conquista do título africano fosse uma realidade.

Conhecendo a realidade do basquetebol angolano, a vossa convicção era de que, num espaço de quatro anos, seria possível arrebatar o troféu africano?
Tenho consciência das dificuldades que o nosso basquetebol atravessa internamente, desde a falta de apoios, números insuficientes de equipas enfim. Mas, depois da nossa participação nos Jogos Africanos de Argel, em 2007, e no Afrobasket de Antananarivo, em 2009, chegámos à conclusão que, com mais trabalho e espírito de sacrifício, éramos capazes de vergar as malianas e as senegalesas, que até então dominavam o basquetebol africano e, felizmente, conseguimos realizar essa proeza.

Está a querer dizer que a vossa determinação foi fundamental para o sucesso?
Exactamente. Nós sempre acreditamos e começamos a incutir essa mentalidade na cabeça das atletas independentemente das dificuldades que tivemos durante a nossa preparação.

O adversário da final foi curiosamente a mesma selecção com quem Angola disputou a final nos Jogos Africanos. O que faltou à Selecção Nacional para vencer os Jogos Africanos de Maputo?
Quem esteve atento ao jogo da final dos Jogos Africanos viu que a Selecção Nacional teve aí dois três minutos maus do terceiro quarto que nos foram fatais. Nessa etapa, o Senegal mudou para a defesa à zona pressionante dois, dois-um, que lhes permitiu ganhar uma vantagem considerável e, a partir daí, elas conseguiram gerir o marcador até ao apito final. Perdemos aquele final no terceiro período.
 
Erros que vocês souberam corrigir na final do Afrobasket…
Sem dúvidas…  

Delegação aguarda
premiação do Minjud

Os integrantes da Selecção Nacional aguardam, 28 dias depois de ter conquista a XXII edição do Campeonato Africano das Nações, prova realizada em Bamako (Mali), pelos prémios a que têm direito, a serem atribuídos pelo Ministério da Juventude e Desportos. O seleccionador nacional afirmou que não tem informação sobre quando vão receber os prémios, tanto pela conquista do título africano, como pela qualificação aos Jogos Olímpicos de Londres. “Ainda não recebemos o prémio a que temos direito do Ministério da Juventude e Desportos e nem sequer temos informações de quando iremos receber. Por isso, gostaria de fazer um alerta a quem de direito no sentido de solucionar esta questão dos prémios”.

Baterias viradas para Londres

Depois da euforia resultante da conquista do Campeonato Africano das Nações, Aníbal Moreira, técnico que aguarda a renovação do seu vínculo laboral com a direcção da Federação Angolana de Basquetebol (FAB), para a campanha Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, vai apresentar um plano de preparação para a Selecção Nacional que vai competir pela primeira vez ao mais alto nível, no caso, os Jogos Olímpicos.

Sabemos que terminou o seu contrato com a direcção da FAB após o termo do Afrobasket. Já renovou o seu vínculo laboral?
Infelizmente, ainda não renovei o meu contrato com a direcção da federação Angolana de Basquetebol. Mas eu acredito que, em breve, voltarei a renovar o meu contrato com a federação, até porque, pelas conversas que fui mantendo com o presidente Gustavo da Conceição, tudo indica que não haverá qualquer problema.

Não seria bom de tivesse já o seu contrato de trabalho assinado?
É evidente que sim. Mas, como disse, tenho conversado sistematicamente com o presidente de direcção e recebi verbalmente garantias de que irei conduzir os destinos da Selecção Nacional nos Jogos Olímpicos de Londres.

Depois da conquista do título inédito há que se pensar nos Jogos Olímpicos de Londres…
Absolutamente. A euforia pela conquista do título africano faz parte do passado. Há que começar a pensar já na  responsabilidade que temos para os Jogos Olímpicos, onde seremos os representantes do continente africano.

Já apresentou o plano de preparação à federação para a campanha Londres 2012?
Ainda não. Primeiro, tenho de saber da situação escolar de cada uma delas e só assim poderei elaborar um programa de preparação para apresentar à direcção da federação. Mas, penso apresentar esse plano nos próximos dias.

O que é que vai pedir para esta preparação?
É evidente que, para uma boa preparação, tendo em vista uma participação airosa nos Jogos Olímpicos, teremos que colocar no nosso programa alguns torneios internacionais, numa primeira fase aqui no país e posteriormente fora do país.

Sendo a primeira participação, o que se pode esperar do combinado nacional?
Primeiro, vamos trabalhar com muita dedicação no sentido de fazermos o nosso melhor. Neste aspecto, não tenho dúvidas de que vamos dar o nosso máximo.

Dar o máximo significa lutar para estar entre as oitos melhores selecções?
É prematuro estarmos aqui a falar de posições. Tenho consciência que a diferença entre o nível da nossa selecção e o das demais que estarão na prova é abismal. Mas, como disse, vamos tentar fazer o nosso melhor para dignificar, primeiro o basquetebol angolano, e, segundo, o basquetebol do continente africano.   

Seleccionador lamenta
postura da Fiba-África

Aníbal Moreira mostrou-se preocupado com a postura da Fiba-Afrique, que até ao momento ainda não calendarizou as suas actividades para a época desportiva 2011/2012. Para o seleccionador nacional, é importante que o organismo que tutela a modalidade no continente tenha já o seu calendário feito, para permitir que as equipas técnicas possam trabalhar sem grandes preocupações. “Neste momento, não sabemos quando serão disputadas as eliminatórias para a Taça dos Clubes Campeões Africanos. E, como sabe, as equipas que estão envolvidas, no caso, 1º de Agosto e Interclube, são as que maior número de atletas fornecem à Selecção Nacional. Tudo isso vai influenciar na nossa preparação”.

Técnico reconhece dificuldades
em manter o título do Afrobasket

O seleccionador nacional, Aníbal Moreira, considerou muito difícil Angola manter o título africano por largos anos, à semelhança do que aconteceu com a Selecção Nacional sénior masculina. “Sabemos que será extremamente difícil mantermos o título africano por largos anos. Conquistamos um título inédito, mas também temos consciência que é preciso haver continuidade, manter os níveis. nfelizmente, a nossa competição interna não dá muito isso. Vamos procurar melhorar a nossa competição para nos podermos manter no pódio por mais anos”. No entender do técnico, as demais selecções vão trabalhar para vergar a equipa nacional angolana. “Todas as selecções vão doravante preparar-se de outra forma para jogarem connosco. Vão respeitar-nos, como é evidente, como campeãs em título, mas temos de ter muito cuidado porque não vai ser fácil nos mantermos no top africano”.  

“Competição interna é muito débil”

O seleccionador nacional, Aníbal Moreira, afirmou sem evasivas que a competição doméstica, em termos de basquetebol feminino, é bastante débil. “A nossa competição interna é débil. Portanto, é impossível nos tornarmos uma potência em África se continuarmos a ter quatro equipas no nosso campeonato e onde apenas duas lutam pelo título. E quando falamos da nossa realidade interna, os treinadores das outras selecções não acreditam, porque, termos quatro equipas e só duas a competirem a alto nível, é complicado formar uma Selecção Nacional capaz de ombrear com as demais selecções”. Para Aníbal Moreira, é imperioso que se criem mais equipas de basquetebol feminino. “É preciso que mais equipas abram o basquetebol feminino, porque não podemos continuar com apenas quatro formações. Nem que seja apenas para a formação, numa primeira fase, para depois se pensar em outros patamares.

É imperiosa a reestruturação do basquetebol feminino?
Concordo plenamente. O basquetebol precisa de uma reestruturação, porque só assim teremos um leque maior para seleccionar as melhores atletas que possam defender as cores da bandeira em competições internacionais.

“Só estão a pensar nas atletas”

O seleccionador nacional de seniores femininos mostrou-se agastado com algumas situações que têm surgido nas homenagens à Selecção, onde, muitas vezes, a equipa técnica não é tida nem achada. “Não sei se (as pessoas) não sabem ou se o fazem propositadamente, mas a verdade é que só estão a pensar nas atletas, quando não deveria ser assim. Há um grupo de trabalho, que fez parte desta conquista e merece também ser estimulado”, desabafou Aníbal Moreira. Segundo o técnico, as atletas merecem todas as distinções e prémios possíveis, mas é preciso pensar no grupo no seu todo.

Neste particular, Aníbal Moreira, agradeceu o gesto do Governo Provincial de Luanda e do Ministério da Família e Promoção da Mulher que, nas suas homenagens, englobaram o grupo todo. “Gostaria de agradecer a algumas instituições, como o Governo Provincial de Luanda, a ministra da Família e Promoção da Mulher e a Universidade Lusíada que apesar das homenagens simbólicas e pequenas, enquadraram todo mundo”, disse.

Acordo com WNBA
agrada ao treinador


O técnico do cinco nacional aplaudiu a iniciativa do Ministério da Juventude e Desportos, que nos próximos dias vai rubricar um acordo com a WNBA (Liga Norte-americana de Basquetebol Feminino), que vai permitir à nossa selecção efectuar treinos com equipas norte-americanas. “Temos de aplaudir a iniciativa do Ministério da Juventude e Desportos, até porque foi promessa do senhor ministro, que a Selecção Nacional iria preparar-se nos Estados Unidos para os Jogos Olímpicos de Londres, fruto desse protocolo que vão assinar brevemente. Vamos aproveitar esta oportunidade para melhorarmos a nossa qualidade técnica, colectiva e individual”.