Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Temos árbitros de valor com provas dadas

Gaud?ncio Hamelay/Lubango - 12 de Setembro, 2017

Dirigente lamenta a falta de interesse de alguns árbitros mais jovens em apredenderem

Fotografia: Arão Martins | Edições Novembro

O Girabola caminha para a fase crucial e muitos são os comentários em relação ao trabalho das equipas de arbitragem, uns positivos e outros negativos. Que avaliação faz a esse respeito?
A arbitragem não está tão mal, como as pessoas apregoam. Nós temos árbitros de valor, e a prova disso é que temos agora um árbitro internacional, o Hélder Martins, que semana sim semana não, está nos campos africanos a apitar. A integridade das leis e dos árbitros que as aplicam, têm de ser sempre protegidos e respeitados.

Quem deve defender e fazer respeitar essa integridade?
Boa pergunta. Todos os que têm autoridade, especialmente treinadores e capitães de equipas, têm a clara responsabilidade de no jogo respeitar a equipa de arbitragem e as suas decisões.

E, em Angola, este princípio não está a ser cumprido ou há má interpretação das leis?
Infelizmente, nem sempre assim acontece. Porque casos há, em que os jogadores ao praticarem um jogo violento, até o treinador insurge-se contra o árbitro. Reconhecemos, também, avanços significativos na mudança de atitude dos atletas, treinadores e dirigentes. Aliás, as leis são claras, e a sua interpretação deve ser efectiva. Gostaria de dizer também que, no mundo globalizado de que o nosso país faz parte, as mutações são contínuas. É preciso actualizarmo-nos sempre, sobre as leis que surgem no futebol, porque elas são universais.

Que comentário faz sobre as constantes reclamações de algumas equipas do campeonato nacional sobre a actuação de certos trios de arbitragem.
Só não erra quem não trabalha. Todos nós erramos e os árbitros não estão livres de erros. Acompanho algumas reclamações que surgem, mas não é assim tanto, como alguns dirigentes desportivos dizem. Como disse atrás, nós temos bons árbitros. A prova disso, a CAF  indica árbitros nossos para ajuizarem em provas organizadas pelo órgão reitor da modalidade, no continente africano.

Em função das críticas constantes, que em nada dignificam a classe, que conselho deixa às novas gerações que decidiram abraçar a carreira?
Para os árbitros, quero referir-me ao posicionamento, movimentação e trabalho de equipa, linguagem corporal, comunicação e o uso do apito, a compensação do tempo perdido, a avaliação, e o tratamento após infracção sancionada com advertência ou expulsão. Esses elementos todos precisam de constantes actualizações, daí a importância também da formação académica dos árbitros, que são apurados para entrarem na carreira de arbitragem.

“Quero passar a minha experiência”
As leis de jogos nos últimos anos estão a sofrer várias alterações, positivas para uns, e negativas para outros. Pela experiência e a convivência que tem com o futebol, que avaliação faz das mudanças efectuadas?
O futebol é o principal desporto no planeta, que une e arrasta multidões. É jogado em todos os países e a níveis diferentes. As leis do jogo são as mesmas para todo o futebol, pelo mundo fora, desde as competições da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) até o jogo disputado por crianças, numa aldeia. Quero aqui afirmar que o facto das mesmas leis se aplicarem a todos os jogos, em todas as confederações, países, cidades, municípios, comunas e aldeias por todo mundo, constituem força considerável que tem de ser considerada. 

Considera bem - vindas as alterações feitas pela Internacional Board?
Sem dúvidas. É uma oportunidade que deve ser aproveitada para o bem do futebol, em toda parte. Imaginemos um jogo sem árbitro e sem leis!...

Com estas medidas, muitos temem que o futebol perca um pouco do que é a sua essência, que o torna a modalidade -rainha...
O futebol tem de ter leis, que garantem que o jogo seja correcto, já que a base da beleza do jogo bonito, é o facto de ser justo. Trata-se de um elemento essencial do espírito do jogo. Os melhores jogos são aqueles, que o árbitro, raramente é necessário, porque os jogadores jogam com respeito de uns pelos outros, pela equipa de arbitragem e pelas leis. Logo, a interpretação das leis deve ser o pão de cada dia, não só para os instrutores, dirigentes, técnicos, mas sobretudo para os jogadores.

Notamos que continua a ser uma pessoa sempre actualizada nesta área...
Para quem me visita, encontra na minha estante livros que retratam as regras de arbitragem e de futebol.
Partilha os conhecimentos com a nova geração de arbitragem nacional?
Já convidei várias vezes a virem à minha casa, mas nunca cá vieram. O problema é deles. Como já sabem tudo, deixa estar, eu fico com o que sei para mim, embora eu queira transmitir aquilo que aprendi durante os anos de arbitragem. Estou na arbitragem desde 1964.

Que conselho tem para os jovens, que abraçaram a arbitragem?

Eu quero transmitir a minha experiência acumulada, ao longo desses anos, à nova geração. Infelizmente, nem todos os árbitros mostram interesse em partilhar conhecimentos. É uma questão que me preocupa. Notei em função das minhas consultas que há algumas alterações nas leis de jogo 2017-2018.

CARREIRA
“Como futebolista
admirei sempre o PR”

Como avalia a sua carreira como desportista?

Durante 15 anos, dediquei-me a actividade desportiva como jogador de futebol no Clube Ferroviário de Angola, Sporting Clube do Amboim, Atlético de Nova Lisboa (Huambo), Lândana Clube e Futebol Clube de Cabinda.

Tem boas lembranças do seu tempo como jogador?
Enquanto jogador de futebol do Clube Ferroviário de Angola, tive o privilégio de defrontar, por várias vezes, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que na altura ainda jovem, representava as cores do Futebol Clube de Luanda.

O Presidente da República era nessa época um atleta de referência?
O estadista, mesmo jovem na altura, demonstrava um espírito de liderança em campo. José Eduardo dos Santos desde sempre mostrou ser um homem do desporto, e por tudo que ele fez nesta vertente, consolidou o que demonstrou mesmo muito jovem. Naquela época, o presidente da República, em campo, era sempre um indivíduo disciplinado, que só se preocupava com o jogo.

O fair - play e o respeito pela diferença, sempre fez parte da sua forma de estar na vida?
"Naquela altura, o presidente já evidenciava habilidade de liderança. Sabia perder e ganhar. Perder e ganhar, para José Eduardo dos Santos tudo era a mesma coisa. Tinha também, como colegas, o Carlos Alberto “Calabeto”, Ramalhoso, Pederneira, André dos Santos, entre outros.

Quais são as outras figuras de destaque no país que defrontou como atleta?
A par do Presidente da República, joguei também com Lutero da Mota.

RECORDAÇÂO
Angola-Camarões
jogo de referência

Da excelente carreira enquanto árbitro, qual foi o jogo que mais o marcou, e de que guarda boas ou más recordações?
"Toda carreira tem um marco. Para mim, o jogo que mais me marcou na carreira foi a partida que opôs a selecção de Angola e a sua congénere dos Camarões.

Que aconteceu de tão especial, em campo?
Era um jogo muito importante para a qualificação de uma das selecções no Campeonato Africano das Nações (CAN). Nesse dia, lembro-me, a equipa de arbitragem nomeada pela CAF não chegou a Angola. E, como foi indigitado pelo Conselho Central de Árbitros para quarto árbitro, o antigo presidente da CAF, o camaronês Issa Hayatou, depois da reunião técnica com os membros presentes, decidiram indicar-me como árbitro principal. Graças a Deus, a partida correu bem, e o resultado terminou 1-1 .

Fala-se muito, nos últimos dias, de suborno na arbitragem. Já foi alvo dessa pouca vergonha que mancha a carreira e nada dignifica a classe?
Não. Nós árbitros angolanos, nunca quisemos envergonhar o nosso país, apesar da situação difícil que vivíamos. Propostas nunca faltaram.

Está satisfeito com o evoluir da arbitragem huilana?
Sim. Presentemente, temos dois árbitros e alguns assistentes no Girabola Zap, com actuações positivas.
Como é sabido, o assistente Gerson Emiliano, é outro orgulho para nós. O seu desempenho alcançou patamares aceitáveis, que ultrapassou às nossas expectativas.É um jovem humilde, dedicado, com sentido de responsabilidade. Daí, as constantes chamadas pela CAF e FIFA, nas provas internacionais e com exemplo positivo.

CARREIRA
Um percurso que orgulha a Nação

O percurso como árbitro, comissário, instrutor nacional pela Confederação Africana de Futebol (CAF) e pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), deixa orgulhosa a Nação angolana em particular, a África e o Mundo no geral, pelos feitos positivos protagonizados ao longo da carreira. Manuel Pimentel nascido aos 23 de Julho de 1938, em Luanda, ainda lúcido e com uma memória incomparável fez o curso de árbitros em 1964, percorreu as categorias de estagiário de 2ª e 1ª categoria provincial.

Recordou que em 1976, após à independência nacional, em companhia de Guilherme Mendes da Silva, Mário Gomes da Ressurreição (falecido) e Dionísio de Almeida, ministraram o primeiro curso de árbitros de onde saíram filiados como Cruz Lima, Sebastião Reis, Manuel Fernandes, que pertenceram aos quadros da FIFA.

Foi nomeado árbitro internacional em 1979, figurou 5 anos nos quadros da FIFA. Explicou que depois de 20 anos em actividade como árbitro (1964 a 1984), abandonou a carreira  enveredou para o dirigismo desportivo. Em 1986, foi nomeado comissário de jogo da Confederação Africana de Futebol, e em 1988 instrutor da CAF. Com uma trajectória invejável e cheia de sucessos, sob a égide da FIFA/Coca-Cola  frequentou em 1982 um curso de árbitros, ministrado pelo instrutor António Garrido (Portugal).

Em 2000, frequentou o primeiro curso de instrutores de arbitragem da FIFA, em Munique -Alemanha, com a participação de 47 instrutores de arbitragem de todo mundo. Ministrou vários cursos com destaque na Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné - Bissau e no país. Desempenhou a função de vice-presidente do Conselho Provincial de Árbitros de Luanda, presidente do Conselho Central de Árbitros de Angola.

Foi igualmente 3º vice -presidente da FAF, coordenador -adjunto da Comissão de Apoio Técnico da Arbitragem do Conselho Central de Árbitros de Futebol de Angola (CCAFA). Em Abril de 1994, frequentou o curso de dirigentes desportivos do Comité Olímpico Angolano (COA), ministrado pelo professor David Sequeira (Portugal), foi nomeado delegado do COA, na Huíla.

Em 2004, representou o presidente da Associação de Árbitros de Futebol de Angola, no XVVII Congresso das Entidades e dos Árbitros de Futebol do Brasil, em Caldas Novas.  Actualmente, exerce as funções de delegado regional do Comité Olímpico de Angola (Huíla, Namíbe e Cunene).
 
Prémios merecidos
Os diplomas de Voluntário no Desporto, instituído pelo Comité Olímpico Internacional, e o de Amizade e Reconhecimento pelas Acções Benéficas à Arbitragem Angolana, e Mundial pela Associação Nacional de Árbitros de Futebol do Brasil (ANAF), fazem parte das outorgas que Manuel Pimentel exibe com satisfação. Dos mais recentes reconhecimentos, consta a atribuição da Medalha de Honra e Mérito pela Pátria, José Eduardo dos Santos, concedido pelo Movimento Nacional Espontâneo (MNE).