Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Tcnico do Petro aborda modalidade

Silva Cacuti - 13 de Agosto, 2018

Petrolferas da capital mostraram classe no desafio da final disputada no Pavilho Principal da Cidadela Desportiva

Fotografia: Santos Pedro | Edio Novembro

Ex-militar, professor licenciado em língua portuguesa e jornalista, Vivaldo Eduardo, 52 anos, cruzou com o andebol, quando ia à procura do basquetebol. A sua relação com a modalidade hoje, seria descrita pelos romancistas, como fruto de \"amor à primeira vista\". O treinador, recentemente consagrado campeão nacional, divide os louros da conquista, com os seus colaboradores e fala ao JD do seu lado oculto, o de atleta. Vivaldo, treinador da equipa sénior feminina de andebol do Petro de Luanda, abre-se ainda para análises ao momento actual da modalidade, considera existir um movimento contra a competitividade interna e revela a estima por Morten Soubak, como um de seus precursores.

Jornal dos Despotos- Foi algo enigmático nas declarações, após à conquista do campeonato nacional. Retive o que disse \"se quiserem vencer tudo, têm que contar connosco\". Que mensagem quis passar, pode desfazer o enigma?

Vivaldo Eduardo - \"Eu sou um dos treinadores que tem trabalhado mais, para nós melhorarmos o nosso sistema interno de competição. Defendo isso, porque retive que, em todos os grandes momentos internacionais do andebol de Angola no feminino, houve, a anteceder grandes momentos internos. Ou seja, quando ganhamos o primeiro campeonato africano de clubes, houve uma grande rivalidade desportiva entre o Ferrovia e o Petro. Em 1987, os campeonatos nacionais eram disputados ao detalhe.  Em 2007, quando conquistamos a nossa melhor classificação mundial, em França, havia um despique muito grande entre o ASA e o Petro. Em 2011, quando saímos em oitavo no mundial o 1º de Agosto tinha sido campeão nacional, havia também despique com o Petro.

 E...?
V.E- \"Então, eu entendo que a competitividade entre as equipas aqui é que traz as pessoas ao campo. Agora a cidadela encheu, porque os adeptos do Petro acreditaram, a partir do momento em que ganhamos no Cairo, voltaram aos campos. Sinto que há um movimento contrário a esse equilíbrio, nas competições nacionais. Quando um mesmo clube tem um outro clube satélite a participar, a culpa não é inteiramente deste clube, mas o sistema desportivo nacional tem que parar isso, desde que só um clube é que consiga isso. Agora na final masculina houve público, porque sabia-se que a seguir haveria um grande jogo feminino. Ninguém tinha dúvida de que o 1º de Agosto fosse ganhar a Marinha, apesar de eu entender que ia no campo bater-se ela por ela. O meu desabafo foi no sentido de que precisamos de manter esta competitividade, entre os grandes emblemas deste país. Porque uma coisa é jogar 1º de Agosto-Interclube ou Banca e outra diferente é jogar 1º de Agosto - Marinha ou 1º de Agosto-Exército. Há três anos houve uma final feminina entre 1º de Agosto e Marinha, foi uma final simbólica, até porque nós, que vivemos o andebol no dia-a-dia, sabíamos que a Marinha estava proibida de ganhar o 1º de Agosto. Porque várias vezes já presenciamos, num intervalo, o treinador do 1º de Agosto a orientar a equipa da Marinha.
Ainda por cima, num ciclo olímpico completo, o 1º de Agosto vai representar Angola no mundial de cadetes. Entendo que estamos a criar condições, para haver um domínio do 1º de Agosto nas competições femininas e um domínio, atenção, não meritório.

Domínio não meritório porquê?
V.E - \"Porque o mérito desportivo é obtido, quando você concorre com outro em condições iguais. Neste momento, estamos a concorrer com o 1º de em condições desiguais, porque a nossa equipa foi desfeita e ainda, do ano passado para este, foi-nos retirada uma atleta, que nos tornava muito mais competitivos e não está a jogar. E é uma atleta de selecção nacional. É preciso que as pessoas reflictam isso, porque o dinheiro que é usado para convencer as atletas a saírem de um clube, para ficarem sem jogar, salvo qualquer engano de minha parte, pertence ao erário, não é dinheiro do bolso de alguém, porque a actividade desportiva, no nosso país, é sustentada pelo Estado, até onde eu sei.
Se realmente alguém está a tirar do seu bolso, para fazer isso, retiro o que estou a dizer. Mas a verdade é essa: temos duas ou três colectividades a representarem o mesmo clube, temos um clube a jogar campeonatos do mundo, temos atletas de outros clubes com nível para lá estar que não estão, temos um Petro que, até no início deste ano, era tri-campeão nacional no escalão júnior, é o clube com mais títulos neste escalão, com 12, ninguém tem sequer 10, e está a ser ofuscado a nível de afirmação internacional das suas jogadoras, porque só vai o clube 1º de Agosto.

Reconhecimento 
Soubak entre as maiores influências

Falou do Beto Ferreira, do Kulau, algum deles lhe influencia no momento do trabalho. Tem alguma fonte de inspiração, algum ídolo no campo do treinamento?
 \"Tenho vários. O Beto Ferreira, no geral, pelo seu estilo de liderança, era um treinador que nos ensinou a exigir sempre o máximo das atletas, obrigava-as a estar sempre no seu máximo e algumas não compreendiam porque o Petro já era superior às outras equipas. O Kulau fazia isso por um outro caminho, o seu estilo era mais afectivo e isso marcou-me  muito porque permite que tenhamos uma interacção muito grande com as atletas e só desta maneira é que podemos estabelecer alguma longevidade no próprio processo de liderança, porque se somos quase sempre muito duros, a dado momento a nossa liderança vai quebrar. Entre outros, como o Alves, meu primeiro treinador, o Puna Nzau...
 
 Internacionalmente...

 \"A nível internacional, o treinador Morten Soubak é das pessoas que também me influenciou muito, em 2011 , no Brasil, ele e o Jorge Duenas chamaram-me, quando ganhamos a Coreia e disseram que lhes explicasse como é que Angola ganhou a Coreia e a partir daí estabelecemos relações de amizade, já fizemos estágios em que fiz contactos com o Morten, arranjou-nos jogos, bons jogos de preparação, antes de irmos à taça dos campeões. Também frequentei algumas acções de formação que ele orientou . Com o Duenas aprendi, sobretudo a orientar seleções nacionais, tendo em conta o pouco tempo que as selecções têm para treinar, nos ensinou a direcionar o treino, com pouco tempo, pouco volume, para os objetivos concretos em termos tácticos. De liderança aprendi muito com a norueguesa Marit Breivik em uma prelecção que fez em Portugal em que falava de liderança de equipas de alto rendimento\".


Humildade
“Não fui um jogador de alto nível”

Vai ser sempre lembrado como um grande treinador de andebol, ganhador, mas sabe-se muito pouco de ti, antes do treinador que há em ti. Que percurso fez até chegar a treinador?
 \"Este processo começou por via de um conselho de uma professora de Educação Física, no Ngola Canine, professora Alice, que jogava basquetebol no Petro Atlético, no ano de 1978. Não tive muita habilidade para jogar futebol e como para mim a Educação Física não bastava, queria algo mais, ela sugeriu que fosse jogar basquetebol no CDUA. Lá encontrei o professor Monteiro, que era activista e monitor de andebol, mas o professor Ângelo, que trabalhava com o basquetebol, não estava, ele disse-me que jogasse andebol, enquanto aguardava o professor do basquetebol. Foi assim que comecei no CDUA a praticar e nunca mais me lembrei de ir para o basquetebol. Fiquei porque gostei do andebol\"
 Qual foi a tua primeira experiência no andebol?
 \"Comecei como guarda-redes, depois, talvez pelo defeito do signo, por ser muito crítico, nunca estava satisfeito com o que os da frente faziam e falava muito, passei a vir à frente e, a dado momento, quando dei por mim já estava a jogar à frente\".

 Foi um bom jogador?
 \"Não fui um jogador de alto nível, embora tenha, numa determinada fase, feito algumas coisas boas , para algumas pessoas. Depois do CDUA fomos para a BCR, depois uma curta passagem pelo Petro, joguei no Dínamos e tive ainda passagem pelo Sporting\".

E como começa a carreira de treinador?
\"Foi ainda a jogar pela BCR que, por via do Silvério Neto, meu treinador, que era militar e para cumprir as suas obrigações teve de se ausentar por pouco tempo, olhou para nós e escolheu-me para orientar a equipa nesta ausência. Isto foi em 1985. Ganhei o gosto, a partir daí nunca mais parei. Quando voltou, colocou-me a orientar os juvenis e nunca mais parei\".

Depois disso veio o alto rendimento?
\"Ouve ainda um longo percurso. Nesta época percebi que não sabia nada, fui para o INEF e comecei a fazer muitas formações, porque percebi que tinha muito que aprender. Trabalhei pouco tempo na BCR, depois fui para a FTU, para o Sporting, para o Académico de Funchal, Portugal, onde era adjunto da equipa sénior e treinador de juvenis feminino. Quando regresso de Portugal, vim para o ASA, onde não cheguei a orientar nenhum treino. Depois o professor Beto Ferreira veio convidar-me para ingressar no Petro. Em 1994\".

Porquê não chegou a orientar nenhum treino no ASA?
\"Porque a pessoa que me contratou, estava mais interessado em que eu ficasse a coordenar, não me queria tanto no treinamento. Eu tinha acabado de fazer várias formações em Portugal e Espanha, entendi que tinha muita coisa para o treinamento, por isso, quando fui contactado pelo professor Beto Ferreira, não hesitei, preferi o treinamento do que o dirigismo, porque no ASA teria mais funções administrativas. Aceitei e dois ou três dias depois, declinei\".


Alerta
“O andebol nacional merece mais”


Isto é preocupante!
 \"Acredito que este é um assunto de todo o país e que o andebol conquistou o direito de ir aos campeonatos do mundo com as selecções. Me custa aceitar, que o Estado Angolano ou quem de direito, não dá dinheiro para as cadetes irem às competições internacionais com uma selecção nacional. Isto foge à minha compreensão. Não estou a culpar ninguém, mas entendo que o andebol merece mais.  Merece que as selecções nacionais de cadetes e juniores não tenham dificuldades na sua preparação, não tenham problemas de dinheiro, porque é por este meio que estamos a manter a nossa hegemonia africana e estamos a procurar outros patamares a nível mundial. Não é justo e acredito que a própria IHF não sabe disso, não é justo.

O Petro recebeu algum convite, para que alguma das suas atletas integrassem estas selecções representadas pelo 1º de Agosto, ou sabe de algum convite endereçado a outra equipa?

 \"Não. Não recebemos nenhum convite. Sei que, há algum tempo, houve também um convite para o Petro assumir a participação numa competição e a direcção do clube declinou, porque o orçamento que tinha não contemplava este tipo de prova\".

 Sei que está ligado ao Conselho Técnico da Federação Angolana de Andebol. Temos alguma estratégia de desenvolvimento do nosso andebol, ele tem rumo ou vive à sombra dos acontecimentos, que algumas vezes nos são favoráveis e outras nem tanto...

\"No papel a estratégia existe, nós sentamos, temos muitas ideias, discutimos e  temos tido o privilégio de ter aqui muitos treinadores, que vêm de outras realidades e conseguimos apresentar à federação muitas ideias, boas, mas a sua exequibilidade é o nosso maior problema. Porque muitas vezes temos que diferenciar aquilo que é o ideal e aquilo que é possível e aí é que surgem os problemas\".


 Meta
“Trabalhamos para o mesmo objectivo”


Naturalmente, gosta do que faz, e quando é assim, muitas vezes as dificuldades são minoradas. A questão é, já teve alguma vez que se reinventar, ou seja, é difícil ser treinador de andebol?
\"Não é difícil. Acho que gostar é pouco, temos que ser fanáticos da actividade que realizamos. Eu apaixonei-me pelo andebol em 1978 e até hoje gosto muito,  muitas vezes eu digo, na brincadeira, que estou de férias, porque faço aquilo que gosto. A minha profissão é algo que gosto e não sinto tanto o peso, porque é algo que fazemos com muita paixão. A necessidade de se reinventar, sentimos sempre. Imagina que, quando a Bá foi levada ao Petro para treinar, devia ter 10 anos, agora tem 30. Para o treino ser motivador, no caso destas atletas que estão connosco há mais de duas décadas, temos que nos reinventar sempre, senão caímos numa rotina, que inviabiliza até a progressão da equipa\".

Então esta longevidade não é muito aconselhável?

\"O ideal é termos mudanças.  Se tivéssemos três ou quatro equipas com a mesma dimensão, se calhar, de três ou a cada quatro anos mudávamos, porque, em termos de relações humanas, ás vezes é muito difícil continuar com os mesmos atletas por muito tempo\".

 Como assim?
\"Porque nós obrigamo-los a darem o máximo de si e, às vezes, não é possível obrigá-los de ânimo leve, temos que ser muito duros para que façam aquilo que é imperioso fazer e, não raras vezes, surgem muitas fricções\".

O que lhe faz ganhar ganhar competições. Será este rigor no treino a que se referiu, o que lhe faz diferente dos outros?
 \"Eu acredito que, nos procedimentos relativos ao treino, os treinadores têm ideias muito semelhantes e garanto isso, porque trabalho com dois treinadores que, aqui no nosso mercado, podemos considerá-los de topo, O Edgar Neto tem credenciais firmadas no trabalho que fez na Banca, o Luís Chaves já foi vice-campeão africano de clubes, pelo Interclube, também já foi vencedor da Taça de Angola, como meu treinador.  São técnicos de alto nível e este é um dos aspectos que torna o Petro forte\".
 
 É difícil estar à cabeça de uma equipa de técnicos com tal nível?
\" Somos três treinadores com nível equiparado, mas não nos guerreamos, trabalhamos todos para o mesmo objectivo\".

 Há outros aspectos...

 \"Outro aspecto importantíssimo, que temos que reconhecer e que nos faz vencer muitas vezes é a mística do próprio Petro. Eu encontrei o professor Beto Ferreira, no Petro, com um grau de exigência muito alto, era um grande treinador e deixou-nos o seu legado. Trabalhei também muitos anos com o Armando Gomes Kulau, que também tinha um estilo de liderança diferente, se calhar mais humanista, e então acredito que deu para absorver o melhor de cada um deles e nos reinventar com o \"know how\" que o Luis Chaves, o Edgar Neto e outros treinadores que, temos lá, têm estado a trazer. A própria direcção do Petro, olha o andebol feminino como uma marca e creio que a junção de todos estes factores é que tem trazido os nossos êxitos\".

 Não é uma exagerada atitude distributiva em relação aos louros?
 \"Recuso-me a assumir que é o Vivaldo que está a fazer. Não. O Vivaldo tem um papel importante, naturalmente, mas estamos a dar seqüência a um projecto, vocês lembram-se de que este é o 24- título do Petro de Luanda, portanto, já temos um passado e isto tudo conta na hora de procurarmos os melhores caminhos para chegar à vitória\".

Depois de recuperar os títulos da Taça das Taças e o Campeonato Nacional, o Petro aponta-se à Taça dos Clubes Campeões. Têm alguma garantia de poder vir a reforçar o plantel ou espera fazer o mesmo caminho de construção de equipa, numa altura em que aventa-se a hipótese de saídas da Magda e da Azenaide Carlos?
\"Das saídas destas atletas só posso dizer, que elas estão sob contrato da equipa, desconheço detalhes do assunto. A nossa meta, dentro do balneário, é recuperar todos os títulos e temos que estabelecer prioridades. Por exemplo, a Taça das Taças custou-nos duas lesões em duas unidades muito importantes, a Suzete e a Ríssia. Não foi possível, por isso, recuperar o título do provincial, mas queremos recuperar todos os títulos. Não queremos voltar a construir a equipa. Se perdermos atletas, podemos equacionar reforços para manter os níveis\".