Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Técnico do Libolo critica longo defeso do Girabola

Paulo Caculo - 15 de Dezembro, 2013

Técnico do Libolo aconselha a FAF a contratar já um treinador para os Palancas Negras tendo em conta os próximos compromissos

Fotografia: Jornal dos Desportos

O técnico do Recreativo do Libolo, afirmou em entrevista ao Jornal dos Desportos, que a Federação Angolana de Futebol deve estudar formas de reduzir o tempo de defeso, que se regista no Girabola, no espaço entre o encerramento de uma época e o inicio de outra.

Miller Gomes considera demasiado extenso, os dois meses de paragem que se regista no campeonato nacional, que é prejudicial para as equipas, sobretudo para aquelas, que estão envolvidas nas competições africanas. No exclusivo ao JD, disse, que o seu Libolo está bem de saúde, como estão de férias, prefere abordar as questões da sua equipa no momento certo.

O responsável técnico da formação de Calulo fez questão de dizer, que não concorda com o longo período de interregno do Girabola , considera,  que o defeso representa uma perda  grande da capacidade  do jogador, mesmo para as  equipas,  que no final da competição fazem o período transitório, mas depois enfrentam um período de espera muito longo.

“Não concordo de maneira nenhuma. É uma situação, que não faz bem ao Libolo, ao 1º de Agosto, Petro, e a todas as equipas do campeonato nacional angolano. Esta paragem compromete o próprio início de temporada, em que os jogadores vêm de um estado de forma péssimo”, sublinhou.

Miller Gomes, mostrou-se também preocupado, com o atraso na preparação das equipas angolanas, qualificadas para as provas da CAF do próximo ano, o que não é salutar para os objectivos pretendidos, pois precisam de tempo para o entrosamento das equipas.

“Complica ainda mais, porque as equipas classificadas para as competições africanas precisam de estar em pleno para as eliminatórias, e evitar que depois surjam as reclamações dos treinadores. Esta situação não tem a ver apenas, pelo facto de não haver competição inicial, antes das competições africanas, mas principalmente pelo facto dos jogadores chegarem de uma forma muito baixa, e a pré-temporada servir apenas para dar bases a estes jogadores”, referiu.

O técnico do Libolo, sublinha, por outro lado, que os treinos de pré-época não são suficientes, para dotar os jogadores dos níveis desejados para a alta competição, e garante que “só ajudam a consolidar as bases, que não chegam, porque depois faltam os ritmos competitivos”, alertou.

Acrescentou, que é “muito complicado” um futebolista estar em grande nível com apenas quinze ou vinte dias de preparação, quando vem de dois a três meses de férias prolongadas.

“Não é possível, neste curto espaço de tempo, preparar ao mesmo tempo a equipa para a alta competição e dar ritmo competitivo aos jogadores. Depois começamos a ver as coisas apertadas no campeonato e a participação nas competições africanas beliscada”, admitiu. 


CONSTATAÇÃO

“Os atletas gozam
muitos dias de férias”


Miller Gomes confessa preocupação, com o longo tempo de paragem do Girabola, não é uma questão, que deve ser vista apenas do facto do nosso campeonato estar ou não ajustado às competições africanas, mas por necessidade de encontrarmos mecanismos de adaptação do que é a nossa realidade.

“Se tivermos em conta, que o nosso campeonato tem 16 equipas, e nós competimos até finais de Outubro, porque em Novembro temos apenas dois jogos relativos à Taça de Angola e depois termina a época, temos de encontrar i um meio-termo,  para proporcionarmos aos nossos atletas e equipas, as melhores soluções, porque, como sabe, as equipas pagam os jogadores neste período de férias e os atletas não estão ao serviço dos clubes e, naturalmente, é uma situação,  que deve ser revista, na minha opinião”, esclareceu.

 O técnico do Libolo sugere, por isso, uma concertação entre a FAF e todas as equipas envolvidas no campeonato, com objectivo de se encontrar um prisma diferente para o futebol nacional, para que ao seu tempo possamos encurtar distâncias, em relação aos demais países africanos e consequentemente, nos afirmarmos internacionalmente.

“Tendo em atenção o que são as competições africanas, a questão não está em começarmos em Janeiro ou Fevereiro, mas o problema está no facto do campeonato parar muito tempo, e os jogadores ficarem dois meses de férias”, desabafou. “Se o Girabola termina em Outubro, o período de defeso é o mês de Novembro, então em Dezembro as equipas deviam começar a preparação para rapidamente começar o campeonato. Se o campeonato termina em Dezembro, em Janeiro é o período de repouso, porque um mês no meu ponto de vista é suficiente”, acrescentou. 


CARREIRA
“Os jogadores são os mais prejudicados”


O treinador garante, que no actual modelo de programação da FAF, os futebolistas são os mais prejudicados, porque ficam muito tempo sem treinar, o que é prejudicial para um atleta de alta competição.
 
Miller Gomes considera, que a partir do momento em que o corpo começa a ser moldado e talhado para determinados ritmos, quando surge uma paragem prolongada de actividade física, pode criar embaraços ao próprio atleta, porque depois no reinício, há sempre uma tendência de acelerar processos e ultrapassar etapas.

“Normalmente quando começamos uma pré-época, aceleramos as cargas para que o jogador ganhe forma desportiva, e isso também não faz bem, por isso é que temos dificuldades em ter jogadores a competir ao mais alto nível, dada as constantes oscilações e o prolongado tempo de defeso”, sustenta.
 
O técnico do Libolo lembra o exemplo europeu para justificar como os jogadores em cenários contrários ao da realidade angolana, mantêm quase sempre o mesmo nível, “porque está tudo muito bem moldado, as paragens são curtas, e o estado de forma continua em alta, porque o trabalho é permanente e constante”.  Assegura, que no dia em que Messi e Cristiano Ronaldo pararem dois meses sem treinar, muito dificilmente são os mesmos jogadores, no período após o defeso.

“Temos acompanhado este fenómeno quando Messi e Ronaldo estão lesionados, e que os força a pararem por muito tempo. Notamos, que quando recomeçam, têm um processo de readaptação e esforço, e nós temos todos os anos, estas quebras com os jogadores e depois temos dificuldades em ter os atletas para as selecções.  Em meu entender, temos de encontrar aqui um ponto comum, para que este hiato do defeso, seja cada vez mais curto possível para o bem do nosso futebol”, preveniu. 


GIRABOLA
Miller Gomes reprova
as paragens contantes


Apesar de estar contra a programação da federação, garante, que a sua equipa tem de continuar a adaptar-se à realidade do futebol nacional, embora contrariado, porque não vê alternativas, enquanto a federação mantiver o mesmo figurino. Adverte, no entanto, que estas paragens podem comprometer seriamente os objectivos das equipas no Girabola.

“Infelizmente, não podemos manter a equipa a treinar sem competição. Temos de nos adaptar também a isso e pararmos. Mas, é bom, que as pessoas saibam, que isso afecta tanto o Libolo como as outras equipas do nosso campeonato. Enquanto agentes desportivos, temos de encontrar caminhos e mecanismos, para ajudar a inverter este cenário”, aconselha o treinador.

Miller Gomes acredita, que o nosso futebol hoje está muito bem servido de estudiosos, ‘experts’ e pessoas formadas nessa área de gestão desportiva e  marketing, que podem contribuir para encontrar as melhores soluções. Assegura ainda o técnico do Libolo, que o nosso panorama desportivo “já é recheado de dirigentes, técnicos com conhecimentos profundos da nossa realidade”, que podem discutir de forma coerente as melhores estruturas para o nosso futebol.

“As longas paragens podem comprometer os objectivos das nossas equipas. Hoje, estou um pouco mais abalizado, mais experimentado nestas lides enquanto treinador, compreendo melhor o fenómeno. Hoje falo com propriedade, que este longo defeso compromete de certa maneira os planos das equipas, porque somos humanos e o jogador de futebol tem especificidades e particularidades, que o difere do cidadão comum”, alertou. 


"Já devia haver seleccionador"

Treinador preocupado com a indefinição
na escolha do próximo técnico da Selecção


Miller Gomes acredita, que a questão do futuro seleccionador para os Palancas Negras, já devia estar arrumada. O treinador do Libolo justifica ser um assunto, que preocupa toda a sociedade e o futebol, em particular, por isso pede aos dirigentes da FAF, maior celeridade no processo.

“Penso, que qualquer de nós está apreensivo, embora compreendamos a posição da Federação, quanto a escolha do treinador, porque não é uma questão fácil”, admite o também ex-seleccionador nacional feminino e de sub-20, que considera haver perfis e questões muito profundas, que devem ser analisadas para a escolha do treinador, para não voltar a falhar.

“Entendemos, que tudo deve ser muito bem feito, para não comprometer os anseios da Federação e dos agentes desportivos, porque gostamos de ver a nossa selecção a praticar um bom futebol e alcançar os melhores resultados possíveis”, destacou.

“A pressão é muito alta, compreendemos, mas, por outro lado, também temos de encontrar respostas à altura para isso”, assegurou Miller Gomes, que chama a atenção para a eventualidade da FAF deixar escapar, na fase de reabertura do mercado de transferência, algum treinador com o perfil desejado.

“Acho, que a Federação tarda em escolher o treinador, e no meu ponto de vista,  penso que esta questão do seleccionador, já devia estar arrumada, até porque se a FAF não tomar uma decisão a tempo, também do ponto de vista de mercado      nacional vai ficar a perder, porque os melhores treinadores em Angola estão nos clubes e fica comprometida a escolha do seleccionador, caso seja pretensão da FAF contratar um técnico nacional”, afirmou.

“Mesmo em relação aos treinadores expatriados - prossegue Miller Gomes -  os que evoluem no nosso campeonato, também começam a assinar compromissos com clubes”. Acredita que qualquer deles, que esteja a trabalhar em Angola neste momento, está em melhores condições de ser o seleccionador, “pelo facto de dominar o nosso dossier e conhecer as nossas particularidades”, sublinhou.

“O treinador quando vem para treinar a selecção nacional, não pode ser novo de todo, que vai contar sempre com uma estrutura de apoio de técnicos nacionais, mas deve ser alguém com algum domínio do futebol angolano, porque nós enquanto nação, temos as nossas particularidades, e há aspectos culturais, que acabam por ter sempre a sua influência nas questões desportivas”, justificou.


SOLUÇÃO

Pode ser a solução
Comissão Técnica

A criação de uma Comissão Técnica Nacional, integrada por treinadores nacionais e estrangeiros a evoluírem em Angola, podia ser na óptica de Miller Gomes, uma solução imediata para a FAF quebrar a letargia, que se verifica a nível da principal selecção do país, enquanto procura pelo novo seleccionador nacional.

“Penso, que estamos a perder um bom momento de reflexão para o que deve ser, em meu entender, uma Comissão Técnica Nacional. E isso não quer dizer, que não pode estar presente um treinador estrangeiro, porque quando digo uma Comissão Técnica, estou  a falar de um órgão, que vai cuidar dos interesses do futebol nacional.

“Estes treinadores já conhecem as especificidades dos nossos jogadores, acho, que estavam em melhores condições de gizar um programa adaptado à nossa realidade. Conhecem os jogadores que evoluem no Girabola, e os que evoluem lá fora. Acredito que iam partilhar a informação e a comunicação fluía, por relacionarem-se entre si”, admitiu.

O treinador não tem dúvidas que era uma “solução viável”, a criação desta Comissão Técnica Nacional, com quatro a cinco treinadores, em que havia a figura do líder, enquanto outros deviam ser separados entre as selecções de sub-20, sub-23 e Sub-17.


SUBSTITUTO DE FERRÍN

“O próximo técnico deve ter
conhecimento e competência”


Miller Gomes é indiferente à nacionalidade do próximo seleccionador a ser contratado pela FAF. O treinador defende, que o substituto de Gustavo Ferrín deve ser um profissional competente e com conhecimentos do futebol angolano ou africano.

“Penso, que de forma concertada, também podemos encontrar formas semelhantes ao do andebol e do basquetebol, modalidades cujos níveis competitivos são altos no continente. O futebol devia em meu entender, experimentar o que é feito nessas modalidades, onde houve momentos, em que os treinadores das selecções eram também técnicos nos clubes, mas nunca comprometemos os objectivos”, constatou o treinador, que sugere um encontro de toda a família do futebol, onde se possam discutir os problemas e apontar as soluções.

“Penso, que podíamos potenciar os treinadores e a selecção, e num período de transição encontrarmos as melhores soluções para a selecção nacional.

Esta era uma acção de continuidade, e como não estamos qualificados para o Mundial, CAN e CHAN, esta Comissão Técnica Nacional  podia fazer um trabalho de base e depois tomar as decisões que achassem pertinentes”, disse.

“Aqueles que durante um ou dois anos quisessem abraçar a selecção, ficavam, e outros que optassem pelos clubes, podiam fazer opção, mas pelo menos a base ficava montada e a estrutura também. A federação tinha estes anos para reformular tudo, para depois tomar decisões, enquanto encetava com calma contactos para encontrar o substituto de Gustavo Ferrín”, acrescentou Miller Gomes, que disse não ter preferências em relação ao futuro técnico dos Palancas.
“Para mim é indiferente. Que seja um angolano ou estrangeiro, desde que tenha conhecimento e competência para ocupar este lugar.  Tenho dito que o futebol fala todas as línguas, portanto não há razões para questionarmos a nacionalidade do futuro seleccionador”, asseverou o treinador do Libolo.
No seu ponto de vista “a selecção nacional deve ser orientada por um treinador com perfil, com conhecimento de algumas questões, que fazem parte do nosso dia a dia, e principalmente dos nossos jogadores, de formas a perceber a nossa realidade e as reais condições para dar a resposta certa”, pontualizou.