Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Sustentamos o xadrez com os nossos bolsos"

Valódia Kambata - 30 de Outubro, 2009

Carlos Frades pede maior engajamento das entidades de direito

Fotografia: José Soares

Como avalia o estado da associação que dirige?
A Associação Provincial de Xadrez de Luanda está bem, pois temos realizado várias actividades com os esforços financeiros dos próprios membros, o que dá vida à nossa modalidade.
Quer dizer que a associação trabalha com fundos dos seus dirigentes?
Sim. Existem muitas dificuldades e colmatamo-las com os nossos esforços por falta de apoio do Estado. Tudo que fazemos, como cumprir as actividades programadas, pagar árbitros e prémios são frutos do dinheiro que vem dos nossos bolsos. Por outras palavras, sustentamos o xadrez com os nossos bolsos.
A Direcção Provincial dos Desportos é a instituição responsável pela materialização da política desportiva em Luanda.

Qual é a vossa dependência dessa instituição?
É uma situação que não compreendemos. Dependemos directamente da Direcção Provincial dos Desportos de Luanda, mas não recebemos nenhum tipo de apoio. A política de apoio às associações desportivas deveria sofrer alguma mudança, pois com esta falta (de apoio) muita coisa não conseguimos materializar; o que deveria ter sido feito fica engavetado. Nesse momento, os feitos, que temos vindo a alcançar, resultam de trabalhos feitos há quinze anos, nos quais as associações provinciais tinham no seu elenco duas pessoas assalariadas, pelo menos. Desde que deixámos de ter esses benefícios, dificilmente, conseguimos concretizar os nossos objectivos.

Quais os projectos que não têm conseguido cumprir face à falta de verba?
 A massificação é um desses projectos que não conseguimos cumprir na íntegra por falta de apoio institucional. Há muito tempo que temos vindo a pedir a ajudar no sentido de desenvolvermos o programa de massificação da modalidade e conseguir alcançar as crianças nas escolas. Temos o projecto de levar o xadrez às escolas públicas, mas face à falta de apoio impede-nos de concretizá-lo. Com isso, é a modalidade que está em declínio. No interesse de algumas pessoas, temos feito alguns esforços levando alguns monitores a algumas escolas particulares.

Alguma vez mostraram o vosso descontentamento à Direcção Provincial dos Desportos de Luanda?
Várias vezes. A Governadora de Luanda, Francisca do Espírito Santo, quando assumiu o cargo, reuniu-se com as associações desportivas, o que para nós constituiu um grande passo e foi um sinal de que as coisas iriam mudar. Começou por disponibilizar quatro sedes para algumas associações. Daquele momento até aos nossos dias, nada mais. Já tentámos formar uma associação para tentar discutir os nossos direitos junto do Governo Provincial de Luanda, mas as coisas continuam na mesma. Não há desenvolvimento desportivo.

Que resposta recebem da direcção provincial face às vossas solicitações?
Recentemente, pedimos apoio para o último campeonato provincial e não tivemos resposta positiva. Se a Direcção Provincial dos Desportos de Luanda não tem muito, podia apoiar-nos com alguma coisa. Imagine realizar um campeonato sem apoio da Direcção Provincial! É extremamente difícil. Para que o xadrez não morra em Luanda, temos sido nós, responsáveis da associação, a custear as provas, tirando dinheiro do nosso bolso para ajudar a modalidade. Temos enviado, regularmente, os relatórios das nossas actividades à Direcção Provincial dos Desportos, nas quais constam os números de pedidos não satisfeitos.
 
Como têm feito para a realização do campeonato provincial?
É muito difícil realizar este campeonato. O Provincial Absoluto é o mais difícil de todos, pois é o torneio destinado a atletas de nível internacional e merecem prémios maiores. Felizmente, recebem aquilo que é possível, fruto da contribuição de cada um dos membros da direcção. É uma verba que também serve para pagar os árbitros bem como para manutenção de alguns materiais de escritórios
.
Por que não recorrem a patrocínios?
Já tentámos algumas vezes recorrer a patrocinadores, mas a resposta é que não podem apoiar as duas instituições, ou seja, a Federação e a Associação. No entanto, as instituições dão primazia à Federação. Das poucas vezes que conseguimos um patrocínio foi uma luta tremenda.

“Precisamos no mínimo
de vinte mil dólares”

Qual tem sido o apoio da Federação angolana de xadrez?
É a única instituição que nos tem apoiado. Temos recebido material de trabalho, de escritórios e alguns softwares. O local, onde está instalada a Associação Provincial de Xadrez de Luanda também é pertença da Federação. Isso ilustra o quanto somos apoiados pela pessoa do presidente da Federação Angolana de Xadrez.
Na presente época desportiva, qual é o valor total suportado pelos vossos bolsos?
Isso é coisa que não gostaríamos de falar. Temo-lo guardado para apresentar na reunião de prestação de contas, embora todos saibam que não é dinheiro proveniente de algum patrocinador. Revelar o valor, não vale a pena; o mais importante é que continuemos a apoiar o xadrez, o que, para nós, é um grande prazer.

Quanto precisam para satisfazer as vossas necessidades numa época?
No mínimo, 20 mil dólares (cerca de 1,7 milhões de kwanzas). Com este valor, acredito que conseguiríamos resolver não todos, mas uma boa parte dos nossos problemas, principalmente, a massificação.

Qual o número de praticantes controlados pela associação?
Temos cerca de 350 atletas provenientes de quatro clubes e 20 núcleos dentro da província de Luanda.
Com a falta de verba que tipo de trabalhos têm feito ao longo da época?
Dedicamo-nos a abrir alguns núcleos de xadrez nos bairros. Não podemos ir mais longe, porque não temos apoios. Agora, vamos tentar entrar nas escolas e fazer com que o xadrez seja uma das actividades extra-curricular.

O xadrez tem sido marginalizado?
Um pouco. Basta ver que nas outras modalidades como o Andebol, futebol ou basquetebol sempre estão bem apoiadas, mesmo sabendo que vão trazer uma medalha de ouro. O xadrez pode trazer medalhas ao país. Por exemplo, numa Olimpíada, podemos trazer duas ou três medalhas. Agora, pergunto: por que não nos apoiam como as outras modalidades?

Intenção é atingir as escolas

A vossa estratégia de massificação passa pela abertura de núcleos nos bairros. Como mantê-los funcionais, se não dispõem de verbas?
A nossa intenção é levar o xadrez a todas as escolas de Luanda, se tivermos verbas. Temos mantido os núcleos existentes com a ajuda da Federação Angolana de Xadrez, embora tenhamos pouco material. Na medida do possível, mantemo-las abertas para que consigamos preservar o movimento escaquístico nessas zonas. Recentemente, abrimos núcleos nos Bairros Popular e Rangel, nos quais oferecemos quatro tabuleiros a cada um. Graças a esse gesto, o movimento escaquístico está a crescer nessas zonas, sem muito apoio.

A vossa real intenção é direccionar o xadrez nas escolas?
Sim. O xadrez ajuda qualquer praticante nas actividades sociais quer nas escolas quer noutras. Os objectivos a alcançar residem no comportamento do indivíduo, pois, os métodos, meios e princípios não serão os mesmos. Há objectivos específicos, em particular, que se manifestam a posterior. O desporto tem uma grande importância para a sociedade, por isso, vamos reflectir sobre o desporto infanto-juvenil de formação, propositadamente. É de lembrar que a escola visa ainda ensinar, desenvolver e consolidar um conjunto de objectivos operacionais de carácter mais específico, sendo estes desenvolvidos no absoluto respeito aos princípios gerais e específicos do jogo.

No plano da formação de atletas para o xadrez, quais os principais objectivos?
Os nossos objectivos estão bem definidos: passa pela formação desportiva, criação de talentos dentro dos núcleos municipais e depois vão integrar-se dentro das nossas actividades. No âmbito da formação desportiva, é um pressuposto desse projecto, contribuir para a formação dos jovens em todas as suas vertentes, desenvolvendo ainda o gosto e o hábito pela prática desportiva regular, criando assim hábitos de vida saudáveis.

Fale-nos do vosso trabalho com as crianças?
Aprender a saber estar, fazer e viver o jogo nas suas diversas manifestações; são as bases fundamentais do desenvolvimento da criança e um contributo relevante para o seu processo de socialização. Os conteúdos e processos de ensino, que vamos adoptar, vão considerar as particularidades e as etapas próprias de cada idade, isto é, tal como não se conhece até hoje nenhum bebé que, passadas escassas semanas após o nascimento, seja capaz de andar e correr sozinho. A formação de um praticante desportivo também tem um tempo de duração apropriado.

Como se vai fazer a formação?
Nesse projecto, a formação dos nossos praticantes não se vai fazer por etapas. Queremos começar cedo, mas bem. Começando cedo na vida da criança e acabando tarde numa fase avançada da vida, com objectivos adequados, claros e distintos para cada fase do processo de aprendizagem, faz com que tenhamos um sistema de preparação desportiva coerente com objectivos de formação e educação a longo prazo.