Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Surgimos no basquetebol federado por acaso

Valodia kambata - 18 de Dezembro, 2010

Cludio Dikani treinador da equipa senior masculina do Vila Estoril

Fotografia: Mota Ambrosio

Como surgiu a equipa do Vila Estoril?
Surgiu por acaso. Fazíamos pequenos jogos entre amigos no bairro. Uma vez, fomos a Benguela jogar e, ao que parece, terá impressionado algumas pessoas. De regresso a Luanda, fomos convidados a fazer jogos com o Desportivo da Huíla e Benfica de Lubango. Em seguida, o objectivo era acabar com a equipa, mas aconteceu que alguns jovens estavam já a levá-la a sério. Sentamos e acertamos, pois era muito difícil competir num campeonato a sério, sabendo que não tínhamos apoio. Acertamos e fomos para frente.

Tem sido fácil, sendo uma equipa pequena, enfrentar as mais conhecidas?
A minha equipa pode ser considerada guerreira, pois não tem condições e consegue enfrentar o Petro de Luanda, 1º de Agosto, entre outras colectividades. O mais importante é que estamos a competir num grande campeonato e com grandes equipas. Tenho a certeza que daqui sairão grandes basquetebolistas.

Estão nesta empreitada sem um patrocinador oficial...
Não temos patrocinador, nem orçamento, nem salários. Estamos na modalidade por gosto. A única pessoa que nos ajuda, com o aluguer do campo de jogos, é o Brigadeiro Walter. O equipamento que utilizamos é oferta do pai de um atleta.

Já tentaram arranjar patrocinador?
Várias vezes. Penso que a maioria ainda não conhece o Vila Estoril e está com receio. Mas estamos aqui a trabalhar cientes de que, algum dia, alguém nos vai ajudar. Vamos ver se não paramos. Quem nos quiser ajudar, estaremos de braços abertos.

E como ficam os prémios de jogo e salários dos atletas?
Os jogadores não têm salário, nem prémio de jogos. Os que queiram entram para a nossa equipa, antes têm uma conversa sobre a realidade da mesma.

Quem suporta os gastos diários?
Algumas despesas, eu assumo. Enquanto estiver aqui, vou ajudar a equipa.

Já procuraram contactar a Federação Angolana de Basquetebol no sentido de vos ajudar?
Escrevemos para a Federação, a mostrar a nossa intenção de participar no campeonato, mas não recebemos retorno, se calhar, porque na altura estavam preocupados com o Mundial. A posteriori, tivemos um encontro com o secretário-geral da Federação, que mandou uma delegação para averiguar as nossas condições, mas também não tivemos retorno.

Quantos atletas tem o clube?
O basquetebol, entre iniciados, juniores e seniores, tem 60 atletas.

O incentivo de Raul Duarte

Quando entrou para a carreira de treinador de basquetebol?
Comecei, oficialmente, no Misto da Lunda-Sul, a convite do antigo governador provincial Gonçalves Muandumba, numa altura em que a província precisava de treinadores formados. Aceitei o convite e fui para Saurimo, onde dei os primeiros passos.

Quem o incentivou?
Foi tudo graças ao treinador Raul Duarte.

O início foi fácil?
Não. Foi muito difícil. Trabalhar numa província onde o número de praticantes é reduzido torna-se difícil. Na Lunda-Sul, os basquetebolistas eram os mesmos que faziam todas as categorias. Eram juniores, seniores, enfim…Tornava-se necessário corrigir tudo. Quando comecei a trabalhar na base, e tivemos de começar com iniciados, muita gente não gostou e tivemos muitos problemas. Infelizmente, o projecto durou um ano, por falta de material desportivo.

E depois?...
A seguir, fui convidado para trabalhar no Bié e também tive o mesmo problema de falta de material desportivo. Foram dois anos de trabalho de base e, durante esse período, tivemos muitos jovens a praticar a modalidade. Hoje, já conseguimos ver alguns deles em equipas seniores.

Existe alguma referência do trabalho que faz nas províncias que citou?
A nossa principal referência é o Eduardo Migas (que começou connosco na Lunda-Sul). Foi ele quem mais me marcou, pois quase nada sabia de basquetebol e hoje é uma das grandes referências do país e de África.

Fale-nos do trabalho que fez na Casa do Pessoal do Porto do Lobito.
Lá as coisas foram completamente diferentes, pois já havia um treinador, o José Pontes. No Lobito, trabalhei com juniores, cadetes e iniciados femininos. Logo no primeiro ano, participamos no Campeonato Nacional de Juniores, em três meses de trabalho, e ficamos em quinto lugar, entre 10 equipas. No ano a seguir, por falta de atenção da direcção, a equipa desfez-se.

“Aprendi muito
com os outros treinadores”

Trabalhou em várias províncias. A seu ver, existem condições humanas e materiais para desenvolver o basquetebol fora de Luanda, Cabinda, Huíla e Kwanza-Sul?
Acho que sim. Por aquilo que vi no Bié, há muitos jovens com margem de progressão, sendo necessário apenas algumas condições de trabalho, como bolas, equipamentos e treinadores formados. Conheci um jovem de 12 anos que media quase dois metros de altura e era pastor de gado. Tentei trazê-lo para Luanda, mas os seus pais não aceitaram. Acredito que se lá houvesse pessoas formadas e com condições de trabalho, hoje teríamos um jovem de 12 anos e dois metros de altura no nosso basquetebol.

O que se deve fazer para massificar a modalidade em todo o país?
A Federação deve criar um departamento de prospecção de jogadores em campeonatos escolares, de rua e, a partir daí, sempre que surja um talento, encaminhá-lo a num programa de desenvolvimento. Existem muitos diamantes por lapidar nas províncias. Na altura em que estive no Bié, vi muita gente com vontade de treinar basquetebol.

Já foi adepto, jogador e dirigente do clube. Para ser treinadorm foi apenas um passo...
É um facto, já fiz de tudo no Vila Estoril e agora acumulo a função de treinador. Muita coisa que aplico e sei, aprendi com outros treinadores angolanos. O que aprendi como atleta, o que retive das épocas em que joguei, mesmo ao nível dos exercícios e de treinos, aplico agora como treinador.

Que aspectos do jogo trabalha mais?
Procuro trabalhar todos, apesar de tocar mais no trabalho de defesa. Acredito que é a defender que se ganha os jogos. A nossa equipa é a prova disso, pois este ano tem uma média de pouco mais de 50 pontos sofridos por partida. A boa defesa acaba por fazer parte da cultura do Vila Estoril. Em termos ofensivos, já não somos tão eficazes, na medida em que há dias em que os lançamentos não saem tão bem.

Como é a sua relação com os atletas?
Tento ser treinador e amigo dos meus atletas. Muitas vezes, digo-lhes que tenho de saber estar no papel deles e no meu ao mesmo tempo e quero que eles também saibam fazer o contrário. Durante o trabalho, temos de trabalhar. No fim, ou mesmo antes, brinco com eles, pois também fui atleta e sei que isso é importante. Mas tem de haver disciplina.

Formação técnica é fundamental

Como vê o seu futuro na modalidade?
Não penso nisso. Para já, estou no Vila Estoril e é algo que me dá muito prazer. Queremos levantar o clube e levá-lo a bom porto. Quem me dera, daqui a quatro anos, ver os meus atletas a jogar em grandes clubes. Isso dar-me-ia prazer.

Acha possível, algum dia, os treinadores viverem do desporto?
Não penso que seja possível, até porque os clubes vivem cada vez pior em termos financeiros. Neste momento, não tenho ordenado. Ando cá mais por gosto e o clube dá o que pode. Ainda assim, não duvido que hajam agremiações piores que o Vila Estoril nos dias que correm.

Que retorno recebe dos basquetebolistas?
Tem sido positivo. Os jogadores da minha equipa gostam muito de mim, o que terá a ver com o factor idade. Eles têm 18 a 20 anos e eu 31. Somos quase da mesma idade e, por isso, estou mais atento aos problemas do dia-a-dia deles. Esta relação treinador-atleta, às vezes, torna-se de irmão mais velho para mais novo. Todos os treinadores sabem o quanto é difícil gerir um grupo de jogadores. Quanto aos pais, digo o mesmo, mas há sempre desavenças.

E quanto às outras equipas?
Tenho contacto com jogadores de equipas adversárias, pois alguns foram meus atletas e sei que gostam de mim. Penso ser importante percorrer um caminho por etapas, ir aprendendo e apostar na formação. Acho que foi muito importante, por exemplo, no meu caso, fazer o Nível I, no qual aprendi muito com treinadores como o Raul Duarte, quer no que tem a ver com a minha postura perante os atletas quer ao nível técnico-táctico.