Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Temos que apostar na formação

Agusto Fernandes e João Francisco - 28 de Agosto, 2012

Tó Zé o senhor dono das balizas no outro tempo quando a par da selecção nacional envergou camisolas de outras agremiações

Fotografia: Augusto Fernandes

António José de Sousa, mais conhecido nas lides futebolísticas como Tó-Zé, foi um guarda-redes de grande categoria que brilhou no Petro de Luanda e Palancas Negras, na década de 1980, ao lado de jogadores como Jesus, Lufemba, Makueria, Panzo, Laika, Lito, Meco, Antoninho, Abel, Avelino e tantos outros pertencentes à geração de atletas que transformou o clube do “eixo viário” no grande colosso que é hoje no futebol angolano, e que teve como mentor o técnico brasileiro António Clemente. Em Portugal, jogou pelo Varzim, Famalicão e Naval 1º de Maio.

Quando começou a jogar futebol de bairro, com 11 anos de idade, Tó Zé gostava de alinhar como médio trinco. Por ser ligeiramente mais velho que os demais, em alguns jogos era obrigado a jogar a baliza ou, caso contrário, tinha de ficar de fora.  Assim, o homem foi-se adaptando à posição que mais tarde o levaria à ribalta. No bairro popular, onde cresceu, jogou com o Mané, Isidro, Paulão e Vieira Dias II. Em 1979, confiante no seu talento, tentou a sorte no Petro de Luanda, na TAAG e no Futebol Clube de Luanda onde foi-lhe rejeitada a entrada.

“Em certa ocasião, o Petro teve carência de guarda redes. Como o professor Carlos Queirós já me conhecia contactou-me, mas o assunto foi tratado com a minha mãe porque eu era muito jovem e vim para o Petro com 15-16 anos”, recorda. Quando chegou aos juniores do Petro de Luanda, embora ainda tivesse idade de Juvenil, entre outros jogadores, encontrou o Pepé, Saavedra, Ralph, Avelino, e o Isac. No mesmo ano, sagrou-se vice campeão nacional em júniores. No ano em que iria completar 17 anos foi coptado para os seniores, onde Panzo era o dono e senhor da Baliza.

“Clemente levou-me ao Estágio do Brasil pelo Petro”
Tó Zé lembra o convite para um estágio no Brasil que não se consumou. “O professor Clemente prometeu levar-me para o Brasil no estágio, e isso encheu-me de orgulho. Para um rapaz da minha idade, naquela altura, ir ao Brasil era uma grande alegria, mas, para o meu espanto, na hora da verdade não fui incluído na lista dos que iriam. Fiquei tão desapontado que abandonei o clube e fui para o 1ºde Agosto onde fiz alguns jogos nos juniores, e só não fiquei porque o Petro não facilitou. Mais tarde, o próprio professor Clemente pediu-me e regressei ao Petro.”

Nos séniores, em 1980 encontrou o Jesus, Meco, Panzo, Franco, Macueria, Chico Afonso, Lufemba, Nandinho. A sua primeira actuação, no Girabola, foi em 1981 em Benguela frente ao grande 1º de Maio, de Kiala, Zandú, Fusso, Sarmento, Maluka, Daniel, Fidele outros rendendo o Panzo, isto na segunda volta. “Felizmente fiz um grande jogo e mereci a confiança do treinador. Dai em diante fiz um percurso de cerca de sete épocas defendendo as redes do Petro. Ganhei quatro campeonatos nacionais em 1982, 84, 86, e 1987. Com o tempo foram surgindo novos jogadores como o Nejó, Abel, Bodú, Rasgado, Wilson e tantos outros. Foi um grande prazer fazer parte da geração que acabou com o reinado do grande 1º de Agosto de Napoleão, Garcia, Lourenço, Ndunguidi, Amândio, Alves, Zeca”, gaba-se.

Primeiras Internacionalizações
A sua primeira internacionalização foi pela selecção de júniores em 1980, que iria disputar as eliminatórias para o mundial da categoria, com jogadores como o Ralph, Novato, Porto, Nelson, Dindinho, Abel, Saavedra, Barbosa e outros, mas não foi além da primeira eliminatória pois pela frente tiveram os Camarões pela frente com jogadores como Songó, os manos Kanan e Omam Biyik, Patrick Mboma e outros grandes nomes do futebol jovem camaronês da época.

Em 1981, esteve na primeira convocatória para representar os Palancas Negras, ao lado de grandes estrelas do futebol angolano da época como Napoleão, Luís Cão, Lourenço, Garcia, Jesus, Vata, Maluka, Vicy, Sarmento, Ndunguidi, Eduardo Machado. Dos Palancas Negras, Tó Zé guardou dois jogos marcantes: O primeiro jogo contra a Argélia de Madjer, em Argel. “Havíamos empatado a zero em Luanda. Em Argel, em 1987, precisávamos apenas de um empate para irmos ao mundial de 1990, começamos o jogo a perder por uma bola a zero. Depois na segunda parte fizemos a reviravolta e passamos a frente do marcador por 2-1. O árbitro fabricou um penalty e a Argélia empatou”.

Ainda nesse jogo com a Argélia, guarda com tristeza a anulação de um golo limpo marcado por Ndunguidi, quando ninguém esperava. “O árbitro simplesmente anulou e, de seguida, validou um golo marcado pela Argélia depois da bola ter saído para ponta-pé de baliza. Nunca em toda minha vida tinha visto tamanha roubalheira”. Outro jogo que também dificilmente será apagado da memória do nosso ídolo, foi “contra a Nigéria, em Lagos, onde morreu em campo o jogador nigeriano Samuel Akuorage.

Ao lado do jogo contra a Argélia em Argel, este jogo contra a Nigéria, em minha opinião, foi dos melhores jogos que alguma vez uma selecção de Angola apresentou ao nível do continente. O Carlos Pedro falhou um penalti e eu defendi um, mas os nigerianos acabaram por marcar e mais uma vez fomos eliminados. Além disso, neste mesmo jogo as bancadas metálicas do estádio ruíram e muitas pessoas ficaram feridas e outras tantas perderam a vida”, lamentou.

MEMÓRIAS
1º de Agosto  e o 1º de Maio 
marcaram  época no Girabola


Em termos de Girabola dois grandes jogos nunca serão esquecidos da memória de Tó Zé: “O primeiro foi contra o 1º de Agosto em que ganhamos por 6-2, em plena Cidadela. Creio que ninguém do d’Agosto se esquecerá deste jogo. Aquele jogo é até hoje o principal motivo da raiva (passe o termo) que o 1º de Agosto tem do Petro”. “O segundo foi contra o 1º de Maio de Benguela, nos Coqueiros, quando vencemos por 7-6. Foi o jogo em que mais golos sofri em toda minha carreira”, lembra.

 Entretanto as suas exibições foram conhecidas além fronteiras e teve vários convites para jogar em Portugal. “Naquela altura o estado não permitia a saída de jogadores para estrangeiro. Por isso em 1988 sai “à francesa” e fui para Portugal com o objectivo de jogar no Futebol Clube do Porto onde tinha tudo feito para jogar, mas houve entraves na negociação do meu passe e não pude ficar no Porto”, revela. Depois da desilusão, por não ter podido jogar no Porto, rumou para o Moreirense, da 2ª divisão e, também aí não jogou pelos mesmos motivos.

Assim, Tó Zé teve de adquirir a nacionalidade Portuguesa para jogar em terras de Camões, começando pelo Varzim, onde jogou com o Nivaldo, Paulo Roberto, Washington e outros, por três épocas. Posteriormente, foi para o Naval 1º de Maio, por uma época. Neste clube, jogou com Maluka, Mussá e outros. A seguir, foi jogar para o Famalicão, também da 1ªDivisão, onde encontrou o Careca, Jorginho, Piguita, Vieira, Milanozevic. Aos 36 terminou a sua carreira no Visena da 2ª Divisão de Portugal.

RECEITA
“Renovação deve
começar nos clubes”

JD: Ainda se recorda dos trinadores dos clubes por onde passou?
AJS: Sim. Na selecção nacional tive o Skoric, Joca Santinho, Inguila, Ruben Garcia e Jesualdo Ferreira. No Petro de Luanda, tive o Carlos Queirós,
António Clemente, Carlos Silva e Smica. No Varzim, era o professor Calisto. No Famalicão, o Abel Braga. No Naval, o professor Oliveira e no Visena o professor Amaral.

O que tem a dizer sobre a Renovação dos Palancas Negras?

AJS: A renovação deve começar nos clubes e as substituições têm de ser feitas de forma faseada. Temos de apostar a sério nas camadas jovens, se quisermos renovar de verdade.

JD: qual é a sua opinião sobre a arbitragem angolana?

AJS: Não se fala muito bem dos árbitros, mas se realmente é verdade que há muitos jogos que são resolvidos fora do campo, então essa prática deve acabar, para bem da verdade desportiva.

JD: Qual é o seu maior sonho como homem do futebol?

AJS: É ver a selecção nacional a impor-se em África e não só.