Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Ser treinador foi a concretizao de um sonho h muito almejado

Manuel Neto - 29 de Outubro, 2010

O futebol jovem e as infra-estruturas tambm mereceram ateno na conversa com o jovem treinador do Kabuscorp do Palanca.

Fotografia: Domingos Cadncia

Depois da carreira como jogador, Mbiavanga experimenta agora a de técnico.  Fale-nos, antes, um pouco da sua trajectória como futebolista
A minha carreira como futebolista foi óptima, tive alguns problemas na fase de formação pelo facto de na altura viver no internato de Sonabata, município de Bacongo, e devido o sistema de aquartelamento não me possibilitava praticar desporto. Outro empecilho era por parte do meu pai que priorizava os meus estudos ao invés do futebol. Mas na medida do possível fui fazendo alguns jogos no bairro e um dia tive a sorte de ser observado pelo presidente do Atlético do Congo, que me fez o convite para fazer parte da sua equipa.

E como o pai reagiu ao convite?
Com muita dificuldade. O senhor prontificou-se em pagar os meus estudos na capital, em detrimento do município, para facilitar a minha aproximação com o clube. Mas o meu pai não quis. O presidente comprou mobília e ofereceu à minha mãe, mesmo assim o meu pai insurgiu-se contra a minha mãe impedindo que o processo seguisse

o seu curso normal, razão que  obrigou o presidente do Atlético a levar o caso a tribunal. A minha mãe não teve outra hipótese senão me ir buscar à escola e integrar-me ao Atlético, onde fiquei apenas por uma época porque na segunda época o Motema ya Pembe conquistou o meu passe.

Foi bem sucedido no Motema?
Sim fui; sagrei-me campeão de África com 17 anos de idade, permaneci nesta equipa durante cinco anos, onde fiz uma carreira brilhante que mereceu por várias vezes o convite para a selecção do Congo. Tentei a sorte na Itália mas não fui bem sucedido até que ingressei no Petro de Luanda.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Foi em 2000/2001, quando ao serviço do Petro de Luanda cheguei à final da Taça dos Clubes Campeões. Fiz oito golos nesta competição e 13 no Girabola, e pela brilhante prestação mereci a renovação do contrato.

Ao longo da carreira futebolística ganhou muita coisa?
O suficiente como atleta, só não tive sorte na arena internacional, conforme perspectivara. Encontrei muitos empecilhos. Mas felizmente considero tudo quanto ganhei, porque vai de encontro com aquilo que fiz e não tenho nada a reclamar neste capítulo.

Acha que abandonou na hora certa?
Sim, porque acho que dei tudo que devia dar como futebolista. Hoje sou figura pública e é tempo de deixar o futebol para os mais novos. Aliás, não gostaria de abandonar em mau momento de forma desportiva. Pensava terminar com uma homenagem, combinei com o presidente da equipa, mas até gora ainda nada transpira. Vou continuar a aguardar, ele é um homem de palavra e acredito que vai cumprir com a promessa.

Como surge na pele de treinador de futebol?
Foi a concretização de um sonho há muito almejado, ou seja, sempre pensei enveredar pela carreira de treinador quando terminasse a carreira de futebolista, por isso, enquanto atleta, durante os treinos tinha a paciência de apontar a maior parte das sessões de treino e aliado ao curso que fizemos na Federação Angolana de Futebol tudo ficou mais fácil para começar a carreira de treinador.

Tem recebido subsídios de outras pessoas para melhorar cada vez mais o seu desempenho?
Humildemente falando, tenho recebido subsídios do Nzuzi André, Mário Calado, Romeu Filemon, Joaquim Muyumba, o Sérgio, do ASA, e o Drasco. Penso que estes contributos são bastante valiosos, uma vez que sou novo nesta carreira. Não obstante isso, depois da época terminar farei mais um curso no exterior para elevar os meus conhecimentos na matéria.

Como foi acolhido no seio do grupo?
Sem problemas, porque na pele de atleta já cultivava boas relações com os colegas, conversávamos muito, quer em termos familiares, quer de serviço, e isso tem valido muito para cimentar as nossas relações. Mas eles sabem que não devemos misturar o trabalho com a amizade para o bem dos objectivos do clube.

Assumiu a equipa num momento crítico, quando estavam em crise de resultados. Não receou não conseguir manter a equipa na primeira divisão?
Nunca pensei nisso, porque eu enquanto atleta já notava as falhas do conjunto, tentava falar com o treinador mas não me prestava atenção. Reconheço as qualidades dele, mas é certo que ele trabalhava mais a parte física do que a técnica, que é mau. Sabem que a experiência mostra que a equipa que segura a bola, trocando-a por mais tempo, tem mais probabilidade de ganhar, e é uma das coisas que faltava à equipa.

“Este Girabola
é o melhor que já vi”

Que avaliação faz do Girabola deste ano?
No meu ponto de vista é o melhor que já vi. Está muito competitivo, basta ver que o título só será definido na última jornada. Está diferente dos outros, nos quais o Petro de Luanda ou o 1º de Agosto já tinham o campeonato ganho há três ou quatro jornadas do fim, com diferenças de pontos abismais. E este ano já não aconteceu. Isso é bom para a evolução do nosso futebol.

Tem agora um ataque concretizador, com Daniel Mpele Mpele a se destacar. Acredita que ele será o melhor marcador?
Melhoramos a nossa frente de ataque, fruto de um trabalho aturado e hoje os golos vão aparecendo, sobretudo com a pontaria afinada de Mpele Mpele e não me restam dúvidas que ele será o melhor marcador do Girabola. Confio nele, é objectivo, maduro e gosta de ganhar. Ainda assim não gosta de perder, quando acontece chora e não come.

Fale sobre o vosso escalão de formação?
Penso que o nosso escalão de formação está no bom caminho, trabalhando com muito afinco, tanto é que todos os anos lançamos jovens para os escalões superiores. São os casos do trinco Djemba, o gurada-redes Gância e o central Miguel. Todos fazem dupla categoria e têm feito boa figura nos seniores.

Acha que as condições de trabalho que o país dispõe para este escalão são das melhores?
Acho que são as possíveis, mas a meu ver deve-se melhorar cada vez mais as condições nesta fase para que futuramente estes não apresentem grandes debilidades, sobretudo de ordem técnica. Sabe que é nos escalões de formação onde o atleta deve aprender os fundamentos básicos, por isso, toda a atenção deve estar virada a eles para uma melhor adaptação à matéria.

Qual é a sua opinião sobre o estado das infra-estruturas no paí  s?
Acho que devíamos apostar mais nesta componente muito importante para o desenvolvimento do desporto em qualquer sociedade. Mas apesar disso, temos conhecimento que o país está no bom caminho com a recuperação e construção de alguns recintos desportivos. Deste modo é preciso que nós os usuários saibamos fazer o melhor uso, e as pessoas de direito não parem com este trabalho e também se dediquem mais na conservação das mesmas para o desenvolvimento do desporto angolano.

Que impressão tem da Selecção Nacional de Angola nesta fase de mau momento?
Não gosto de falar da Selecção, mas tenho certeza que o técnico Zeca Amaral vai fazer um bom trabalho e este mau momento vai passar. Aliás, perder e ganhar são coisas do futebol e Angola tem potencial para fazer muito mais; é preciso acreditar e deixar o técnico fazer o seu trabalho.

Técnico não sabe se fica

Foi fácil traçar a estratégia para contrapor o mau momento que a equipa vivia?
Sim, eu estava consciente de que tínhamos um bom grupo de trabalho e dada a confiança que eles depositaram em mim, foi só juntar alguns atletas que estavam mal relacionados e colocar cada pedra no seu devido lugar, trabalhando mais a parte técnica e os frutos começaram a surgir com certa naturalidade.

Os resultados que tem alcançado poderão ser um indicador para permanecer no comando técnico da equipa?
É muito cedo pensar nisso, estou a começar e o importante é fazer o meu trabalho com profissionalismo e dedicação, e esperar que tudo seja decidido pela direcção. Mas devo adiantar que o mais importante para mim é aumentar cada vez mais as minhas qualidades profissionais.

Qual o moral do grupo nesta fase?
O moral do grupo é bastante alto, porque eu incuti na mente deles que tínhamos pela frente cinco finais, ou seja, todos os jogos que tínhamos pela frente eram autênticas finais. Assim temos cumprido à risca todos os desafios e graças a Deus temos sido bem sucedidos. Dizer que temos tido algumas dificuldades, sobretudo no que toca a lesões, mas temos sabido ultrapassá-las, fazendo com muita cautela as mudanças que se impõem no momento.

>> Quem é quem …

Mbiavanga Kapela é filho de Ndombaxi kapela Sebastião e Isabel Pontes. Nasceu na República Democrática do Congo.
Jogou futebol no Atlético do Congo, Motema Ya Pembe, Petro de Luanda, 1º de Agosto e Kabuscorp do Palanca. Actualmente é o técnico principal do Kabuscorp do Palanca.

Prato: Mufete
Bebida: Sumo
Equipa: Não tem
Ídolo: Vários
Música: Kizomba e Semba
Hobby: Assistir futebol
Religião: Protestante
Filme: Acção
Cidade- Paris
Calçado-42
Como se veste: ao fim-de-semana: Varia de acordo com o meio
Boleia ou volante: Volante
Princesa  encantada: Mãe