Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Somos um clube com estatuto"

Paulo Caculo - 16 de Setembro, 2019

Paulo Torres promete uma equipa a jogar com mais qualidade dentro de dois ou trs meses

Fotografia: Alberto Pedro | Edies Novembro

Paulo Torres é um exímio conversador. O treinador português, 47 anos, campeão do mundo de Sub-20, enquanto futebolista, protagoniza, este ano, ao serviço do Sagrada Esperança da Lunda Norte, a sua primeira experiência no campeonato angolano, Girabola Zap, com uma equipa fora de Luanda, depois de ter orientado o Interclube e o Kabuscorp do Palanca.
No seu quarto ano a treinar no Girabola Zap, Paulo Torres afirmou, em entrevista ao Jornal dos Desportos, durante a passagem da equipa diamantífera por Luanda, estar muito feliz em Angola e espera permanecer vários anos a trabalhar no país.
Sente-se privilegiado por ter orientado, até agora, apenas equipas que já foram campeãs da primeira divisão em Angola. O técnico português diz que "estou num clube com estatuto" e admite vir a ser campeão no grémio diamantífero, caso o projecto idealizado não venha a ser interrompido, à semelhança do que aconteceu no comando dos polícias e dos palanquinos.
O técnico do Sagrada Esperança aborda a experiência no Dundo com entusiasmo e  enorme realismo e faz rasgados elogios às condições de trabalho que encontrou no clube diamantífero, "está ao nível dos melhores clubes em Angola", rende-se à qualidade do jogador angolano, faz uma avaliação positiva do Girabola Zap e da Selecção Nacional.
O Sagrada Esperança marca, como treinador, a sua primeira experiência fora de Luanda. Como tem sido esta "aventura" pelo Dundo?
- Posso afirmar, sem medo de errar, que tem sido uma experiência bastante positiva. Devo confessar, que era meu objectivo trabalhar com uma equipa que não fosse de Luanda e não posso esconder isso. Quando cheguei a Angola, a minha intenção era trabalhar primeiro na capital do país e posteriormente conhecer outras realidades. Aconteceu este ano, estou satisfeito.
Como tem sido a adaptação?
- Espectacular. Sinto-me bem na província da Lunda-Norte. As pessoas têm sido fantásticas comigo, em todos os aspectos. Têm-me apoiado bastante e, naturalmente, os jogadores, direcção e todos os membros do clube. Acho que estão reunidas excelentes condições, para desenvolvermos um grande trabalho no Sagrada.
Apesar do pouco tempo no Dundo, já é possível fazer uma antevisão do que pode vir a ser esta experiência no Sagrada Esperança?
- Não tenho dúvidas nenhuma que sim. O Sagrada é um clube com carisma, mística e sente-se isso na província, quer no dia-a-dia com os adeptos, quer no contacto com as pessoas. O povo ama e vive o clube, com muita intensidade. Acho que isso é um ponto determinante, para uma equipa que quer crescer e tem muita coisa para fazer.
Quer com isso dizer que está satisfeito com as condições de trabalho que encontrou no clube diamantífero?
- Com certeza. As condições de trabalho que o clube tem são boas e não diferem nada dos maiores clubes de Angola. Encontrámos calor humano, sobretudo nos jogos em casa. Alegra-me a forma como os adeptos apoiam a equipa e a exigência. Acho ser extremamente positivo. Vejo no Dundo um projecto, que tem muita coisa para melhorar, mas que tem pontos fundamentais para crescermos como clube e como uma grande equipa que quer ganhar títulos e jogar as competições africanas ao mais alto nível. Temos tudo, uma massa associativa e adeptos que vive os jogos intensamente na província. É uma realidade que queremos aproveitar.
Acredita, então, ter tudo à sua disposição para satisfazer as exigências dos adeptos e da direcção do clube?
- Mas há, ainda, muito trabalho por fazer. Acredito que, com o tempo, paciência, cultura desportiva positiva e descoberta de novos jogadores na província, podemos alcançar os melhores objectivos. Antes de chegar ao Sagrada Esperança já tinha informações sobre a realidade do clube, porque faço um trabalho de "scouting" de todas as equipas do Girabola Zap. Nunca falei disso antes. Conheço a realidade de todos os clubes do campeonato, porque este é o meu trabalho. O Sagrada foi sempre um clube que desejei treinar, pela sua grandeza e por ter sido campeão.
Os adeptos do Sagrada Esperança podem sonhar com o regresso ao título do Girabola Zap já na presente época?
- É prematuro falar sobre o título. Não posso estar a prometer que vamos ganhar o campeonato, porque neste momento a minha equipa tem muita coisa para melhorar, independentemente de estar num nível muito positivo. A direcção quando me contratou, acima de tudo, foi para trabalhar muito e bem. Estou num clube que tem estatuto. Já foi campeão nacional. Temos muita coisa para melhorar, porque estamos no começo do campeonato e a competição ainda nem atingiu o primeiro terço.
O que é que se precisa melhorar na equipa?
- Estamos numa fase de criação de uma boa equipa. Sabemos onde temos de melhorar e mais à frente vamos ver até onde podemos chegar. Uma coisa prometo: esta equipa já está a jogar um futebol agradável e prometo que daqui a dois ou três meses a equipa vai jogar melhor futebol. Se formos capazes de jogar melhor futebol, naturalmente estaremos mais próximos de lutarmos pelo título.
De que forma os adeptos reagiram à sua chegada ao clube. Foi bem recebido?
- Sinto-me satisfeito com a maneira como o povo me recebeu na Lunda-Norte. Existe uma grande sintonia de todos. E quando falo em todos, refiro-me à equipa técnica, direcção, funcionários e todo pessoal afecto ao clube, desde a cozinheira até aos homens que tratam da relva. Toda a gente está envolvida no projecto. Sinto-me muito feliz, aliás, não senti nenhuma diferença, porque a minha maneira de estar na vida e objectivo é trabalhar. Portanto, tendo condições, bons jogadores e adeptos que apoiam a equipa, naturalmente que a adaptação tornou-se muito mais fácil e num nível muito positivo.

EXIGÊNCIAS E APOIO
Treinador elogia sócios e adeptos


Está preparado para a pressão dos adeptos?

- No futebol não podemos fugir àquilo que são as exigências. Quando somos contratados é para arranjarmos soluções. Por isso, o clube me contratou. Os adeptos do Sagrada vivem intensamente os jogos da equipa. Temos 700 a 800 adeptos a assistirem os treinos todos os dias. Os nossos treinos são sempre à porta aberta, porque não faz sentido fechar à porta aos nossos apoiantes. Eles têm de sentir como é que estamos a trabalhar.  Há sempre uma saudação do plantel aos adeptos, antes e após os treinos. Estamos sempre disponíveis a conviver com eles, independentemente da opinião deles. É uma coisa que estamos a criar e que temos sido muito bem sucedidos. As pessoas sentem-se satisfeitas e importantes.
Nesta sua experiência pelo futebol angolano tem orientado apenas equipas que já foram campeãs do Girabola. Concorda que carrega sobre os "ombros" uma grande responsabilidade de tentar reencaminhar a equipa do Sagrada aos títulos?
- Penso que isso aumenta a minha responsabilidade. Também vim de um país,
a Guiné-Bissau, onde também habituei-me a ganhar. Fui campeão do mundo de Sub-20 com Portugal, enquanto futebolista. Considero que a minha passagem pela Guiné-Bissau serviu de trampolim para que chegasse a este nível de Angola, que considero superior. Comecei a treinar a selecção da Guiné-Bissau, tive a sorte de fazer parte da equipa que apurou a selecção, pela primeira vez na história do país, para um CAN. Portanto, só falta ser campeão em Angola.

PLANTEL
"Sagrada está a crescer de nível"


Sente que a equipa já joga de acordo com o seu estilo e concepção de futebol?

- Fizemos uma pré-época bastante positiva em Benguela, em que a equipa e jogadores perceberam claramente quais eram as nossas metodologias de trabalho e aquilo que eram as nossas ideias de jogo e organização. Fiquei muito satisfeito com o resultado e desenvolvimento da minha equipa. O Sagrada tem tudo para ser um grande projecto de nível mundial.
A equipa começou o campeonato de forma irrepreensível, mas teve uma quebra nas jornadas seguintes. Como justifica esta irregularidade no rendimento dos seus jogadores?
- Começámos o campeonato com uma exibição espectacular  frente ao Interclube. Fizemos quatro golos, mas podíamos ter feito sete ou mais. Falhámos mais três golos claros. Não ganhámos ao Bravos do Maquis e ao 1º de Agosto, apesar de que continuamos a jogar bom futebol, por falta de eficácia ofensiva. Mas perdemos os dois últimos jogos com honra, de cabeça levantada. A equipa está boa, a crescer de nível e, naturalmente que há ainda um caminho longo pela frente.
Já conseguiu digerir as derrotas com o FC Bravos do Maquis e o 1º de Agosto?
-O que tenho a dizer é que a minha equipa, nas duas últimas jornadas, esteve bem, fez bons jogos. Fizemos o suficiente para vencer. Contra o Bravos do Maquis foi um jogo muito táctico e acabámos por perder nos últimos quatro minutos. Mas a minha equipa trabalhou muito. Diante do 1º de Agosto, a minha equipa teve uma exibição positiva e quem viu o jogo percebeu que foi uma partida que disputámos taco-a-taco, de bom nível. No fim sofremos o penálti e a seguir tivemos a expulsão do Joca. Fico de consciência tranquila e satisfeito, porque os meus jogadores estiveram muito bem.
Está satisfeito com o plantel à sua disposição?
- Tenho um plantel que me satisfaz. Mas, como deve perceber, numa equipa como o Sagrada, os jogadores nunca podem se sentir cómodos, porque há muitos atletas que querem vir para a nossa equipa. Digo aos meus jogadores que somos uns privilegiados, porque estamos a trabalhar numa equipa com condições e isso obriga-nos a trabalhar muito mais e melhor. Um plantel como do Sagrada nunca está fechado. A gente quer sempre os melhores jogadores e de melhor qualidade. Quando terminar a primeira volta do campeonato, vamos fazer uma avaliação, para saber onde estivemos bem e onde podemos melhorar. Por enquanto, estou satisfeito.

Técnico lamenta ponição
"Girabola sem o Kabuscorp perdeu emoção e espectáculo"

Está preparado para a pressão dos adeptos?

- No futebol não podemos fugir àquilo que são as exigências. Quando somos contratados é para arranjarmos soluções. Por isso, o clube me contratou. Os adeptos do Sagrada vivem intensamente os jogos da equipa. Temos 700 a 800 adeptos a assistirem os treinos todos os dias. Os nossos treinos são sempre à porta aberta, porque não faz sentido fechar à porta aos nossos apoiantes. Eles têm de sentir como é que estamos a trabalhar.  Há sempre uma saudação do plantel aos adeptos, antes e após os treinos. Estamos sempre disponíveis a conviver com eles, independentemente da opinião deles. É uma coisa que estamos a criar e que temos sido muito bem sucedidos. As pessoas sentem-se satisfeitas e importantes.

Nesta sua experiência pelo futebol angolano tem orientado apenas equipas que já foram campeãs do Girabola. Concorda que carrega sobre os "ombros" uma grande responsabilidade de tentar reencaminhar a equipa do Sagrada aos títulos?
- Penso que isso aumenta a minha responsabilidade. Também vim de um país,
a Guiné-Bissau, onde também habituei-me a ganhar. Fui campeão do mundo de Sub-20 com Portugal, enquanto futebolista. Considero que a minha passagem pela Guiné-Bissau serviu de trampolim para que chegasse a este nível de Angola, que considero superior. Comecei a treinar a selecção da Guiné-Bissau, tive a sorte de fazer parte da equipa que apurou a selecção, pela primeira vez na história do país, para um CAN. Portanto, só falta ser campeão em Angola.

AVALIAÇÃO DO FUTEBOL ANGOLANO
Torres defende critica construtiva


Que avaliação faz do nível do futebol angolano?
- O futuro do futebol angolano passa, necessariamente, por uma responsabilidade grande de todos os intervenientes. Angola tem uma geração de jogadores fantástica. Temos jogadores jovens, com muita qualidade e que vão aparecendo nos clubes. Uns já com estatutos, como é o caso do Show e do Gelson Dala, que acabaram por sair do 1º de Agosto para o exterior do país. Mas existem outros com qualidade para sair para o futebol europeu.
Sente-se confortável com a qualidade e o nível de organização do Girabola Zap, isso em relação as outras realidades onde trabalhou?
- Esta é uma pergunta que considero importante ser feita e, mais do que isso, ajuda a perceber o que nós sentimos. Não falo como português, porque sinto-me em Angola como se fosse angolano. Aliás, não me importava nada em ser angolano. Gosto muito de estar aqui e espero ficar aqui vários anos, porque me sinto bem. Penso que está na altura de todos nos unirmos, em prol da grande riqueza natural que temos. Agora, temos de passar mais para a prática e deixar mais a teoria. Falar menos e trabalhar mais. O futebol angolano, tem uma característica que admiro muito. O futebol angolano tem um dom natural. Existe aqui uma "mina de ouro" de jogadores de qualidade.
E o modelo de programação do campeonato?
- As vezes as pessoas pensam que sobre a organização é fácil falar mal. Devemos deixar de criar a critica destrutiva e que serve apenas para bater no outro. Temos o principal, que é a qualidade futebolística e os jogadores. O trabalho é enorme. Temos jogadores fantásticos e muitos países gostariam de ter um povo, que gosta de futebol e estádios com adeptos. E não temos mais gente nos estádios, porque sabemos das dificuldades. O que estamos a espera para colocar Angola ao mais alto nível e para se tornar uma potencia do futebol africano e mundial? Temos tudo! Temos de ter uma critica construtiva e percebermos o que é que não está bem.