Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Sou um homem de desafios

Matias Adriano - 11 de Dezembro, 2017

Rui Campos presidente do Benfica do Libolo

Fotografia: Edições Novembro

Rui Campos já não é o presidente do Recreativo do Libolo. Os nossos leitores podem obter um melhor esclarecimento?
Bom, o facto de ser eleito em Abril, em Addis Abeba, para o Comité Executivo da Confederação Africana de Futebol, fez com que decidisse por uma questão de conflito de interesses, retirar-me da presidência do Recreativo do Libolo. Portanto, fiz uma renúncia ao cargo, pelo facto de ter sido reeleito na última assembleia-geral do clube para um mandato de quatro anos, e constituiu-se uma Comissão de Gestão da qual não faço parte.

Consta que a comissão é liderada pelo senhor. Estaremos perante uma informação que não corresponde à verdade?

É falsa. Não faço parte da Comissão de Gestão. O que é real é que prestei a minha colaboração até que terminou o calendário dos compromissos do futebol. Agora, vai se seguir uma assembleia-geral extraordinária ainda este mês, que vai eleger a nova direcção, o novo presidente e a sua equipa de trabalho, para dar sequência àquilo que estávamos a fazer nos últimos anos e manter o clube no mesmo patamar.

Permita-nos espreitar a lista de possíveis candidatos que se perfilam na corrida à sua sucessão, na presidência do clube?
Só posso dizer que há nomes em cima da mesa. É um assunto do qual estou alheio, não me quero interferir nisso, porque as pessoas têm tendência de pensar que venha a ser eleito alguém  por minha influência. Estou independente em relação ao assunto. Agora, poderei obviamente colaborar para aquilo a que venha a ser solicitado, por quem vier a ficar na liderança do clube. Mas, manterei a minha posição de equidistância em relação ao futebol, porque a posição que tenho na CAF assim o exige. Portanto, fique claro, Rui Campos já não é mais presidente do Recreativo do Libolo.

Portanto, realiza-se ainda este mês a assembleia-geral extraordinária que vai eleger a nova  direcção do Recreativo do Libolo. Pode avançar a data exacta do conclave?
Por enquanto, não há ainda uma data definida para o acto, penso que a Mesa de Assembleia-Geral do clube estará a trabalhar no processo, e a qualquer altura pode pronunciar-se sobre a realização da assembleia-geral.

A época futebolística do clube esteve um pouco aquém daquilo a que o Libolo nos acostumou, ao longo dos últimos anos. A baixa safra teve a ver com a falta de liderança?
Nós tínhamos decidido, desde o início da época, reduzir o orçamento do clube. Aliás, é algo que vínhamos a fazer já há dois anos. Os tempos estão difíceis e os patrocínios não estão  tão fáceis, como eram aí há uns tempos, e isto, obviamente, afecta o desempenho e a qualidade da equipa. Muitos outros clubes fizeram o mesmo, porque estamos todos dentro de uma mesma realidade, e digamos que isso fez com que continuássemos competitivos, mas com uma fasquia relativamente baixa. Aliás, diria mesmo que em termos gerais, todo Girabola foi assim. Sobressaíram aqueles clubes que têm orçamento oriundo de dinheiros públicos, que não digo que não foram afectados, mas foram menos afectados. E, isto determinou o desempenho da equipa. Mas que em termos gerais a qualidade do Girabola baixou, baixou.

 Só foi a redução do orçamento que determinou a baixa produtividade da equipa ou o distanciamento do presidente também contou?
Também, obviamente. Quando se baixa o orçamento afecta a qualidade da equipa técnica, a qualidade de atletas, enfim, digamos a qualidade de conforto de todo o grupo, e isto faz realmente com que tudo se passe num patamar algo turbulento, não num caos, mas num clima pouco tranquilo. Depois da minha eleição na CAF, e em face do enquadramento a que tive que corresponder, viajo todos os meses para as reuniões deste órgão, às vezes até da FIFA, mas que têm a ver com a CAF, e isto levou a que a proximidade que sempre tive à equipa de futebol ficasse afectada. Por aí posso dizer, que mesmo que não houvesse conflito de interesses entre ser membro da CAF e presidente do Recreativo do Libolo, haveria a questão que permaneceria sempre, então isto reforça a ideia de ser correcto que seja outra pessoa a liderar o clube, para que este possa manter as suas ambições.

Na \"hora da largada\", que é sempre difícil a quem gosta daquilo que faz, qual o balanço do seu consulado à frente do histórico emblema do Cuanza - Sul?
Estive dez anos no Recreativo do Libolo, o primeiro foi de reactivação, os dois seguintes na segunda divisão e sete no Girabola. Nos sete anos do Girabola tivemos um desempenho exemplar, digo mesmo que a equipa marcou uma época, atingiu patamares de que todos nos orgulhamos, e podemos concluir, por esta ordem, que o legado que fica é bom. Lançamos as bases e desenvolvemos a infra-estrutura que está lá no Libolo, para que quem seja que venha pegar no clube continue o trabalho. A organização está lá, algumas pessoas permanecerão e farão a continuidade,  para que não se comece do zero, de modo a que tenhamos um Libolo competitivo à imagem daquilo que nos habituou.

Estará perturbado com algo que gostaria de fazer durante o mandato, mas por alguma razão ficou inconclusivo?
Na verdade, não fizemos tudo. Algumas coisas ficaram por fazer, nomeadamente, a construção do centro de formação e de treinos, porque a partir de determinada altura a situação económica do país não estava em conformidade com aquilo que era preciso, para que isto fosse concretizado. Mas tenho fé,  que novos tempos virão e a construção desse centro de treinos seja uma realidade, e fechar o ciclo a que nos propusemos para robustecer o clube, e a partir daí dar-se mais atenção à formação e à camada jovem, porque é por aí que temos de ir.


“Gosto fazer as coisas
com coração e paixão”


Podemos considerar o senhor um homem de desafios ou nem por isso?
Deixa-me dizer que deu imenso gozo relançar o Recreativo do Libolo e termos tido a performance que tivemos. Eu era uma pessoa que gostava muito de futebol, mas que não tinha experiência do detalhe da gestão de futebol, e aprendi isto ao longo destes sete anos de Girabola, o que considero ser um activo, um capital que fica para poder continuar a servir o futebol. Agora estou no futebol africano, no futebol angolano indirectamente, mais ligado ao futebol do continente e não sou hipócrita para não reconhecer que foi aquilo que aprendi no nosso futebol que eu tento transpor para outra realidade, para que o que é bom seja replicado e os erros que cometemos não sejam replicados noutras instâncias. Portanto, para mim foi um período de imenso regozijo, de imenso prazer. Enfim, sou uma pessoa que se apaixona por aquilo que faz, pelas pessoas e com os projectos, e quando decido fazer uma alguma coisa faço-o com coração, faço-o com paixão.

Os candidatos à presidência do Recreativo do Libolo são pessoas já familiarizadas com o clube ou estranhas a ele?

São pessoas, também não tantas assim, cujos nomes não vou citar por uma questão de delicadeza para com elas, mas que gostam muito do futebol e com alguma experiência na gestão desportiva. São todas do Libolo, e creio que o clube estará bem servido com quem vier a ser eleito. Espero que saiba prosseguir o projecto com a tranquilidade e com a ambição que nós o fizemos nas nossas acções.

Nota-se que o Recreativo do Libolo é gerido com o rigor e disciplina de uma empresa privada. Poderá a próxima direcção manter a mesma divisa?
Espero que sim, porque em algumas vezes eu disse que uma das características do Recreativo do Libolo era ter uma gestão muito centralizada, com muito pouca gente e as coisas têm funcionado. Estava tudo muito centralizado em termos de gestão. Foi um estilo que eu imprimi, mas quem vier poderá ter um outro estilo, até porque os tempos não estão fáceis para que se adoptem estruturas alargadas. Eu creio que o clube vai manter uma estrutura curta mas eficiente para manter o projecto. Mas, quem vier saberá como implementar o seu estilo de gestão.

Para lá da gestão e de outras condições também nas lideranças coloca-se, às vezes, a questão do carisma. Há líderes que vencem com esta arma e outros que perdem por falta dela. Quer comentar?
É assim: geralmente o presidente tem sob sua responsabilidade a condução dos destinos do clube, mas sobretudo escolher os recursos chaves, como treinador principal (que por sua vez  formará a equipa técnica), os directores desportivos que, em regra, são de sua confiança, e só por ai, com mais carisma ou menos carisma, poderá manter o ascendente sobre os quadros do clube. Tenho esperança que as coisas continuarão tranquilamente. Claro que não haverá um outro Rui Campos, Rui Campos sou eu, mas haverá uma outra pessoa, que, se calhar, irá fazer melhor do que eu, porque somos todos diferentes.

SPORT LIBOLO E BENFICA
Um novo clube em Calulo


Gostaríamos perceber melhor o que é o Sport Libolo e Benfica e que ligações tem com o Recreativo do Libolo?
É bom que fique clarificado que Recreativo do Libolo é um clube e Sport Libolo e Benfica é outro, ambos com sedes em Calulo.  O que aconteceu é que o Recreativo do Libolo deixou de ter basquetebol, só tem futebol e em Calulo constituiu-se outro clube que é o Sport Libolo e Benfica que, de momento, só tem basquetebol. Ora, do Sport Libolo e Benfica eu posso ser presidente, porque o basquetebol não tem conflito de interesses com o futebol da Confederação Africana de Futebol. CAF é futebol, Fifa é futebol não é basquetebol. Portanto, foi também uma forma de auxiliar o meu sucessor não só na questão orçamental mas também para que não tenha uma grande carga em termos de gestão. Portanto, o Recreativo cessou a sua actividade com o basquetebol e cedeu formalmente os direitos desportivos ao Benfica que são de participar em competições em que o Recreativo tinha direito pelo facto de ter ganho a Taça de Angola e ter sido campeão nacional etc, etc.

Foram cumpridos todos procedimentos constitutivos? O novo clube já está inscrito na Fiba-África?
Sim. Aliás, tão logo inscrevemos o Sport Libolo e Benfica na Fiba-África este órgão mandou logo o convite para que pudéssemos participar na fase preliminar da Champions, que ganhamos e estaremos dentro de alguns dias na Tunísia na fase final.

O Sport Libolo e Benfica já tem uma direcção constituída?
Sim. Já foi realizada a primeira assembleia-geral do clube em que foi eleita a sua direcção e os membros integrantes da Mesa de Assembleia-Geral e outros órgãos como o Conselho Fiscal por ai em diante, sendo que eu sou o presidente de direcção.

E os símbolos dos dois clubes se diferenciam?
São diferentes. O Recreativo continua igualzinho, só que não tem basquetebol e o Sport Libolo e Benfica é um clube novo e tem o símbolo adoptado do Sport Lisboa e Benfica, que também tem o Sport Luanda e Benfica. Portanto, o símbolo é igual com as devidas adaptações, como aliás se pode ver nas camisolas dos jogadores de basquetebol.

Existe alguma perspectiva de se estabelecer uma parceria com o Sport Lisboa e Benfica?
Estamos a tratar, e já vamos na fase de finalização, desta parceria. Foi feito o pedido para o Sport Libolo e Benfica ser filial do Sport Lisboa e Benfica de modo que ambos os clubes possam futuramente desfrutar dos benefícios que a mesma parceria possa proporcionar.

O basquetebol será a única modalidade do novo clube de Calulo ou está em agenda a possibilidade de encaixar outras a médio ou curto prazo?
Bom, sendo que as agremiações desportivas devem ter no mínimo três modalidades, vamos ver que modalidades mais podemos acrescentar, talvez mais duas. Vamos pensar no xadrez, ténis, enfim modalidades que não sejam onerosas em termos de orçamento. Mas, o foco da colectividade é essencialmente o basquetebol.

O clube tem sede própria ou funciona nas mesmas instalações do Recreativo do Libolo?
Tem sede própria em Calulo. O Recreativo tem a sua, fundada em 1942, e o Benfica tem a sua fundada este ano. Aliás, na História não se mexe. Em resumo, não há motivos para confusão, são dois clubes diferentes, tanto mais que a escritura do Benfica já foi publicada no Diário da República.

Quando dentro de 10, 20 ou mais anos se contar a trajectória da equipa de basquetebol do Benfica não vão contar os títulos conquistados na condição de Recreativo?
Não. Os títulos conquistados antes são da extinta equipa de basquetebol do Recreativo do Libolo e não podem contar. Portanto, aqui se começa a escrever a História de uma nova agremiação desportiva.

Em termos de patrocinadores como está o clube. Vai contar com os mesmos do Recreativo do Libolo ou tem outros?
No leque de patrocinadores que tínhamos no Recreativo do Libolo o grosso continua lá e dois passam à condição de patrocinadores oficiais do Sport  Libolo e Benfica.


Confederação africana de futebol
“Temos trabalhado muito”


Oito meses no Comité Executivo da Confederação Africana. Como têm sido estes primeiros instantes do seu exercício neste órgão que superintende o futebol continental?
Tem sido um período de muito trabalho. O Comité Executivo que, antigamente, reunia de dois em dois meses, desde que nós fomos eleitos já reuniu sete vezes. Porque tem sido um tempo de transição, de adoptar novas práticas, adoptar novos regulamentos, de propor alteração de estatutos para os congressos. Vai haver agora um congresso extraordinário em Janeiro para voltar a fazer algumas alterações estatutárias enfim. Estamos a tentar colocar a CAF no registo certo. Existem comissões que fazem o trabalho que propõem e o Comité Executivo reúne para analisar, aprovar ou não as propostas das comissões. Portanto, é isto que se tem passado e paralelamente procuramos pensar num novo estágio para o futebol africano, como desenvolver o futebol no Século 21 e o que é necessário para nos aproximarmos, em termos de qualidade, ao futebol de outros continentes.

A CAF já se pronuncia em língua portuguesa?
Já se deu algum passo neste sentido. Hoje pelo menos nas reuniões da CAF já há um número de tradução em português. Mas o objectivo não é este, isto é nada. O que se pretende é que os documentos emitidos em inglês e em francês também sejam emitidos em português. Os árabes também querem que a sua língua tenha espaço. Mas eu defendo que as línguas de trabalho da CAF, que são o inglês e o francês devem integrar também o português e o árabe.

O facto de ter sido proposto pelo candidato derrotado (Issa Hayatou) tem lhe causado alguma dificuldade ou nem por isso?
Não. Isso foi um assunto que eu comecei a tratar até antes da eleição, porque eu já encarava a possibilidade do presidente Hayatou vir a perder, como veio a acontecer, e digamos que uma colagem absoluta não era benéfica. Aliás, fui o único eleito, todos outros candidatos por si propostos não conseguiram votação suficiente. Eu falei algumas vezes com o presidente Hamad durante a campanha e ele pediu que eu apoiasse o projecto dele, e eu disse-lhe que apoiava o futebol africano e o projecto de quem estivesse à frente. Demo-nos muito bem e é uma pessoa que partilha comigo muitas ideias. Não existe este estigma de eu ter sido posposto pelo anterior presidente da CAF.