Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Sporting do Sumbe quer mística

Avelino Umba, enviado ao Sumbe - 25 de Setembro, 2010

João Anacleto promete resgatar a mística do Sporting do Sumbe

Fotografia: José Casimiro

Qual é a realidade do Sporting do Sumbe?
É um clube que já foi referência da cidade de Novo Redondo, hoje, Sumbe. Muitas figuras passaram aqui e engrandeceram a agremiação; alguns ainda residem na província e outros na diáspora. Uns tantos já faleceram. O Sporting do Sumbe não deixa de ser um clube com uma história rica no contexto nacional.

Como estão servidos de infra-estruturas?
O clube tem uma rica infra-estrutura. E sem medo de errar, em Angola, não há muitos clubes com privilégios de ostentar infra-estruturas semelhantes às do Sporting do Sumbe. Nas nossas instalações, há condições para a prática de diversas modalidades com destaque para o voleibol e o basquetebol; temos também uma sala de cinema e compartimentos para serviços administrativos.

Como conseguem suportar a manutenção e as modalidades que citou nos dias correntes?
O Sporting do Sumbe é um clube de referência e tem convénio com o Ministério da Educação que assenta no aproveitamento do nosso pavilhão para aulas de Educação Física, principalmente, as modalidades de basquetebol, andebol e futebol-de-salão. Esse intercâmbio permite ao nosso núcleo de andebol treinar com diferentes grupos de estudantes. Para além disso, promovemos duas actividades de extrema importância: o culturismo e as artes marciais.

O clube tem patrocinadores para suportar as despesas?
A agremiação vive dos esforços próprios, pois temos indivíduos na condição de sócios e outros que se identificam com o  Sporting do Sumbe; que dão a sua mão para manter as infra-estruturas intactas; são amigos do clube que aparecem e oferecem ajuda. Temos uma esplanada e um pequeno restaurante que, algumas vezes, dá algum rendimento para a manutenção e sobrevivência do clube.

Um clube de “referência” como o Sporting do Sumbe não consta entre os grandes do país, actualmente. O que estão a fazer para o resgate da mística?
Esta é a nossa maior preocupação e de todos os amantes do desporto, em geral, na província do Kwanza-Sul. O resgate da mística faz parte dos nossos objectivos. Estamos empenhados nas camadas mais jovens para atingir os grandes patamares, porque é nossa preocupação e dos agentes desportivos a formação de jovens nos diversos escalões, na província. Só assim, sairemos do marasmo e voltar a ser uma referência, como no passado.

Para tal é necessário que se tenham valores, humanos e financeiros. Que apoio tem das instituições que superintendem o desporto na província?
Vivemos da nossa sorte, pois não temos apoio das instituições governamentais e privadas. Com a visita de Sua Excelência, senhor Gonçalves Muandumba, Ministro da Juventude e Desportos, à nossa casa, vamos aguardar se, por acaso, transpirará alguma coisa, o que muito esperamos.

Como caracteriza a relação existente entre o Sporting do Sumbe e a Associação Provincial de Futebol (APF) local?
No futebol, existe uma extrema colaboração com a APF. Participámos, recentemente, no campeonato provincial com duas equipas: uma júnior e outra sénior. O estreitamento nos escalões de formação falou mais alto. A APF congrega um núcleo de jovens com uma massa considerável. Pretendemos manter o intercâmbio com a APF para nos fornecer os jovens do núcleo sob a sua alçada a fim de engrandecer o Sporting do Sumbe.

Com uma relação de se tirar o “chapéu”, por que não têm convénio assinado?
Se a Associação Provincial de Futebol tivesse autonomia financeira, acredito que o futebol estaria a bom caminho, na província do Kwanza-Sul. Temos relações excelentes; conhecemos bem quem lá está; é um staff com tudo para dirigir uma APF.

E quanto às outras modalidades?
Também temos um núcleo de andebol que mostra evolução; há trabalho nos escalões juniores e juvenis, embora reconheçamos que a massa praticante ainda não nos satisfaz.

“Estamos a actuar
na formação de jovens”


Que perspectivas existem para que os jovens do Sporting despontem no Girabola?
É objectivo de todos. Estamos a actuar na formação de jovens com a ajuda de um técnico contratado que trabalha com adolescentes nas zonas periférica e urbana.

Diz que o clube sobrevive às custas dos poucos fundos de sócios e de amigos. Como pensam elevar as camadas jovens sem a componente financeira?
Temos capacidade suficiente, pois há parceiros que, aos poucos, nos dão as ajudas sempre que for possível. É o caso da própria Associação Provincial de Futebol (APF). Aprendi que, quando não fazemos, os outros não aparecem, mas quando é o contrário, os outros seguem aquilo que estamos a fazer. Portanto, precisamos de fazer primeiro e pedir apoio, depois.

Para se cumprir cabalmente com as actividades programadas, precisa-se de dinheiro. Há orçamento para o efeito?
Não temos orçamento criado para o efeito, pois os valores que gastámos vêm dos esforços pessoais dos membros de diferentes órgãos sociais do clube, desde o presidente da Mesa de Assembleia-geral à do vice-presidente para o futebol. É verdade que estamos preocupados com esta situação, mas pretendemos fazer um estudo de viabilidade para se encontrar o valor que se precisa anualmente. Isso não significa que estamos alheios a valores gastos anualmente. Vamos fazer um trabalho mais minucioso para encontrar os valores dos gastos necessários.

Todos os associados pagam as quotas regularmente?
Nem todos os associados as pagam, o que nos obriga a fazer engenharia financeira. Participámos no campeonato provincial com duas equipas (sénior e júnior) e o suporte das despesas inerentes à transportação, alimentação e hospedagem no Wako Kungo, exigiu valores avultados. O mercado interno tem diversidade em termos de custos, o que não ficou por menos de 70.000 dólares

Que relações existem entre o Sporting do Sumbe e outros clubes da província?
As relações são boas, quer pessoais quer profissionais. Procuramos manter um vínculo com todas as entidades não só desportivas, mas também com a sociedade em geral. Destaco as relações mantidas com os presidentes da Associação Recreativo do Amboim (ARA), na pessoa do Jojó, e do presidente do Benfica, que algumas vezes falámos e trocámos ideias por telefone. Nesse capítulo, os clubes estão unidos no Kwanza-Sul.

Gestão independente do campo do Sumbe

A cidade do Sumbe ganha um campo de futebol que passa a ser gerido pela Administração Municipal. Que comentário se lhe oferece fazer?
Deve ser encontrado um outro organismo, talvez que passasse por um concurso público para gestão do recinto. As administrações municipais não têm capacidade de gestão de recintos como um estádio de futebol. Refiro-me que são instituições caracterizadas para outros objectos sociais, apesar de se lhes reconhecer que têm homens capacitados para o efeito. No entanto, o estádio devia ser gerido por um órgão independente, mas com um orçamento para a sua gestão.

Nesse sentido, com um orçamento apropriado, também pode ser a Administração Municipal a gerir o empreendimento…
Não concordo por uma questão muito simples e explico: as gestões têm as suas características, pois gerir um hospital não é o mesmo que gerir um restaurante. Da mesma forma que gerir um estádio de futebol não pode ser o mesmo que gerir uma Administração municipal. Cada responsabilidade tem a sua forma de gestão, razão pela qual não podemos misturar as coisas. O que quero dizer é que cada um está especializado em determinada área para responder aquilo que sabe fazer.

A garantia de uso do campo é de 12 meses. Como avalia a periodicidade?
Sou também formado em arquitectura e, pela experiência que tenho na área de construção, a manutenção do edifício depois de dois anos custa mais cara que a própria construção. Assim sendo, tinha de se equacionar bem esta questão, pois pelo que conheci do estádio, antes da sua restauração, o tempo de garantia vai contar muito com a manutenção durante este período.

Um empreendimento que orgulha os cidadãos do Sumbe…
A verdade que se diga: ganhamos um estádio que nunca tivemos, porquanto é uma mais valia para todos os amantes do desporto e do futebol, em particular, pois vai albergar muitos jovens para a prática do desporto que há muito não faziam em condições dignas.
Houve uma altura em que os jovens não sabiam aonde praticar o futebol, o que vai contrariar o passado, com um local de referência apropriado para efeito de lazer ou de competição.

Nota-se alguma nostalgia nas suas palavras…
Em 1979, enquanto militar das Forças Armadas Popular de Libertação de Angola (FAPLA), na província do Huambo, joguei o andebol, nos Belenenses, e mais tarde na Selecção Nacional ao lado de Paulo Bunze, Carlos Alberto e outros. Vim para o Sumbe ainda como jogador, onde tinha como treinador, o professor Sardinha de Castro. Logo, não sou paraquedista no desporto nacional. 

Uma palavra de apreço para os agentes desportivos…
Que se faça o aproveitamento racional do estádio, de formas que se usufrua da melhor maneira possível, pois o empreendimento custou dos cofres do Estado somas avultados de dinheiro para o bem de todos.

>> Perfil
Nome: João Anacleto
Naturalidade: Sumbe
Província: Kwanza-Sul
Nacionalidade: Angolana
Data de Nascimento: 23/08/1959
Estado civil: Casado
Profissão: Médico
Filhos: Três
Peso: 75 Kgs
Altura: 1,74m
Desporto ideal: Andebol
Tabaco: Não 
Música: Semba
Tempos Livres: Leitura